Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 23/03/11)
Moderators: O Ministério, Equipe - Godric's Hollow
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Jaja Weasley
- Com a Pedra Filosofal

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Ah Qualé, Belzinha...
Tá se recriminando por que?
Uma senhora e super bem bolada homenagem aos livros que tanto amamos. Um petit duelo com o Morcegão e uma personagem adorável (mais uma!) - Mel.
Eu, perto de vc me sinto um amador em Fics.
Parabéns e mete bronca. Manda o 5 aí...
Tá se recriminando por que?
Uma senhora e super bem bolada homenagem aos livros que tanto amamos. Um petit duelo com o Morcegão e uma personagem adorável (mais uma!) - Mel.
Eu, perto de vc me sinto um amador em Fics.
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Fred & George - Agitação eterna!


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Belzinha
- Conhecendo A Toca

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5. Harpias.
Há situações que nós idealizamos tanto, que passar por elas pode ser excitante e aterrorizante ao mesmo tempo. Se conseguir se imaginar tendo novamente onze anos, e que está em um trem que o levará para uma lendária escola de magia e bruxaria, entenderá o que Mel estava passando no meio de tantos bruxos. E sozinha.
De fato, os corredores dos vagões do Expresso de Hogwarts são mais movimentados do que se pensa. Nos primeiros vinte ou trinta minutos de viagem, os passageiros se amontoam neles, reencontrando colegas, pondo a conversa em dia, e azarando desafetos (com provocação ou não). Era o lugar das grandes novidades, onde se sabia de primeira mão o que iria ser o assunto de Hogwarts nos próximos meses. No entanto, à medida que a viagem transcorre, a relutância em tomar um lugar em uma das cabines é vencida frente ao fato de que não é nada cômodo passar sete horas de pé.
Bem, Mel não tinha amigos com quem conversar. E tampouco queria fazer inimigos que pudessem ter a infeliz idéia de lançar uma azaração na “caloura tampinha”. Por isso, aquilo mais parecia um mar de pessoas quase intransponível, dificultando a tarefa de achar uma cabine “segura”. Tão logo se acomodasse, poderia observar o máximo de detalhes daquele incrível trem e, quem sabe, dar uma olhada em seus futuros colegas.
Tratou de esgueirar-se entre os grupinhos de alunos sem bater em ninguém. Já estava quase no final daquele vagão quando passou por uma cabine não tão cheia, ocupada por algumas meninas mais ou menos de sua idade. Resolveu entrar.
Mal tinha dado os primeiros passos para dentro, quando todas elas se levantaram, sendo lideradas por uma loirinha pálida. Passaram por Mel e deixaram a cabine sem uma palavra.
A reação rápida e brusca das garotas teve um efeito devastador nas esperanças de Mel. E enquanto fitava o grupo dando-lhe as costas, uma vozinha chata dentro dela mesma repetia sem parar que aquilo tinha sido um sinal da sua tolice em achar que poderia ser diferente em um lugar onde ninguém a conhecia, onde não havia sussurros a respeito da “chata sabichona da Mel”.
Devia estar escrito em sua testa: “Não gostem de mim”.
Parou de respirar, como se assim também as imagens de suas tentativas frustradas de fazer amigos no colégio fossem parar de vir a sua mente.
O quê fizera de errado? Quem sabe, se entendesse, poderia evitar de cometer o mesmo erro no futuro.
Mas, por mais que pensasse, não havia nada. Seria possível que alguém tivesse falado mal dela? Já? A idéia a indignou. Senso de auto-preservação era o que não lhe faltava, e decidiu tirar a história a limpo:
- Hei! Eu sei que sou caloura, mas... Isso não é nenhuma doença contagiosa! – riu simpaticamente, dando a pergunta um tom de brincadeira, mas no fundo estava nervosa, esperando que elas lhe explicassem o motivo de terem saído.
As garotas estavam quase entrando na outra cabine quando a ouviram. Voltaram-se para ela, surpresas, como se só então tivessem se dado conta dela. A loirinha, que parecia ser a “lider” delas a avaliou de cima a baixo. Finalmente, deu de ombros, como se tivesse chegado à conclusão de que ela não merecia a dádiva de uma resposta e entrou na cabine, sendo seguida pelas demais.
Novamente, Mel se perguntou: “O que há de errado comigo?”.
- Não é você que elas estão evitando... – uma voz suave, mas muito baixinha, foi ouvida de algum canto da cabine.
Procurando o dono da voz, deparou-se com uma garota quase engolida por vestes grandes demais para ela, parecendo serem de segunda mão de tão gastas. Os cabelos, lisos e negros como a noite, caíam sobre mais da metade do rosto da garota. Enfim, tudo nela dizia que queria se esconder.
- Era... Elas... Digo, você... – Mel ainda estava surpresa por não ter notado que não estava sozinha ali.
A menina não disse nada, apenas reagiu se encolhendo ainda mais, indicando que esclarecer o assunto a constrangia. Observando as roupas e objetos gastos da outra, e lembrando do ar arrogante do grupo que deixara a cabine, Mel compreendeu o que tinha acontecido.
Sentiu um alívio tomar conta de si ao descobrir que o problema das garotas não era com ela, e que ainda podia sonhar em ser aceita em Hogwarts. A desprezada era a garota, e a situação dela era pior que a sua. Por mais que os antigos colegas rissem a suas costas, jamais a tinham humilhado daquela forma tão hostil e aberta.
“Pimenta nos olhos dos outros é refresco”. A frase dita tantas vezes por sua avó surgiu em sua mente, fazendo-a ter vergonha de si mesma. Aquela garota tinha acabado de sofrer uma injustiça! Como se não ter dinheiro fosse motivo para aquela... Infâmia! Lembrou-se de Rony naquele mesmo trem, quinze anos antes. O que só aumentou o embaraço pelo egoísmo de momentos antes.
Olhou para a porta, dirigindo em pensamento xingamentos horríveis em português ao grupo de garotas. Fez uma anotação mental de colocar a loirinha azeda, com seus cachinhos enjoativamente perfeitos e tudo, em sua lista negra.
Voltando-se novamente para a garota, apresentou-se:
- Sou Mel Warmlling.
- Danna Éowin O´Brian... – a outra respondeu.
Um silêncio constrangedor se seguiu. Nenhuma das duas sabia ao certo o quê dizer ou o quê fazer.
Danna sabia que seria exatamente assim. Vira a menina voltar a cabeça em direção à cabine das outras garotas. Certamente estava pensando em um jeito de ir até lá e se desculpar com elas antes que a associassem com Danna. Devia estar agora mesmo pensando em uma maneira de sair com uma desculpa polida. Ou então, o quê, além da aparência lamentável, ela deveria ter de errado para as garotas terem saído daquela forma. “O´Brian, você disse?”, a loirinha tinha dito com desprezo. “Já ouvi falar. Além de pobres e mestiços, são uns perdedores.”
Devia ter se acostumado com isso. Todos a tratavam mais ou menos assim: com desprezo ou a ignoravam. A tal... Mel (que nome estranho!) não iria ser diferente. E agora estava “prevenida” a respeito de Danna. Mas o quê poderia ter feito? Reconheceu no olhar da garota aquele mesmo medo da rejeição que sentia. Não podia deixá-la continuar pensando que a hostilidade das garotas era com ela.
Pegou o livro que estivera lendo antes da entrada tumultuada das meninas, escondendo-se ainda mais atrás dele. Assim, ignorando-a, esperava tornar a decisão da garota de sair dali mais fácil, sem ter que se preocupar em dizer algo. Também era melhor para ela: não teria que se sacrificar fazendo uma cara de forte e fingir que aquilo não a atingira.
Um suspiro cansado e molas de um assento rangendo com a pressão feita sobre eles. Foi o que ouviu no lugar da porta da cabine abrindo e fechando.
Intrigada, espiou por cima do livro, dando com Mel sentada na sua frente, tranqüila, como se nada tivesse acontecido.
- Bem, tem um “Anhanguera” no meio do meu nome. – a menina desandou a falar. – Mas os gringos, digo, os ingleses, não conseguem pronunciar mesmo, então vai ter que ficar só Mel Warmlling. – pareceu interpretar o silêncio de Danna como um pedido de explicação, e acrescentou: - Sou brasileira.
- Irlandesa... – Danna sussurrou de forma quase inaudível.
Brasileira? Podia jurar que a garota tinha sotaque americano. O que não explicava o quê não-britânicos estavam fazendo em Hogwarts. Mas não se atreveu a perguntar nada com medo que qualquer coisa que dissesse pudesse fazê-la ir embora. Não sabia o que fazer. Nunca alguém que não fosse de sua família tinha demonstrado interesse em conversar com ela antes.
Mel havia notado que o incidente a constrangera. Compreendia isso muito bem. Uma vez, em sua antiga escola, estava caminhando com uma colega (não podia considerá-la sua amiga, apenas alguém com quem costumava fazer os trabalhos em grupo), quando ouviu alguns colegas, do outro lado do muro que separava a quadra descoberta do pátio da escola, rindo e caçoando da “chata da Mel”. Morreu de vergonha da colega, que ouvira tudo também. Correu para o banheiro feminino e chorou até o sinal de fim de recreio tocar. Nunca falou disso com a garota e reagia de forma agressiva cada vez que ela tentava tocar no assunto. Sabia que, embora ela não caçoasse às suas costas, não era sua amiga também. E, se tentava puxar o assunto era a pedido do grupo maledicente, que queria voltar a fazer os trabalhos de escola com Mel. Era sempre assim: os que não ficavam rindo dela, tinham medo de ser seus amigos e se tornarem alvo das mesmas chacotas.
Assim, Mel estava tentando falar sobre assuntos “neutros” com Danna.
Danna, irlandeses... Buscou desesperadamente vencer o constrangimento que reinava na cabine e achar um assunto que fizesse continuidade a isso e que fosse “área livre”.
- Mesmo? Puxa, achei que todos os irlandeses fossem ruivos! Como... A Danna Scully do Arquivo X... Ah, olha só, vocês têm o mesmo nome!
Danna fez uma expressão angustiada. Mel ficou pensando o que teria feito desta vez... Ah, é claro! Ela não estava entendendo! Às vezes é muito fácil esquecer que bruxos não assistem televisão.
- É uma série de TV. Coisa de trouxa. Eu sou uma. Quer dizer... Descobri agora que sou bruxa. Mas meus pais são trouxas. – e riu, divertida: - Acho que algumas pessoas me chamariam de “sangue-ruim”!
Estava comprovado. A tal da Mel era maluca. Chamar a si mesma de “sangue-ruim” e achar graça! Mas tinha gostado da garota, embora ainda não se sentisse preparada para se aproximar. Ela era tão... Segura de si! Onde estava com a cabeça quando achou que tinha visto desamparo no rosto dela quando as meninas tinham deixado a cabine? Ainda assim, gostaria que ela ficasse por ali. Pelos menos poderia imaginar que tinha uma amiga...
Sorrindo timidamente para Mel, voltou a atenção para o livro e rezou para que ela permanecesse na cabine.
“Tudo bem...”, pensou Mel. “Ela não é de falar muito”.
Apesar de mal ter visto o rosto de Danna (aquele cabelo na frente!) ou ter ouvido sua voz, já sabia várias coisas sobre ela só a observando. Ambas gostavam de ler. Ela devia ser do segundo ano (era o que dizia o livro de feitiços que ela lia), e era da Grifinória, pois tinha visto as franjas de um cachecol vermelho e amarelo pendendo da velha mala de Danna. Segurando um rosário de perguntas, resignou-se a pegar um livro e começar a ler também.
De vez em quando, olhava para aquelas franjinhas amarelo-avermelhadas e ficava pensando para qual Casa seria selecionada. Ah, será que ainda faltava muito para chegarem?
***
O comércio no mundo mágico se revitalizou após o fim da Guerra. Quando as pessoas estão preocupadas com suas vidas não se sentem inclinadas a consumir. Isso é um fato.
É claro que nem todo comércio tinha sido prejudicado. Além dos que se aproveitaram vendendo “amuletos anti-infieri” e coisas parecidas, o pessoal da Travessa do Tranco também tinha lucrado muito com a Guerra. Alguns chegaram a acumular fortuna, cuja origem “pouco confiável” ainda estava sob investigação do Ministério. Ainda que todos soubessem que o dinheiro tinha vindo de fornecimentos aos Comensais da Morte, os comerciantes daquela escusa ruela conseguiram mascarar muito bem suas transações financeiras, de forma que não se tinha provas para incriminá-los. E com a política anti-veritasserum...
Embora não se possa afirmar que nenhum dos “respeitáveis” proprietários de estabelecimentos do Beco Diagonal tivesse se envolvido em algumas destas transações, seguramente o fizeram poucas vezes e não sem o temor de serem descobertos. Havia muito a ser perdido e morriam de medo dos bruxos das trevas, o que quer dizer que nem sempre recebiam um valor justo pelo que comercializavam com eles. Mas, quando as necessidades surgem, quem pode ter certeza de conhecer o limite entre o “homem desonesto” e o “homem desesperado”?
A dificuldade em investigar os comerciantes do Beco Diagonal, ao contrário dos outros, não estava na habilidade em camuflar seus livros-caixas, mas em sua proximidade com o Ministério. Muitos deles eram amigos de infância dos chefes de Departamento e Secretarias... E, como ocorre em qualquer parte do mundo, julgar um “igual”, ainda que desconhecido, era mais difícil do que julgar alguém que já se acostumou a rotular de “escória”. Era injusto. Inconscientemente imoral. Mas a verdade é que, no final das contas, as coisas andavam mais lentas quando envolviam “gente honesta”.
Aquilo sempre revoltara Harry. Diversas vezes tinha exigido a agilização de processos, a investigação de denúncias... Mas parecia que a mentalidade dos funcionários do Ministério estava condicionada a acreditar que aquelas pessoas tinham sido mais vítimas da guerra do que seus atores. Por outro lado, o fato de nunca terem se perguntado se os comerciantes da Travessa do Tranco sofriam com as mesmas “coações”- com ou sem guerra - não parecia preocupá-los. Alguns membros do Ministério e gente influente do mundo dos negócios tinham ficado com um “pé-atrás” com Harry depois destas intervenções. Às vezes, ele ficava tão cansado daquilo tudo que pensava em se desassociar do Ministério. Mas Rony sempre o demovia da idéia, argumentando: “Se está ruim assim, imagine se não estiver por lá”.
No entanto, daquela vez não era nisso em que pensava enquanto caminhava com Rony e Ana pelas ruas do Beco Diagonal. O que tomava conta de seus pensamentos era Gina. A gravidez dela estava sendo mais tumultuada do que se poderia imaginar *. As novidades que Snape havia trazido não eram nada animadoras e estava dividindo suas preocupações com os amigos. Ou, pelo menos, dividindo os fatos, porque o que realmente estava sentindo... Isto ele guardava para si.
Mais tarde fariam relatórios para o restante da equipe. Tudo o que estava acontecendo ainda pesava sobre eles, que caminhavam silenciosos. Ana achou que o silêncio já havia durado demais, e que era hora de terem pensamentos mais alegres. Assim, perguntou, mesmo conhecendo a resposta:
- Vou almoçar com Colin e Luna. Querem vir comigo?
Eles olharam um para o outro, pensativos e franzindo o cenho. Em seguida voltaram-se para Ana, respondendo juntos:
- Não!
- Quer dizer... – Harry se apressou a explicar. – Nós gostamos muito da Luna e do Colin, você sabe...
- Mas não é “seguro” conversar com eles fora de um local “neutro”. Não para nós. – Rony completou, sem rodeios. – E a lanchonete do Pasquim é não exatamente “neutra”.
- É, Ana... Sinceramente, não estou a fim de dar outra entrevista para a Luna. E sabe que é isso que vai acontecer. Por alguma razão, por mais malucas que sejam as perguntas dela, não consigo deixar de responder.
- E o Colin deixa qualquer um zonzo. – Rony completou. – Às vezes acho que é uma estratégia deles: enquanto Colin desorienta, a Luna “solta” as perguntas... – riu.
- Se eu não soubesse que realmente são amigos deles, acharia que estavam sendo maldosos. – Ana também riu. – Tudo bem, então. A gente se vê mais tarde.
Talvez fosse melhor o Harry e o Rony conversarem sozinhos. Ana sabia que se ele não desabafasse com Rony, não o faria com mais ninguém.
Enquanto caminhava até o Pasquim, pensava na história do casal mais inusitado que se tinha notícia.
Colin havia levado a sério a paixão pela fotografia, e resolveu seguir carreira depois que deixou Hogwarts. Era pouco mais que um menino na época, não tinha experiência nenhuma e a situação econômica após a Guerra não era das melhores. O único lugar onde conseguiu um estágio foi no Pasquim.
Logo foi ganhando a confiança e o respeito das pessoas que trabalhavam lá, pois se interessava por tudo e aprendia rápido. Além disso, conseguia fotos incríveis porque, a exemplo do que já fazia na escola, não se importava onde teria que se dependurar para registrar as imagens que virariam as manchetes do dia. Colin esquecia-se de tudo o que não fosse o que via através de suas lentes, eternizando o momento.
Em poucos anos, virou um sucesso e até mesmo recebeu propostas de trabalho em outras revistas e jornais, mas recusou a todas, pois havia se afeiçoado ao Pasquim e tinha o senhor Lovegood como um pai e um mestre.
Luna, ao contrário, passava por maus bocados na redação. Ela começou a estagiar na mesma época que Colin, só que o fato de ser a filha do chefe não ajudou em sua imagem. As notícias que ela escrevia eram fantasiosas demais até para os padrões do Pasquim, e corria o boato entre os funcionários que ela só estava ali ainda porque era a “queridinha do papai”.
Eles eram o oposto um do outro. Ninguém diria que um dia fariam um casal. Ele era elétrico, impaciente, prático. Ela, observadora, calma e sonhadora a ponto de ser excêntrica. Bem... Talvez os trouxas, se os conhecessem, pudessem adivinhar que um dia isso aconteceria, porque trouxas conhecem uma lei da Física que diz que “os opostos se atraem”.
No entanto, Luna realmente tinha um bom faro para notícias. Só precisava aprender a usá-lo de forma mais objetiva. Colin percebeu isso e tentou ajudá-la, porém ela reagiu de forma irritada. Nunca fora uma pessoa rancorosa, mas a maneira com que a tratavam naqueles anos todos, mesmo sendo ela a primeira a chegar e a última a sair, e ainda por cima ver que Colin se tornara o braço direito de seu pai... Puxa, ela tinha orgulho próprio e sabia que teria que fazer as coisas sozinha se quisesse conquistar o respeito daquelas pessoas!
Então, Colin armara um plano.
Tentava chamar a atenção dela para as matérias que considerava mais “sérias”, o que queria dizer aquelas que ele considerava com mais chances de serem verídicas. Fazia isso de diferentes formas, como deixando os textos mais visíveis na mesa dela, tocando nos assuntos “casualmente”... E a estratégia dera certo. À medida que Luna concentrava sua atenção em assuntos de fontes mais seguras, seus artigos começaram a ser lidos por mais e mais pessoas. E, de repente, ao dar uma chance à moça, percebeu-se o jeito fluente e leve com que ela escrevia e as coisas surpreendentes que, a princípio, ninguém notara.
Mas Colin não podia prever que o esquema que montara para Luna iria falhar. Um dia, chegara na redação apenas a tarde, pois cobrira um evento social até de madrugada no dia anterior. Encontrou o senhor Lovegood totalmente agitado. Não tinha a menor idéia de onde a filha tinha se metido. Eles tinham discutido naquela manhã sobre uma matéria que Luna teimava em cobrir. Mesmo sem a aprovação do pai, ela pegara suas coisas e partira deixando apenas um aviso de que iria averiguar a informação. E ninguém sabia onde ela estava, pois não tinha dito tudo ao pai e levara toda a documentação relativa à matéria consigo.
Quando o senhor Lovegood terminara de relatar o que tinha ocorrido, Colin pegou sua câmera e se dirigiu para fora do escritório do patrão daquele seu jeito elétrico. Antes que saísse o senhor Lovegood perguntou, surpreso, o que ele estava fazendo, e ele respondera:
- Luna vai precisar de um fotógrafo! – e sorriu, partindo antes que lhe fizessem mais perguntas.
Ele sabia onde Luna estava. Tinha “escondido” aquela notícia sobre bruxos das trevas na Grécia. Segundo as informações que Luna tinha, eles acreditavam ter descoberto antigos pergaminhos de Herpo, o Sujo**, que ensinavam como criar minotauros. Ou seja: magia negra e, se fosse verdade - o que Colin duvidava muito, pois Herpo nunca tinha criado minotauros – se, e tão somente “se”... Era magia poderosa.
Foi uma aventura e tanto, que não cabe contar aqui. Mas... Não é que Luna tinha razão?!? Havia um plano para criar um exército de minotauros!
Bem, resumindo a história: entre um encontro tumultuado e vários perigos, Luna lhe disse que tinha descoberto a pequena manipulação que sofrera naqueles meses. Havia resolvido fazer aquela viagem justamente para provar que não precisava da “seleção” dele para fazer suas matérias. Era perfeitamente capaz de averiguar os fatos por si mesma. E, com medo de que ela nunca mais o perdoasse, Colin acabara confessando que fizera aquilo porque a amava - o que chocou o próprio Colin, que não havia notado isso até aquele momento.
Depois de tudo isso, esperar-se-ia que qualquer mulher, mesmo que apaixonada, fosse fazer o fotógrafo sofrer um pouquinho por sua ousadia em tentar manipulá-la, ainda que com boas intenções. Mas não Luna Lovegood. Luna é sábia de uma forma que nós nunca entenderemos. Ela considerou que seria ridículo perder um tempo tão precioso com “picuinhas”: disse logo que o amava também, bem daquele seu jeito direto e sonhador que deixa as pessoas sem palavras.
Não é difícil imaginar o que aconteceu depois. Eles se casaram mais tarde, e formaram a melhor dupla repórter-fotógrafo que já se viu no mundo bruxo, dando inveja até ao Profeta Diário. E, quando o pai de Luna se aposentou, os dois assumiram a direção do Pasquim.
A história tinha sido contada a Ana pela própria Luna, quando se reencontraram meses antes. E ainda estava pensando nela quando se deu conta que já estava em frente ao Pasquim.
O almoço com os Creeveys (Ana ainda achava surpreendente pensar neles assim) estava sendo bem divertido. O casal precisava de ajuda sobre certos assuntos trouxas, tema da próxima capa da revista.
- O governo americano já admitiu que ele mesmo espalhou os boatos sobre a Área 51, Luna! – Ana insistia. – Foi o jeito que encontraram para encobrir os testes bélicos no Estado de Nevada.
- E quem garante que não estão mentindo também sobre isto?
Ana abriu a boca na intenção de retrucar, mas descobriu que era bem mais difícil do que pensava. Como explicar para Luna que a indústria bélica era algo bem mais concreto do que aliens? Além do que, nada mais lhe parecia tão impossível depois que descobrira que bruxos existiam.
- Como vai a Mel? – Colin soltou a pergunta daquele seu jeito afobado, e como se estivessem falando de amenidades o tempo todo. – Animada com a escola? Já sabe para que Casa foi?
“Que dupla”, pensou Ana, ainda atordoada. Talvez Rony tivesse razão.
- Bem, ela está a caminho de Hogwarts agora. – Ana sorriu ao lembrar da sobrinha. – Ah, e desculpe mais uma vez pela Mel, Colin... – acrescentou, sem jeito.
- Tudo bem. – o rapaz levantou uma das mãos em sinal de que não tinha se importado. – Acredite, ela não é a primeira “dos que leram” que tem esta reação.
Mel tinha ficado toda ansiosa quando os conheceu, mas se controlou bravamente, graças à prática que estava tendo em encontrar-se com personagens harrypotterianos... Que não eram personagens, mas pessoas de verdade! Até o momento em que ficou sabendo que os dois estavam casados: “Mas... Então você e Neville não ficaram juntos?”, a menina disse à Luna, visivelmente decepcionada.
Agora, e a despeito da afirmação anterior de que não se importava, Colin declarou:
- Sabe, às vezes eu tenho vontade de bater no Longbotton. – voltou-se para a esposa, o tom desconfiado agora: - Tem certeza que vocês nunca...
Luna revirou seus enormes olhos azuis:
- Colin, pela milionésima vez: nunca!
Definitivamente, almoçar com o casal Creevey não era nada aborrecido! Ana ainda estava tentando segurar o riso quando a atenção de Luna se fixou em algo que ela via pela janela da lanchonete:
- Aquele ali não é o Carlinhos?
Ana voltou-se na direção do olhar da amiga, vendo o marido sair de um hotel em frente ao Pasquim. O sorriso morreu em seu rosto ao perceber que ele estava acompanhado de uma mulher belíssima. Nenhum dos dois podia ver o interior do Pasquim de onde estavam, mas eles os viam perfeitamente. A jovem loira conversava animadamente enquanto lançava sorrisos sedutores para Carlinhos, que a ouvia atentamente. Então, ambos aparataram.
- Quem era a loira? – Colin perguntou.
- Não sei. – ela forçou um sorriso, tentando parecer despreocupada. – Deve ser uma daquelas autoridades em dragões que vivem visitando a reserva. – fez um gesto de irrelevância e trocou de assunto: - Bem, vocês também queriam saber sobre a Guerra no Iraque, não é?
Lutando contra o peso que parecia querer afundar seu estômago, Ana pôs-se a falar como se estivesse dando uma palestra sobre o assunto. As informações saíam automaticamente, sem emoção ou análise de fatos. Queria deixar aquela sensação incômoda de lado e ignorar as questões que sua mente teimava em lhe apresentar: por que Carlinhos não tinha lhe dito que viria ao Beco Diagonal? Quem era aquela mulher que falava com ele de forma tão íntima?
Estava tão concentrada em não “pensar no que estava pensando” que simplesmente não notou o olhar da ex-Corvinal, e a sombra de preocupação neles.
***
Após uma longa viagem, o Expresso de Hogwarts havia chegado a seu destino. O trem fora parando devagarzinho e apitando, como que a dizer a toda a estação de Hogsmeade que os alunos da escola de Magia e Bruxaria estavam de volta.
Mel pôs o rosto colado ao vidro da janela, mal podendo esperar para ver pelo menos aquele pedaço da única vila totalmente bruxa da Grã-Bretanha. O fato de não poder ver quase nada por causa do cair da noite não abalou seu entusiasmo e, quando se deu conta, Danna a estava chamando para descerem. As duas não tinham trocado muitas palavras durante a viagem e ouvir a voz dela, de repente, tinha sido uma surpresa.
Ao desembarcar, descobriu que Danna não estava mais atrás de si, como julgara. Agora estava novamente sozinha, no meio de uma confusão de pessoas e bagagens.
- Ora essa! – ouviu um vozeirão atrás de si.
Saindo detrás de uma das carruagens que partiam, um homem enorme conversava animadamente com um dos funcionários do trem.
- Só ele mesmo para se empanturrar de doces a ponto de passar mal! Que menino impossível! – ele riu, parecendo de ótimo humor.
Que espécie de fã Mel seria se não reconhecesse aquele mar de cabelos e barba embaraçados, os olhos bondosos no alto daquele corpanzil de meio-gigante? Nossa, ele era ainda maior do que tinha imaginado!
- Consigo identificar um menino espevitado quando o vejo. – ele falava com ares de grande entendido. – Com tantos anos de experiência em Hogwarts, a gente acaba desenvolvendo uma espécie de sexto sentido. Ele é um bom garoto, não tenho dúvidas, oh sim... Mas nasceu para se meter em confusão, logo se vê. – riu novamente, um misto de orgulho, censura e carinho na voz - O pai dele era igualzinho nesta idade, embora fossem os três amigos tresloucados dele que o colocavam em problemas. – algo na lembrança fez a animação de Hagrid diminuir um pouco. Mas logo recobrou o bom-humor: - Bem, mandei-o na frente com Madame Pomfrey. Espero que uma noite na enfermaria lhe sirva de lição...
A frase foi interrompida no meio, pois Hagrid quase atropelou uma criaturinha sorridente que o encarava maravilhada. O homem com quem conversava se despediu, voltando a seus afazeres. O primeiro pensamento do meio-gigante foi que, talvez, a menina tivesse sido vítima de um feitiço “imobilus”. O que era bem provável, porque os garotos pareciam estar ficando mais impossíveis com passar do tempo. No entanto, aqueles últimos oito anos haviam sido repletos de encontros com crianças exibindo este mesmo olhar para ele... Reconhecendo os “sintomas”, o Professor de Trato das Criaturas Mágicas olhou para os lados, verificando que ninguém os observava e, agachando-se um pouco, sussurrou para a “criaturinha”:
- Você é uma deles, não é? “Os que leram”.
Mel balançou a cabeça afirmativamente:
- Sou Mel Warmlling.
- A sobrinha de Ana! – o meio gigante sorriu, encantado. E acrescentou, maroto: - Quer dizer, agora é senhora Carlos Weasley, não é mesmo? Sua tia me disse que viria. Seja bem vinda!
- Obrigada, Hagrid. – ela sorriu. – Quer dizer, Professor.
- Não precisa me chamar assim. – ele riu. - Só quando estiver no terceiro ano, nas aulas de Trato das Criaturas Mágicas, certo? – depois dela balançar a cabeça afirmativamente, recomendou: - Muito bem, fique perto de mim, sim?
O meio-gigante ergueu-se, tocando uma sinetinha:
- Primeiro-anistas! Venham até aqui! Todos os primeiro-anistas! Por aqui!
Quando verificou que nenhum calouro tinha ficado para trás, ele conduziu-os até os barcos à beira do lago.
Aquele era o Lago Negro, o mesmo que fazia divisa com as terras de Hogwarts. Quantas maravilhas e aventuras aquele mesmo lago tinha proporcionado à Harry! Agora a superfície estava calma, refletindo a luz do luar, mas a menina sabia que em suas profundezas havia toda espécie de criaturas mágicas que nós, os trouxas, jamais imaginaríamos existir fora de nossas histórias infantis: como sereias e lulas-gigantes.
Como mandava a tradição, os alunos do primeiro ano faziam o caminho até a escola atravessando o lago. Era uma visão de sonhos, com os barcos deslizando suavemente pelas águas iluminadas pela lua e pelos lampiões segurados pelos alunos. Sentando-se perto do meio-gigante, ela se pôs a conversar com ele.
Hagrid lhe contou as novidades: com a Professora McGonnagal na Direção da escola, ele havia assumido como Diretor da Grifinória. “Muita responsabilidade”, ele dissera, sério, mas o orgulho de ter sido o escolhido era evidente.
O melhor de se conversar com Rubeo Hagrid é que você não precisa fazer esforço para manter a conversa. Era só sentar ao seu lado e deixar que ele falasse. E Mel estava tão nervosa que foi um alívio ter Hagrid lhe contando sobre Hogwarts, ou entremeando na conversa muitos “Olímpia disse que...”, e “Olímpia acha que...”.
Olímpia Máxime, a Diretora de Beauxbottons. A menina alargou o sorriso, pensando quanto tempo mais aqueles dois precisariam para ver que tinham nascido um para o outro e resolverem se casar de uma vez.
Ela estava de costas no barco. Naquela escuridão, só percebeu que estavam perto da margem quando as outras crianças começaram a olhar para cima, estupefatas. Virou-se, deparando-se com a edificação em pedra mais linda que tinha visto na vida.
- Oh, Meu... Deus! – Mel sussurrou ao vislumbrar o enorme castelo.
O castelo se constituía em um conjunto de construções antiqüíssimas, com várias torres apontando aqui e acolá. Visto assim, à noite e todo iluminado, era uma paisagem imponente. Ele era melhor que todos os contos de fada que ouvira, que todas as histórias de capa-e-espada que conhecia.
E o melhor de tudo: era igualzinho ao do filme ***. Ou melhor, o do filme era igual a este, pois o Castelo de Hogwarts já existia dezenas de séculos antes da computação gráfica de Hollywood criar o castelo que vimos nos cinemas.
- Façam fila dupla e me sigam. – Hagrid orientou.
Passaram pela entrada em forma de arco e caminharam durante algum tempo pelos corredores do castelo, até que pararam em frente a uma enorme porta de carvalho, acima de alguns degraus. Hagrid murmurou alguma coisa sobre eles estarem em boa companhia agora, e se retirou.
Foi quando ouviram uma voz, saindo sabe-se lá de onde:
- Bem vindos à Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts!
As crianças de trás tentavam ver quem estaria falando, mas inutilmente. Murmúrios de incompreensão foram ouvidos. Mel se colocou na ponta dos pés, tentando visualizar quem os recebia no lugar de Minerva McGonnagal. Seria algum dos fantasmas?
- Oh, desculpem! – a pessoa disse, dando uma risadinha: - “Ascendio” – e um homemzinho subiu rapidamente pelo ar, como se tivesse sido lançado, indo parar nos degraus mais altos da escada. – Eu sempre estou me esquecendo... – ele soltou mais uma risadinha.
- Flitwick... – Mel escutou uma ruivinha com várias sardas no nariz sussurrar ao seu lado. Quando olhou para a menina com um sorriso compreensivo, a ruivinha desviou o olhar, temerosa. Ela devia ser mais uma “dos que leram”, como diziam por ali.
- Eu sou o Professor Flitwick, leciono Feitiços. Sou também Vice-Diretor da escola, e Diretor da Corvinal. – ele fez uma pausa, olhando um por um com um sorriso. – Corvinal é uma das quatro Casas de Hogwarts, que são como as famílias dos estudantes enquanto estão aqui. Cada Casa tem seu próprio dormitório e sala, e uma mesa no Salão Principal. Vocês vão dormir, comer e assistir as aulas junto com os seus colegas de Casa. Quando entrarem no Salão Principal – ele indicou a porta fechada atrás de si – serão selecionados para uma delas: Corvinal, Lufa-Lufa, Grifinória ou Sonserina.
- Eu vou para a Sonserina, é claro. – Mel ouviu alguém comentar atrás dela. Virou-se discretamente e viu a loirinha aguada sussurrar para o seu “séqüito”: - É onde estão as pessoas de classe.
“Ah, que surpresa que essa aí queira ir para lá!”, pensou, revirando os olhos.
- Está na hora. – Flitwick anunciou. – Mantenham a fila e me sigam. – a um movimento de sua varinha, as pesadas portas se abriram, revelando o iluminado Salão Principal.
Os alunos seguiram o Professor de Feitiços, admirando o teto encantado. Ela não sabia para que lado olhar primeiro: o teto, as velas flutuando, os alunos em suas mesas, a mesa dos professores (Hagrid já estava lá e sorriu para ela), ou o banquinho com um... chapéu! O quanto não lhe custou não pular e gritar: “O Chapéu Seletor! O Chapéu Seletor!” Voltou-se para a ruivinha ao seu lado, esperando que ela compartilhasse a mesma empolgação. Mas ela mantinha os olhos em qualquer pessoa ou coisa que não fosse Mel, como se algo que ruim acontecesse caso o fizesse.
“Talvez eu tenha me enganado e ela seja só uma bruxa comum”, pensou Mel.
Como era esperado, um rasgo se abriu no Chapéu, como se fosse uma boca. O objeto estava vivo. Após alguns “pigarreios preparatórios”, ele começou a cantar:
Há mil anos fui encantado
E de uma missão incumbido:
Nenhuma criança deixar de lado,
Sem sua Casa ter escolhido.
Ponha-me em tua cabeça
E tua mente vasculharei.
Direi a Casa que te mereça
E aos teus iguais te juntarei.
É na Grifinória que morarás
Se fores corajoso e aventureiro.
Entre os leões viverás,
Junto aos de coração guerreiro.
Mas se à Justiça preferires
E a honra é tua qualidade,
Para a Lufa-Lufa deves ires:
A Casa da lealdade.
Se encontrar mente irrequieta,
Na Corvinal te colocarei.
Lá, onde o saber é a meta,
E a inteligência, a lei.
Caso a astúcia te guiar,
E se ao poder se destina,
Não tenho o que duvidar:
Pertences à Sonserina.
Que a divisão não te iluda:
Nenhuma é a melhor qualidade.
Se Hogwarts é chamada à luta,
Sua força é a diversidade.
Por isso, venhas até mim!
Juro que não irá doer.
Nenhuma escolha é ruim,
Não há o que temer.
O Salão irrompeu em aplausos ao final da canção. Inclinando a extremidade pontiaguda, a guisa de cumprimento, o Chapéu Seletor agradeceu modestamente: “Obrigado! Obrigado!”.
McGonnagal se levantou, e todos fizeram silêncio. A Diretora sorriu brevemente para Mel, que já havia conhecido no Beco Diagonal. Depois, com a costumeira postura elegante e formal, pôs-se a falar:
- Sejam bem-vindos, meus caros alunos! - mais palmas foram ouvidas - Sou a Diretora Minerva McGonnagal, e espero que sua passagem por Hogwarts seja agradável e proveitosa. - ela sorriu para os primeiro-anistas. Então, dirigindo-se aos alunos mais velhos, ela fez um gesto em direção aos novatos: - Estes são nossos novos membros. Logo eles pertencerão a uma de nossas Casas, e espero que os recebam com a deferência e o respeito cultivado nesta escola. – com um olhar severo por cima dos óculos, McGonnagal fez os alunos mais velhos entenderem que não falara aquilo apenas para ser gentil com os calouros.
Depois, dirigiu-se aos novatos:
- Devo avisar que, quando forem selecionados para suas Casas, seus atos se refletirão não só sobre vocês, mas também sobre elas. Seus méritos contarão pontos para sua Casa. Seus deméritos causarão a perda deles. – ela olhou para as quatro ampulhetas na parede e os alunos fizeram o mesmo. Então, finalizou sorrindo: - Ao final do ano, a Casa que tiver mais pontos vencerá a Taça das Casas.
Os alunos aplaudiram, entusiasmados, e se ouvia as pessoas nas mesas dizendo umas às outras: “Seremos nós!”, “Este ano ela é nossa!”, “Ninguém tira essa da gente!”.
- Bem, não vamos nos demorar mais. É hora de uma de nossas mais antigas e belas tradições: a Seleção das Casas!
Após uma nova salva de palmas, Flitwick estendeu o pergaminho com a lista dos nomes, chamando um por um. As Casas iam aos poucos sendo agraciadas com novos membros, fazendo festa cada vez que um dos novatos corria até a mesa de sua “família”.
“Acalme-se”, Mel se ordenava. “Você esperou muito por isso, não vai ter um treco logo agora!”.
- Bothwell, Caroline!
A garota de cachinhos dourados caminhou segura até o Chapéu, sentando-se no banquinho como se fosse o trono de uma rainha e o que estivesse sendo colocado sobre sua cabeça fosse uma coroa, e não o velho e gasto Chapéu Seletor.
- SONSERINA! – o objeto anunciou, após alguns segundos, e a menina sorriu, triunfante, caminhando até a mesa da respectiva Casa.
Mel franziu os lábios, irônica:
- Um Malfoy de saias, era só o que me faltava! – ela sussurrou para a ruivinha.
- Não devemos falar disso! – a outra sussurrou de volta, aflita.
“Então, ela realmente leu os livros”, pensou Mel. Antes que pudesse dizer que não pretendia fazer nada para ser expulsa do Mundo Mágico, Flitwick chamou:
- O´Riley, Christina!
A ruivinha se adiantou, sendo selecionada para a Corvinal.
- Warmlling, Mel!
“Já?”, pensou, dando o primeiro passo em direção ao banquinho. “Puxa, nem deu tempo para me preparar!”.
- Hum... – o Chapéu fez uma pausa reflexiva. – Temos mais uma leitora-fã de nosso mundo aqui. – Mel compreendeu a mensagem oculta nas palavras do Chapéu. – Não, não sou feito de nenhum material especial. Mantenho a “forma” só me cuidando mesmo: por isso não aparento ter mais que quatrocentos ou quinhentos anos. – ele informou, maroto, respondendo algo que ela queria saber há tempos, e fazendo-a abrir a boca, perplexa. – É, sei exatamente onde coloca-la. – ele “sorriu”, satisfeito: - Isso vai dar a maior confusão, mas não há dúvidas: você vai para...
***
- Corvinal?!? – Ana exclamou depois de ler a carta que a sobrinha lhe enviara ainda naquela noite. – Mas... Eu pensei...
- Que ela iria para a Lufa-Lufa? – Carlinhos sorriu, zombeteiro. – Amor, tava na cara! Do jeito que ela sempre quer saber de tudo...
- E daí? Mione também sempre quer saber de tudo, e foi para a Grifinória. Eu leio muito, mas o Chapéu me disse que sou uma lufa-lufa!
- Mas por razões diferentes, querida. Sempre tive a impressão que Hermione encarava os estudos como um soldado em um campo de batalha, ou seja, como um desafio a ser superado. Para estar preparada. E cada nota, uma conquista. Se for mesmo isso, não me admira que tenha ido para a Grifinória. Já você, aprecia a diversão por trás de cada conhecimento. – sorriu charmosamente para a esposa: - Bom-humor, típico da Lufa-Lufa. Mas Mel sempre está procurando o porquê das coisas. Como se o fato de não saber fosse um absurdo.
- Faz sentido...
- Veja pelo lado bom: pelo menos, não foi Sonserina! – ele provocou.
- Engraçadinho. – Ana torceu o nariz.
Carlinhos parecia muito tranqüilo enquanto se movia pela cozinha, abrindo armários e pegando as coisas para fazer chá para ambos. Analisando a expressão inocente dele desde que chegara em casa, quase se sentia culpada por aquelas desconfianças estarem passando por sua cabeça.
Desconfianças? Não, imagine! Ela era uma mulher adulta, formada... Não iria fazer o papel ridículo de sentir ciúmes do marido só porque ele estava conversando com uma mulher bonita! Nunca tinha sido possessiva, e sempre achou que isso acabava com qualquer relacionamento. Carlinhos a amava. E ela confiava nele. Afinal, que homem espera por uma mulher por oito anos, se não a ama de verdade? Por que procuraria outra mulher, logo agora que tinham se casado, e há tão pouco tempo?
Estava intrigada. Sim, era isso. Decidira-se: dera um nome para aquela sensação desagradável que a incomodava. Em outras ocasiões, tinha chamado aquela mesma sensação de “sexto sentido”, mas agora havia se convencido que era só curiosidade. Assim, sentia-se melhor ao ter que fazer a costumeira pergunta, só que com intenção diferente da usual:
- Como foi o trabalho hoje? – sem perceber, Ana prendeu a respiração, esperando a resposta.
- Normal... – ele respondeu, simplesmente.
Ana virou o rosto, tentando controlar o tremor que percorreu seu corpo. Então ele aparece no Beco Diagonal, em Londres, poucas horas depois de sair da Estação King´s Cross dizendo que iria direto para a Reserva de Dragões no País de Gales... E isso era “normal”. Não... Não podia ser o que estava pensando. Devia ter outra explicação para Carlinhos não ter lhe contado nada. Estava reagindo como uma simplória. No entanto, se fizesse mais perguntas despertaria suspeitas.
- E como foi seu dia? – ele perguntou.
- Almocei com Colin e Luna. – e ela acrescentou, observando a reação do marido: - Na lanchonete do Pasquim.
Mas Carlinhos não deu mostras de que a informação tivesse despertado alguma lembrança. Como a de ter estado em um hotel em frente, com uma mulher.
- E como estão eles? – ele perguntou enquanto lhe dava as costas para apanhar as xícaras no armário.
- Bem. – agora ela estava se esforçando para manter a voz firme. – Queriam que eu explicasse alguns acontecimentos recentes no mundo trouxa.
Carlinhos voltou-se para ela naquele momento, com uma caneca fumegante estendida. Notando o tremor nas mãos dela, ficou preocupado:
- Querida, o que houve? – ele ajoelhou-se a seu lado, tomando-lhe as mãos.
- Nada... É que lembrar de tudo aquilo... Estão sendo tempos difíceis para os trouxas. E, como analista de informações, eu tive contado com várias histórias de refugiados. Algumas de famílias, com bebês. E isso me lembrou a Gina e o Harry também... Eu me emocionei, só isso.
- Amor... – ele a beijou e a envolveu em seus braços. – Não fique assim. Nós estamos apenas averiguando se os sonhos da Gina têm algo de mais perigoso *. E, quanto aos horrores das guerras... Não podemos controlar tudo, eu bem sei disso. Estive no meio de uma, lembra? Mas fazemos o que pode ser feito. Você fez a sua parte. Está fazendo agora, como Auror. E o mundo está se tornando melhor com isso, mesmo que não note, mas está.
Ele a beijou novamente, enquanto Ana sentia uma onda de remorso por desconfiar dele.
- Eu... Vou tomar um banho.
- Não vai querer o chá? – ele perguntou, carinhoso.
- Hoje não.
Ana subiu as escadas sentindo o olhar preocupado de Carlinhos cravado em suas costas. “Preocupação com ela ou com o que ela poderia ter visto?”, uma vozinha teimava em ressoar na cabeça de Ana.
***
Arrastara-se até a mesa da Corvinal naquela manhã, um misto de desânimo e sono. As coisas em Hogwarts não estavam saindo exatamente como tinha imaginado. E olha que havia chegado na noite anterior!
Olhou para a mesa, repleta das mais variadas guloseimas. Pelo menos, a comida era boa.
Começou a tomar seu café da manhã lembrando-se do que Christina O´Riley havia lhe dito no dormitório feminino dos primeiro-anistas, enquanto se preparavam para dormir.
[Início de Flashback – Noite anterior, Torre da Corvinal, após o Banquete de Recepção]:
Christina a ignorava de uma forma inexplicável. Não tinha feito nada para a garota. Na realidade, até achara que ambas se dariam bem, já que haviam lido os livros: ou seja, compartilhavam um segredo, tinham algo em comum.
Mas ela se afastava de Mel sempre que podia. Assim que chegaram no dormitório, Christina escolheu a cama perto da janela, mas trocou rapidamente quando Mel pôs a mala dela em cima da cama ao lado. As outras garotas se olharam, constrangidas por terem presenciado a cena.
Em um momento em que ficaram sozinhas no dormitório, a ruivinha deixara o silêncio e tomara a iniciativa de falar com Mel:
- Ei. Warmlling! – ela chamara, olhando para os lados para ter certeza que as outras calouras não estavam voltando do banheiro.
- Eu tenho um primeiro nome, sabia? – respondera, amuada. Estava muito magoada com a garota.
- Sei, sim, mas... – a ruivinha enrubescera. – Desculpe, mas não podemos ser amigas. – diante do olhar arregalado de Mel, ela explicara, toda sem jeito e tropeçando nas palavras: - N-nós duas... Lemos, entende?
- Sim, é claro que eu entendo! – ela respondera, exasperada. – E o que é que tem?
- Tem que notei que você mal se agüenta, tentando fingir que não sabe de nada. Deixou escapar várias coisas lá embaixo!
- Você também! – tentara se defender.
- Só uma vez. – Christina respondera, embaraçada. – E não vai acontecer de novo. Não se eu ficar bem longe de você.
- O quê? – exclamara, indignada. – Está me culpando?
- Não! – a outra se apressara a negar, aflita. – Só que vai ser difícil se tiver alguém que conhece tudo e é tão fã... Quanto eu. – ela suspirou, cansada: - Olha, não tenho nada contra você, eu realmente sinto muito, mas... A pena por deixar a história dos... você-sabe-o-quê vazar é a Expulsão do Mundo Mágico! Não posso deixar que isso aconteça. Entenda: minha mãe é trouxa, meu pai é bruxo. Nós temos contato com... O que J.K. Rowling escreve... Por causa da família da minha mãe. Meu pai já tinha perdido as esperanças de que eu tivesse poderes, e ficou tão contente quando eu descobri que era uma bruxa, e recebi a Carta de Hogwarts! Ele só fala disso agora, ele... Espera muito de mim. Não posso decepcioná-lo sendo expulsa!
Ela achara que a garota era histérica, isso sim. Mas se era assim que queria...
- Não se preocupe... “O´Riley”. Não vou ficar perto de você mais do que o necessário. – respondera secamente, deitando-se em sua cama.
Apesar de abalada com a reação da garota, estava tão cansada que cochilara. Acordara com os sussurros das outras meninas, já em suas camas:
- O que vocês acham que a O´Riley tem contra a brasileira? – uma delas, Rose Chandler, perguntou.
- Brasileira? Mas ela fala igual a uma americana! – Elisa Coffman dissera.
- Meu irmão está no terceiro ano, na Grifinória, e disse que ouviu o Professor Hagrid falar que a tal da Mel é sobrinha de Ana Weasley. – informara Grizel MacQueen, de quem Mel não gostara nem um pouco.
- Weasley? – perguntara Rose. – A família que lutou na Guerra? De Ronald Weasley?
- Isso mesmo. – Grizel confirmara. – a tia dela é casada com o irmão dele, Carlos Weasley, aquele cara da Batalha dos Dragões.
- Uau! – Elisa exclamara. – Mas, o que isso tem com...?
- Vocês não acham estranho uma brasileira aqui, em Hogwarts? – Grizel perguntara com um suspiro baixo e impaciente.
- Então está insinuando que os Weasleys interferiram? – Rose questionara.
- Talvez. Mas é mais provável que a tia dela tenha feito isso. Ela é da família Smith, que são descendentes de Helga Hufflepuff.
- Nossa! Essa garota deve se achar, então! – Eliza concluíra com desprezo na voz, sendo seguida dos murmúrios de concordância das outras duas.
Mel se encolhera na cama, e o movimento fez as garotas se calarem e voltarem a dormir. Resolvera fingir que ainda estava dormindo, embora a sua vontade fosse dar uma lição naquelas mexeriqueiras. Mas o que iria dizer? Que era verdade, que realmente só tinha vindo para Hogwarts por causa da interferência da tia?
Pobre tia Ana... Jamais imaginou que estava causando problemas para ela quando falou com a Diretora McGonnagal. A menina sentira os olhos arderem, e chorara baixinho, escondida debaixo dos lençóis azuis que existiam em todo dormitório da Corvinal. Adormecera com os olhos ainda úmidos das lágrimas.
[Fim do flashback].
Seu ano em Hogwarts estava estragado. Fitava a comida apetitosa à sua frente sem realmente vê-la. Depois de tudo o que acontecera nas últimas vinte e quatro horas, ela duvidava que algo de bom acontecesse e compensasse os maus momentos. Provavelmente, só iria piorar dali por diante.
Se Sibila Trelawney soubesse dos pensamentos de Mel, teria dito que a garota tinha dons premonitórios.
Os alunos da mesa da Lufa-Lufa, a mesa mais próxima das janelas, começaram a se agitar. Ela levantou os olhos a tempo de ver um enorme pássaro branco atravessar o Salão, fazendo boa parte dos alunos se levantarem das mesas correndo e gritando. Na confusão, vários pratos e copos caíram no chão, seus conteúdos despejando-se sobre alguns dos alunos que ainda tinham permanecido sentados.
Paralisada em seu lugar, Mel assistiu com horror a ave pousar na sua frente, não derrubando mais coisas da mesa por milagre. Ou talvez não tivesse sido milagre, porque o animal largou um enorme pacote em seu colo, levantando uma das patas e estendendo a garra em sua direção. Ele ficou parado docilmente, encarando Mel como se esperasse que ela fizesse algo.
Seria treinado?
Vencendo o medo, ela se aproximou lentamente, e percebeu que havia uma carta presa ali, como os bruxos faziam com as corujas. Retirou-a, ainda receosa que o pássaro lhe bicasse ou fincasse as garras perigosamente grandes e afiadas nela.
- Uma Harpia! – Hagrid se aproximara, empolgado. – Também é chamado de “gavião-real”. Nunca vi um desses! Vivem na América Latina!
- Senhorita Warmlling, este pássaro é seu? – a Diretora McGonnagal aparecera ao seu lado, a expressão entre desconcertada e zangada com a confusão.
- Não... Mas acho que trouxe algo para mim. – respondeu, um tanto confusa e preocupada se teria se metido em mais alguma encrenca. Os outros alunos estavam parados a certa distância, olhando apreensivos para ave de cerca de um metro e vinte centímetros de altura, plumagem branca e com algumas penas levantadas na cabeça, como em um cocar.
Olhou para o envelope, reconhecendo a letra nele. Era de sua mãe. Leu rapidamente as primeiras linhas da carta. Levantando os olhos para a Diretora, explicou, envergonhada:
- É dos meus pais... Me mandaram algumas coisas. – ela olhou para o pacote que a harpia deixara sobre a mesa.
- Ah, os bruxos brasileiros costumam usa-las para correspondência que precisam ser entregues a grandes distâncias. São mais resistentes. Como o Brasil é muito grande, eles as usam quase sempre. – Hagrid informara, ainda empolgado, alheio à apreensão a sua volta.
- É... – ela concordou, abaixando o olhar para a carta novamente. – É o que a carta diz.
Na carta, sua mãe dizia que Agatha havia lhes sugerido usar a harpia, e eles não hesitaram em comprar uma (para a infelicidade de Mel). Havia muitas delas na região do Rio Negro ****.
- Senhorita Warmlling, na próxima vez a ave terá que pousar do lado de fora. – McGonnagal avisou.
- Sim senhora. – ela abaixou a cabeça, constrangida.
- Como é o nome dela? – Hagrid ainda estava absorto na contemplação da ave.
- Dumbledore. – ela respondeu.
- Como? – McGonnagal perguntou, surpresa.
- A carta diz que foi este o nome que deram. Meu irmão o chamou assim... Porque ele é branco... “Albus”, em latim significa “branco”, como em Albus Dumbledore. Para nós, que falamos português, isso fica mais claro. – Mel estava se sentindo uma idiota. Como ela queria que um buraco se abrisse no chão para que ela se escondesse!
- Entendo... – McGonnagal disse vagamente. A lembrança do falecido amigo a emocionou, mas Minerva McGonnagal era durona. Não iria demonstrar isso assim, fácil. – Hagrid, por favor, leve o pássaro lá para fora e o alimente antes que comece a viagem de volta.
- Pode deixar, Professora! – o meio-gigante respondeu, todo contente e já fazendo a harpia ficar em pousada em seu braço direito. A pele dele devia mesmo ser bem mais resistente, para não precisar nem de luvas para se proteger das garras do pássaro.
Tão logo McGonnagal deu as costas, Grizel provocou:
- Ei, Warmlling! Não tinha uma ave maior? Quem sabe assim não chamaria mais atenção? – ela riu debochadamente, sendo acompanhada pelos que estavam próximos.
- Se acha que é tão emocionante assim, porque não fica com ela? – respondeu, lançando um olhar furioso para Grizel.
A ave não pareceu ter gostado muito da idéia, porque se agitou no braço de Hagrid, abrindo as asas e grasnando hostilmente para a outra menina, com toda a imponência de seus dois metros de envergadura.
- Calma, Dumbledore! Calma, rapaz! – o meio-gigante tentou acalma-lo.
Grizel deu um passo para trás, assustada, e se afastou. Hagrid viu que Mel estava pegando suas coisas e disse: - Não se preocupe, Mel, vou cuidar dele.
- Obrigada, Hagrid. – ela respondeu, triste. Rabiscou um bilhete para os pais e o prendeu novamente na pata da harpia. – Tchau, Dumbledore. Faça uma boa viagem. – ela afagou as penas surpreendentemente macias da ave e saiu do Salão Principal.
Ela caminhou até as árvores na beira do Lago Negro. Ainda tinha algum tempo antes da primeira aula. Havia perdido o apetite mesmo.
Mas que droga! Que onda de azar era essa? Estava dando tudo errado!
Pegando sua varinha, fez um feitiço de levitação razoavelmente bom com uma pedra de tamanho médio. Tinha treinado um pouco no trem, e descobrira que era boa em Feitiços. Em seguida, lançou a pedra a toda a velocidade no lago, desejando que toda a frustração que sentia fosse embora com a ela.
Em vez do barulho da pedra caindo no água, ouviu urro esquisito. Olhou na direção em que arremessara a pedra e viu um enorme tentáculo balançando acima da superfície do lago, segurando a mesma pedra que laçara. Com um impulso para trás, o tentáculo arremessou a pedra de volta, que por pouco não a atingiu. Um novo urro foi ouvido, e Mel podia jurar que era um de indignação.
- Desculpe! – gritou para a criatura. – De verdade! – acrescentou, como se assim o animal a entendesse.
Mordendo os lábios, viu que os poucos alunos que se arriscavam a dar um passeio antes da primeira aula a olhavam divertidos e rindo.
“Ótimo Mel! Perfeito mesmo! Agora nem mesmo a carente da Lula Gigante vai querer ser sua amiga!”, resmungou para ela mesma.
- Warmlling! – ouviu Rose Chandler chamar.
- O que é? Esqueceram de zoar com mais alguma coisa? – Mel respondeu, agressiva.
- Ai, deixa de ser grossa, garota! – Rose devolveu, também agressiva. – Vim aqui te fazer um favor. Sua tia não é Auror?
- É sim... – franziu o cenho, preocupada. – O que é que tem?
- Achei que isso pudesse te interessar. – Rose lhe estendeu o Profeta Diário e saiu, ainda brava.
A manchete do jornal fez Mel gelar: “Fuga em Azkaban”. *
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Notas
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* Ler “Harry Potter e o Retorno das Trevas”, de Sally Owens, na Floreios e Borrões.
** Ler “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, p. 24-25: Herpo, o Sujo, era um bruxo das trevas grego que teria descoberto que um ovo de galinha chocado por um sapo gerava um Basilisco.
*** Em “Conversa com J.K. Rowling”, de Lindsey Fraser, a autora de Harry Potter, quando perguntada se estava feliz com o fato de Harry Potter ter virado filme, conta que: “Eles me forneceram muito material, mandaram mapas e desenhos de Hogwarts para assegurar que, quando o castelo aparecesse no filme, ficasse bem parecido com o que eu tinha em mente.”.
**** National Geographic Brasil, edição de fevereiro de 2006, p. 56.
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(N/A): Já se, já sei! Tem gente querendo me matar pela megademora, né? Desculpem, mas não fazem idéia da loucura que anda a minha vida. Nada demais, só trabalho mesmo... E a pior crise de criatividade que eu já sofri na vida!
Graças a Deus, passou. Espero que o tamanho deste capítulo compense o atraso.
E antes que alguém me diga: “o que te deu para maltratar assim a Ana e a Mel?”, eu respondo: o mesmo que deu na JK quando ela matou o Sirius e o Dumbledore, hehehe! Tô brincando!
Espero que eu não tenha viajado. Quer dizer... Não tenha viajado “muito”. Mas... quer saber? Apesar de tudo (inclusive a falta de imaginação que estava travando tudo), até que eu gostei de escrever este. Foi muito divertido. Sei lá, foi um prazer diferente de todos os outros capítulos que eu já escrevi.
Ah, o capítulo iria se chamar “Quando Nada Dá Certo” (sugestão da Bruxicca, depois de eu dizer para ela que eu não sabia como chamá-lo, e eu disse para ela que no capítulo trataria de: “sabe, quando nada dá certo?” Daí ela me disse: “Você acabou de me dizer o seu título”. Hehehe!). Mas daí o e-mail da Sally chegou (eu tinha pedido sugestões para ela antes de me encontrar com a Bruxicca no MSN), e, entre várias sugestões, tinha o “Harpias”. O primeiro estava tudo haver com o capítulo, ótimo mesmo. Mas o segundo não iria entregar de bandeja o conteúdo dele.
Então, ao pensarem no capítulo 5 do Segredo de Corvinal... Pensem que ele é aquele em que aparece a Harpia chamada “Dumbledore”, e é o que a Belzinha mostra como é “Quando Nada Dá Certo”, hehehe!
GENTE! Amei os comentários! Valeu mesmo. Obrigado mesmo para aqueles que não comentam, e lêem silenciosamente.
E, quem quiser... Já sabem: comentem! Os comentários estimulam a gente a escrever.
Brigadão, e até o próximo capítulo.
Há situações que nós idealizamos tanto, que passar por elas pode ser excitante e aterrorizante ao mesmo tempo. Se conseguir se imaginar tendo novamente onze anos, e que está em um trem que o levará para uma lendária escola de magia e bruxaria, entenderá o que Mel estava passando no meio de tantos bruxos. E sozinha.
De fato, os corredores dos vagões do Expresso de Hogwarts são mais movimentados do que se pensa. Nos primeiros vinte ou trinta minutos de viagem, os passageiros se amontoam neles, reencontrando colegas, pondo a conversa em dia, e azarando desafetos (com provocação ou não). Era o lugar das grandes novidades, onde se sabia de primeira mão o que iria ser o assunto de Hogwarts nos próximos meses. No entanto, à medida que a viagem transcorre, a relutância em tomar um lugar em uma das cabines é vencida frente ao fato de que não é nada cômodo passar sete horas de pé.
Bem, Mel não tinha amigos com quem conversar. E tampouco queria fazer inimigos que pudessem ter a infeliz idéia de lançar uma azaração na “caloura tampinha”. Por isso, aquilo mais parecia um mar de pessoas quase intransponível, dificultando a tarefa de achar uma cabine “segura”. Tão logo se acomodasse, poderia observar o máximo de detalhes daquele incrível trem e, quem sabe, dar uma olhada em seus futuros colegas.
Tratou de esgueirar-se entre os grupinhos de alunos sem bater em ninguém. Já estava quase no final daquele vagão quando passou por uma cabine não tão cheia, ocupada por algumas meninas mais ou menos de sua idade. Resolveu entrar.
Mal tinha dado os primeiros passos para dentro, quando todas elas se levantaram, sendo lideradas por uma loirinha pálida. Passaram por Mel e deixaram a cabine sem uma palavra.
A reação rápida e brusca das garotas teve um efeito devastador nas esperanças de Mel. E enquanto fitava o grupo dando-lhe as costas, uma vozinha chata dentro dela mesma repetia sem parar que aquilo tinha sido um sinal da sua tolice em achar que poderia ser diferente em um lugar onde ninguém a conhecia, onde não havia sussurros a respeito da “chata sabichona da Mel”.
Devia estar escrito em sua testa: “Não gostem de mim”.
Parou de respirar, como se assim também as imagens de suas tentativas frustradas de fazer amigos no colégio fossem parar de vir a sua mente.
O quê fizera de errado? Quem sabe, se entendesse, poderia evitar de cometer o mesmo erro no futuro.
Mas, por mais que pensasse, não havia nada. Seria possível que alguém tivesse falado mal dela? Já? A idéia a indignou. Senso de auto-preservação era o que não lhe faltava, e decidiu tirar a história a limpo:
- Hei! Eu sei que sou caloura, mas... Isso não é nenhuma doença contagiosa! – riu simpaticamente, dando a pergunta um tom de brincadeira, mas no fundo estava nervosa, esperando que elas lhe explicassem o motivo de terem saído.
As garotas estavam quase entrando na outra cabine quando a ouviram. Voltaram-se para ela, surpresas, como se só então tivessem se dado conta dela. A loirinha, que parecia ser a “lider” delas a avaliou de cima a baixo. Finalmente, deu de ombros, como se tivesse chegado à conclusão de que ela não merecia a dádiva de uma resposta e entrou na cabine, sendo seguida pelas demais.
Novamente, Mel se perguntou: “O que há de errado comigo?”.
- Não é você que elas estão evitando... – uma voz suave, mas muito baixinha, foi ouvida de algum canto da cabine.
Procurando o dono da voz, deparou-se com uma garota quase engolida por vestes grandes demais para ela, parecendo serem de segunda mão de tão gastas. Os cabelos, lisos e negros como a noite, caíam sobre mais da metade do rosto da garota. Enfim, tudo nela dizia que queria se esconder.
- Era... Elas... Digo, você... – Mel ainda estava surpresa por não ter notado que não estava sozinha ali.
A menina não disse nada, apenas reagiu se encolhendo ainda mais, indicando que esclarecer o assunto a constrangia. Observando as roupas e objetos gastos da outra, e lembrando do ar arrogante do grupo que deixara a cabine, Mel compreendeu o que tinha acontecido.
Sentiu um alívio tomar conta de si ao descobrir que o problema das garotas não era com ela, e que ainda podia sonhar em ser aceita em Hogwarts. A desprezada era a garota, e a situação dela era pior que a sua. Por mais que os antigos colegas rissem a suas costas, jamais a tinham humilhado daquela forma tão hostil e aberta.
“Pimenta nos olhos dos outros é refresco”. A frase dita tantas vezes por sua avó surgiu em sua mente, fazendo-a ter vergonha de si mesma. Aquela garota tinha acabado de sofrer uma injustiça! Como se não ter dinheiro fosse motivo para aquela... Infâmia! Lembrou-se de Rony naquele mesmo trem, quinze anos antes. O que só aumentou o embaraço pelo egoísmo de momentos antes.
Olhou para a porta, dirigindo em pensamento xingamentos horríveis em português ao grupo de garotas. Fez uma anotação mental de colocar a loirinha azeda, com seus cachinhos enjoativamente perfeitos e tudo, em sua lista negra.
Voltando-se novamente para a garota, apresentou-se:
- Sou Mel Warmlling.
- Danna Éowin O´Brian... – a outra respondeu.
Um silêncio constrangedor se seguiu. Nenhuma das duas sabia ao certo o quê dizer ou o quê fazer.
Danna sabia que seria exatamente assim. Vira a menina voltar a cabeça em direção à cabine das outras garotas. Certamente estava pensando em um jeito de ir até lá e se desculpar com elas antes que a associassem com Danna. Devia estar agora mesmo pensando em uma maneira de sair com uma desculpa polida. Ou então, o quê, além da aparência lamentável, ela deveria ter de errado para as garotas terem saído daquela forma. “O´Brian, você disse?”, a loirinha tinha dito com desprezo. “Já ouvi falar. Além de pobres e mestiços, são uns perdedores.”
Devia ter se acostumado com isso. Todos a tratavam mais ou menos assim: com desprezo ou a ignoravam. A tal... Mel (que nome estranho!) não iria ser diferente. E agora estava “prevenida” a respeito de Danna. Mas o quê poderia ter feito? Reconheceu no olhar da garota aquele mesmo medo da rejeição que sentia. Não podia deixá-la continuar pensando que a hostilidade das garotas era com ela.
Pegou o livro que estivera lendo antes da entrada tumultuada das meninas, escondendo-se ainda mais atrás dele. Assim, ignorando-a, esperava tornar a decisão da garota de sair dali mais fácil, sem ter que se preocupar em dizer algo. Também era melhor para ela: não teria que se sacrificar fazendo uma cara de forte e fingir que aquilo não a atingira.
Um suspiro cansado e molas de um assento rangendo com a pressão feita sobre eles. Foi o que ouviu no lugar da porta da cabine abrindo e fechando.
Intrigada, espiou por cima do livro, dando com Mel sentada na sua frente, tranqüila, como se nada tivesse acontecido.
- Bem, tem um “Anhanguera” no meio do meu nome. – a menina desandou a falar. – Mas os gringos, digo, os ingleses, não conseguem pronunciar mesmo, então vai ter que ficar só Mel Warmlling. – pareceu interpretar o silêncio de Danna como um pedido de explicação, e acrescentou: - Sou brasileira.
- Irlandesa... – Danna sussurrou de forma quase inaudível.
Brasileira? Podia jurar que a garota tinha sotaque americano. O que não explicava o quê não-britânicos estavam fazendo em Hogwarts. Mas não se atreveu a perguntar nada com medo que qualquer coisa que dissesse pudesse fazê-la ir embora. Não sabia o que fazer. Nunca alguém que não fosse de sua família tinha demonstrado interesse em conversar com ela antes.
Mel havia notado que o incidente a constrangera. Compreendia isso muito bem. Uma vez, em sua antiga escola, estava caminhando com uma colega (não podia considerá-la sua amiga, apenas alguém com quem costumava fazer os trabalhos em grupo), quando ouviu alguns colegas, do outro lado do muro que separava a quadra descoberta do pátio da escola, rindo e caçoando da “chata da Mel”. Morreu de vergonha da colega, que ouvira tudo também. Correu para o banheiro feminino e chorou até o sinal de fim de recreio tocar. Nunca falou disso com a garota e reagia de forma agressiva cada vez que ela tentava tocar no assunto. Sabia que, embora ela não caçoasse às suas costas, não era sua amiga também. E, se tentava puxar o assunto era a pedido do grupo maledicente, que queria voltar a fazer os trabalhos de escola com Mel. Era sempre assim: os que não ficavam rindo dela, tinham medo de ser seus amigos e se tornarem alvo das mesmas chacotas.
Assim, Mel estava tentando falar sobre assuntos “neutros” com Danna.
Danna, irlandeses... Buscou desesperadamente vencer o constrangimento que reinava na cabine e achar um assunto que fizesse continuidade a isso e que fosse “área livre”.
- Mesmo? Puxa, achei que todos os irlandeses fossem ruivos! Como... A Danna Scully do Arquivo X... Ah, olha só, vocês têm o mesmo nome!
Danna fez uma expressão angustiada. Mel ficou pensando o que teria feito desta vez... Ah, é claro! Ela não estava entendendo! Às vezes é muito fácil esquecer que bruxos não assistem televisão.
- É uma série de TV. Coisa de trouxa. Eu sou uma. Quer dizer... Descobri agora que sou bruxa. Mas meus pais são trouxas. – e riu, divertida: - Acho que algumas pessoas me chamariam de “sangue-ruim”!
Estava comprovado. A tal da Mel era maluca. Chamar a si mesma de “sangue-ruim” e achar graça! Mas tinha gostado da garota, embora ainda não se sentisse preparada para se aproximar. Ela era tão... Segura de si! Onde estava com a cabeça quando achou que tinha visto desamparo no rosto dela quando as meninas tinham deixado a cabine? Ainda assim, gostaria que ela ficasse por ali. Pelos menos poderia imaginar que tinha uma amiga...
Sorrindo timidamente para Mel, voltou a atenção para o livro e rezou para que ela permanecesse na cabine.
“Tudo bem...”, pensou Mel. “Ela não é de falar muito”.
Apesar de mal ter visto o rosto de Danna (aquele cabelo na frente!) ou ter ouvido sua voz, já sabia várias coisas sobre ela só a observando. Ambas gostavam de ler. Ela devia ser do segundo ano (era o que dizia o livro de feitiços que ela lia), e era da Grifinória, pois tinha visto as franjas de um cachecol vermelho e amarelo pendendo da velha mala de Danna. Segurando um rosário de perguntas, resignou-se a pegar um livro e começar a ler também.
De vez em quando, olhava para aquelas franjinhas amarelo-avermelhadas e ficava pensando para qual Casa seria selecionada. Ah, será que ainda faltava muito para chegarem?
***
O comércio no mundo mágico se revitalizou após o fim da Guerra. Quando as pessoas estão preocupadas com suas vidas não se sentem inclinadas a consumir. Isso é um fato.
É claro que nem todo comércio tinha sido prejudicado. Além dos que se aproveitaram vendendo “amuletos anti-infieri” e coisas parecidas, o pessoal da Travessa do Tranco também tinha lucrado muito com a Guerra. Alguns chegaram a acumular fortuna, cuja origem “pouco confiável” ainda estava sob investigação do Ministério. Ainda que todos soubessem que o dinheiro tinha vindo de fornecimentos aos Comensais da Morte, os comerciantes daquela escusa ruela conseguiram mascarar muito bem suas transações financeiras, de forma que não se tinha provas para incriminá-los. E com a política anti-veritasserum...
Embora não se possa afirmar que nenhum dos “respeitáveis” proprietários de estabelecimentos do Beco Diagonal tivesse se envolvido em algumas destas transações, seguramente o fizeram poucas vezes e não sem o temor de serem descobertos. Havia muito a ser perdido e morriam de medo dos bruxos das trevas, o que quer dizer que nem sempre recebiam um valor justo pelo que comercializavam com eles. Mas, quando as necessidades surgem, quem pode ter certeza de conhecer o limite entre o “homem desonesto” e o “homem desesperado”?
A dificuldade em investigar os comerciantes do Beco Diagonal, ao contrário dos outros, não estava na habilidade em camuflar seus livros-caixas, mas em sua proximidade com o Ministério. Muitos deles eram amigos de infância dos chefes de Departamento e Secretarias... E, como ocorre em qualquer parte do mundo, julgar um “igual”, ainda que desconhecido, era mais difícil do que julgar alguém que já se acostumou a rotular de “escória”. Era injusto. Inconscientemente imoral. Mas a verdade é que, no final das contas, as coisas andavam mais lentas quando envolviam “gente honesta”.
Aquilo sempre revoltara Harry. Diversas vezes tinha exigido a agilização de processos, a investigação de denúncias... Mas parecia que a mentalidade dos funcionários do Ministério estava condicionada a acreditar que aquelas pessoas tinham sido mais vítimas da guerra do que seus atores. Por outro lado, o fato de nunca terem se perguntado se os comerciantes da Travessa do Tranco sofriam com as mesmas “coações”- com ou sem guerra - não parecia preocupá-los. Alguns membros do Ministério e gente influente do mundo dos negócios tinham ficado com um “pé-atrás” com Harry depois destas intervenções. Às vezes, ele ficava tão cansado daquilo tudo que pensava em se desassociar do Ministério. Mas Rony sempre o demovia da idéia, argumentando: “Se está ruim assim, imagine se não estiver por lá”.
No entanto, daquela vez não era nisso em que pensava enquanto caminhava com Rony e Ana pelas ruas do Beco Diagonal. O que tomava conta de seus pensamentos era Gina. A gravidez dela estava sendo mais tumultuada do que se poderia imaginar *. As novidades que Snape havia trazido não eram nada animadoras e estava dividindo suas preocupações com os amigos. Ou, pelo menos, dividindo os fatos, porque o que realmente estava sentindo... Isto ele guardava para si.
Mais tarde fariam relatórios para o restante da equipe. Tudo o que estava acontecendo ainda pesava sobre eles, que caminhavam silenciosos. Ana achou que o silêncio já havia durado demais, e que era hora de terem pensamentos mais alegres. Assim, perguntou, mesmo conhecendo a resposta:
- Vou almoçar com Colin e Luna. Querem vir comigo?
Eles olharam um para o outro, pensativos e franzindo o cenho. Em seguida voltaram-se para Ana, respondendo juntos:
- Não!
- Quer dizer... – Harry se apressou a explicar. – Nós gostamos muito da Luna e do Colin, você sabe...
- Mas não é “seguro” conversar com eles fora de um local “neutro”. Não para nós. – Rony completou, sem rodeios. – E a lanchonete do Pasquim é não exatamente “neutra”.
- É, Ana... Sinceramente, não estou a fim de dar outra entrevista para a Luna. E sabe que é isso que vai acontecer. Por alguma razão, por mais malucas que sejam as perguntas dela, não consigo deixar de responder.
- E o Colin deixa qualquer um zonzo. – Rony completou. – Às vezes acho que é uma estratégia deles: enquanto Colin desorienta, a Luna “solta” as perguntas... – riu.
- Se eu não soubesse que realmente são amigos deles, acharia que estavam sendo maldosos. – Ana também riu. – Tudo bem, então. A gente se vê mais tarde.
Talvez fosse melhor o Harry e o Rony conversarem sozinhos. Ana sabia que se ele não desabafasse com Rony, não o faria com mais ninguém.
Enquanto caminhava até o Pasquim, pensava na história do casal mais inusitado que se tinha notícia.
Colin havia levado a sério a paixão pela fotografia, e resolveu seguir carreira depois que deixou Hogwarts. Era pouco mais que um menino na época, não tinha experiência nenhuma e a situação econômica após a Guerra não era das melhores. O único lugar onde conseguiu um estágio foi no Pasquim.
Logo foi ganhando a confiança e o respeito das pessoas que trabalhavam lá, pois se interessava por tudo e aprendia rápido. Além disso, conseguia fotos incríveis porque, a exemplo do que já fazia na escola, não se importava onde teria que se dependurar para registrar as imagens que virariam as manchetes do dia. Colin esquecia-se de tudo o que não fosse o que via através de suas lentes, eternizando o momento.
Em poucos anos, virou um sucesso e até mesmo recebeu propostas de trabalho em outras revistas e jornais, mas recusou a todas, pois havia se afeiçoado ao Pasquim e tinha o senhor Lovegood como um pai e um mestre.
Luna, ao contrário, passava por maus bocados na redação. Ela começou a estagiar na mesma época que Colin, só que o fato de ser a filha do chefe não ajudou em sua imagem. As notícias que ela escrevia eram fantasiosas demais até para os padrões do Pasquim, e corria o boato entre os funcionários que ela só estava ali ainda porque era a “queridinha do papai”.
Eles eram o oposto um do outro. Ninguém diria que um dia fariam um casal. Ele era elétrico, impaciente, prático. Ela, observadora, calma e sonhadora a ponto de ser excêntrica. Bem... Talvez os trouxas, se os conhecessem, pudessem adivinhar que um dia isso aconteceria, porque trouxas conhecem uma lei da Física que diz que “os opostos se atraem”.
No entanto, Luna realmente tinha um bom faro para notícias. Só precisava aprender a usá-lo de forma mais objetiva. Colin percebeu isso e tentou ajudá-la, porém ela reagiu de forma irritada. Nunca fora uma pessoa rancorosa, mas a maneira com que a tratavam naqueles anos todos, mesmo sendo ela a primeira a chegar e a última a sair, e ainda por cima ver que Colin se tornara o braço direito de seu pai... Puxa, ela tinha orgulho próprio e sabia que teria que fazer as coisas sozinha se quisesse conquistar o respeito daquelas pessoas!
Então, Colin armara um plano.
Tentava chamar a atenção dela para as matérias que considerava mais “sérias”, o que queria dizer aquelas que ele considerava com mais chances de serem verídicas. Fazia isso de diferentes formas, como deixando os textos mais visíveis na mesa dela, tocando nos assuntos “casualmente”... E a estratégia dera certo. À medida que Luna concentrava sua atenção em assuntos de fontes mais seguras, seus artigos começaram a ser lidos por mais e mais pessoas. E, de repente, ao dar uma chance à moça, percebeu-se o jeito fluente e leve com que ela escrevia e as coisas surpreendentes que, a princípio, ninguém notara.
Mas Colin não podia prever que o esquema que montara para Luna iria falhar. Um dia, chegara na redação apenas a tarde, pois cobrira um evento social até de madrugada no dia anterior. Encontrou o senhor Lovegood totalmente agitado. Não tinha a menor idéia de onde a filha tinha se metido. Eles tinham discutido naquela manhã sobre uma matéria que Luna teimava em cobrir. Mesmo sem a aprovação do pai, ela pegara suas coisas e partira deixando apenas um aviso de que iria averiguar a informação. E ninguém sabia onde ela estava, pois não tinha dito tudo ao pai e levara toda a documentação relativa à matéria consigo.
Quando o senhor Lovegood terminara de relatar o que tinha ocorrido, Colin pegou sua câmera e se dirigiu para fora do escritório do patrão daquele seu jeito elétrico. Antes que saísse o senhor Lovegood perguntou, surpreso, o que ele estava fazendo, e ele respondera:
- Luna vai precisar de um fotógrafo! – e sorriu, partindo antes que lhe fizessem mais perguntas.
Ele sabia onde Luna estava. Tinha “escondido” aquela notícia sobre bruxos das trevas na Grécia. Segundo as informações que Luna tinha, eles acreditavam ter descoberto antigos pergaminhos de Herpo, o Sujo**, que ensinavam como criar minotauros. Ou seja: magia negra e, se fosse verdade - o que Colin duvidava muito, pois Herpo nunca tinha criado minotauros – se, e tão somente “se”... Era magia poderosa.
Foi uma aventura e tanto, que não cabe contar aqui. Mas... Não é que Luna tinha razão?!? Havia um plano para criar um exército de minotauros!
Bem, resumindo a história: entre um encontro tumultuado e vários perigos, Luna lhe disse que tinha descoberto a pequena manipulação que sofrera naqueles meses. Havia resolvido fazer aquela viagem justamente para provar que não precisava da “seleção” dele para fazer suas matérias. Era perfeitamente capaz de averiguar os fatos por si mesma. E, com medo de que ela nunca mais o perdoasse, Colin acabara confessando que fizera aquilo porque a amava - o que chocou o próprio Colin, que não havia notado isso até aquele momento.
Depois de tudo isso, esperar-se-ia que qualquer mulher, mesmo que apaixonada, fosse fazer o fotógrafo sofrer um pouquinho por sua ousadia em tentar manipulá-la, ainda que com boas intenções. Mas não Luna Lovegood. Luna é sábia de uma forma que nós nunca entenderemos. Ela considerou que seria ridículo perder um tempo tão precioso com “picuinhas”: disse logo que o amava também, bem daquele seu jeito direto e sonhador que deixa as pessoas sem palavras.
Não é difícil imaginar o que aconteceu depois. Eles se casaram mais tarde, e formaram a melhor dupla repórter-fotógrafo que já se viu no mundo bruxo, dando inveja até ao Profeta Diário. E, quando o pai de Luna se aposentou, os dois assumiram a direção do Pasquim.
A história tinha sido contada a Ana pela própria Luna, quando se reencontraram meses antes. E ainda estava pensando nela quando se deu conta que já estava em frente ao Pasquim.
O almoço com os Creeveys (Ana ainda achava surpreendente pensar neles assim) estava sendo bem divertido. O casal precisava de ajuda sobre certos assuntos trouxas, tema da próxima capa da revista.
- O governo americano já admitiu que ele mesmo espalhou os boatos sobre a Área 51, Luna! – Ana insistia. – Foi o jeito que encontraram para encobrir os testes bélicos no Estado de Nevada.
- E quem garante que não estão mentindo também sobre isto?
Ana abriu a boca na intenção de retrucar, mas descobriu que era bem mais difícil do que pensava. Como explicar para Luna que a indústria bélica era algo bem mais concreto do que aliens? Além do que, nada mais lhe parecia tão impossível depois que descobrira que bruxos existiam.
- Como vai a Mel? – Colin soltou a pergunta daquele seu jeito afobado, e como se estivessem falando de amenidades o tempo todo. – Animada com a escola? Já sabe para que Casa foi?
“Que dupla”, pensou Ana, ainda atordoada. Talvez Rony tivesse razão.
- Bem, ela está a caminho de Hogwarts agora. – Ana sorriu ao lembrar da sobrinha. – Ah, e desculpe mais uma vez pela Mel, Colin... – acrescentou, sem jeito.
- Tudo bem. – o rapaz levantou uma das mãos em sinal de que não tinha se importado. – Acredite, ela não é a primeira “dos que leram” que tem esta reação.
Mel tinha ficado toda ansiosa quando os conheceu, mas se controlou bravamente, graças à prática que estava tendo em encontrar-se com personagens harrypotterianos... Que não eram personagens, mas pessoas de verdade! Até o momento em que ficou sabendo que os dois estavam casados: “Mas... Então você e Neville não ficaram juntos?”, a menina disse à Luna, visivelmente decepcionada.
Agora, e a despeito da afirmação anterior de que não se importava, Colin declarou:
- Sabe, às vezes eu tenho vontade de bater no Longbotton. – voltou-se para a esposa, o tom desconfiado agora: - Tem certeza que vocês nunca...
Luna revirou seus enormes olhos azuis:
- Colin, pela milionésima vez: nunca!
Definitivamente, almoçar com o casal Creevey não era nada aborrecido! Ana ainda estava tentando segurar o riso quando a atenção de Luna se fixou em algo que ela via pela janela da lanchonete:
- Aquele ali não é o Carlinhos?
Ana voltou-se na direção do olhar da amiga, vendo o marido sair de um hotel em frente ao Pasquim. O sorriso morreu em seu rosto ao perceber que ele estava acompanhado de uma mulher belíssima. Nenhum dos dois podia ver o interior do Pasquim de onde estavam, mas eles os viam perfeitamente. A jovem loira conversava animadamente enquanto lançava sorrisos sedutores para Carlinhos, que a ouvia atentamente. Então, ambos aparataram.
- Quem era a loira? – Colin perguntou.
- Não sei. – ela forçou um sorriso, tentando parecer despreocupada. – Deve ser uma daquelas autoridades em dragões que vivem visitando a reserva. – fez um gesto de irrelevância e trocou de assunto: - Bem, vocês também queriam saber sobre a Guerra no Iraque, não é?
Lutando contra o peso que parecia querer afundar seu estômago, Ana pôs-se a falar como se estivesse dando uma palestra sobre o assunto. As informações saíam automaticamente, sem emoção ou análise de fatos. Queria deixar aquela sensação incômoda de lado e ignorar as questões que sua mente teimava em lhe apresentar: por que Carlinhos não tinha lhe dito que viria ao Beco Diagonal? Quem era aquela mulher que falava com ele de forma tão íntima?
Estava tão concentrada em não “pensar no que estava pensando” que simplesmente não notou o olhar da ex-Corvinal, e a sombra de preocupação neles.
***
Após uma longa viagem, o Expresso de Hogwarts havia chegado a seu destino. O trem fora parando devagarzinho e apitando, como que a dizer a toda a estação de Hogsmeade que os alunos da escola de Magia e Bruxaria estavam de volta.
Mel pôs o rosto colado ao vidro da janela, mal podendo esperar para ver pelo menos aquele pedaço da única vila totalmente bruxa da Grã-Bretanha. O fato de não poder ver quase nada por causa do cair da noite não abalou seu entusiasmo e, quando se deu conta, Danna a estava chamando para descerem. As duas não tinham trocado muitas palavras durante a viagem e ouvir a voz dela, de repente, tinha sido uma surpresa.
Ao desembarcar, descobriu que Danna não estava mais atrás de si, como julgara. Agora estava novamente sozinha, no meio de uma confusão de pessoas e bagagens.
- Ora essa! – ouviu um vozeirão atrás de si.
Saindo detrás de uma das carruagens que partiam, um homem enorme conversava animadamente com um dos funcionários do trem.
- Só ele mesmo para se empanturrar de doces a ponto de passar mal! Que menino impossível! – ele riu, parecendo de ótimo humor.
Que espécie de fã Mel seria se não reconhecesse aquele mar de cabelos e barba embaraçados, os olhos bondosos no alto daquele corpanzil de meio-gigante? Nossa, ele era ainda maior do que tinha imaginado!
- Consigo identificar um menino espevitado quando o vejo. – ele falava com ares de grande entendido. – Com tantos anos de experiência em Hogwarts, a gente acaba desenvolvendo uma espécie de sexto sentido. Ele é um bom garoto, não tenho dúvidas, oh sim... Mas nasceu para se meter em confusão, logo se vê. – riu novamente, um misto de orgulho, censura e carinho na voz - O pai dele era igualzinho nesta idade, embora fossem os três amigos tresloucados dele que o colocavam em problemas. – algo na lembrança fez a animação de Hagrid diminuir um pouco. Mas logo recobrou o bom-humor: - Bem, mandei-o na frente com Madame Pomfrey. Espero que uma noite na enfermaria lhe sirva de lição...
A frase foi interrompida no meio, pois Hagrid quase atropelou uma criaturinha sorridente que o encarava maravilhada. O homem com quem conversava se despediu, voltando a seus afazeres. O primeiro pensamento do meio-gigante foi que, talvez, a menina tivesse sido vítima de um feitiço “imobilus”. O que era bem provável, porque os garotos pareciam estar ficando mais impossíveis com passar do tempo. No entanto, aqueles últimos oito anos haviam sido repletos de encontros com crianças exibindo este mesmo olhar para ele... Reconhecendo os “sintomas”, o Professor de Trato das Criaturas Mágicas olhou para os lados, verificando que ninguém os observava e, agachando-se um pouco, sussurrou para a “criaturinha”:
- Você é uma deles, não é? “Os que leram”.
Mel balançou a cabeça afirmativamente:
- Sou Mel Warmlling.
- A sobrinha de Ana! – o meio gigante sorriu, encantado. E acrescentou, maroto: - Quer dizer, agora é senhora Carlos Weasley, não é mesmo? Sua tia me disse que viria. Seja bem vinda!
- Obrigada, Hagrid. – ela sorriu. – Quer dizer, Professor.
- Não precisa me chamar assim. – ele riu. - Só quando estiver no terceiro ano, nas aulas de Trato das Criaturas Mágicas, certo? – depois dela balançar a cabeça afirmativamente, recomendou: - Muito bem, fique perto de mim, sim?
O meio-gigante ergueu-se, tocando uma sinetinha:
- Primeiro-anistas! Venham até aqui! Todos os primeiro-anistas! Por aqui!
Quando verificou que nenhum calouro tinha ficado para trás, ele conduziu-os até os barcos à beira do lago.
Aquele era o Lago Negro, o mesmo que fazia divisa com as terras de Hogwarts. Quantas maravilhas e aventuras aquele mesmo lago tinha proporcionado à Harry! Agora a superfície estava calma, refletindo a luz do luar, mas a menina sabia que em suas profundezas havia toda espécie de criaturas mágicas que nós, os trouxas, jamais imaginaríamos existir fora de nossas histórias infantis: como sereias e lulas-gigantes.
Como mandava a tradição, os alunos do primeiro ano faziam o caminho até a escola atravessando o lago. Era uma visão de sonhos, com os barcos deslizando suavemente pelas águas iluminadas pela lua e pelos lampiões segurados pelos alunos. Sentando-se perto do meio-gigante, ela se pôs a conversar com ele.
Hagrid lhe contou as novidades: com a Professora McGonnagal na Direção da escola, ele havia assumido como Diretor da Grifinória. “Muita responsabilidade”, ele dissera, sério, mas o orgulho de ter sido o escolhido era evidente.
O melhor de se conversar com Rubeo Hagrid é que você não precisa fazer esforço para manter a conversa. Era só sentar ao seu lado e deixar que ele falasse. E Mel estava tão nervosa que foi um alívio ter Hagrid lhe contando sobre Hogwarts, ou entremeando na conversa muitos “Olímpia disse que...”, e “Olímpia acha que...”.
Olímpia Máxime, a Diretora de Beauxbottons. A menina alargou o sorriso, pensando quanto tempo mais aqueles dois precisariam para ver que tinham nascido um para o outro e resolverem se casar de uma vez.
Ela estava de costas no barco. Naquela escuridão, só percebeu que estavam perto da margem quando as outras crianças começaram a olhar para cima, estupefatas. Virou-se, deparando-se com a edificação em pedra mais linda que tinha visto na vida.
- Oh, Meu... Deus! – Mel sussurrou ao vislumbrar o enorme castelo.
O castelo se constituía em um conjunto de construções antiqüíssimas, com várias torres apontando aqui e acolá. Visto assim, à noite e todo iluminado, era uma paisagem imponente. Ele era melhor que todos os contos de fada que ouvira, que todas as histórias de capa-e-espada que conhecia.
E o melhor de tudo: era igualzinho ao do filme ***. Ou melhor, o do filme era igual a este, pois o Castelo de Hogwarts já existia dezenas de séculos antes da computação gráfica de Hollywood criar o castelo que vimos nos cinemas.
- Façam fila dupla e me sigam. – Hagrid orientou.
Passaram pela entrada em forma de arco e caminharam durante algum tempo pelos corredores do castelo, até que pararam em frente a uma enorme porta de carvalho, acima de alguns degraus. Hagrid murmurou alguma coisa sobre eles estarem em boa companhia agora, e se retirou.
Foi quando ouviram uma voz, saindo sabe-se lá de onde:
- Bem vindos à Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts!
As crianças de trás tentavam ver quem estaria falando, mas inutilmente. Murmúrios de incompreensão foram ouvidos. Mel se colocou na ponta dos pés, tentando visualizar quem os recebia no lugar de Minerva McGonnagal. Seria algum dos fantasmas?
- Oh, desculpem! – a pessoa disse, dando uma risadinha: - “Ascendio” – e um homemzinho subiu rapidamente pelo ar, como se tivesse sido lançado, indo parar nos degraus mais altos da escada. – Eu sempre estou me esquecendo... – ele soltou mais uma risadinha.
- Flitwick... – Mel escutou uma ruivinha com várias sardas no nariz sussurrar ao seu lado. Quando olhou para a menina com um sorriso compreensivo, a ruivinha desviou o olhar, temerosa. Ela devia ser mais uma “dos que leram”, como diziam por ali.
- Eu sou o Professor Flitwick, leciono Feitiços. Sou também Vice-Diretor da escola, e Diretor da Corvinal. – ele fez uma pausa, olhando um por um com um sorriso. – Corvinal é uma das quatro Casas de Hogwarts, que são como as famílias dos estudantes enquanto estão aqui. Cada Casa tem seu próprio dormitório e sala, e uma mesa no Salão Principal. Vocês vão dormir, comer e assistir as aulas junto com os seus colegas de Casa. Quando entrarem no Salão Principal – ele indicou a porta fechada atrás de si – serão selecionados para uma delas: Corvinal, Lufa-Lufa, Grifinória ou Sonserina.
- Eu vou para a Sonserina, é claro. – Mel ouviu alguém comentar atrás dela. Virou-se discretamente e viu a loirinha aguada sussurrar para o seu “séqüito”: - É onde estão as pessoas de classe.
“Ah, que surpresa que essa aí queira ir para lá!”, pensou, revirando os olhos.
- Está na hora. – Flitwick anunciou. – Mantenham a fila e me sigam. – a um movimento de sua varinha, as pesadas portas se abriram, revelando o iluminado Salão Principal.
Os alunos seguiram o Professor de Feitiços, admirando o teto encantado. Ela não sabia para que lado olhar primeiro: o teto, as velas flutuando, os alunos em suas mesas, a mesa dos professores (Hagrid já estava lá e sorriu para ela), ou o banquinho com um... chapéu! O quanto não lhe custou não pular e gritar: “O Chapéu Seletor! O Chapéu Seletor!” Voltou-se para a ruivinha ao seu lado, esperando que ela compartilhasse a mesma empolgação. Mas ela mantinha os olhos em qualquer pessoa ou coisa que não fosse Mel, como se algo que ruim acontecesse caso o fizesse.
“Talvez eu tenha me enganado e ela seja só uma bruxa comum”, pensou Mel.
Como era esperado, um rasgo se abriu no Chapéu, como se fosse uma boca. O objeto estava vivo. Após alguns “pigarreios preparatórios”, ele começou a cantar:
Há mil anos fui encantado
E de uma missão incumbido:
Nenhuma criança deixar de lado,
Sem sua Casa ter escolhido.
Ponha-me em tua cabeça
E tua mente vasculharei.
Direi a Casa que te mereça
E aos teus iguais te juntarei.
É na Grifinória que morarás
Se fores corajoso e aventureiro.
Entre os leões viverás,
Junto aos de coração guerreiro.
Mas se à Justiça preferires
E a honra é tua qualidade,
Para a Lufa-Lufa deves ires:
A Casa da lealdade.
Se encontrar mente irrequieta,
Na Corvinal te colocarei.
Lá, onde o saber é a meta,
E a inteligência, a lei.
Caso a astúcia te guiar,
E se ao poder se destina,
Não tenho o que duvidar:
Pertences à Sonserina.
Que a divisão não te iluda:
Nenhuma é a melhor qualidade.
Se Hogwarts é chamada à luta,
Sua força é a diversidade.
Por isso, venhas até mim!
Juro que não irá doer.
Nenhuma escolha é ruim,
Não há o que temer.
O Salão irrompeu em aplausos ao final da canção. Inclinando a extremidade pontiaguda, a guisa de cumprimento, o Chapéu Seletor agradeceu modestamente: “Obrigado! Obrigado!”.
McGonnagal se levantou, e todos fizeram silêncio. A Diretora sorriu brevemente para Mel, que já havia conhecido no Beco Diagonal. Depois, com a costumeira postura elegante e formal, pôs-se a falar:
- Sejam bem-vindos, meus caros alunos! - mais palmas foram ouvidas - Sou a Diretora Minerva McGonnagal, e espero que sua passagem por Hogwarts seja agradável e proveitosa. - ela sorriu para os primeiro-anistas. Então, dirigindo-se aos alunos mais velhos, ela fez um gesto em direção aos novatos: - Estes são nossos novos membros. Logo eles pertencerão a uma de nossas Casas, e espero que os recebam com a deferência e o respeito cultivado nesta escola. – com um olhar severo por cima dos óculos, McGonnagal fez os alunos mais velhos entenderem que não falara aquilo apenas para ser gentil com os calouros.
Depois, dirigiu-se aos novatos:
- Devo avisar que, quando forem selecionados para suas Casas, seus atos se refletirão não só sobre vocês, mas também sobre elas. Seus méritos contarão pontos para sua Casa. Seus deméritos causarão a perda deles. – ela olhou para as quatro ampulhetas na parede e os alunos fizeram o mesmo. Então, finalizou sorrindo: - Ao final do ano, a Casa que tiver mais pontos vencerá a Taça das Casas.
Os alunos aplaudiram, entusiasmados, e se ouvia as pessoas nas mesas dizendo umas às outras: “Seremos nós!”, “Este ano ela é nossa!”, “Ninguém tira essa da gente!”.
- Bem, não vamos nos demorar mais. É hora de uma de nossas mais antigas e belas tradições: a Seleção das Casas!
Após uma nova salva de palmas, Flitwick estendeu o pergaminho com a lista dos nomes, chamando um por um. As Casas iam aos poucos sendo agraciadas com novos membros, fazendo festa cada vez que um dos novatos corria até a mesa de sua “família”.
“Acalme-se”, Mel se ordenava. “Você esperou muito por isso, não vai ter um treco logo agora!”.
- Bothwell, Caroline!
A garota de cachinhos dourados caminhou segura até o Chapéu, sentando-se no banquinho como se fosse o trono de uma rainha e o que estivesse sendo colocado sobre sua cabeça fosse uma coroa, e não o velho e gasto Chapéu Seletor.
- SONSERINA! – o objeto anunciou, após alguns segundos, e a menina sorriu, triunfante, caminhando até a mesa da respectiva Casa.
Mel franziu os lábios, irônica:
- Um Malfoy de saias, era só o que me faltava! – ela sussurrou para a ruivinha.
- Não devemos falar disso! – a outra sussurrou de volta, aflita.
“Então, ela realmente leu os livros”, pensou Mel. Antes que pudesse dizer que não pretendia fazer nada para ser expulsa do Mundo Mágico, Flitwick chamou:
- O´Riley, Christina!
A ruivinha se adiantou, sendo selecionada para a Corvinal.
- Warmlling, Mel!
“Já?”, pensou, dando o primeiro passo em direção ao banquinho. “Puxa, nem deu tempo para me preparar!”.
- Hum... – o Chapéu fez uma pausa reflexiva. – Temos mais uma leitora-fã de nosso mundo aqui. – Mel compreendeu a mensagem oculta nas palavras do Chapéu. – Não, não sou feito de nenhum material especial. Mantenho a “forma” só me cuidando mesmo: por isso não aparento ter mais que quatrocentos ou quinhentos anos. – ele informou, maroto, respondendo algo que ela queria saber há tempos, e fazendo-a abrir a boca, perplexa. – É, sei exatamente onde coloca-la. – ele “sorriu”, satisfeito: - Isso vai dar a maior confusão, mas não há dúvidas: você vai para...
***
- Corvinal?!? – Ana exclamou depois de ler a carta que a sobrinha lhe enviara ainda naquela noite. – Mas... Eu pensei...
- Que ela iria para a Lufa-Lufa? – Carlinhos sorriu, zombeteiro. – Amor, tava na cara! Do jeito que ela sempre quer saber de tudo...
- E daí? Mione também sempre quer saber de tudo, e foi para a Grifinória. Eu leio muito, mas o Chapéu me disse que sou uma lufa-lufa!
- Mas por razões diferentes, querida. Sempre tive a impressão que Hermione encarava os estudos como um soldado em um campo de batalha, ou seja, como um desafio a ser superado. Para estar preparada. E cada nota, uma conquista. Se for mesmo isso, não me admira que tenha ido para a Grifinória. Já você, aprecia a diversão por trás de cada conhecimento. – sorriu charmosamente para a esposa: - Bom-humor, típico da Lufa-Lufa. Mas Mel sempre está procurando o porquê das coisas. Como se o fato de não saber fosse um absurdo.
- Faz sentido...
- Veja pelo lado bom: pelo menos, não foi Sonserina! – ele provocou.
- Engraçadinho. – Ana torceu o nariz.
Carlinhos parecia muito tranqüilo enquanto se movia pela cozinha, abrindo armários e pegando as coisas para fazer chá para ambos. Analisando a expressão inocente dele desde que chegara em casa, quase se sentia culpada por aquelas desconfianças estarem passando por sua cabeça.
Desconfianças? Não, imagine! Ela era uma mulher adulta, formada... Não iria fazer o papel ridículo de sentir ciúmes do marido só porque ele estava conversando com uma mulher bonita! Nunca tinha sido possessiva, e sempre achou que isso acabava com qualquer relacionamento. Carlinhos a amava. E ela confiava nele. Afinal, que homem espera por uma mulher por oito anos, se não a ama de verdade? Por que procuraria outra mulher, logo agora que tinham se casado, e há tão pouco tempo?
Estava intrigada. Sim, era isso. Decidira-se: dera um nome para aquela sensação desagradável que a incomodava. Em outras ocasiões, tinha chamado aquela mesma sensação de “sexto sentido”, mas agora havia se convencido que era só curiosidade. Assim, sentia-se melhor ao ter que fazer a costumeira pergunta, só que com intenção diferente da usual:
- Como foi o trabalho hoje? – sem perceber, Ana prendeu a respiração, esperando a resposta.
- Normal... – ele respondeu, simplesmente.
Ana virou o rosto, tentando controlar o tremor que percorreu seu corpo. Então ele aparece no Beco Diagonal, em Londres, poucas horas depois de sair da Estação King´s Cross dizendo que iria direto para a Reserva de Dragões no País de Gales... E isso era “normal”. Não... Não podia ser o que estava pensando. Devia ter outra explicação para Carlinhos não ter lhe contado nada. Estava reagindo como uma simplória. No entanto, se fizesse mais perguntas despertaria suspeitas.
- E como foi seu dia? – ele perguntou.
- Almocei com Colin e Luna. – e ela acrescentou, observando a reação do marido: - Na lanchonete do Pasquim.
Mas Carlinhos não deu mostras de que a informação tivesse despertado alguma lembrança. Como a de ter estado em um hotel em frente, com uma mulher.
- E como estão eles? – ele perguntou enquanto lhe dava as costas para apanhar as xícaras no armário.
- Bem. – agora ela estava se esforçando para manter a voz firme. – Queriam que eu explicasse alguns acontecimentos recentes no mundo trouxa.
Carlinhos voltou-se para ela naquele momento, com uma caneca fumegante estendida. Notando o tremor nas mãos dela, ficou preocupado:
- Querida, o que houve? – ele ajoelhou-se a seu lado, tomando-lhe as mãos.
- Nada... É que lembrar de tudo aquilo... Estão sendo tempos difíceis para os trouxas. E, como analista de informações, eu tive contado com várias histórias de refugiados. Algumas de famílias, com bebês. E isso me lembrou a Gina e o Harry também... Eu me emocionei, só isso.
- Amor... – ele a beijou e a envolveu em seus braços. – Não fique assim. Nós estamos apenas averiguando se os sonhos da Gina têm algo de mais perigoso *. E, quanto aos horrores das guerras... Não podemos controlar tudo, eu bem sei disso. Estive no meio de uma, lembra? Mas fazemos o que pode ser feito. Você fez a sua parte. Está fazendo agora, como Auror. E o mundo está se tornando melhor com isso, mesmo que não note, mas está.
Ele a beijou novamente, enquanto Ana sentia uma onda de remorso por desconfiar dele.
- Eu... Vou tomar um banho.
- Não vai querer o chá? – ele perguntou, carinhoso.
- Hoje não.
Ana subiu as escadas sentindo o olhar preocupado de Carlinhos cravado em suas costas. “Preocupação com ela ou com o que ela poderia ter visto?”, uma vozinha teimava em ressoar na cabeça de Ana.
***
Arrastara-se até a mesa da Corvinal naquela manhã, um misto de desânimo e sono. As coisas em Hogwarts não estavam saindo exatamente como tinha imaginado. E olha que havia chegado na noite anterior!
Olhou para a mesa, repleta das mais variadas guloseimas. Pelo menos, a comida era boa.
Começou a tomar seu café da manhã lembrando-se do que Christina O´Riley havia lhe dito no dormitório feminino dos primeiro-anistas, enquanto se preparavam para dormir.
[Início de Flashback – Noite anterior, Torre da Corvinal, após o Banquete de Recepção]:
Christina a ignorava de uma forma inexplicável. Não tinha feito nada para a garota. Na realidade, até achara que ambas se dariam bem, já que haviam lido os livros: ou seja, compartilhavam um segredo, tinham algo em comum.
Mas ela se afastava de Mel sempre que podia. Assim que chegaram no dormitório, Christina escolheu a cama perto da janela, mas trocou rapidamente quando Mel pôs a mala dela em cima da cama ao lado. As outras garotas se olharam, constrangidas por terem presenciado a cena.
Em um momento em que ficaram sozinhas no dormitório, a ruivinha deixara o silêncio e tomara a iniciativa de falar com Mel:
- Ei. Warmlling! – ela chamara, olhando para os lados para ter certeza que as outras calouras não estavam voltando do banheiro.
- Eu tenho um primeiro nome, sabia? – respondera, amuada. Estava muito magoada com a garota.
- Sei, sim, mas... – a ruivinha enrubescera. – Desculpe, mas não podemos ser amigas. – diante do olhar arregalado de Mel, ela explicara, toda sem jeito e tropeçando nas palavras: - N-nós duas... Lemos, entende?
- Sim, é claro que eu entendo! – ela respondera, exasperada. – E o que é que tem?
- Tem que notei que você mal se agüenta, tentando fingir que não sabe de nada. Deixou escapar várias coisas lá embaixo!
- Você também! – tentara se defender.
- Só uma vez. – Christina respondera, embaraçada. – E não vai acontecer de novo. Não se eu ficar bem longe de você.
- O quê? – exclamara, indignada. – Está me culpando?
- Não! – a outra se apressara a negar, aflita. – Só que vai ser difícil se tiver alguém que conhece tudo e é tão fã... Quanto eu. – ela suspirou, cansada: - Olha, não tenho nada contra você, eu realmente sinto muito, mas... A pena por deixar a história dos... você-sabe-o-quê vazar é a Expulsão do Mundo Mágico! Não posso deixar que isso aconteça. Entenda: minha mãe é trouxa, meu pai é bruxo. Nós temos contato com... O que J.K. Rowling escreve... Por causa da família da minha mãe. Meu pai já tinha perdido as esperanças de que eu tivesse poderes, e ficou tão contente quando eu descobri que era uma bruxa, e recebi a Carta de Hogwarts! Ele só fala disso agora, ele... Espera muito de mim. Não posso decepcioná-lo sendo expulsa!
Ela achara que a garota era histérica, isso sim. Mas se era assim que queria...
- Não se preocupe... “O´Riley”. Não vou ficar perto de você mais do que o necessário. – respondera secamente, deitando-se em sua cama.
Apesar de abalada com a reação da garota, estava tão cansada que cochilara. Acordara com os sussurros das outras meninas, já em suas camas:
- O que vocês acham que a O´Riley tem contra a brasileira? – uma delas, Rose Chandler, perguntou.
- Brasileira? Mas ela fala igual a uma americana! – Elisa Coffman dissera.
- Meu irmão está no terceiro ano, na Grifinória, e disse que ouviu o Professor Hagrid falar que a tal da Mel é sobrinha de Ana Weasley. – informara Grizel MacQueen, de quem Mel não gostara nem um pouco.
- Weasley? – perguntara Rose. – A família que lutou na Guerra? De Ronald Weasley?
- Isso mesmo. – Grizel confirmara. – a tia dela é casada com o irmão dele, Carlos Weasley, aquele cara da Batalha dos Dragões.
- Uau! – Elisa exclamara. – Mas, o que isso tem com...?
- Vocês não acham estranho uma brasileira aqui, em Hogwarts? – Grizel perguntara com um suspiro baixo e impaciente.
- Então está insinuando que os Weasleys interferiram? – Rose questionara.
- Talvez. Mas é mais provável que a tia dela tenha feito isso. Ela é da família Smith, que são descendentes de Helga Hufflepuff.
- Nossa! Essa garota deve se achar, então! – Eliza concluíra com desprezo na voz, sendo seguida dos murmúrios de concordância das outras duas.
Mel se encolhera na cama, e o movimento fez as garotas se calarem e voltarem a dormir. Resolvera fingir que ainda estava dormindo, embora a sua vontade fosse dar uma lição naquelas mexeriqueiras. Mas o que iria dizer? Que era verdade, que realmente só tinha vindo para Hogwarts por causa da interferência da tia?
Pobre tia Ana... Jamais imaginou que estava causando problemas para ela quando falou com a Diretora McGonnagal. A menina sentira os olhos arderem, e chorara baixinho, escondida debaixo dos lençóis azuis que existiam em todo dormitório da Corvinal. Adormecera com os olhos ainda úmidos das lágrimas.
[Fim do flashback].
Seu ano em Hogwarts estava estragado. Fitava a comida apetitosa à sua frente sem realmente vê-la. Depois de tudo o que acontecera nas últimas vinte e quatro horas, ela duvidava que algo de bom acontecesse e compensasse os maus momentos. Provavelmente, só iria piorar dali por diante.
Se Sibila Trelawney soubesse dos pensamentos de Mel, teria dito que a garota tinha dons premonitórios.
Os alunos da mesa da Lufa-Lufa, a mesa mais próxima das janelas, começaram a se agitar. Ela levantou os olhos a tempo de ver um enorme pássaro branco atravessar o Salão, fazendo boa parte dos alunos se levantarem das mesas correndo e gritando. Na confusão, vários pratos e copos caíram no chão, seus conteúdos despejando-se sobre alguns dos alunos que ainda tinham permanecido sentados.
Paralisada em seu lugar, Mel assistiu com horror a ave pousar na sua frente, não derrubando mais coisas da mesa por milagre. Ou talvez não tivesse sido milagre, porque o animal largou um enorme pacote em seu colo, levantando uma das patas e estendendo a garra em sua direção. Ele ficou parado docilmente, encarando Mel como se esperasse que ela fizesse algo.
Seria treinado?
Vencendo o medo, ela se aproximou lentamente, e percebeu que havia uma carta presa ali, como os bruxos faziam com as corujas. Retirou-a, ainda receosa que o pássaro lhe bicasse ou fincasse as garras perigosamente grandes e afiadas nela.
- Uma Harpia! – Hagrid se aproximara, empolgado. – Também é chamado de “gavião-real”. Nunca vi um desses! Vivem na América Latina!
- Senhorita Warmlling, este pássaro é seu? – a Diretora McGonnagal aparecera ao seu lado, a expressão entre desconcertada e zangada com a confusão.
- Não... Mas acho que trouxe algo para mim. – respondeu, um tanto confusa e preocupada se teria se metido em mais alguma encrenca. Os outros alunos estavam parados a certa distância, olhando apreensivos para ave de cerca de um metro e vinte centímetros de altura, plumagem branca e com algumas penas levantadas na cabeça, como em um cocar.
Olhou para o envelope, reconhecendo a letra nele. Era de sua mãe. Leu rapidamente as primeiras linhas da carta. Levantando os olhos para a Diretora, explicou, envergonhada:
- É dos meus pais... Me mandaram algumas coisas. – ela olhou para o pacote que a harpia deixara sobre a mesa.
- Ah, os bruxos brasileiros costumam usa-las para correspondência que precisam ser entregues a grandes distâncias. São mais resistentes. Como o Brasil é muito grande, eles as usam quase sempre. – Hagrid informara, ainda empolgado, alheio à apreensão a sua volta.
- É... – ela concordou, abaixando o olhar para a carta novamente. – É o que a carta diz.
Na carta, sua mãe dizia que Agatha havia lhes sugerido usar a harpia, e eles não hesitaram em comprar uma (para a infelicidade de Mel). Havia muitas delas na região do Rio Negro ****.
- Senhorita Warmlling, na próxima vez a ave terá que pousar do lado de fora. – McGonnagal avisou.
- Sim senhora. – ela abaixou a cabeça, constrangida.
- Como é o nome dela? – Hagrid ainda estava absorto na contemplação da ave.
- Dumbledore. – ela respondeu.
- Como? – McGonnagal perguntou, surpresa.
- A carta diz que foi este o nome que deram. Meu irmão o chamou assim... Porque ele é branco... “Albus”, em latim significa “branco”, como em Albus Dumbledore. Para nós, que falamos português, isso fica mais claro. – Mel estava se sentindo uma idiota. Como ela queria que um buraco se abrisse no chão para que ela se escondesse!
- Entendo... – McGonnagal disse vagamente. A lembrança do falecido amigo a emocionou, mas Minerva McGonnagal era durona. Não iria demonstrar isso assim, fácil. – Hagrid, por favor, leve o pássaro lá para fora e o alimente antes que comece a viagem de volta.
- Pode deixar, Professora! – o meio-gigante respondeu, todo contente e já fazendo a harpia ficar em pousada em seu braço direito. A pele dele devia mesmo ser bem mais resistente, para não precisar nem de luvas para se proteger das garras do pássaro.
Tão logo McGonnagal deu as costas, Grizel provocou:
- Ei, Warmlling! Não tinha uma ave maior? Quem sabe assim não chamaria mais atenção? – ela riu debochadamente, sendo acompanhada pelos que estavam próximos.
- Se acha que é tão emocionante assim, porque não fica com ela? – respondeu, lançando um olhar furioso para Grizel.
A ave não pareceu ter gostado muito da idéia, porque se agitou no braço de Hagrid, abrindo as asas e grasnando hostilmente para a outra menina, com toda a imponência de seus dois metros de envergadura.
- Calma, Dumbledore! Calma, rapaz! – o meio-gigante tentou acalma-lo.
Grizel deu um passo para trás, assustada, e se afastou. Hagrid viu que Mel estava pegando suas coisas e disse: - Não se preocupe, Mel, vou cuidar dele.
- Obrigada, Hagrid. – ela respondeu, triste. Rabiscou um bilhete para os pais e o prendeu novamente na pata da harpia. – Tchau, Dumbledore. Faça uma boa viagem. – ela afagou as penas surpreendentemente macias da ave e saiu do Salão Principal.
Ela caminhou até as árvores na beira do Lago Negro. Ainda tinha algum tempo antes da primeira aula. Havia perdido o apetite mesmo.
Mas que droga! Que onda de azar era essa? Estava dando tudo errado!
Pegando sua varinha, fez um feitiço de levitação razoavelmente bom com uma pedra de tamanho médio. Tinha treinado um pouco no trem, e descobrira que era boa em Feitiços. Em seguida, lançou a pedra a toda a velocidade no lago, desejando que toda a frustração que sentia fosse embora com a ela.
Em vez do barulho da pedra caindo no água, ouviu urro esquisito. Olhou na direção em que arremessara a pedra e viu um enorme tentáculo balançando acima da superfície do lago, segurando a mesma pedra que laçara. Com um impulso para trás, o tentáculo arremessou a pedra de volta, que por pouco não a atingiu. Um novo urro foi ouvido, e Mel podia jurar que era um de indignação.
- Desculpe! – gritou para a criatura. – De verdade! – acrescentou, como se assim o animal a entendesse.
Mordendo os lábios, viu que os poucos alunos que se arriscavam a dar um passeio antes da primeira aula a olhavam divertidos e rindo.
“Ótimo Mel! Perfeito mesmo! Agora nem mesmo a carente da Lula Gigante vai querer ser sua amiga!”, resmungou para ela mesma.
- Warmlling! – ouviu Rose Chandler chamar.
- O que é? Esqueceram de zoar com mais alguma coisa? – Mel respondeu, agressiva.
- Ai, deixa de ser grossa, garota! – Rose devolveu, também agressiva. – Vim aqui te fazer um favor. Sua tia não é Auror?
- É sim... – franziu o cenho, preocupada. – O que é que tem?
- Achei que isso pudesse te interessar. – Rose lhe estendeu o Profeta Diário e saiu, ainda brava.
A manchete do jornal fez Mel gelar: “Fuga em Azkaban”. *
--------------------------------
Notas
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* Ler “Harry Potter e o Retorno das Trevas”, de Sally Owens, na Floreios e Borrões.
** Ler “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, p. 24-25: Herpo, o Sujo, era um bruxo das trevas grego que teria descoberto que um ovo de galinha chocado por um sapo gerava um Basilisco.
*** Em “Conversa com J.K. Rowling”, de Lindsey Fraser, a autora de Harry Potter, quando perguntada se estava feliz com o fato de Harry Potter ter virado filme, conta que: “Eles me forneceram muito material, mandaram mapas e desenhos de Hogwarts para assegurar que, quando o castelo aparecesse no filme, ficasse bem parecido com o que eu tinha em mente.”.
**** National Geographic Brasil, edição de fevereiro de 2006, p. 56.
***************
(N/A): Já se, já sei! Tem gente querendo me matar pela megademora, né? Desculpem, mas não fazem idéia da loucura que anda a minha vida. Nada demais, só trabalho mesmo... E a pior crise de criatividade que eu já sofri na vida!
Graças a Deus, passou. Espero que o tamanho deste capítulo compense o atraso.
E antes que alguém me diga: “o que te deu para maltratar assim a Ana e a Mel?”, eu respondo: o mesmo que deu na JK quando ela matou o Sirius e o Dumbledore, hehehe! Tô brincando!
Espero que eu não tenha viajado. Quer dizer... Não tenha viajado “muito”. Mas... quer saber? Apesar de tudo (inclusive a falta de imaginação que estava travando tudo), até que eu gostei de escrever este. Foi muito divertido. Sei lá, foi um prazer diferente de todos os outros capítulos que eu já escrevi.
Ah, o capítulo iria se chamar “Quando Nada Dá Certo” (sugestão da Bruxicca, depois de eu dizer para ela que eu não sabia como chamá-lo, e eu disse para ela que no capítulo trataria de: “sabe, quando nada dá certo?” Daí ela me disse: “Você acabou de me dizer o seu título”. Hehehe!). Mas daí o e-mail da Sally chegou (eu tinha pedido sugestões para ela antes de me encontrar com a Bruxicca no MSN), e, entre várias sugestões, tinha o “Harpias”. O primeiro estava tudo haver com o capítulo, ótimo mesmo. Mas o segundo não iria entregar de bandeja o conteúdo dele.
Então, ao pensarem no capítulo 5 do Segredo de Corvinal... Pensem que ele é aquele em que aparece a Harpia chamada “Dumbledore”, e é o que a Belzinha mostra como é “Quando Nada Dá Certo”, hehehe!
GENTE! Amei os comentários! Valeu mesmo. Obrigado mesmo para aqueles que não comentam, e lêem silenciosamente.
E, quem quiser... Já sabem: comentem! Os comentários estimulam a gente a escrever.
Brigadão, e até o próximo capítulo.

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E não é que a idéia da harpia ficou legal?
(Regina dando a mão à palmatória...
)
suas idéias realmente são ótimas! :palmas :palmas
mas já tô com peninha da Mel... será que ela não vai conseguir fazer amigos?
bem, torcendo pra que "tudo dê certo"...
(e já vi que vou ter que ler a da Sally... enfim
)
(Regina dando a mão à palmatória...
suas idéias realmente são ótimas! :palmas :palmas
mas já tô com peninha da Mel... será que ela não vai conseguir fazer amigos?
bem, torcendo pra que "tudo dê certo"...
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Parabén Bel, fiquei bastante satifeita com esse capitulo, e, mesmo considerando que ele se passa no "Universo Potteriano" está bem realista.
A maioria das fics que mostram alunos que vivem no mundo trouxa, ou até mesmo no mundo bruxo, se adaptando perfeitamente em Hogwarts, o que é muito difícil de acontecer, pois estão encarado uma nova realidade. Mas nós sabemos que não é tão fácil assim. Estou gostando de ler e compreender as inseguranças de Mel, estou me identificando com ela. Já passei por isso, querer pertencer e não se sentir aceita. Se fosse na Lufa² teria sido bem diferente, o povo lá é bem mais agregário, heheh. Sabe quem ela está me lembrando dos livros? Neville Longbottom. Não sei porque.
Ah, o jeito que a Harpia foi inserida foi perfeito, parabéns. E Hagrid está fofíssimo como sempre.
Quanto a Ana tenho de parabenizar novamente. Pontos para você em mostrar que o casamento nem sempre é um mar de rosas, que existe desconfianças e conflitos. Parece que o "monstro de olhos verdes" está começando a tomar conta de Ana.
Creevey e Luna! Nunca imaginei isso. Foi bonitinha a história dos dois, realmente foi uma surpresa.
Novamente parabéns Belzinha. :palmas :palmas :palmas
A maioria das fics que mostram alunos que vivem no mundo trouxa, ou até mesmo no mundo bruxo, se adaptando perfeitamente em Hogwarts, o que é muito difícil de acontecer, pois estão encarado uma nova realidade. Mas nós sabemos que não é tão fácil assim. Estou gostando de ler e compreender as inseguranças de Mel, estou me identificando com ela. Já passei por isso, querer pertencer e não se sentir aceita. Se fosse na Lufa² teria sido bem diferente, o povo lá é bem mais agregário, heheh. Sabe quem ela está me lembrando dos livros? Neville Longbottom. Não sei porque.
Ah, o jeito que a Harpia foi inserida foi perfeito, parabéns. E Hagrid está fofíssimo como sempre.
Quanto a Ana tenho de parabenizar novamente. Pontos para você em mostrar que o casamento nem sempre é um mar de rosas, que existe desconfianças e conflitos. Parece que o "monstro de olhos verdes" está começando a tomar conta de Ana.
Creevey e Luna! Nunca imaginei isso. Foi bonitinha a história dos dois, realmente foi uma surpresa.
Novamente parabéns Belzinha. :palmas :palmas :palmas
Ser gentil e respeitar os outros não é sinônimo de fraqueza
Vivam um dia de cada vez.
Sejam legais uns com os outros (Bill & Ted)

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- Sally Owens
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Heiiiiii! Eu nunca tinha comentado aquiiiii!
Que gafe horrível, imperdoável, inaceitável! #-o
Sally má!
Vou prender minhas orelhas no forno agora mesmo!
Estou com saudade, Belzinha, Snif! Quando sai o capítulo 6?
Você sabe o quanto eu adoro os seus "Segredos", não sabe?
Amo o que você escreve. :palmas :palmas
Fique boa logo, amiga!
Beijão!!!
Que gafe horrível, imperdoável, inaceitável! #-o
Sally má!
Estou com saudade, Belzinha, Snif! Quando sai o capítulo 6?
Você sabe o quanto eu adoro os seus "Segredos", não sabe?
Amo o que você escreve. :palmas :palmas
Fique boa logo, amiga!
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- Danna O'Brien
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(N/A): Puxa, obrigada pelos comentários! Valeu gente! Obrigada!
6. O Retrato de Ravenclaw
Estava uma pilha. Sentia-se um monte de caquinhos. Como se algo o tivesse atropelado. Rony tinha passado a noite em vigília no hospital, tomando conta dos três amigos. Isso, depois de uma fuga muito bem orquestrada, onde Lucius Malfoy e alguns outros comensais haviam sido libertados de Azkaban. *
Sim, porque ele tinha certeza que os fugitivos tinham tido ajuda externa de algum cretino da mesma laia do Malfoy. Quem? Rony não tinha a menor idéia.
Olhou novamente para o amigo, na cama ao lado. Harry comentara algo sobre saber quem, mas... Apagou antes que pudesse lhe dizer. Aliás, tudo aconteceu muito rápido, desde o princípio. Mal tiveram tempo para pensar.
O chamado do Ministério fora feito no meio da noite, informando que Azkaban passava por sua primeira “rebelião”. Sem os dementadores como carcereiros, outras defesas haviam sido postas na mais famosa prisão dos bruxos. E cada uma delas havia falhado daquela vez.
Todas, exceto a barreira natural da ilha, que a isolava do continente. Ninguém podia chegar até lá aparatando. Não havia como usar a Rede de Pó-de-Flu. Vassouras especiais eram usadas para se chegar até lá, voltando tão logo seu passageiro desembarcasse, e só reapareceriam com um feitiço convocatório devidamente somado a uma senha secreta. Por isso os prisioneiros ainda estavam confinados em Azkaban, sem ter como sair, embora houvessem assumido o seu controle.
Então, os Aurores haviam sido chamados para repelir o plano dos rebelados, qualquer que fosse ele. Sim, porque naquele momento ninguém sabia como pretendiam burlar o feitiço anticonvocatório e sair da Ilha. No entanto, mesmo os Aurores sendo tão bem treinados, mesmo conhecendo muito bem o modo de agir de cada um dos envolvidos – Harry e ele mais do que qualquer outro, graças a experiência que haviam acumulado desde a juventude encarando estes mesmos prisioneiros – ainda assim haviam caído em sua armadilha, sendo atraídos para uma emboscada. Tiveram que assistir, impotentes, enquanto Malfoy e sua corja eram libertados.
E essa era a história de como ele fora parar naquela Ala Hospitalar do St. Mungus, com os três amigos precisando de cuidados médicos. Agora, Ana estava dormindo graças ao efeito colateral de uma poção revigorante; e Tonks e Harry estavam desacordados: a metamorfaga, por causa de uma concussão na cabeça, e o amigo graças à perda de sangue por um ferimento em suas costelas.
Rony estava tão perdido em seus pensamentos, a mente vagando em uma mistura de cansaço e preocupação, que não notou que Ana abrira os olhos lentamente. Quando se deu conta do fato, ela já havia visto a expressão preocupada no rosto dele. Rony tentou disfarçar sua aflição com um ar divertido bem pouco convincente. No entanto, antes que pudesse pensar em algo engraçado para dizer, ela indagou, ainda confusa:
- O que aconteceu?
- Você sofreu uma “Cruciatus”. – não adiantava mesmo, Rony teve que admitir, frustrado: ele só sabia ser direto.
- Azkaban! - um brilho de reconhecimento passou pelos olhos de Ana. E ela suspirou, impaciente, enquanto sentava-se na cama: - Cruciatus, você disse? Detesto quando isso acontece!
Rony abriu um daqueles seus famosos sorrisos enviesados. Se conhecia a cunhada, o que viria a seguir seria a preocupação com os outros amigos.
Bingo! Ela olhou em volta, vendo Tonks com um curativo em volta da cabeça em uma cama, e Harry, parecendo extremamente pálido em outra.
– Eles... – Ana abriu muito os olhos, a face tomada pela preocupação.
- Vão ficar bem – apressou-se a responder. – Os medibruxos que cuidaram deles disseram que Tonks vai acordar daqui a pouco. Harry perdeu muito sangue, vai demorar um pouco mais para se recuperar, mas vai ficar bem.
- Aquela escória... – Ela disse mais algumas palavras baixinho, em português, com um brilho raivoso nos olhos. - E você? Está ferido?
- Ah, você me conhece... – Ele fez aquela expressão cheia de si. – Eu sei me cuidar... Não se preocupe.
- Não me preocupar? – Ela ergueu uma das sobrancelhas, um sorriso zombeteiro começando a aparecer nos lábios. – E quem vai me salvar da Molly se algo te acontecer?
Rony revirou os olhos:
- Ana, peloamordemerlin, põe uma coisa na sua cabeça: a gente não é mais criança. Na verdade, somos até mais velhos que você.
- Detalhes, Rony, detalhes! – Ela balançou a mão displicentemente no ar, como que a realçar o que estava falando. - Para mim vocês sempre serão aquelas crianças viajando no Expresso de Hogwarts, indo para seu primeiro ano escolar. – Então seus olhos pousaram em Harry, e voltou a ficar séria: - Malfoy escapou, não é mesmo?
- Sim – o sorriso sumiu no rosto dele também.
O silêncio foi tamanho que, se não fosse pela movimentação constante das curandeiras no quarto, poderia se ouvir uma agulha caindo no chão.
- Bem... – Rony resolveu quebrar o silêncio. – É melhor eu ir falar com o pessoal lá fora. Devem estar com os nervos à flor da pele. – Um sorriso iluminou novamente seu rosto, antes de acrescentar: - Mas eu é que não ia aparecer na frente do Carlinhos sem ter uma boa notícia sobre você. Aliás, estava só esperando que acordasse para ir lá. Imagine, até os medibruxos estão tirando a sorte para ver quem vai “se arriscar” a chegar perto dele!
A brasileira abriu um sorriso tímido e ficou vermelha – o que era estranho quando se tratava da cunhada. “Apaixonados!”, Rony pensou enquanto saía, revirando os olhos.
Alguns minutos depois, Carlinhos entrou, trazendo no olhar aquela expressão que poucas vezes Ana tinha tido a oportunidade de ver no marido. Um misto de medo e de coragem forçada, típico de quem não quer que os outros vejam sua fragilidade. Ele manteve esta expressão enquanto procurava por ela no quarto, até que a avistou entre as últimas camas. Então, a expressão se suavizou, e o alívio era evidente ao vê-la sorrindo para ele, realmente bem.
Ana tivera alguma preocupação quanto a eles poucas horas antes? Se a resposta fosse positiva, a lembrança sumira de sua mente no momento que o vira, assim, tão... “seu Carlinhos”. Sim, tinha uma coisinha incomodando, lá no fundo, ela tinha que admitir. Mas, ora bolas, deixaria as preocupações para depois!
- Devia haver uma lei proibindo você sorrir desse jeito, sabia? – Ele perguntou, sentando-se na beirada da cama e tomando-lhe o rosto entre as mãos.
- Por que fariam uma lei assim? – Ela perguntou, abrindo ainda mais o sorriso.
- Minha cara senhora Weasley, não sabe as reações que pode causar em seu marido quando sorri assim?
- Hum... – ela fez um ar de quem agora estava compreendendo – Sei. Mas não tenho certeza de querer evitar tais reações...
- É mesmo? – Ele ergueu uma sobrancelha, fingindo estar surpreso – Se é assim... – aproximou o rosto dela, até que seus lábios se tocassem em um beijo cálido, como se tivesse medo de machucá-la.
Um pigarrear foi ouvido, e eles se separam, deparando-se com uma velha curandeira que os fitava com ar de desaprovação. Ela mostrou surpresa quando viu os rostos deles, como se estivesse achando a cena conhecida. Então, ela viu Harry na cama ao lado (quem não se lembraria de Harry Potter?), e comentou:
- Ah, claro, agora me recordo. – A expressão repreensiva e um tanto irônica poderia ser classificada em “snapeana”.
Carlinhos demorou mais para reconhecer a mulher do que Ana – afinal, para ele, o episódio tinha ocorrido há quase nove anos. Mas finalmente lembrou-se da curandeira que havia interrompido um outro beijo entre eles naquele mesmo hospital. **
- Meus jovens, quando vão aprender que isso é um hospital e não um daqueles barcos cheios de coraçõezinhos que existem nos parques de diversões dos trouxas?
“O Túnel do Amor”, a tal atração dos parques trouxas veio a mente de Ana, fazendo-a ter que se segurar para não rir da comparação feita pela mulher mais velha.
- Era exatamente isso que eu estava tentando explicar para a minha mulher, senhora. – Carlinhos falou, tentando não parecer tão “maroto” quanto estava se sentindo.
Diante da expressão imperturbável da curandeira, ele acrescentou, mais sério:
- Vamos nos comportar, prometo.
A mulher ergueu uma das sobrancelhas, indicando com este simples gesto que não havia acreditado na primeira e muito menos na segunda afirmação do tratador de dragões. Em seguida, virou-se e começou a dedicar sua atenção aos pacientes das outras camas. A forma digna com que caminhava fez Ana pensar que, se Minerva McGonnagal tivesse uma irmã, só poderia ser aquela velha curandeira.
- Talvez Rony tenha razão sobre vocês, sabe? Dá para sentir o cheiro do açúcar vindo de vocês daqui onde eu estou!
Tonks! Evidentemente ela tinha acordado há pouco tempo e presenciara a cena toda. E ainda por cima já estava bem o suficiente para fazer brincadeiras. Mas longe de se incomodar com uma resposta, Ana se apressou a analisar a aparência da amiga procurando sinais de cansaço e fraqueza, e questionou, preocupada:
- Como se sente?
- Além da dor de cabeça, você quer dizer? – Tonks piscou, indicando a atadura que dava voltas em sua cabeça.
“Ótimo, acho que isso responde minha pergunta”, pensou Ana.
Não muito tempo depois, o quarto foi “invadido” pelos Weasleys que já estavam lá fora: Molly, Arthur, Rony, Hermione e Gina. Além deles, Lupin é claro, que estava ansioso para ver a esposa. Apesar de toda a tragédia que acontecera, era muito bom ser paparicada por aquela família barulhenta e incrível. E, no final das contas, estavam todos vivos, graças a Deus! Nem todos os Aurores que haviam entrado em Azkaban naquela noite tinham tido esta sorte. O irônico (ou talvez nem tanto) era que ninguém se lembrou do Richard Oates, o Auror “pé-no-saco” que os tinha acompanhado*. Ele estava vivo, é claro. É impressionante como gente como ele sempre consegue ficar viva.
A única mácula no sentimento de alívio deles era Harry.
Ele ainda não tinha acordado quando Ana foi liberada. Conforme ela ouvira dos medibruxos, Harry provavelmente ficaria assim durante uns dias, mas se recuperaria. Não que Ana desconfiasse da capacidade dos medibruxos, mas, entre os trouxas, ficar inconsciente, ainda mais por tanto tempo, não era bom sinal. E lhe cortava o coração ver Gina, com aquele sorriso forçado, tentando mostrar-se forte e confiante...
Ainda pensava nisso quando Carlinhos e ela encontraram os gêmeos e Gui, com as respectivas esposas e filhos no corredor. Deviam estar indo visitar Harry. Após os cumprimentos “normais” entre adultos da mesma família, Ana se abaixou para cumprimentar as crianças da maneira que “ela” achava normal:
- Beijinho de esquimó! – Ela se aproximou primeiro de Sean, filho de Jorge; e depois de Kenneth, filho de Fred; repetindo em cada um o cumprimento que consistia em esfregar os narizes. As crianças se aproximaram muito seguras e contentes, demonstrando estarem familiarizadas com a saudação. Claro. O “beijinho de esquimó” era a forma especial de cumprimento entre eles.
E ela e Chantal, filha de Gui e Fleur também tinham um:
- Beijinho de borboleta! – Esse era bem mais delicado, bem apropriado para a loirinha: um encostar de narizes, com o piscar muito rápido dos olhos, imitando as asas de uma borboleta.
- Eu gostaria de saber onde você tira estas idéias, Ana! – Alicia, a esposa de Jorge perguntou, divertida.
- Ah! Apreendi com minha tia Helena – ela respondeu, se referindo à irmã mais nova de seu pai. Mas em seguida ela franziu o cenho, buscando uma memória distante: - Ou no programa da Xuxa, não tenho certeza...
Após alguns minutos, despediram-se e, enquanto se distanciavam do grupo, Ana ainda pôde ouvir Fred propor ao irmão apostarem quanto tempo Harry ficaria sem parar em uma Ala Hospitalar. Em seguida ouviu-o exclamar: “AI! Gui, porque você me bateu?” e “UI! Cátia, amor, você também?”.
Carlinhos e Ana sorriram, divertidos, e o olhar que lançaram um para o outro dizia: “Quando é que eles vão crescer?”.
Mas a sensação de felicidade não durou muito. Na recepção do hospital, havia vários familiares dos aurores que haviam morrido. Tristes, abatidos, alguns deles ainda deixando lágrimas caírem enquanto esperavam que as providências para a liberação dos corpos fossem feitas. Viram Quim Shacklebolt no meio deles, ajudando, consolando ou simplesmente dando apoio com a sua presença.
Podia sentir a dor daquelas pessoas, a atmosfera era tão carregada que, se os dementadores não tivessem sido extintos, dir-se-ia que estavam rondando o St. Mungus.
Ela queria se aproximar, ser capaz de dizer algo que os confortasse, ou ser útil de alguma forma, mas... Não podia. Quando pensara que eles tinham tido sorte em estarem vivos, não se conscientizara do impacto que a tragédia de Azkaban provocaria sobre as famílias. Talvez fosse a poção revigorante que ainda estivesse embotando seus pensamentos, ou ainda não estava tão recuperada quanto pensava, mas se sentia fraca e trêmula quando pensava que aquilo podia ser só o começo.
Malfoy escapara. Céus, o mais perigoso Comensal da Morte vivo estava solto. E, lembrando-se da figura obscura que conhecera na Mansão dos Riddle há oito anos, bem podia imaginar qual era o seu objetivo mais imediato e premente: Vingança.
- Vamos para casa – pediu em um sussurro para Carlinhos.
Casa. Tudo que ela queria era a segurança de seu lar agora, mesmo que uma dúvida de que talvez nenhum lugar fosse mais tão seguro assim começasse a se formar em sua mente.
O ruivo havia passado um braço em torno de sua cintura, dando-lhe apoio, tão logo sentiu os pequenos tremores. Abraçou-a protetoramente e lhe murmurou um “Vai ficar tudo bem”, antes de aparatarem.
***
A pequena corvinal faria todo o percurso até a sala de McGonnagal correndo, se não estivesse sendo escoltada por Argo Filch, o sádico zelador de Hogwarts. Mas estava. Infelizmente.
Conforme Filch, sua tia queria falar com ela pela lareira da sala de McGonnagal.
Sentira grande alívio ao ouvir aquilo. Sua tia estava bem e até mesmo iria falar com ela. Mesmo assim, não sabia sobre os outros e não se atrevia a explicar a situação para Filch, a fim de que ele se apressasse. Talvez estivesse sendo injusta com o zelador e ele só estivesse velho demais para se mover mais rápido, mas Mel tinha a impressão que a aflição dela o divertia, e por isso diminuía a velocidade de seus passos.
- Balaço – Filch disse para a estátua que ficava em frente à entrada para a sala da Diretora.
Ela ficou confusa por alguns instantes até perceber que coisas como “gota de limão” e “feijõezinhos de todos os sabores” eram senhas típicas de Dumbledore, mas que McGonnagal iria preferir coisas relacionadas ao quadribol, como grande fã do esporte que era.
Preocupação e ansiedade. Eram as únicas coisas que poderiam explicar porque aquela menina não estava soltando exclamações de admiração e excitamento por percorrer “aquele” caminho. Praticamente não se deu conta da escada girando e subindo, e nem de detalhe algum antes de irromper sala adentro:
- Onde ela está? Estão todos bem?
Filch emitiu um som de desaprovação frente ao comportamento. E também quanto ao fato dela só ter “explodido” fora de sua jurisdição: ou seja, na sala de McGonnagal, que certamente o proibiria de aplicar um castigo. Ainda contrariado, o velho zelador deixou a sala.
Minerva McGonnagal estava sussurrando algo de frente para a lareira, que ficava em um canto mais afastado da sala. Virou-se tão surpresa com a interrupção, que Mel ainda pôde captar o brilho de preocupação em seus olhos antes que a velha senhora tivesse tempo para disfarçar.
- Diretora...? – A menina se aproximou devagar, o tom baixo, como que a perguntar se estava tudo bem.
- Senhorita Warmlling, isto são modos de entrar em uma sala?
- Concordo plenamente com a Direitora McGonngal, Mel! – Ela ouviu a voz da tia ralhar. – Não foi essa a educação que a sua mãe te deu, tenho certeza!
- Tia! – A corvinal praticamente pulou de felicidade, ignorando as repreensões. As duas mulheres sorriram discretamente, relevando o comportamento daquela vez. A menina tinha razões para se preocupar. – Você está bem?
- Estou sim, querida. Vamos, não fique desse jeito, não aconteceu nada.
- E os outros? No Profeta Diário disseram que Tonks se feriu gravemente e que Harry pode... – ela não conseguiu terminar a frase.
- O QUÊ? Isso não é verdade, Mel. Tonks terá que ficar alguns dias de repouso, mas já está bem. Harry... Harry perdeu muito sangue, vai ficar mais tempo no hospital, mas já está fora de perigo também. Quem escreveu este artigo dizendo estes absurdos?
- Rita Skeeter – McGonnagal respondeu por Mel, um tom de desgosto e reprovação na voz.
- Ah! Isso faz sentido! Admira-me que logo você tenha levado a sério... – a Auror franziu o nariz, em uma atitude de desprezo cômico: - A “Skeeter”!
O jeito de falar da tia foi tão irônico que a menina não pôde deixar de abrir um pequeno sorriso. Sim, ela bem sabia como Rita Skeeter escrevia! Parecia que a jornalista tinha recuperado seu emprego no Profeta Diário e junto a sua reputação. Mas, entre os trouxas conhecedores da saga do “Menino-Bruxo”, o nome “Rita Skeeter” não inspirava confiança... Para dizer o mínimo. Aí estava “mais uma” interessadíssima em manter os livros de J.K. Rowling bem longe do Mundo Mágico!
- Que bom que estão todos bem! – Mel soltou um suspiro de alívio.
Ana sorriu também, e perguntou gentilmente:
- Mas e você? Está parecendo abatida. A Diretora McGonnagal me contou sobre a Harpia...
- É... – a menina limitou-se a dizer.
- Quer que eu peça para eles comprarem uma coruja? – Sugeriu.
- Não! – Ela apressou-se a recusar. A tia iria dizer o motivo e os pais iriam se sentir péssimos ao saberem que tinham feito a filha passar por um momento constrangedor. – Dumbledore vai pousar do lado de fora de agora em diante. – E acrescentou em um sussurro, mas para si mesma: - Só espero que ele se lembre disso...
- Dumbledore? – Ana perguntou.
- O nome da harpia. Idéia do Lipe – explicou, em um tom de implicância bem conhecido entre os irmãos. – Meu irmão é brilhante, não é? Aliás, o conceito dele de me deixar a par do que acontece no mundo trouxa é dizer que eu estou perdendo a “melhor temporada de “CSI” de todos os tempos”.
***
Acomodada no meio de um monte de almofadas no sofá de sua sala, Ana pensava em como era bom ser paparicada. Tia Agatha havia mandado Rampell para ajudá-la com a casa e as refeições, mas o velho elfo doméstico dos Smiths simplesmente não a deixou se levantar.
E, depois do serzinho se desmanchar em lágrimas quando ela tentou pela milésima vez fazer alguma coisa, resignou-se a ficar no sofá descansando. Aqueles olhos elficos cheios de lágrimas sempre a venciam... Merlin, que Hermione a visse sentada como uma sultana enquanto um elfo trabalhava! A grifinória iria querer expulsá-la da F.A.L.E., com certeza.
Carlinhos chegou e se acomodou no sofá com ela, fazendo mil piadinhas sobre pedir conselhos a Rampell para descobrir como fazê-la obedecer. Puxando-a para o círculo de seus braços e apoiando-a em seu peito.
- E então? Tem notícias? – Ana perguntou depois de algum tempo.
- Papai me mandou uma coruja dizendo que Harry acordou esta manhã, e vai ficar mais alguns dias de repouso no hospital. Tonks continua em casa, de repouso também e...
- Olá! Iuhuuuuuuuu! Tem alguém em casa? – Uma voz totalmente desconhecida para Ana ressoou, vinda da lareira. Corrigindo: uma voz desconhecida, feminina e enjoativamente afetada.
O casal se aproximou da lareira, Carlinhos indo na frente. De onde estava, Ana pôde ver a cabeça de uma loira flutuando entre as chamas verdes e, sentido um baque no estômago, percebeu que era mesma mulher do Beco Diagonal.
- Felícia? – O ruivo disse, um tanto surpreso.
- Ah, olá, Carlinhos, querido!
Ana prendeu a respiração: “Acalme-se, garota. Aqui na Inglaterra eles chamam todo mundo de querido. Suba em um ônibus e até o cobrador vai te chamar de querida, não é nada demais...”.
Abandonou aquela linha de pensamento ao olhar novamente a mulher: um cobrador jamais lhe lançaria aqueles olhares lânguidos, como os que ela estava lançando para Carlinhos!
Deu um passo à frente, a expressão calma encobrindo um súbito impulso assassino dirigido àquela loira que se desmanchava em sorrisos para seu marido. Isso era absolutamente surpreendente: quando se tornara tão ciumenta?
A loira finalmente percebeu Ana ao lado de Carlinhos e seu movimento surpreso ao constatar mais alguém na sala lembrou ao ruivo que deveria apresentá-las:
- Felícia, esta é minha esposa, Ana Weasley. Ana, esta é Felícia Althorp. Felícia e o pai, Gerard Althorp também são estudiosos de dragões e estão no país para visitar a reserva em Gales.
- É um prazer, senhorita Althorp – Ana respondeu o mais polidamente que pôde.
- Igualmente, senhora Weasley. – A outra respondeu, visivelmente decepcionada por encontrar Carlinhos acompanhado pela mulher. – Bem, vejo que vim em má hora... – ela olhava para Ana, que usava um robe.
- Não se preocupe, Felícia. – Carlinhos respondeu, tentando ser gentil. – Ana só está de repouso hoje por ordem médica.
- Ah, nada de grave, eu espero...? – Para Ana, a voz dela dizia justamente ao contrário, e até possuía uma nota de esperança.
- Ah, não, agradeço a preocupação, senhorita Althorp. – Ela respondeu em tom tão afetado quanto a da outra. – Apenas descansando depois de um trabalho especialmente difícil, ontem, em Azkaban.
A loira fitou-a por alguns segundos, tentando entender:
- Azkaban...?
- Minha esposa é Auror, Felícia. Participou da operação de ontem em Azkaban. – Havia uma nota de orgulho e preocupação no ruivo.
Ana sorriu ternamente para o marido, sorriso este que desapareceu ao ouvir Felícia:
- Ah, sei, a tentativa de impedir as fugas... – A loira ressaltou a palavra “tentativa”. – Que pena! Eu vim até aqui justamente para convidar Carlinhos para um jantar que papai vai dar para alguns pesquisadores de nossa área. – Desta vez ressaltou o “nossa”. – Claro que a senhora também está convidada, mas meu pai e eu entenderemos que frente a suas ordens médicas... É uma pena.
O tom de felicidade contida na voz da loira teria sido imaginação sua?
- Não, não há o que sentir, senhorita Althorp. O ataque que sofri não foi forte o suficiente para me afastar de minhas atividades por mais que vinte e quatro horas. – Ana viu com satisfação o sorriso sumir do rosto dela também. – Os fugitivos escolheram a Auror errada para lançar uma Cruciatus.
A última declaração fora dita muito humildemente, mas continha uma mensagem bem clara. Uma espécie de código que as mulheres reconhecem imediatamente.
- Que ótimo! – Felícia disse, com animação forçada. – Então, vejo-os na sexta-feira, no restaurante do hotel em que papai e eu estamos hospedados. Até lá.
Eles despediram-se e, assim que a cabeça de Felícia sumiu da lareira, Ana voltou-se para o marido com uma das sobrancelhas erguidas, indicando que esperava algum comentário explicativo.
- O pai de Felícia foi meu orientador na Romênia. Aliás, ele é o diretor de uma das reservas de lá.
Então Carlinhos conhecia Felícia há muitos anos. Isso explicava a intimidade. Afinal, não estavam no Brasil onde todos se chamam livremente pelo primeiro nome.
- Foi impressão minha ou havia uma certa tensão aqui, momentos antes? – O ruivo perguntou, confuso.
- Tensão? Imaginação sua, claro. – Ela desconversou, ignorando o estreitar de olhos dele: - Acho que você é que está tenso, amor. As últimas vinte e quatro horas não foram fáceis. – Ela massageou os ombros dele para reforçar a idéia.
- Hum... – ele sorriu, puxando-a para si. – Acho que está tentando me enrolar.
- Capaz! – Ela respondeu em português, em seu sotaque sulista mais carregado. – Está claro que você precisa de uma boa xícara de chá inglês, meu marido. – Desta vez ela carregou na pronúncia britânica e sorriu, provocativa.
- Rampell pode trazer o chá! Rampell traz!
O casal deu um pulo com a chegada súbita do elfo. Tinham esquecido que ele estava na casa. Felicíssimo, estalou os dedos e uma bandeja com chá fumegante e diversos petiscos apareceu sobre a mesinha da sala.
- Ah, obrigado, Rampell... – Carlinhos disse. – É muita gentileza sua.
- Rampell muito feliz em servir seus senhores! – Os olhos do elfo brilhavam. - Os jovens mestres precisam de mais alguma coisa?
- Não, Rampell... É... – Ana não tinha certeza como dispensá-lo sem ofender a sensibilidade do velho elfo. – Não queremos afastá-lo por mais tempo de Smith House. Tia Agatha pode estar precisando...
O elfo deu um longo suspiro triste:
- Os amos de Rampell não ficam mais tanto tempo em Smith House... Rampell não tem quase nada para fazer! – Choramingou. Então pareceu ter uma idéia: - Jovem mestra deve descansar! Rampell vai fazer o jantar para jovem mestra! – E desapareceu novamente.
Ana e Carlinhos se entreolharam:
- Já percebeu que vai ser um custo o fazer voltar para Smith House, não é? – Carlinhos perguntou, mal contendo o riso diante da expressão desolada de Ana.
- Hermione me mata!
***
[Alguns dias mais tarde...]
Ah, que ótimo! Estava perdida... De novo.
Francamente, sabia que aquele negócio de escadas trocando de lugar o tempo todo não seria fácil, mas isso já estava ficando ridículo!
Tudo bem. Era só pegar o corredor ao fim desta escada. Vira Grizel andando por ele instantes antes, e devia ser... Ah, não!
A escada em que estava começara a se mover novamente, e o seu final se dirigia a um corredor totalmente desconhecido para ela.
- Pára! Fica aí! – Ela suplicava enquanto se segurava no corrimão. – Pára! Não, não! Volta para lá! Eu disse para lá!
Quando a escada finalmente parou (no lugar onde “a escada” queria, é claro), Mel desceu os últimos degraus, e firmou os pés no corredor. Voltando-se totalmente injuriada para os degraus, disse, com os lábios e olhos estreitados:
- Sua escada maluca! Você me atrasou para a aula... – terminou com um suspiro entre derrotado e incrédulo: - De novo!
Resolvendo começar a procurar o caminho o mais rápido possível, deu as costas para as escadas, ainda pensando: “Elas pareciam bem mais legais nos livros e no cinema, quando atrapalhavam os OUTROS”. Não estava achando nada engraçado agora.
Nunca tinha andado por aquele corredor do quarto andar antes. Bem, pelo menos, achava que estava no quarto andar... Ficara tão apavorada e depois tão indignada com a escada que não prestara atenção para onde estava indo.
Indignada... Com uma escada. Seria cômico se não estivesse em apuros por causa daquele monte de degraus temperamentais.
Já estava quase no fim do corredor quando se deparou com o retrato de uma jovem morena. Ele era quase do tamanho natural de uma pessoa e ocupava boa parte da parede. Nele, uma mulher morena, de pele alva e muito jovem era retratada. Sentada em frente a uma espécie de escrivaninha antiga, ela segurava um livro aberto sobre o colo e uma varinha. Tanto o livro – uma iluminura – quanto as vestes indicavam alguém de uma época longínqua.
Ela se afastou um pouco para ver melhor aquela mulher que lhe inspirava tanta simpatia, e percebeu que o quadro não estava sozinho. Havia outros quadros de ambos os lados: mais dois bruxos e uma bruxa. Um homem moreno e com uma cobra atrás de si. O outro, com uma armadura, espada e uma bola de cristal nas mãos. E uma jovem senhora loira, escrevendo em um pergaminho, o olhar bondoso a fitar o espectador. Cada um vestindo as cores de diferentes Casas de Hogwarts.
Não havia dúvidas: eram os retratos dos Fundadores.
Maravilhada em descobrir algo que os livros “Harry Potter” não contavam, ficou observando os quadros com um sorriso bobo nos cantos dos lábios, esquecendo-se até mesmo que estava atrasada. Estranho... Os quadros não se moviam. Por que logo os quadros dos Fundadores da escola eram “normais”?
Fixou seu olhar novamente no quadro da moça que vira primeiro. Não precisou de muito para concluir que a jovem morena era Rowena Ravenclaw: o ambiente que a cercava - muitos livros - e a corrente com um pingente em forma de ave que pendia em seu colo eram bem conclusivos. Rowena tinha um sorriso enigmático e o olhar de lado, a encarar o expectador como que indagando o que ele poderia lhe contar sobre o mundo. Era uma moça muito bonita, mas não de uma beleza exótica e impossível de ser alcançada. Era uma beleza serena. Mel sentiu que poderia ser amiga daquela moça de faces rosadas e traços delicados.
Finalmente, os olhos da corvinal pousaram sobre um símbolo em um dos cantos do retrato, quase apagado sobre o que seria a representação de uma folha de papel embaixo de vários livros empilhados na velha escrivaninha.
- Mas... Não é possível! – Ela sussurrou, os olhos arregalados e incrédulos fitando símbolo como que presos por ele.
- Er... Com licença... – uma voz muito suave fez Mel pular de susto.
Viu Danna O´Brian fitando-a de maneira indecisa por baixo do cabelo negro e brilhante que lhe caía sobre o rosto.
- O-oi! – Ainda estava se recuperando do susto, mas disse com sinceridade: - Que bom te ver de novo!
A morena mostrou um sorriso tímido e lançou um olhar rápido sobre o quadro, como que a perguntar-se o que teria prendido a corvinal ali. Mel entendeu o olhar e, mesmo que a pergunta não houvesse sido feita em voz alta, respondeu:
- É... Estranho. – Ela apontou para o símbolo, que consistia em vários anéis se entrelaçando. – O que o símbolo trouxa para o Átomo está fazendo no quadro de uma bruxa que viveu há mil anos?
- Átomo... – Danna balançou a cabeça, confusa. – Não sei do que está falando. – Lamentou. – Este é o símbolo celta para “Energia Mágica”.
- Tá brincando! – A corvinal arregalou os olhos e voltou rapidamente a cabeça para o quadro, como se esperasse ver ali qualquer outra coisa, algo que inicialmente tivesse confundido com o modelo Atômico. Mas, a não ser pelas extremidades pontiagudas das elipses, quando no símbolo trouxa elas eram curvilíneas, o símbolo era o mesmo. – Quer dizer que Rowena era celta?
- Não sei, mas... Isso não quer dizer nada. Quase todos os bruxos da Grã-Bretanha na época tinham ligação com... – a grifinória se interrompeu, assustada: - Ah, Merlim! A aula! O Professor vai me matar! – E saiu correndo por uma entrada lateral atrás de um enorme tapete persa.
“Como é que eu não vi esta coisa antes?”, Mel pensou. “Bem, pelo menos eu agora sei de um caminho para fora daqui”.
Por mais que tivesse tentado encontrar Danna para agradecer-lhe por ter mostrado a saída (ainda que não intencionalmente), a garota desaparecera novamente. Que coisa! Ela parecia muito boa nesse negócio de “sumir”.
Sua primeira aula era “Feitiços” com Flitwick. Ainda que o Diretor de sua Casa estivesse maravilhado com sua jovem aluna, a quem chamava de “Pequeno Prodígio”, não deixou de avisar que ela estava atrasada... Novamente. E que a Corvinal, por causa disso, perdera cinco pontos.
Era tudo o que ela precisava agora: mais um motivo para as garotas de sua própria Casa a olharem atravessado!
Abriu o livro na página que Flitwick mandara, e começou a ler. Pela primeira vez, não conseguiu se concentrar direito nos dizeres dos feitiços (todos muito fáceis dela memorizar, porque a maioria tinha origem latina). Seus pensamentos estavam em certo retrato no quarto andar e nos motivos que teriam levado o pintor a por um símbolo celta nele.
Aliás: teria sido um pintor? Como os quadros dos bruxos eram feitos, afinal? Mas, aqueles quadros não se moviam... Talvez tivessem sido feitos da maneira trouxa mesmo.
Uma coisa a ser pesquisa na biblioteca mais tarde: junto com símbolos celtas e Rowena Ravenclaw.
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NOTAS
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* Ler Harry Potter e o Retorno das Trevas, da Sally Owens, Capítulo 7. (E eu recomendo a leitura da fic toda, é maravilhosa!).
** Ler Harry Potter e o Segredo de Sonserina, Capítulo 20.
6. O Retrato de Ravenclaw
Estava uma pilha. Sentia-se um monte de caquinhos. Como se algo o tivesse atropelado. Rony tinha passado a noite em vigília no hospital, tomando conta dos três amigos. Isso, depois de uma fuga muito bem orquestrada, onde Lucius Malfoy e alguns outros comensais haviam sido libertados de Azkaban. *
Sim, porque ele tinha certeza que os fugitivos tinham tido ajuda externa de algum cretino da mesma laia do Malfoy. Quem? Rony não tinha a menor idéia.
Olhou novamente para o amigo, na cama ao lado. Harry comentara algo sobre saber quem, mas... Apagou antes que pudesse lhe dizer. Aliás, tudo aconteceu muito rápido, desde o princípio. Mal tiveram tempo para pensar.
O chamado do Ministério fora feito no meio da noite, informando que Azkaban passava por sua primeira “rebelião”. Sem os dementadores como carcereiros, outras defesas haviam sido postas na mais famosa prisão dos bruxos. E cada uma delas havia falhado daquela vez.
Todas, exceto a barreira natural da ilha, que a isolava do continente. Ninguém podia chegar até lá aparatando. Não havia como usar a Rede de Pó-de-Flu. Vassouras especiais eram usadas para se chegar até lá, voltando tão logo seu passageiro desembarcasse, e só reapareceriam com um feitiço convocatório devidamente somado a uma senha secreta. Por isso os prisioneiros ainda estavam confinados em Azkaban, sem ter como sair, embora houvessem assumido o seu controle.
Então, os Aurores haviam sido chamados para repelir o plano dos rebelados, qualquer que fosse ele. Sim, porque naquele momento ninguém sabia como pretendiam burlar o feitiço anticonvocatório e sair da Ilha. No entanto, mesmo os Aurores sendo tão bem treinados, mesmo conhecendo muito bem o modo de agir de cada um dos envolvidos – Harry e ele mais do que qualquer outro, graças a experiência que haviam acumulado desde a juventude encarando estes mesmos prisioneiros – ainda assim haviam caído em sua armadilha, sendo atraídos para uma emboscada. Tiveram que assistir, impotentes, enquanto Malfoy e sua corja eram libertados.
E essa era a história de como ele fora parar naquela Ala Hospitalar do St. Mungus, com os três amigos precisando de cuidados médicos. Agora, Ana estava dormindo graças ao efeito colateral de uma poção revigorante; e Tonks e Harry estavam desacordados: a metamorfaga, por causa de uma concussão na cabeça, e o amigo graças à perda de sangue por um ferimento em suas costelas.
Rony estava tão perdido em seus pensamentos, a mente vagando em uma mistura de cansaço e preocupação, que não notou que Ana abrira os olhos lentamente. Quando se deu conta do fato, ela já havia visto a expressão preocupada no rosto dele. Rony tentou disfarçar sua aflição com um ar divertido bem pouco convincente. No entanto, antes que pudesse pensar em algo engraçado para dizer, ela indagou, ainda confusa:
- O que aconteceu?
- Você sofreu uma “Cruciatus”. – não adiantava mesmo, Rony teve que admitir, frustrado: ele só sabia ser direto.
- Azkaban! - um brilho de reconhecimento passou pelos olhos de Ana. E ela suspirou, impaciente, enquanto sentava-se na cama: - Cruciatus, você disse? Detesto quando isso acontece!
Rony abriu um daqueles seus famosos sorrisos enviesados. Se conhecia a cunhada, o que viria a seguir seria a preocupação com os outros amigos.
Bingo! Ela olhou em volta, vendo Tonks com um curativo em volta da cabeça em uma cama, e Harry, parecendo extremamente pálido em outra.
– Eles... – Ana abriu muito os olhos, a face tomada pela preocupação.
- Vão ficar bem – apressou-se a responder. – Os medibruxos que cuidaram deles disseram que Tonks vai acordar daqui a pouco. Harry perdeu muito sangue, vai demorar um pouco mais para se recuperar, mas vai ficar bem.
- Aquela escória... – Ela disse mais algumas palavras baixinho, em português, com um brilho raivoso nos olhos. - E você? Está ferido?
- Ah, você me conhece... – Ele fez aquela expressão cheia de si. – Eu sei me cuidar... Não se preocupe.
- Não me preocupar? – Ela ergueu uma das sobrancelhas, um sorriso zombeteiro começando a aparecer nos lábios. – E quem vai me salvar da Molly se algo te acontecer?
Rony revirou os olhos:
- Ana, peloamordemerlin, põe uma coisa na sua cabeça: a gente não é mais criança. Na verdade, somos até mais velhos que você.
- Detalhes, Rony, detalhes! – Ela balançou a mão displicentemente no ar, como que a realçar o que estava falando. - Para mim vocês sempre serão aquelas crianças viajando no Expresso de Hogwarts, indo para seu primeiro ano escolar. – Então seus olhos pousaram em Harry, e voltou a ficar séria: - Malfoy escapou, não é mesmo?
- Sim – o sorriso sumiu no rosto dele também.
O silêncio foi tamanho que, se não fosse pela movimentação constante das curandeiras no quarto, poderia se ouvir uma agulha caindo no chão.
- Bem... – Rony resolveu quebrar o silêncio. – É melhor eu ir falar com o pessoal lá fora. Devem estar com os nervos à flor da pele. – Um sorriso iluminou novamente seu rosto, antes de acrescentar: - Mas eu é que não ia aparecer na frente do Carlinhos sem ter uma boa notícia sobre você. Aliás, estava só esperando que acordasse para ir lá. Imagine, até os medibruxos estão tirando a sorte para ver quem vai “se arriscar” a chegar perto dele!
A brasileira abriu um sorriso tímido e ficou vermelha – o que era estranho quando se tratava da cunhada. “Apaixonados!”, Rony pensou enquanto saía, revirando os olhos.
Alguns minutos depois, Carlinhos entrou, trazendo no olhar aquela expressão que poucas vezes Ana tinha tido a oportunidade de ver no marido. Um misto de medo e de coragem forçada, típico de quem não quer que os outros vejam sua fragilidade. Ele manteve esta expressão enquanto procurava por ela no quarto, até que a avistou entre as últimas camas. Então, a expressão se suavizou, e o alívio era evidente ao vê-la sorrindo para ele, realmente bem.
Ana tivera alguma preocupação quanto a eles poucas horas antes? Se a resposta fosse positiva, a lembrança sumira de sua mente no momento que o vira, assim, tão... “seu Carlinhos”. Sim, tinha uma coisinha incomodando, lá no fundo, ela tinha que admitir. Mas, ora bolas, deixaria as preocupações para depois!
- Devia haver uma lei proibindo você sorrir desse jeito, sabia? – Ele perguntou, sentando-se na beirada da cama e tomando-lhe o rosto entre as mãos.
- Por que fariam uma lei assim? – Ela perguntou, abrindo ainda mais o sorriso.
- Minha cara senhora Weasley, não sabe as reações que pode causar em seu marido quando sorri assim?
- Hum... – ela fez um ar de quem agora estava compreendendo – Sei. Mas não tenho certeza de querer evitar tais reações...
- É mesmo? – Ele ergueu uma sobrancelha, fingindo estar surpreso – Se é assim... – aproximou o rosto dela, até que seus lábios se tocassem em um beijo cálido, como se tivesse medo de machucá-la.
Um pigarrear foi ouvido, e eles se separam, deparando-se com uma velha curandeira que os fitava com ar de desaprovação. Ela mostrou surpresa quando viu os rostos deles, como se estivesse achando a cena conhecida. Então, ela viu Harry na cama ao lado (quem não se lembraria de Harry Potter?), e comentou:
- Ah, claro, agora me recordo. – A expressão repreensiva e um tanto irônica poderia ser classificada em “snapeana”.
Carlinhos demorou mais para reconhecer a mulher do que Ana – afinal, para ele, o episódio tinha ocorrido há quase nove anos. Mas finalmente lembrou-se da curandeira que havia interrompido um outro beijo entre eles naquele mesmo hospital. **
- Meus jovens, quando vão aprender que isso é um hospital e não um daqueles barcos cheios de coraçõezinhos que existem nos parques de diversões dos trouxas?
“O Túnel do Amor”, a tal atração dos parques trouxas veio a mente de Ana, fazendo-a ter que se segurar para não rir da comparação feita pela mulher mais velha.
- Era exatamente isso que eu estava tentando explicar para a minha mulher, senhora. – Carlinhos falou, tentando não parecer tão “maroto” quanto estava se sentindo.
Diante da expressão imperturbável da curandeira, ele acrescentou, mais sério:
- Vamos nos comportar, prometo.
A mulher ergueu uma das sobrancelhas, indicando com este simples gesto que não havia acreditado na primeira e muito menos na segunda afirmação do tratador de dragões. Em seguida, virou-se e começou a dedicar sua atenção aos pacientes das outras camas. A forma digna com que caminhava fez Ana pensar que, se Minerva McGonnagal tivesse uma irmã, só poderia ser aquela velha curandeira.
- Talvez Rony tenha razão sobre vocês, sabe? Dá para sentir o cheiro do açúcar vindo de vocês daqui onde eu estou!
Tonks! Evidentemente ela tinha acordado há pouco tempo e presenciara a cena toda. E ainda por cima já estava bem o suficiente para fazer brincadeiras. Mas longe de se incomodar com uma resposta, Ana se apressou a analisar a aparência da amiga procurando sinais de cansaço e fraqueza, e questionou, preocupada:
- Como se sente?
- Além da dor de cabeça, você quer dizer? – Tonks piscou, indicando a atadura que dava voltas em sua cabeça.
“Ótimo, acho que isso responde minha pergunta”, pensou Ana.
Não muito tempo depois, o quarto foi “invadido” pelos Weasleys que já estavam lá fora: Molly, Arthur, Rony, Hermione e Gina. Além deles, Lupin é claro, que estava ansioso para ver a esposa. Apesar de toda a tragédia que acontecera, era muito bom ser paparicada por aquela família barulhenta e incrível. E, no final das contas, estavam todos vivos, graças a Deus! Nem todos os Aurores que haviam entrado em Azkaban naquela noite tinham tido esta sorte. O irônico (ou talvez nem tanto) era que ninguém se lembrou do Richard Oates, o Auror “pé-no-saco” que os tinha acompanhado*. Ele estava vivo, é claro. É impressionante como gente como ele sempre consegue ficar viva.
A única mácula no sentimento de alívio deles era Harry.
Ele ainda não tinha acordado quando Ana foi liberada. Conforme ela ouvira dos medibruxos, Harry provavelmente ficaria assim durante uns dias, mas se recuperaria. Não que Ana desconfiasse da capacidade dos medibruxos, mas, entre os trouxas, ficar inconsciente, ainda mais por tanto tempo, não era bom sinal. E lhe cortava o coração ver Gina, com aquele sorriso forçado, tentando mostrar-se forte e confiante...
Ainda pensava nisso quando Carlinhos e ela encontraram os gêmeos e Gui, com as respectivas esposas e filhos no corredor. Deviam estar indo visitar Harry. Após os cumprimentos “normais” entre adultos da mesma família, Ana se abaixou para cumprimentar as crianças da maneira que “ela” achava normal:
- Beijinho de esquimó! – Ela se aproximou primeiro de Sean, filho de Jorge; e depois de Kenneth, filho de Fred; repetindo em cada um o cumprimento que consistia em esfregar os narizes. As crianças se aproximaram muito seguras e contentes, demonstrando estarem familiarizadas com a saudação. Claro. O “beijinho de esquimó” era a forma especial de cumprimento entre eles.
E ela e Chantal, filha de Gui e Fleur também tinham um:
- Beijinho de borboleta! – Esse era bem mais delicado, bem apropriado para a loirinha: um encostar de narizes, com o piscar muito rápido dos olhos, imitando as asas de uma borboleta.
- Eu gostaria de saber onde você tira estas idéias, Ana! – Alicia, a esposa de Jorge perguntou, divertida.
- Ah! Apreendi com minha tia Helena – ela respondeu, se referindo à irmã mais nova de seu pai. Mas em seguida ela franziu o cenho, buscando uma memória distante: - Ou no programa da Xuxa, não tenho certeza...
Após alguns minutos, despediram-se e, enquanto se distanciavam do grupo, Ana ainda pôde ouvir Fred propor ao irmão apostarem quanto tempo Harry ficaria sem parar em uma Ala Hospitalar. Em seguida ouviu-o exclamar: “AI! Gui, porque você me bateu?” e “UI! Cátia, amor, você também?”.
Carlinhos e Ana sorriram, divertidos, e o olhar que lançaram um para o outro dizia: “Quando é que eles vão crescer?”.
Mas a sensação de felicidade não durou muito. Na recepção do hospital, havia vários familiares dos aurores que haviam morrido. Tristes, abatidos, alguns deles ainda deixando lágrimas caírem enquanto esperavam que as providências para a liberação dos corpos fossem feitas. Viram Quim Shacklebolt no meio deles, ajudando, consolando ou simplesmente dando apoio com a sua presença.
Podia sentir a dor daquelas pessoas, a atmosfera era tão carregada que, se os dementadores não tivessem sido extintos, dir-se-ia que estavam rondando o St. Mungus.
Ela queria se aproximar, ser capaz de dizer algo que os confortasse, ou ser útil de alguma forma, mas... Não podia. Quando pensara que eles tinham tido sorte em estarem vivos, não se conscientizara do impacto que a tragédia de Azkaban provocaria sobre as famílias. Talvez fosse a poção revigorante que ainda estivesse embotando seus pensamentos, ou ainda não estava tão recuperada quanto pensava, mas se sentia fraca e trêmula quando pensava que aquilo podia ser só o começo.
Malfoy escapara. Céus, o mais perigoso Comensal da Morte vivo estava solto. E, lembrando-se da figura obscura que conhecera na Mansão dos Riddle há oito anos, bem podia imaginar qual era o seu objetivo mais imediato e premente: Vingança.
- Vamos para casa – pediu em um sussurro para Carlinhos.
Casa. Tudo que ela queria era a segurança de seu lar agora, mesmo que uma dúvida de que talvez nenhum lugar fosse mais tão seguro assim começasse a se formar em sua mente.
O ruivo havia passado um braço em torno de sua cintura, dando-lhe apoio, tão logo sentiu os pequenos tremores. Abraçou-a protetoramente e lhe murmurou um “Vai ficar tudo bem”, antes de aparatarem.
***
A pequena corvinal faria todo o percurso até a sala de McGonnagal correndo, se não estivesse sendo escoltada por Argo Filch, o sádico zelador de Hogwarts. Mas estava. Infelizmente.
Conforme Filch, sua tia queria falar com ela pela lareira da sala de McGonnagal.
Sentira grande alívio ao ouvir aquilo. Sua tia estava bem e até mesmo iria falar com ela. Mesmo assim, não sabia sobre os outros e não se atrevia a explicar a situação para Filch, a fim de que ele se apressasse. Talvez estivesse sendo injusta com o zelador e ele só estivesse velho demais para se mover mais rápido, mas Mel tinha a impressão que a aflição dela o divertia, e por isso diminuía a velocidade de seus passos.
- Balaço – Filch disse para a estátua que ficava em frente à entrada para a sala da Diretora.
Ela ficou confusa por alguns instantes até perceber que coisas como “gota de limão” e “feijõezinhos de todos os sabores” eram senhas típicas de Dumbledore, mas que McGonnagal iria preferir coisas relacionadas ao quadribol, como grande fã do esporte que era.
Preocupação e ansiedade. Eram as únicas coisas que poderiam explicar porque aquela menina não estava soltando exclamações de admiração e excitamento por percorrer “aquele” caminho. Praticamente não se deu conta da escada girando e subindo, e nem de detalhe algum antes de irromper sala adentro:
- Onde ela está? Estão todos bem?
Filch emitiu um som de desaprovação frente ao comportamento. E também quanto ao fato dela só ter “explodido” fora de sua jurisdição: ou seja, na sala de McGonnagal, que certamente o proibiria de aplicar um castigo. Ainda contrariado, o velho zelador deixou a sala.
Minerva McGonnagal estava sussurrando algo de frente para a lareira, que ficava em um canto mais afastado da sala. Virou-se tão surpresa com a interrupção, que Mel ainda pôde captar o brilho de preocupação em seus olhos antes que a velha senhora tivesse tempo para disfarçar.
- Diretora...? – A menina se aproximou devagar, o tom baixo, como que a perguntar se estava tudo bem.
- Senhorita Warmlling, isto são modos de entrar em uma sala?
- Concordo plenamente com a Direitora McGonngal, Mel! – Ela ouviu a voz da tia ralhar. – Não foi essa a educação que a sua mãe te deu, tenho certeza!
- Tia! – A corvinal praticamente pulou de felicidade, ignorando as repreensões. As duas mulheres sorriram discretamente, relevando o comportamento daquela vez. A menina tinha razões para se preocupar. – Você está bem?
- Estou sim, querida. Vamos, não fique desse jeito, não aconteceu nada.
- E os outros? No Profeta Diário disseram que Tonks se feriu gravemente e que Harry pode... – ela não conseguiu terminar a frase.
- O QUÊ? Isso não é verdade, Mel. Tonks terá que ficar alguns dias de repouso, mas já está bem. Harry... Harry perdeu muito sangue, vai ficar mais tempo no hospital, mas já está fora de perigo também. Quem escreveu este artigo dizendo estes absurdos?
- Rita Skeeter – McGonnagal respondeu por Mel, um tom de desgosto e reprovação na voz.
- Ah! Isso faz sentido! Admira-me que logo você tenha levado a sério... – a Auror franziu o nariz, em uma atitude de desprezo cômico: - A “Skeeter”!
O jeito de falar da tia foi tão irônico que a menina não pôde deixar de abrir um pequeno sorriso. Sim, ela bem sabia como Rita Skeeter escrevia! Parecia que a jornalista tinha recuperado seu emprego no Profeta Diário e junto a sua reputação. Mas, entre os trouxas conhecedores da saga do “Menino-Bruxo”, o nome “Rita Skeeter” não inspirava confiança... Para dizer o mínimo. Aí estava “mais uma” interessadíssima em manter os livros de J.K. Rowling bem longe do Mundo Mágico!
- Que bom que estão todos bem! – Mel soltou um suspiro de alívio.
Ana sorriu também, e perguntou gentilmente:
- Mas e você? Está parecendo abatida. A Diretora McGonnagal me contou sobre a Harpia...
- É... – a menina limitou-se a dizer.
- Quer que eu peça para eles comprarem uma coruja? – Sugeriu.
- Não! – Ela apressou-se a recusar. A tia iria dizer o motivo e os pais iriam se sentir péssimos ao saberem que tinham feito a filha passar por um momento constrangedor. – Dumbledore vai pousar do lado de fora de agora em diante. – E acrescentou em um sussurro, mas para si mesma: - Só espero que ele se lembre disso...
- Dumbledore? – Ana perguntou.
- O nome da harpia. Idéia do Lipe – explicou, em um tom de implicância bem conhecido entre os irmãos. – Meu irmão é brilhante, não é? Aliás, o conceito dele de me deixar a par do que acontece no mundo trouxa é dizer que eu estou perdendo a “melhor temporada de “CSI” de todos os tempos”.
***
Acomodada no meio de um monte de almofadas no sofá de sua sala, Ana pensava em como era bom ser paparicada. Tia Agatha havia mandado Rampell para ajudá-la com a casa e as refeições, mas o velho elfo doméstico dos Smiths simplesmente não a deixou se levantar.
E, depois do serzinho se desmanchar em lágrimas quando ela tentou pela milésima vez fazer alguma coisa, resignou-se a ficar no sofá descansando. Aqueles olhos elficos cheios de lágrimas sempre a venciam... Merlin, que Hermione a visse sentada como uma sultana enquanto um elfo trabalhava! A grifinória iria querer expulsá-la da F.A.L.E., com certeza.
Carlinhos chegou e se acomodou no sofá com ela, fazendo mil piadinhas sobre pedir conselhos a Rampell para descobrir como fazê-la obedecer. Puxando-a para o círculo de seus braços e apoiando-a em seu peito.
- E então? Tem notícias? – Ana perguntou depois de algum tempo.
- Papai me mandou uma coruja dizendo que Harry acordou esta manhã, e vai ficar mais alguns dias de repouso no hospital. Tonks continua em casa, de repouso também e...
- Olá! Iuhuuuuuuuu! Tem alguém em casa? – Uma voz totalmente desconhecida para Ana ressoou, vinda da lareira. Corrigindo: uma voz desconhecida, feminina e enjoativamente afetada.
O casal se aproximou da lareira, Carlinhos indo na frente. De onde estava, Ana pôde ver a cabeça de uma loira flutuando entre as chamas verdes e, sentido um baque no estômago, percebeu que era mesma mulher do Beco Diagonal.
- Felícia? – O ruivo disse, um tanto surpreso.
- Ah, olá, Carlinhos, querido!
Ana prendeu a respiração: “Acalme-se, garota. Aqui na Inglaterra eles chamam todo mundo de querido. Suba em um ônibus e até o cobrador vai te chamar de querida, não é nada demais...”.
Abandonou aquela linha de pensamento ao olhar novamente a mulher: um cobrador jamais lhe lançaria aqueles olhares lânguidos, como os que ela estava lançando para Carlinhos!
Deu um passo à frente, a expressão calma encobrindo um súbito impulso assassino dirigido àquela loira que se desmanchava em sorrisos para seu marido. Isso era absolutamente surpreendente: quando se tornara tão ciumenta?
A loira finalmente percebeu Ana ao lado de Carlinhos e seu movimento surpreso ao constatar mais alguém na sala lembrou ao ruivo que deveria apresentá-las:
- Felícia, esta é minha esposa, Ana Weasley. Ana, esta é Felícia Althorp. Felícia e o pai, Gerard Althorp também são estudiosos de dragões e estão no país para visitar a reserva em Gales.
- É um prazer, senhorita Althorp – Ana respondeu o mais polidamente que pôde.
- Igualmente, senhora Weasley. – A outra respondeu, visivelmente decepcionada por encontrar Carlinhos acompanhado pela mulher. – Bem, vejo que vim em má hora... – ela olhava para Ana, que usava um robe.
- Não se preocupe, Felícia. – Carlinhos respondeu, tentando ser gentil. – Ana só está de repouso hoje por ordem médica.
- Ah, nada de grave, eu espero...? – Para Ana, a voz dela dizia justamente ao contrário, e até possuía uma nota de esperança.
- Ah, não, agradeço a preocupação, senhorita Althorp. – Ela respondeu em tom tão afetado quanto a da outra. – Apenas descansando depois de um trabalho especialmente difícil, ontem, em Azkaban.
A loira fitou-a por alguns segundos, tentando entender:
- Azkaban...?
- Minha esposa é Auror, Felícia. Participou da operação de ontem em Azkaban. – Havia uma nota de orgulho e preocupação no ruivo.
Ana sorriu ternamente para o marido, sorriso este que desapareceu ao ouvir Felícia:
- Ah, sei, a tentativa de impedir as fugas... – A loira ressaltou a palavra “tentativa”. – Que pena! Eu vim até aqui justamente para convidar Carlinhos para um jantar que papai vai dar para alguns pesquisadores de nossa área. – Desta vez ressaltou o “nossa”. – Claro que a senhora também está convidada, mas meu pai e eu entenderemos que frente a suas ordens médicas... É uma pena.
O tom de felicidade contida na voz da loira teria sido imaginação sua?
- Não, não há o que sentir, senhorita Althorp. O ataque que sofri não foi forte o suficiente para me afastar de minhas atividades por mais que vinte e quatro horas. – Ana viu com satisfação o sorriso sumir do rosto dela também. – Os fugitivos escolheram a Auror errada para lançar uma Cruciatus.
A última declaração fora dita muito humildemente, mas continha uma mensagem bem clara. Uma espécie de código que as mulheres reconhecem imediatamente.
- Que ótimo! – Felícia disse, com animação forçada. – Então, vejo-os na sexta-feira, no restaurante do hotel em que papai e eu estamos hospedados. Até lá.
Eles despediram-se e, assim que a cabeça de Felícia sumiu da lareira, Ana voltou-se para o marido com uma das sobrancelhas erguidas, indicando que esperava algum comentário explicativo.
- O pai de Felícia foi meu orientador na Romênia. Aliás, ele é o diretor de uma das reservas de lá.
Então Carlinhos conhecia Felícia há muitos anos. Isso explicava a intimidade. Afinal, não estavam no Brasil onde todos se chamam livremente pelo primeiro nome.
- Foi impressão minha ou havia uma certa tensão aqui, momentos antes? – O ruivo perguntou, confuso.
- Tensão? Imaginação sua, claro. – Ela desconversou, ignorando o estreitar de olhos dele: - Acho que você é que está tenso, amor. As últimas vinte e quatro horas não foram fáceis. – Ela massageou os ombros dele para reforçar a idéia.
- Hum... – ele sorriu, puxando-a para si. – Acho que está tentando me enrolar.
- Capaz! – Ela respondeu em português, em seu sotaque sulista mais carregado. – Está claro que você precisa de uma boa xícara de chá inglês, meu marido. – Desta vez ela carregou na pronúncia britânica e sorriu, provocativa.
- Rampell pode trazer o chá! Rampell traz!
O casal deu um pulo com a chegada súbita do elfo. Tinham esquecido que ele estava na casa. Felicíssimo, estalou os dedos e uma bandeja com chá fumegante e diversos petiscos apareceu sobre a mesinha da sala.
- Ah, obrigado, Rampell... – Carlinhos disse. – É muita gentileza sua.
- Rampell muito feliz em servir seus senhores! – Os olhos do elfo brilhavam. - Os jovens mestres precisam de mais alguma coisa?
- Não, Rampell... É... – Ana não tinha certeza como dispensá-lo sem ofender a sensibilidade do velho elfo. – Não queremos afastá-lo por mais tempo de Smith House. Tia Agatha pode estar precisando...
O elfo deu um longo suspiro triste:
- Os amos de Rampell não ficam mais tanto tempo em Smith House... Rampell não tem quase nada para fazer! – Choramingou. Então pareceu ter uma idéia: - Jovem mestra deve descansar! Rampell vai fazer o jantar para jovem mestra! – E desapareceu novamente.
Ana e Carlinhos se entreolharam:
- Já percebeu que vai ser um custo o fazer voltar para Smith House, não é? – Carlinhos perguntou, mal contendo o riso diante da expressão desolada de Ana.
- Hermione me mata!
***
[Alguns dias mais tarde...]
Ah, que ótimo! Estava perdida... De novo.
Francamente, sabia que aquele negócio de escadas trocando de lugar o tempo todo não seria fácil, mas isso já estava ficando ridículo!
Tudo bem. Era só pegar o corredor ao fim desta escada. Vira Grizel andando por ele instantes antes, e devia ser... Ah, não!
A escada em que estava começara a se mover novamente, e o seu final se dirigia a um corredor totalmente desconhecido para ela.
- Pára! Fica aí! – Ela suplicava enquanto se segurava no corrimão. – Pára! Não, não! Volta para lá! Eu disse para lá!
Quando a escada finalmente parou (no lugar onde “a escada” queria, é claro), Mel desceu os últimos degraus, e firmou os pés no corredor. Voltando-se totalmente injuriada para os degraus, disse, com os lábios e olhos estreitados:
- Sua escada maluca! Você me atrasou para a aula... – terminou com um suspiro entre derrotado e incrédulo: - De novo!
Resolvendo começar a procurar o caminho o mais rápido possível, deu as costas para as escadas, ainda pensando: “Elas pareciam bem mais legais nos livros e no cinema, quando atrapalhavam os OUTROS”. Não estava achando nada engraçado agora.
Nunca tinha andado por aquele corredor do quarto andar antes. Bem, pelo menos, achava que estava no quarto andar... Ficara tão apavorada e depois tão indignada com a escada que não prestara atenção para onde estava indo.
Indignada... Com uma escada. Seria cômico se não estivesse em apuros por causa daquele monte de degraus temperamentais.
Já estava quase no fim do corredor quando se deparou com o retrato de uma jovem morena. Ele era quase do tamanho natural de uma pessoa e ocupava boa parte da parede. Nele, uma mulher morena, de pele alva e muito jovem era retratada. Sentada em frente a uma espécie de escrivaninha antiga, ela segurava um livro aberto sobre o colo e uma varinha. Tanto o livro – uma iluminura – quanto as vestes indicavam alguém de uma época longínqua.
Ela se afastou um pouco para ver melhor aquela mulher que lhe inspirava tanta simpatia, e percebeu que o quadro não estava sozinho. Havia outros quadros de ambos os lados: mais dois bruxos e uma bruxa. Um homem moreno e com uma cobra atrás de si. O outro, com uma armadura, espada e uma bola de cristal nas mãos. E uma jovem senhora loira, escrevendo em um pergaminho, o olhar bondoso a fitar o espectador. Cada um vestindo as cores de diferentes Casas de Hogwarts.
Não havia dúvidas: eram os retratos dos Fundadores.
Maravilhada em descobrir algo que os livros “Harry Potter” não contavam, ficou observando os quadros com um sorriso bobo nos cantos dos lábios, esquecendo-se até mesmo que estava atrasada. Estranho... Os quadros não se moviam. Por que logo os quadros dos Fundadores da escola eram “normais”?
Fixou seu olhar novamente no quadro da moça que vira primeiro. Não precisou de muito para concluir que a jovem morena era Rowena Ravenclaw: o ambiente que a cercava - muitos livros - e a corrente com um pingente em forma de ave que pendia em seu colo eram bem conclusivos. Rowena tinha um sorriso enigmático e o olhar de lado, a encarar o expectador como que indagando o que ele poderia lhe contar sobre o mundo. Era uma moça muito bonita, mas não de uma beleza exótica e impossível de ser alcançada. Era uma beleza serena. Mel sentiu que poderia ser amiga daquela moça de faces rosadas e traços delicados.
Finalmente, os olhos da corvinal pousaram sobre um símbolo em um dos cantos do retrato, quase apagado sobre o que seria a representação de uma folha de papel embaixo de vários livros empilhados na velha escrivaninha.
- Mas... Não é possível! – Ela sussurrou, os olhos arregalados e incrédulos fitando símbolo como que presos por ele.
- Er... Com licença... – uma voz muito suave fez Mel pular de susto.
Viu Danna O´Brian fitando-a de maneira indecisa por baixo do cabelo negro e brilhante que lhe caía sobre o rosto.
- O-oi! – Ainda estava se recuperando do susto, mas disse com sinceridade: - Que bom te ver de novo!
A morena mostrou um sorriso tímido e lançou um olhar rápido sobre o quadro, como que a perguntar-se o que teria prendido a corvinal ali. Mel entendeu o olhar e, mesmo que a pergunta não houvesse sido feita em voz alta, respondeu:
- É... Estranho. – Ela apontou para o símbolo, que consistia em vários anéis se entrelaçando. – O que o símbolo trouxa para o Átomo está fazendo no quadro de uma bruxa que viveu há mil anos?
- Átomo... – Danna balançou a cabeça, confusa. – Não sei do que está falando. – Lamentou. – Este é o símbolo celta para “Energia Mágica”.
- Tá brincando! – A corvinal arregalou os olhos e voltou rapidamente a cabeça para o quadro, como se esperasse ver ali qualquer outra coisa, algo que inicialmente tivesse confundido com o modelo Atômico. Mas, a não ser pelas extremidades pontiagudas das elipses, quando no símbolo trouxa elas eram curvilíneas, o símbolo era o mesmo. – Quer dizer que Rowena era celta?
- Não sei, mas... Isso não quer dizer nada. Quase todos os bruxos da Grã-Bretanha na época tinham ligação com... – a grifinória se interrompeu, assustada: - Ah, Merlim! A aula! O Professor vai me matar! – E saiu correndo por uma entrada lateral atrás de um enorme tapete persa.
“Como é que eu não vi esta coisa antes?”, Mel pensou. “Bem, pelo menos eu agora sei de um caminho para fora daqui”.
Por mais que tivesse tentado encontrar Danna para agradecer-lhe por ter mostrado a saída (ainda que não intencionalmente), a garota desaparecera novamente. Que coisa! Ela parecia muito boa nesse negócio de “sumir”.
Sua primeira aula era “Feitiços” com Flitwick. Ainda que o Diretor de sua Casa estivesse maravilhado com sua jovem aluna, a quem chamava de “Pequeno Prodígio”, não deixou de avisar que ela estava atrasada... Novamente. E que a Corvinal, por causa disso, perdera cinco pontos.
Era tudo o que ela precisava agora: mais um motivo para as garotas de sua própria Casa a olharem atravessado!
Abriu o livro na página que Flitwick mandara, e começou a ler. Pela primeira vez, não conseguiu se concentrar direito nos dizeres dos feitiços (todos muito fáceis dela memorizar, porque a maioria tinha origem latina). Seus pensamentos estavam em certo retrato no quarto andar e nos motivos que teriam levado o pintor a por um símbolo celta nele.
Aliás: teria sido um pintor? Como os quadros dos bruxos eram feitos, afinal? Mas, aqueles quadros não se moviam... Talvez tivessem sido feitos da maneira trouxa mesmo.
Uma coisa a ser pesquisa na biblioteca mais tarde: junto com símbolos celtas e Rowena Ravenclaw.
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NOTAS
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* Ler Harry Potter e o Retorno das Trevas, da Sally Owens, Capítulo 7. (E eu recomendo a leitura da fic toda, é maravilhosa!).
** Ler Harry Potter e o Segredo de Sonserina, Capítulo 20.

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Oba! mais um capítulo!!!
e agora, finalmente, a gente começa a vislumbrar alguma coisa do título
e mil caraminholas na cabeça...
o que será que a Belzinha está guardando pra gente?
(e eu no lugar da Mel também ia brigar com as escadas
claro, quem já conversa com teclado, monitor e mouse, escada e fichinha....
)
hehe... está ótimo, como sempre! :palmas :palmas :palmas
e agora, finalmente, a gente começa a vislumbrar alguma coisa do título
e mil caraminholas na cabeça...
o que será que a Belzinha está guardando pra gente?
(e eu no lugar da Mel também ia brigar com as escadas
hehe... está ótimo, como sempre! :palmas :palmas :palmas
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Eu ainda estou no Cap 4 aqui...
Mas já estou lendo!!!!
E gostando bastante!

Mas já estou lendo!!!!
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Ps:Entre, leia e comente as minhas fic's:
---------->História da Fundação-<----------
e a nova:
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Puxa. veleu Morpheus-O-!
Que bom que você está gostando da continuação. Espero que tenha gostado do capítulo 5 (Harpias) e do 6 tb (O Retrato de Ravenclaw).
Agora mesmo eu estou bolando o redemoinho de emoções que vão ser os próximos capítulos. Vamos reviver os momentos "sem fôlego" do Segredo de Sonserina.
Beijos!
Que bom que você está gostando da continuação. Espero que tenha gostado do capítulo 5 (Harpias) e do 6 tb (O Retrato de Ravenclaw).
Agora mesmo eu estou bolando o redemoinho de emoções que vão ser os próximos capítulos. Vamos reviver os momentos "sem fôlego" do Segredo de Sonserina.
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- Recebendo a visita de Hagrid

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sim sim sim!!!!que bom que vem ai 'momentos sem folego' heheheheh
e claro q eu não vou deixar de comentar aqui pois tb eh mais um jeito de pedir pra vc ATUALIZAR!!!!!
vamos fazer um trato? vc posta e eu comento; eu comento e vc posta? pronto, agora q jah comentei eh sua vez de postar
porfavorzinho vai!!!!
hehehehhh.
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Belzinha
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Obrigado Grazy!
Regina, agora que eu vi: você também fica brigando com o mouse e o teclado!
Que bom que não sou a única! Pensei que fosse maluquice minha, hehehee!
Bem, mais um capítulo:
7. Os Novos Marotos.
O nome “Ministério da Magia” causa impacto em quem passou a vida toda como trouxa. Grande parte da humanidade é criada para acreditar que magia é invencionice, fantasia, coisa do imaginário popular. Portanto, ligar o termo “magia” a uma palavra tão “vida real” quanto “Ministério” é no mínimo estranho.
Incompatível, para usarmos de completa franqueza.
Ana entendia perfeitamente isso. Quando tivera conhecimento dos livros, ainda na ignorância de que “havia mais entre o céu e a terra”, também ela curvara os lábios em um riso reprimido diante da idéia de um Ministério da Magia – conceito realmente engraçado para ela. Para alguns trouxas, é absurdo; para outros, como Valter Dursley, revoltante. Mas, para ela, era simplesmente engraçado.
Se soubesse, na época, que tinha nas mãos a chave de seu passado e de seu futuro! Jamais teria rido.
Ainda se lembrava da primeira informação a respeito do governo bruxo. Fora dita por Hagrid naquela manhã mágica (desculpem os trocadilhos) em que ele fora “resgatar” Harry Potter dos Dursleys. Imagine, Hagrid apresentou ao mundo a grande Instituição a qual os bruxos confiam seus destinos! E fez isso após uma rápida olhada nas notícias do Profeta Diário, quando declarou:
“O Ministério da Magia anda aprontando as trapalhadas de sempre”.
Resumo perfeito de Hagrid sobre as atividades do Ministério, diga-se de passagem. Com um certo “quê” de profético para os fãs do menino-bruxo. E é com profundo pesar que informo a estes mesmos fãs que o tempo não deixou o Ministério menos atrapalhado, e tão pouco mais sábio. Nos oito anos seguintes à derrota de Voldemort, a história veio a comprovar que, quanto mais o Ministério devia a Harry Potter, mais problemas ele trazia ao ex-grifinório.
Já ouviram falar em uma tal de Dolores Umbridge? Claro, que pergunta idiota, desculpem. É claro que já, quem esqueceria a sapa velha da Umbridge, a “Grande TORTURADORA de Hogwarts”? A mulher desperta gana assassina até no mais insensível dos leitores. Merlim a proteja de cair nas mãos de um fã do menino-bruxo, porque não sobrará uma única fitinha de veludo para contar a história.
Estou sendo cansativa? Ó céus, desculpem. Ultrapassei todos os limites de parcialidade autoral. Vou direto aos fatos, prometo.
O ponto é que, embora eu tenha vontade de inventar que Umbridge teve um fim ao qual tranqüilamente merecia (como ter sido pisoteada por centauros durante a Batalha Final, ou então devorada por dragões peruanos) devo dizer que ela está vivíssima e ainda ocupa um alto cargo junto ao governo bruxo.
Soa como piada aquela mulher ainda estar lá, eu sei. As mentes mais brilhantes do Mundo Bruxo naquele lugar, e ninguém nota que a criatura é perturbada! O Ministério da Magia é “engraçado” de uma forma que não ocorrera a Ana no primeiro momento. E, como ela descobrira mais tarde, nem todos riam de suas “gracinhas”.
O mais novo “gracejo” de Umbridge, por exemplo, era culpar Harry Potter pelas fugas em Azkaban, e exigir um processo disciplinar contra o Auror. * Muitos bruxos ainda não entendiam como Harry havia conseguido vencer Voldemort, achavam que ele era uma bomba pronta a explodir, tamanho era o poder que carregava. Outros, que tanto poder iria corrompê-lo, se já não o tivesse feito. Finalmente, havia os que estavam há tempos querendo ver Harry e sua conduta politicamente correta para fora do Ministério (leia-se: alguns dos “honestos comerciantes” do Beco Diagonal).
Se Potter não se cuidasse, em breve seria a nova versão de João Batista, que se dispusera a proclamar a verdade no deserto, para em seguida ter sua cabeça em uma bandeja de prata.
Gárgulas galopantes, aqui estou eu dando voltas novamente!
Bem, voltando à terceira pessoa do singular: contou-se tudo isso só para chegar a Ana, que refletia exatamente sobre estas coisas enquanto caminhava pelos corredores do Ministério, se dirigindo para mais um dia de trabalho naquela sexta-feira. Ah! Lá está a nossa mais nova Auror pegando uma daquelas gaiolinhas nada confiáveis que os bruxos têm a ousadia de chamar de “elevador”. Humpft! Elevador, pois sim...
Além de mais três pessoas, vários aviõezinhos de papel lilás entraram no mesmo elevador que Ana. Ficaram voando acima das cabeças das pessoas, próximos ao teto e às esferas brilhantes que iluminavam o interior do cubículo. Ana fitou os “aviões-memorandos” torcendo para que nenhum deles fosse para ela. A última coisa que precisava naquele dia era mais problemas.
O Ministério da Magia ficava no subsolo de Londres, de forma que, em vez dos números dos andares aumentarem à medida que se subia, eles diminuíam, como em uma escala termométrica onde os andares eram os números negativos. ** A voz feminina que anunciava os andares foi dizendo:
- Sétimo andar... Sexto... Quinto...
Quando chegaram ao quarto andar, Ana se virou para um jovem estagiário do Comitê de Desculpas Dignas de Trouxas e disse, bem-humorada:
- Quatro, três, dois, um... Zero! Lançar!
O rapaz não lhe devolveu o sorriso. Péssimo jeito de descobrir que bruxos não entendiam piadas sobre a Conquista Espacial.
Finalmente ela desceu no segundo andar, onde ficava o quartel dos Aurores, percebendo que a grande maioria dos memorandos deixou o elevador com ela, indo pousar justamente em sua mesa. Definitivamente, o dia não estava começando bem.
- Houston, estamos com problemas... – murmurou com um suspiro desolado.
Harry e Tonks ainda estavam em casa recuperando-se, de forma que o trabalho que antes dividia com a metamorfaga havia se acumulado em sua mesa. Respirando fundo, tratou de abri-los e responder os que precisavam ser respondidos. Sinceramente, achava que a burocracia bruxa era estafante. E olha que ela tinha trabalhado no governo brasileiro!
A maioria dos memorandos se tratava de denúncias anônimas a respeito do paradeiro dos fugitivos de Azkaban. Ultimamente estava “chovendo” gente que achava ter visto algum Comensal da Morte. Nenhuma delas se mostrava consistente, o que indicava o quanto a população bruxa estava histérica, como nos tempos da Guerra.
O dia passou, o fim do expediente chegara e o humor de Ana não melhorou muito. Sabia perfeitamente a razão disso: o jantar. Nunca acreditara em pressentimentos, mesmo depois que “se tornara” bruxa, mas aquele evento a estava deixando com os nervos à flor da pele, como se uma energia negativa rondasse aquela loirazinha atirada. Torceu o nariz. Que pressentimento que nada: era a lógica. A garota não tinha tido pudores em demonstrar que estava interessada em seu marido – mesmo sabendo que ele era casado – e o senso comum lhe dizia que gente assim não era confiável. Na hipótese dela precisar de mais subsídios para não confiar em Felícia Althorp, além do fato dela estar dando em cima de “seu” marido, é claro.
- Ana – a cabeça de um dos jovens estagiários apareceu na porta, salvando-a dos seus pensamentos sombrios.
Seus colegas de trabalho logo se acostumaram a chamá-la pelo primeiro nome, uma vez que “Weasley” era como Rony era conhecido. Sendo brasileira, isso não a incomodou nem um pouco, pelo contrário: deixava-a mais à vontade. Ser chamada pelo sobrenome era muito... Frio.
- Sim?
- O livro que você queria, e que estava no Departamento de Mistérios. – Ele lhe estendeu um volume encadernado em couro, com páginas tão amareladas pelo tempo que pareciam poder se desmanchar a qualquer momento. O rapaz abriu um sorriso zombeteiro e disse: - Levei um tempão para achar, estava em um canto tão escuro e empoeirado... Melhor ler antes que desapareça novamente.
- Obrigada, Thomas. – Só então ela balançou a cabeça rapidamente, dando-se conta do que o rapaz dissera: - Novamente?
- Sim, ele não estava lá, apareceu do nada. Em um instante não havia coisa nenhuma e, no seguinte... “Puf”, lá estava. Deve estar encantado. Acho que não queriam que ele fosse visto. – Ele deu de ombros, não dando muita importância ao livro “sumidor”.
- Sei... – Ana franziu o cenho. Em certos momentos, ainda tinha a impressão de que havia entrado na Casa do Chapeleiro Maluco. – Obrigada mais uma vez, Thomas. – Sorriu naturalmente, tentando não parecer tão “recém chegada do mundo não-mágico”.
Assim que o jovem saiu, ela voltou o olhar para a verdadeira antiguidade em suas mãos. Thomas tinha razão em temer que ele desaparecesse, mas não por causa de magia. Com um sorriso de desdém, pensou que os bruxos aplicariam muito bem o seu tempo se aprendessem técnicas de conservação de livros, ao invés de só se preocuparem em enfeitiçá-los. Aquele, por exemplo, estava começando a virar pó.
Tratava-se de um item do Departamento de Mistérios que descobrira ao pesquisar sobre Rowena Ravenclaw e o Mito de Aradia, bem como o de Fausto. Sabia que Hermione e Gina estavam obtendo melhores resultados do que ela nesse campo, e também sabia que estava desobedecendo a divisão de tarefas dadas por Harry sobre aquele assunto, mas não resistiu a aquele pequeno mistério. “Estou parecendo a Mel”, pensou, com um sorriso nos lábios.
Não que o livro de Heinrich Cornelius Agripa tivesse trazido grande luz ao assunto. Pegara-o mais por curiosidade – era um livro sobre plantas - mas... Ora, até bem pouco tempo acreditava piamente que era naquele homem em quem Goethe tinha se inspirado para escrever a “obra de ficção” chamada “Fausto”. Então, encontrar algo escrito por ele entre os itens do Departamento de Mistério era... Muito suspeito!
Como todas as obras cultas da época (século XVI), estava escrita em latim. Ana suspirou, impaciente. Ter o Português como primeira língua não iria ajudar muito neste caso, embora a visualização das frases escritas naquele nobre idioma trouxesse vagas lembranças de seus tempos de faculdade de Direito.
Desanimada, fechou o livro e deixou que a cabeça caísse pesadamente sobre o objeto pousado em cima da mesa.
- Ai! – Exclamou um segundo depois, enquanto levantava a cabeça e massageava a testa, justo no momento em que Rony entrava na sala.
- Puxa, Ana, eu sempre soube que você tinha a cabeça-dura! – O ruivo riu, colocando uma enorme pilha de relatórios em cima da mesa: - Isso é para você.
- Humpft! – bufou em desdém, tanto pela pilha de papéis quanto pela piadinha. – Eu não tenho... Ah, vocês bruxos bem que poderiam usar e-mails para se corresponderem! É um meio mais rápido, racional e ecologicamente correto!
- Como assim, “vocês” bruxos? – Ele perguntou, confuso. – E o que são “e-mails”?
- Er... – Ela enrubesceu. – Desculpe, força do hábito. Por mais que tenha recebido conhecimentos bruxos do bracelete de Helga Hufflepuff, ainda não saí totalmente do “módulo trouxa”.
- Nós percebemos – Rony respondeu distraidamente, o que provocou uma ruga desconfiada na testa de Ana.
Testa. A dorzinha remanescente naquela sensível área (mesmo Rony afirmando de forma enfática que era justamente a parte mais dura do corpo de Ana) lembrou-lhe o livro. Havia sentido algo maciço na capa quando batera a cabeça contra ela.
Passando os dedos delicadamente por sobre a superfície do couro gasto e velho, descobriu uma saliência insuspeita bem no meio da face do livro. Ela teria passado despercebida graças à maciez do couro se Ana não tivesse literalmente se “chocado” contra o objeto, seja lá o que fosse.
E ele estava dentro da capa, costurado com ela.
- Rony, você consegue guardar um segredo? – disse displicentemente para o ruivo.
- Que segr... ANA!
- Difindo! – Ela apontou a varinha para o livro, fazendo com que a capa se abrisse. Retirou o objeto metálico, que mais parecia uma moeda de uns cinco ou seis centímetros de diâmetro. – Reparo! – E a capa voltou a seu lugar, como se nunca tivesse se aberto.
Ana segurou o objeto entre os dedos, erguendo-o para a luz, fazendo o metal reluzir. Parecia ser feito de bronze, e possuía relevos em toda a sua superfície. Percebendo que o cunhado ainda a olhava boquiaberto, defendeu-se:
- Ora, Rony, não me olhe desse jeito! O Harry e você ficam dando mau exemplo para as criancinhas do mundo todo. Depois não podem reclamar. – Vendo que o ruivo não tinha “captado” o significado de suas palavras, foi mais explícita: - Estou falando de uma troca de capas de um certo livro de Poções, no sexto ano de vocês. – Abriu o sorriso, divertida – Advinha com quem eu aprendi isso?
Rony revirou os olhos, recuperando-se do choque:
- Pelo que eu sei, você não era mais nenhuma criancinha quando leu isso. – Ana fez uma careta diante do “sutil” lembrete sobre sua idade. – Bem – ele continuou com uma expressão de falsa cesura – Suponho que não pretende informar ao chefe?
Ana olhou para a “medalha” em sua mão, refletindo sobre o assunto. Confiava totalmente em Kingsley Shacklebolt. Mas queria deixar isso em segredo, pelo menos por enquanto.
- Me deixe investigar primeiro – respondeu – Depois que tiver algo de concreto eu mesma conto ao Quim. Pode não ser nada.
- Tudo bem – Rony deu de ombros - Já que é tarde demais mesmo... Mas, que livro é esse?
Ana explicou como o livro chegara até ali, de sua curiosidade sobre o autor que supostamente inspirou Fausto. À medida que a narrativa fora avançando, Rony cerrou os olhos em sinal de concentração. Era algo da personalidade de Ronald Weasley que só ficara evidente depois que ele amadurecera: ao contrário do que se imaginava quando ele era estudante em Hogwarts, ele não era displicente com os estudos. Apenas tinha outra maneira de selecionar as coisas em que iria fixar sua atenção. Preferia gastar suas energias quando acreditava que o assunto merecia seu interesse, e então ia a fundo, até o fim. E aquele lhe interessava. Afinal, era a vida de sua irmã e a de seu sobrinho que nem nascera ainda que estavam em jogo. *
- Não pode estar certo – Rony comentou, olhando para a moeda – Este desenho não faz sentido nenhum em um livro de um bruxo alemão do século XVI.
- Eu sei – Ana respondeu, levantando novamente o objeto e olhando para o desenho, linhas que se cruzavam de forma peculiar – Isto é um nó celta, representando a Garça. – Uma enxurrada de informações lhe veio à mente, como sempre ocorria quando invocava conhecimentos vindos do bracelete de Hufflepuff. - Um animal sagrado, mas para as culturas celtas.
- Não – ele negou fazendo um movimento com a cabeça – Estou falando do desenho do outro lado – e girou o medalhão de forma que a outra face ficasse de frente para Ana: - O emblema de Ravenclaw, “o corvo”. O mesmo que fica na bandeira da Casa de Corvinal.
***
As prioridades das pessoas mudam constantemente. Por exemplo, não que Ana tivesse esquecido o objeto que trazia uma estranha relação com Rowena Ravenclaw. Mas já estava à uma hora no famigerado jantar dos Althorp e nem um único minuto se sentira bem nele.
O senhor Althorp parecia ser um homem bom, apesar de muito condescendente com a filha. A mimava demasiado, o que explicava muitas coisas sobre a personalidade de Felícia. Claro, Ana já intuía algo deste tipo a respeito da moça.
O que a estava incomodando não era o que estava evidente, mas o que “não estava entendendo”. Diversas vezes pegara a loira sorrindo, triunfante, como se Ana tivesse feito algo que a deixara imensamente feliz. E deixar Felícia feliz era a última coisa que ela desejava, como se pode imaginar. Carlinhos também parecia estranho nestas ocasiões, tenso. Por isso, ficara intrigada, perdida em seus pensamentos tentando descobrir o que estava havendo.
Foi quando uma frase, dita com escárnio por um tal de Winterbring (apresentado por Felícia como um grande especialista em Animais Mágicos), chamou sua atenção:
-... Daí eu disse: “Isso é mais absurdo que a classificação dos trouxas para animais!” – Winterbring riu do próprio comentário, sendo seguido por várias pessoas.
Ana sabia que devia controlar a língua. Mas o comentário jocoso lhe trouxe um desconforto demasiadamente pesado. Desde os tempos de adolescente, não conseguia ficar sem emitir sua opinião, mesmo que fosse de forma sutil.
- Por quê? – Ouviu-se perguntando, para sua própria consternação.
- Por que o quê, minha querida? – Winterbring voltou-se para ela, despreocupado, ainda com um sorriso nos cantos dos lábios.
- Por que acha que a classificação dos trouxas é absurda? – Ela completou ingenuamente.
- Ora... – Olhou rapidamente para os demais, um tanto surpreso, como se a resposta fosse óbvia. – Um monte de divisões e subdivisões, com critérios inúteis... – Com uma risadinha e um dar de ombros, deu por encerrado o assunto.
- Não são inúteis. – Mal pronunciara estas palavras, já estava se amaldiçoando por não conseguir simplesmente ignorar. Bem, já que começara, então que fosse até o fim. Continuou com o tom mais humilde que conseguiu: - Certamente eu não pretendo terminar aqui uma discussão que é travada há... Seis séculos entre os bruxos. Só estou dizendo que a classificação trouxa é muito apropriada para o fim a que se destina: estudar a vida. Quando Lineu propôs a atual nomenclatura trouxa dos seres vivos, não estava pensando em governos, direitos e responsabilidades. Muito menos na periculosidade dos animais. Ele só queria entender a biodiversidade que há na Terra.
- A senhora Weasley parece conhecer bastante os trouxas. – O senhor Althorp comentou, visivelmente interessado.
Carlinhos sorriu, e respondeu:
- Minha esposa teve sua manifestação de magia já na idade adulta. Sua formação foi trouxa.
Pela primeira vez, Ana entendeu o incômodo de tia Bianca com o termo “trouxa”. Não da mesma forma de quando tinha descoberto o Mundo Mágico, época na qual encarava o fato até com certo humor; mas agora via o assunto com indisposição, frente ao preconceito contido na origem palavra.
- Então, talvez a senhora pudesse nos explicar... – O tom de armadilha velado na voz de Felícia a deixou alerta no mesmo instante.
- Sim. – Winterbring apoiou. - Nos dê um exemplo desta... “Utilidade”, senhora Weasley. Qual seria a classificação trouxa para um dragão, e em que isso iria ajudar diante do perigo? Suponho que um trouxa também ache útil ficar vivo!
Ótimo. Estava entre o orgulho e a cautela. Escolha difícil, especialmente diante daquela necessidade premente de defender todo o estilo de vida no qual fora criada. Principalmente, porque queria tirar aquele sorriso que começava a se formar nos cantos dos lábios de Felícia. E, finalmente, porque nunca em sua vida gostou de perder uma batalha verbal.
O orgulho venceu. Respirando fundo, respondeu ao desafio:
- Animal, vertebrado, ovíparo... Um elo perdido entre os répteis e as aves. Acompanhando a hipótese dele se enquadrar na classe dos répteis, ouso afirmar que a melhor hora para investir contra um dragão é pela manhã, quando sua temperatura estiver mais baixa, como acontece com todos os répteis. Isso se a capacidade de gerar fogo não interferir nesta peculiaridade, é claro. Nenhum animal exotérmico que eu conheça tem esta habilidade... “Pirotécnica”, digamos assim. De forma que só estou conjeturando. Sua capacidade de vôo indica uma caixa torácica semelhante aos dos pássaros, o que chamamos de “ossos pneumáticos”, além de sacos aéreos. Se em um confronto não houver meios de lançar um feitiço conjutictus, mas existir a seu alcance algo capaz de atravessar a couraça de um dragão, então aconselho a atingi-lo nas costelas, próximo ao pulmão, onde irá impedi-lo tanto de cuspir fogo quanto de voar. Isso se não quiser matá-lo, é claro.
- Perfeito! – O senhor Althorp exclamou, positivamente impressionado. Era o único. Os demais pareciam desconfortáveis e Winterbring estava com cara de quem tinha acabado de cair do pedestal (e não estava nem um pouco satisfeito com isso). – Weasley, andou conversando sobre nosso ramo com sua esposa?
- Não senhor – Carlinhos forçou um sorriso – Ela deduziu tudo isso sozinha.
- Incrível! É preciso um nível avançado no estudo de dragões para isso. – Althorp estava animado, alheio ao clima ao seu redor.
Ana pousou rapidamente o olhar em Felícia e pelo ar de felicidade dela soube que, apesar de ter ganho a discussão, não saíra vencedora. Tinha acabado de fazer um grande nome entre as pessoas naquela mesa passar por ignorante, alguém de quem dependiam profissionalmente. Nem queria pensar no que isso poderia significar para a carreira do marido.
Como ela estava se odiando agora!
***
- Eu fui provocada! – Ana se defendia mais tarde, já em casa, visivelmente chateada. - É o que eu sou, quer dizer... Dá para tirar uma pessoa do Mundo Trouxa, mas não o Mundo trouxa de uma pessoa.
- Você podia ter pego mais leve... – Carlinhos retrucou em tom que pretendia ser neutro.
- Pegar mais leve? Felícia estava em tal estado de alegria que eu tive vontade de passa-lhe um guardanapo para pudesse enxugar o veneno que estava escorrendo da boca dela! É realmente uma pena que a cobra Nagini tenha morrido, porque iria achar o par perfeito na senhorita Althorp!
Carlinhos não conteve o riso diante das palavras da esposa:
- Merlim, devo agradecer por você não ter usado a força total de sua língua ferina esta noite, porque então eu já estaria despedido a esta hora!
O sorriso desapareceu no rosto de Carlinhos tão logo se deu conta do efeito que suas palavras haviam causado na esposa. Ana ficara pálida, suspensa por alguns segundos diante do choque:
- Eu te prejudiquei, não foi? – Ela finalmente conseguiu dizer. – Eu simplesmente não sabia como agir...
Ele avançou alguns passos, segurando o rosto dela entre as mãos:
- Não... É só uma questão de tempo até que você aprenda certos detalhes... Menores, sobre o comportamento bruxo. Etiqueta nunca foi importante entre os Weasley, você sabe. – Ele sorriu.
- Etiqueta? – Ana arregalou os olhos, dando alguns passos para trás ao perceber que eles estavam falando de coisas diferentes. – Quer dizer que... Oh, Meu Deus, nestes últimos meses eu estive fazendo coisas que no Mundo Mágico correspondem a... Arrotar ou assuar o nariz de forma espalhafatosa?
- Bem... – Era evidente que sim, mas o marido não sabia como dizer aquilo.
- E todos estavam escondendo isso de mim? Os Wealeys, Harry e Gina, Lupin e Tonks... Quim? Preferindo ignorar a me magoar avisando que eu havia cometido uma gafe? – O olhar culpado de Carlinhos dizia tudo. – Meu Deus! – Ana se virou, passando a mão na testa em uma mistura de vergonha e exasperação. Então, voltando-se para ele, questionou, com voz firme: - O que? Como o quê, por exemplo? – Agora tinha uma necessidade mórbida de saber quantas vezes tinha feito papel de idiota.
- Er... – Era evidente que o ruivo preferia enfrentar um dragão a estar ali, respondendo as perguntas de Ana, mas Carlinhos não era de fugir dos problemas, então resolveu ir direto ao assunto: - Lembra quando chegamos no restaurante? Ainda estávamos com as varinhas nas mãos, porque tínhamos acabado de aparatar. Bem... Geralmente se espera alguns momentos antes de se apertar a mão de alguém com a mão que acabou de usar a varinha para se fazer mágica. A magia deixa vestígios, uma “corrente” muito pessoal, que permanece por alguns segundos...
Ana fechou os olhos: ela estendera a mão imediatamente após ter sido apresentada. Lembrava disso muito bem, porque houve um momento constrangedor – que ela não entendera, é claro – seguido do primeiro sorriso radiante de Felícia naquela noite.
- Ana... Não há razão para ficar assim. São detalhes sem importância. É só uma questão de tempo para você se acostumar. Aposto que eu também cometi vários erros enquanto estava sendo apresentado aos seus parentes e amigos.
Ela iria retrucar quando a lembrança do seu primo Eduardo se desculpando por um espirro, seguida de um Carlinhos confuso respondendo “Não se preocupe, não me atrapalhou”, fez surgir um princípio de sorriso em seus lábios.
Carlinhos percebeu também e, de consolador, passou a “preocupado”:
- O quê? Como? Eu fiz algo? O que eu fiz?
- Calma, amor... – Ana conseguiu abrir um pequeno sorriso. – Vamos fazer um acordo: de agora em diante, vamos ser sinceros um com o outro, certo? – Diante de um balançar afirmativo de cabeça dele, ela continuou – Agora vou subir e ir para cama. O dia não foi fácil hoje.
O sorriso de Ana sumiu tão logo deu as costas para o ruivo. Não tinha se convencido da justiça no acordo. Afinal, as oportunidades sociais onde as habilidades de Carlinhos iriam ser necessárias eram mínimas. Estavam na Inglaterra, longe da família e dos amigos de Ana. Não viviam entre os trouxas, mas no mundo paralelo dos bruxos – ela mesma optara por isso. De forma que cabia a ela aprender a “corrigir-se” e aprender a transitar naquele mundo. O sucesso de seu casamento dependia disso. Mas, será que a animação de Felícia tinha fundamento? Se ela não conseguisse se adaptar, isso significaria que Carlinhos estaria melhor com outra esposa?
Carlinhos tinha razão, devia ter se controlado no jantar. Pelo menos o arrogante do Winterbring nem iria se lembrar dela. Diante dos acontecimentos, isso seria melhor.
Estava deitada, rezando para que aquela angústia que sentia passasse, que tudo desse certo. Foi então que sentiu o marido deitando-se ao seu lado na cama, passando um braço ao redor de sua cintura:
- Eu te amo – ele murmurou.
- Eu também.
***
Trecho perturbador esse aí de cima, não? Detesto contar coisas deste tipo. A realidade é uma droga.
Por isso que os contos de fadas fazem mais sucesso. Depois dos problemas resolvidos, o narrador simplesmente diz que “eles viveram felizes para sempre”, livrando o leitor das minúcias a respeito do restante dos dias da vida dos personagens. É como sempre digo: Monteiro Lobato, Irmãos Grim e Disney – esses foram gênios de verdade!
Já sei, já sei! Terceira pessoa do singular...
Em Hogwarts, a primeira semana de aula transcorrera normalmente. Ao menos, dentro da normalidade de uma escola de magia e bruxaria. Embora as coisas não transcorressem às mil maravilhas para Mel, ela estava se adaptando bem à rotina – até mesmo as escadas tinham deixado de ser um problema. Os alunos aprendem a “intuir” os caprichos daqueles degraus encantados depois de alguns dias.
Na quinta-feira, tivera a primeira aula de vôo com Madame Hooch. Estava animada, embora soubesse que não se descobriria um talento oculto para o quadribol. Nunca havia sido um sucesso nos esportes, não seria agora que isso iria mudar. Mas, como meio de transporte entre os bruxos ocidentais, voar seria bem útil... Além de emocionante!
Após se certificar que os olhos amarelos como os de um falcão e os cabelos cinzentos da professora condiziam com a descrição feita nos livros, apressou-se a ficar ao lado de sua vassoura, sorrindo para o objeto como se fosse um cãozinho ao invés de um artefato enfeitiçado.
Ah, como a imaginação nos leva a desligar do mundo ao redor! Imediatamente, a garota lembrou-se de outro grupo de garotos primeiro-anistas, há anos atrás. Entre eles, um garoto moreno e magricela, usando óculos de aro redondo. Conhecia a cena com tal riqueza de detalhes, que lhe pareceu ouvir a voz de Madame Hooch ordenando se colocarem ao lado das vassouras. E ela estava lá, com Harry, Hermione e Rony. E foi por estar perdida em sua fantasia que não titubeou ao ordenar à sua vassoura:
- EM PÉ!
Entusiasmada, viu sua vassoura obedecer-lhe imediatamente e ir parar em sua mão.
- Muito bem, senhorita Warmlling. – a voz de Madame Hooch tirou Mel de seus devaneios. – Mas eu estava justamente dizendo como é importante prestarem atenção no que eu digo... – A garota não saberia dizer se era satisfação ou ironia nas palavras da professora, tamanho era o brilho divertido em seus olhos. – Bem... Agora que a senhorita Warmlling lhes mostrou como se faz, o que estão esperando? Rápido, rápido!
Assim que todos conseguiram “dominar” suas vassouras, Madame Hooch lhes ensinou como montar e segura-las adequadamente, de forma que não escorregassem pelo outro lado.
- Quando eu apitar, dêem um impulso com os pés, mantenham-se firmes nas vassouras e voando por alguns segundos. Depois retornem ao chão inclinando um pouco o corpo para frente.
Assim que ouviu o apito, Mel impulsionou os pés. A vassoura subiu tão rápido que, assustada, segurou-se com mais força do que o necessário no cabo, o corpo inclinando-se para trás. Resultado: a vassoura deu uma pirueta no ar e ela acabou caindo de costas no chão.
Não feriu nada, exceto o orgulho. Olhando para os demais colegas, percebeu que não tinha sido a única a não se sair bem na primeira tentativa. Um garoto da Lufa-lufa tinha dado um impulso tão forte que ele subiu mais alto do que pretendia. Ao tentar voltar ao chão tão rápido quanto tinha subido, acabara estatelando-se nele, o cabo da vassoura cravado na grama com o impacto. Elisa Coffman, companheira de quarto de Mel, junto com outro menino da Corvinal e mais duas garotas da Lufa-Lufa, nem sequer tinham saído do chão.
No final das contas, saiu da primeira aula com algumas escoriações, mas satisfeita. Tinha sido a décima quinta pessoa a conseguir se manter na vassoura. O que importava se a classe tinha vinte alunos? Não tinha planos de jogar no “Canhões de Chudley” mesmo. Ela tinha conseguido. Era o que bastava.
Na segunda-feira, finalmente encontrara o filho de Remo Lupin e Nimphadora Tonks. E não podia dizer que havia sido um prazer. O garoto era a criatura mais arrogante que havia conhecido! *
Hector Lupin era um aluno do segundo ano da Grifinória e, longe de ter a gentileza do pai e a simpatia da mãe, apresentava uma postura cheia de si e reagira negativamente só porque ela tinha... Er... Bem... Ouvido uma conversa entre ele e mais dois amigos. Ora, eles estavam falando sobre Harry Potter o que poderia ter feito? Impossível não ouvir!
Tudo bem que a curiosidade a tinha feito ir um pouquinho longe. Mas ela estava quieta em seu canto na Sala de Estudos quando eles chegaram. Se não queriam que ninguém ouvisse, então que não se sentassem tão próximos! Lembrava que eles quase acertaram Danna e ela com as mochilas, praticamente atirando-as por cima das meninas. Sim, ela e Danna costumavam sentar próximas, embora não conversassem. “As duas excluídas de Hogwarts”. Era quase como estarem mais seguras se ficassem juntas. E então chega aquele grosso e...
Incapaz de se controlar com o que tinha ouvido (lembrando que “eles” estavam falando de uma forma que simplesmente não dava para não ouvir), ela se intrometeu e fez uma pergunta. Uma perguntinha, só. E o tal do Hector fez um comentário nada lisonjeiro sobre o tom de sua pele, imagine, só porque estava “ligeiramente” mais pálido que a média na população brasileira. Que grosso! Recordando-se disso, deu uma olhadela para a pele de sua mão. É... Talvez precisasse pegar um solzinho.
E agora o garoto não podia passar por ela sem fazer uma careta, murmurar algo que evidentemente era um comentário depreciativo sobre ela para os amigos dele ou ter que ser “levado” para outro lugar por estes mesmos amigos – um outro grifinório e um lufa-lufa que Mel havia descoberto que era filho de Kingsley Shacklebolt.
Ela não ligava. Simplesmente ignorava o garoto. A única coisa que a incomodava é que talvez Lupin não gostasse mais dela se o Hector contasse do que o tinha chamado. Mel ficava vermelha de vergonha só de lembrar. Não quisera dizer exatamente aquilo, mas ficou parecendo... Bem, irritada por ele a ter chamado de “branquela” ela comentou que ele só podia ser adotado, pois um filho de Remo Lupin jamais seria tão mal-educado. E ela sabia que realmente ele não poderia ser filho biológico deles, por causa da idade do garoto. Que mancada! Aquilo tinha sido cruel, mesmo que não tivesse sido sua intenção.
De qualquer forma, tinha coisas mais importantes para se preocupar do que o garoto arrogante da Grifinória. Como por exemplo, aquele símbolo no retrato de Rowena Ravenclaw.
Insatisfeita com o que tinha encontrado na biblioteca, acabara se decidindo por entrar em contato com o irmão. Ele tinha acesso a ferramentas das quais não dispunha ali. Então, quando Dumbledore aparecera na quinta-feira, ainda na primeira semana, aproveitou para mandar uma carta para o irmão. Ainda bem que a harpia tinha aparecido depois das aulas e encontrou a menina no pátio, de forma de não houve confusão desta vez. Bem, não “tanta” confusão...
A correspondência entre os irmãos foi intensa nos dias seguintes, sendo que a eficiência das harpias frente às corujas em viagens longas foi comprovada.
“Mel, Cara-de-Pastel:
Pesquisei na Internet o que você me pediu. Está tudo imprimidinho e bem guardado aqui comigo.
Agora me diz: o que há de errado com a biblioteca de Hogwarts? Será que finalmente a Madame Pince surtou com as zilhões de regras que ela mesma criou e o lugar foi fechado?
Você está aprontando, não está?
Vamos fazer uma troca: você me conta qual é o mistério de Hogwarts que está resolvendo, que eu te mando o que eu achei. É um bom negócio, se eu fosse você eu aceitaria...
Saudades,
Lipe.”
“Lipe, Mais-Chato-Que-Bipe:
Corta essa, garoto! Tá pensando que é quem?
Mesmo que você estivesse com essa bola toda e eu fosse obrigada a contar para você, eu não saberia o que contar.
É isso mesmo: eu só vou ter idéia se há realmente um mistério depois de ver o que você pesquisou. Talvez não seja nada. Tudo o que eu posso dizer é que há um símbolo celta no retrato de Rowena Ravenclaw (sim: há retratos dos Fundadores aqui, não é o máximo? Assim que eu conseguir uma câmera bruxa – daquelas que o Colin Creevey tinha – eu tiro uma foto e te mando).
As coisas que encontrei na biblioteca de Hogwarts não me esclareceram muita coisa. E, por mais que ela seja enoooooooorme e uma das mais completas do mundo bruxo, ninguém me convence que ela possui mais informações do que a Internet. Além do que, estou sentindo que vai ser necessária uma visão trouxa sobre este assunto...
Portanto, tire o cavalinho da chuva e manda logo o que você achou se realmente quer saber de alguma coisa!
Saudades também,
Mel.”
“Mel, Branca-Que-Nem-Papel:
Sei não, isso tá com cara de enrolação sua para cima de mim. Mas eu aceito trocar a pesquisa por uma foto do retrato de Ravenclaw.
Ele se meche? Digo, o retrato? Nesse caso, não seria mais fácil perguntar direto para o quadro dela, ó cérebro da família!?!
Ah, antes que eu me esqueça: da próxima vez, vou querer um autógrafo do Firenze como pagamento.
Seu irmão que te adora,
Lipe.”
“Lipe, Feio-Como-Celulite:
Seu mercenáriozinho de uma figa!
É lógico que, se o retrato falasse, eu teria perguntado para ele (digo, ela... Ah, sei lá!).
Mas o retrato é trouxa. Totalmente imóvel.
Os livros da biblioteca de Hogwarts dizem que os Fundadores decidiram que não haveria nenhuma parte deles sobrevivendo após a sua morte, além das idéias que eles ensinaram na escola. Segundo os livros, eles concordaram que Hogwarts deveria sobreviver sem eles, se quisesse durar mais que alguns anos.
Deviam ter razão, porque ela está aqui há mil anos!
É... Eu também te adoro (ainda).
Mel.”
Nenhum dos livros que Mel pesquisara explicava porque Rowena Ravenclaw tinha um símbolo celta no seu retrato. Quer dizer, nenhum, exceto pelo fato de que a tradição bruxa na Grã-Bretanha vinha em grande parte deste povo, e que na época de Rowena o conhecimento mágico ainda não estava totalmente separado do misticismo. Mais ou menos como a religião e a ciência para os trouxas. Mas, nenhum livro sequer sugeria que Ravenclaw tenha sido uma mulher “religiosa”, muito pelo contrário: parecia ter sido cética, embora tolerante com aqueles que pensavam diferente.
Quando Mel se deu conta, mais uma sexta-feira havia chegado. Estava ali a exatos onze dias. Se não fosse a solidão que estava sentindo – e isso era tão difícil de enfrentar – até diria que estava sendo feliz em Hogwarts.
Então, algo surpreendente aconteceu naquela sexta-feira. * Vira Danna cercada por um grupinho de sonserinas (mau sinal, logo pensou) que faziam troças da grifinória. Bem, não sabia que era Danna, a princípio, mas ficou ainda mais furiosa quando percebeu que era a garota com quem simpatizara tanto. A líder do grupo, como podem imaginar, era Caroline Bothwell, ou como Mel gostava de chamá-la mentalmente, “a versão feminina da doninha do Draco Malfoy”.
Mel disse umas poucas e boas para a garota e chegou até a encostar a varinha no rosto da sonserina para realçar a validade de suas palavras: iria azará-la se incomodasse Danna novamente.
O que aconteceu em seguida sempre iria ficar meio confuso nas lembranças de Mel. O Professor Widenprince, de Transfiguração, chegara neste momento. Ele era um bom professor, embora meio atrapalhado e com uma séria falta de confiança em sua autoridade didática. Ele quis saber o que tinha acontecido, e Caroline se apressou a contar uma mentira absurda onde Mel era a culpada, óbvio.
Então, Andrew aparecera do nada e a defendera. Andrew era o garoto moreno e de pequenos olhos azuis que era amigo de Hector Lupin. Joshua Shacklebolt o imitou. E, para a absoluta perplexidade de Mel, Lupin fez o mesmo.
Embora nem a Sonserina nem a Corvinal tenham saído ilesas em suas pontuações deste episódio, após este dia, os cinco estudantes de Hogwarts se tornaram inseparáveis: Hector McLellan Lupin, Andrew Willian Bennet, Dana Éowin O’Brian, Joshua Kingsley Shacklebolt e Mel Anhanguera Warmlling. Um dia, o grupo seria conhecido como “Os Novos Marotos”.
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NOTAS
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* Ler Harry Potter e o Retorno das Trevas, da Sally Owens.
** Harry Potter e a Ordem da Fênix, Capítulo 7.
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(N/A): Foi um capítulo “idílico”. Pelo menos para mim. Espero que não tenha sido justamente o pesadelo de vocês, hehehehehe! Peço desculpas adiantadas se me deixei levar pela empolgação.
Agora, mais do que nunca, para ter uma idéia completa deste capítulo é necessário ler a fic da Sally Owens. O encontro da turminha, mais detalhado, está lá. Claro que eu vou escrever mais aventuras deles, mas eu precisava de uma “virgula” agora para dar novo fôlego e dar impulso a esse “grupinho de cinco liderado por Hector Lupin, e que Merlin nos proteja”, como diz a Madame Pomfrey.
Obrigada pelos comentários. Agradeço até mesmo aos que lêem em “silêncio”.
Regina, agora que eu vi: você também fica brigando com o mouse e o teclado!
Bem, mais um capítulo:
7. Os Novos Marotos.
O nome “Ministério da Magia” causa impacto em quem passou a vida toda como trouxa. Grande parte da humanidade é criada para acreditar que magia é invencionice, fantasia, coisa do imaginário popular. Portanto, ligar o termo “magia” a uma palavra tão “vida real” quanto “Ministério” é no mínimo estranho.
Incompatível, para usarmos de completa franqueza.
Ana entendia perfeitamente isso. Quando tivera conhecimento dos livros, ainda na ignorância de que “havia mais entre o céu e a terra”, também ela curvara os lábios em um riso reprimido diante da idéia de um Ministério da Magia – conceito realmente engraçado para ela. Para alguns trouxas, é absurdo; para outros, como Valter Dursley, revoltante. Mas, para ela, era simplesmente engraçado.
Se soubesse, na época, que tinha nas mãos a chave de seu passado e de seu futuro! Jamais teria rido.
Ainda se lembrava da primeira informação a respeito do governo bruxo. Fora dita por Hagrid naquela manhã mágica (desculpem os trocadilhos) em que ele fora “resgatar” Harry Potter dos Dursleys. Imagine, Hagrid apresentou ao mundo a grande Instituição a qual os bruxos confiam seus destinos! E fez isso após uma rápida olhada nas notícias do Profeta Diário, quando declarou:
“O Ministério da Magia anda aprontando as trapalhadas de sempre”.
Resumo perfeito de Hagrid sobre as atividades do Ministério, diga-se de passagem. Com um certo “quê” de profético para os fãs do menino-bruxo. E é com profundo pesar que informo a estes mesmos fãs que o tempo não deixou o Ministério menos atrapalhado, e tão pouco mais sábio. Nos oito anos seguintes à derrota de Voldemort, a história veio a comprovar que, quanto mais o Ministério devia a Harry Potter, mais problemas ele trazia ao ex-grifinório.
Já ouviram falar em uma tal de Dolores Umbridge? Claro, que pergunta idiota, desculpem. É claro que já, quem esqueceria a sapa velha da Umbridge, a “Grande TORTURADORA de Hogwarts”? A mulher desperta gana assassina até no mais insensível dos leitores. Merlim a proteja de cair nas mãos de um fã do menino-bruxo, porque não sobrará uma única fitinha de veludo para contar a história.
Estou sendo cansativa? Ó céus, desculpem. Ultrapassei todos os limites de parcialidade autoral. Vou direto aos fatos, prometo.
O ponto é que, embora eu tenha vontade de inventar que Umbridge teve um fim ao qual tranqüilamente merecia (como ter sido pisoteada por centauros durante a Batalha Final, ou então devorada por dragões peruanos) devo dizer que ela está vivíssima e ainda ocupa um alto cargo junto ao governo bruxo.
Soa como piada aquela mulher ainda estar lá, eu sei. As mentes mais brilhantes do Mundo Bruxo naquele lugar, e ninguém nota que a criatura é perturbada! O Ministério da Magia é “engraçado” de uma forma que não ocorrera a Ana no primeiro momento. E, como ela descobrira mais tarde, nem todos riam de suas “gracinhas”.
O mais novo “gracejo” de Umbridge, por exemplo, era culpar Harry Potter pelas fugas em Azkaban, e exigir um processo disciplinar contra o Auror. * Muitos bruxos ainda não entendiam como Harry havia conseguido vencer Voldemort, achavam que ele era uma bomba pronta a explodir, tamanho era o poder que carregava. Outros, que tanto poder iria corrompê-lo, se já não o tivesse feito. Finalmente, havia os que estavam há tempos querendo ver Harry e sua conduta politicamente correta para fora do Ministério (leia-se: alguns dos “honestos comerciantes” do Beco Diagonal).
Se Potter não se cuidasse, em breve seria a nova versão de João Batista, que se dispusera a proclamar a verdade no deserto, para em seguida ter sua cabeça em uma bandeja de prata.
Gárgulas galopantes, aqui estou eu dando voltas novamente!
Bem, voltando à terceira pessoa do singular: contou-se tudo isso só para chegar a Ana, que refletia exatamente sobre estas coisas enquanto caminhava pelos corredores do Ministério, se dirigindo para mais um dia de trabalho naquela sexta-feira. Ah! Lá está a nossa mais nova Auror pegando uma daquelas gaiolinhas nada confiáveis que os bruxos têm a ousadia de chamar de “elevador”. Humpft! Elevador, pois sim...
Além de mais três pessoas, vários aviõezinhos de papel lilás entraram no mesmo elevador que Ana. Ficaram voando acima das cabeças das pessoas, próximos ao teto e às esferas brilhantes que iluminavam o interior do cubículo. Ana fitou os “aviões-memorandos” torcendo para que nenhum deles fosse para ela. A última coisa que precisava naquele dia era mais problemas.
O Ministério da Magia ficava no subsolo de Londres, de forma que, em vez dos números dos andares aumentarem à medida que se subia, eles diminuíam, como em uma escala termométrica onde os andares eram os números negativos. ** A voz feminina que anunciava os andares foi dizendo:
- Sétimo andar... Sexto... Quinto...
Quando chegaram ao quarto andar, Ana se virou para um jovem estagiário do Comitê de Desculpas Dignas de Trouxas e disse, bem-humorada:
- Quatro, três, dois, um... Zero! Lançar!
O rapaz não lhe devolveu o sorriso. Péssimo jeito de descobrir que bruxos não entendiam piadas sobre a Conquista Espacial.
Finalmente ela desceu no segundo andar, onde ficava o quartel dos Aurores, percebendo que a grande maioria dos memorandos deixou o elevador com ela, indo pousar justamente em sua mesa. Definitivamente, o dia não estava começando bem.
- Houston, estamos com problemas... – murmurou com um suspiro desolado.
Harry e Tonks ainda estavam em casa recuperando-se, de forma que o trabalho que antes dividia com a metamorfaga havia se acumulado em sua mesa. Respirando fundo, tratou de abri-los e responder os que precisavam ser respondidos. Sinceramente, achava que a burocracia bruxa era estafante. E olha que ela tinha trabalhado no governo brasileiro!
A maioria dos memorandos se tratava de denúncias anônimas a respeito do paradeiro dos fugitivos de Azkaban. Ultimamente estava “chovendo” gente que achava ter visto algum Comensal da Morte. Nenhuma delas se mostrava consistente, o que indicava o quanto a população bruxa estava histérica, como nos tempos da Guerra.
O dia passou, o fim do expediente chegara e o humor de Ana não melhorou muito. Sabia perfeitamente a razão disso: o jantar. Nunca acreditara em pressentimentos, mesmo depois que “se tornara” bruxa, mas aquele evento a estava deixando com os nervos à flor da pele, como se uma energia negativa rondasse aquela loirazinha atirada. Torceu o nariz. Que pressentimento que nada: era a lógica. A garota não tinha tido pudores em demonstrar que estava interessada em seu marido – mesmo sabendo que ele era casado – e o senso comum lhe dizia que gente assim não era confiável. Na hipótese dela precisar de mais subsídios para não confiar em Felícia Althorp, além do fato dela estar dando em cima de “seu” marido, é claro.
- Ana – a cabeça de um dos jovens estagiários apareceu na porta, salvando-a dos seus pensamentos sombrios.
Seus colegas de trabalho logo se acostumaram a chamá-la pelo primeiro nome, uma vez que “Weasley” era como Rony era conhecido. Sendo brasileira, isso não a incomodou nem um pouco, pelo contrário: deixava-a mais à vontade. Ser chamada pelo sobrenome era muito... Frio.
- Sim?
- O livro que você queria, e que estava no Departamento de Mistérios. – Ele lhe estendeu um volume encadernado em couro, com páginas tão amareladas pelo tempo que pareciam poder se desmanchar a qualquer momento. O rapaz abriu um sorriso zombeteiro e disse: - Levei um tempão para achar, estava em um canto tão escuro e empoeirado... Melhor ler antes que desapareça novamente.
- Obrigada, Thomas. – Só então ela balançou a cabeça rapidamente, dando-se conta do que o rapaz dissera: - Novamente?
- Sim, ele não estava lá, apareceu do nada. Em um instante não havia coisa nenhuma e, no seguinte... “Puf”, lá estava. Deve estar encantado. Acho que não queriam que ele fosse visto. – Ele deu de ombros, não dando muita importância ao livro “sumidor”.
- Sei... – Ana franziu o cenho. Em certos momentos, ainda tinha a impressão de que havia entrado na Casa do Chapeleiro Maluco. – Obrigada mais uma vez, Thomas. – Sorriu naturalmente, tentando não parecer tão “recém chegada do mundo não-mágico”.
Assim que o jovem saiu, ela voltou o olhar para a verdadeira antiguidade em suas mãos. Thomas tinha razão em temer que ele desaparecesse, mas não por causa de magia. Com um sorriso de desdém, pensou que os bruxos aplicariam muito bem o seu tempo se aprendessem técnicas de conservação de livros, ao invés de só se preocuparem em enfeitiçá-los. Aquele, por exemplo, estava começando a virar pó.
Tratava-se de um item do Departamento de Mistérios que descobrira ao pesquisar sobre Rowena Ravenclaw e o Mito de Aradia, bem como o de Fausto. Sabia que Hermione e Gina estavam obtendo melhores resultados do que ela nesse campo, e também sabia que estava desobedecendo a divisão de tarefas dadas por Harry sobre aquele assunto, mas não resistiu a aquele pequeno mistério. “Estou parecendo a Mel”, pensou, com um sorriso nos lábios.
Não que o livro de Heinrich Cornelius Agripa tivesse trazido grande luz ao assunto. Pegara-o mais por curiosidade – era um livro sobre plantas - mas... Ora, até bem pouco tempo acreditava piamente que era naquele homem em quem Goethe tinha se inspirado para escrever a “obra de ficção” chamada “Fausto”. Então, encontrar algo escrito por ele entre os itens do Departamento de Mistério era... Muito suspeito!
Como todas as obras cultas da época (século XVI), estava escrita em latim. Ana suspirou, impaciente. Ter o Português como primeira língua não iria ajudar muito neste caso, embora a visualização das frases escritas naquele nobre idioma trouxesse vagas lembranças de seus tempos de faculdade de Direito.
Desanimada, fechou o livro e deixou que a cabeça caísse pesadamente sobre o objeto pousado em cima da mesa.
- Ai! – Exclamou um segundo depois, enquanto levantava a cabeça e massageava a testa, justo no momento em que Rony entrava na sala.
- Puxa, Ana, eu sempre soube que você tinha a cabeça-dura! – O ruivo riu, colocando uma enorme pilha de relatórios em cima da mesa: - Isso é para você.
- Humpft! – bufou em desdém, tanto pela pilha de papéis quanto pela piadinha. – Eu não tenho... Ah, vocês bruxos bem que poderiam usar e-mails para se corresponderem! É um meio mais rápido, racional e ecologicamente correto!
- Como assim, “vocês” bruxos? – Ele perguntou, confuso. – E o que são “e-mails”?
- Er... – Ela enrubesceu. – Desculpe, força do hábito. Por mais que tenha recebido conhecimentos bruxos do bracelete de Helga Hufflepuff, ainda não saí totalmente do “módulo trouxa”.
- Nós percebemos – Rony respondeu distraidamente, o que provocou uma ruga desconfiada na testa de Ana.
Testa. A dorzinha remanescente naquela sensível área (mesmo Rony afirmando de forma enfática que era justamente a parte mais dura do corpo de Ana) lembrou-lhe o livro. Havia sentido algo maciço na capa quando batera a cabeça contra ela.
Passando os dedos delicadamente por sobre a superfície do couro gasto e velho, descobriu uma saliência insuspeita bem no meio da face do livro. Ela teria passado despercebida graças à maciez do couro se Ana não tivesse literalmente se “chocado” contra o objeto, seja lá o que fosse.
E ele estava dentro da capa, costurado com ela.
- Rony, você consegue guardar um segredo? – disse displicentemente para o ruivo.
- Que segr... ANA!
- Difindo! – Ela apontou a varinha para o livro, fazendo com que a capa se abrisse. Retirou o objeto metálico, que mais parecia uma moeda de uns cinco ou seis centímetros de diâmetro. – Reparo! – E a capa voltou a seu lugar, como se nunca tivesse se aberto.
Ana segurou o objeto entre os dedos, erguendo-o para a luz, fazendo o metal reluzir. Parecia ser feito de bronze, e possuía relevos em toda a sua superfície. Percebendo que o cunhado ainda a olhava boquiaberto, defendeu-se:
- Ora, Rony, não me olhe desse jeito! O Harry e você ficam dando mau exemplo para as criancinhas do mundo todo. Depois não podem reclamar. – Vendo que o ruivo não tinha “captado” o significado de suas palavras, foi mais explícita: - Estou falando de uma troca de capas de um certo livro de Poções, no sexto ano de vocês. – Abriu o sorriso, divertida – Advinha com quem eu aprendi isso?
Rony revirou os olhos, recuperando-se do choque:
- Pelo que eu sei, você não era mais nenhuma criancinha quando leu isso. – Ana fez uma careta diante do “sutil” lembrete sobre sua idade. – Bem – ele continuou com uma expressão de falsa cesura – Suponho que não pretende informar ao chefe?
Ana olhou para a “medalha” em sua mão, refletindo sobre o assunto. Confiava totalmente em Kingsley Shacklebolt. Mas queria deixar isso em segredo, pelo menos por enquanto.
- Me deixe investigar primeiro – respondeu – Depois que tiver algo de concreto eu mesma conto ao Quim. Pode não ser nada.
- Tudo bem – Rony deu de ombros - Já que é tarde demais mesmo... Mas, que livro é esse?
Ana explicou como o livro chegara até ali, de sua curiosidade sobre o autor que supostamente inspirou Fausto. À medida que a narrativa fora avançando, Rony cerrou os olhos em sinal de concentração. Era algo da personalidade de Ronald Weasley que só ficara evidente depois que ele amadurecera: ao contrário do que se imaginava quando ele era estudante em Hogwarts, ele não era displicente com os estudos. Apenas tinha outra maneira de selecionar as coisas em que iria fixar sua atenção. Preferia gastar suas energias quando acreditava que o assunto merecia seu interesse, e então ia a fundo, até o fim. E aquele lhe interessava. Afinal, era a vida de sua irmã e a de seu sobrinho que nem nascera ainda que estavam em jogo. *
- Não pode estar certo – Rony comentou, olhando para a moeda – Este desenho não faz sentido nenhum em um livro de um bruxo alemão do século XVI.
- Eu sei – Ana respondeu, levantando novamente o objeto e olhando para o desenho, linhas que se cruzavam de forma peculiar – Isto é um nó celta, representando a Garça. – Uma enxurrada de informações lhe veio à mente, como sempre ocorria quando invocava conhecimentos vindos do bracelete de Hufflepuff. - Um animal sagrado, mas para as culturas celtas.
- Não – ele negou fazendo um movimento com a cabeça – Estou falando do desenho do outro lado – e girou o medalhão de forma que a outra face ficasse de frente para Ana: - O emblema de Ravenclaw, “o corvo”. O mesmo que fica na bandeira da Casa de Corvinal.
***
As prioridades das pessoas mudam constantemente. Por exemplo, não que Ana tivesse esquecido o objeto que trazia uma estranha relação com Rowena Ravenclaw. Mas já estava à uma hora no famigerado jantar dos Althorp e nem um único minuto se sentira bem nele.
O senhor Althorp parecia ser um homem bom, apesar de muito condescendente com a filha. A mimava demasiado, o que explicava muitas coisas sobre a personalidade de Felícia. Claro, Ana já intuía algo deste tipo a respeito da moça.
O que a estava incomodando não era o que estava evidente, mas o que “não estava entendendo”. Diversas vezes pegara a loira sorrindo, triunfante, como se Ana tivesse feito algo que a deixara imensamente feliz. E deixar Felícia feliz era a última coisa que ela desejava, como se pode imaginar. Carlinhos também parecia estranho nestas ocasiões, tenso. Por isso, ficara intrigada, perdida em seus pensamentos tentando descobrir o que estava havendo.
Foi quando uma frase, dita com escárnio por um tal de Winterbring (apresentado por Felícia como um grande especialista em Animais Mágicos), chamou sua atenção:
-... Daí eu disse: “Isso é mais absurdo que a classificação dos trouxas para animais!” – Winterbring riu do próprio comentário, sendo seguido por várias pessoas.
Ana sabia que devia controlar a língua. Mas o comentário jocoso lhe trouxe um desconforto demasiadamente pesado. Desde os tempos de adolescente, não conseguia ficar sem emitir sua opinião, mesmo que fosse de forma sutil.
- Por quê? – Ouviu-se perguntando, para sua própria consternação.
- Por que o quê, minha querida? – Winterbring voltou-se para ela, despreocupado, ainda com um sorriso nos cantos dos lábios.
- Por que acha que a classificação dos trouxas é absurda? – Ela completou ingenuamente.
- Ora... – Olhou rapidamente para os demais, um tanto surpreso, como se a resposta fosse óbvia. – Um monte de divisões e subdivisões, com critérios inúteis... – Com uma risadinha e um dar de ombros, deu por encerrado o assunto.
- Não são inúteis. – Mal pronunciara estas palavras, já estava se amaldiçoando por não conseguir simplesmente ignorar. Bem, já que começara, então que fosse até o fim. Continuou com o tom mais humilde que conseguiu: - Certamente eu não pretendo terminar aqui uma discussão que é travada há... Seis séculos entre os bruxos. Só estou dizendo que a classificação trouxa é muito apropriada para o fim a que se destina: estudar a vida. Quando Lineu propôs a atual nomenclatura trouxa dos seres vivos, não estava pensando em governos, direitos e responsabilidades. Muito menos na periculosidade dos animais. Ele só queria entender a biodiversidade que há na Terra.
- A senhora Weasley parece conhecer bastante os trouxas. – O senhor Althorp comentou, visivelmente interessado.
Carlinhos sorriu, e respondeu:
- Minha esposa teve sua manifestação de magia já na idade adulta. Sua formação foi trouxa.
Pela primeira vez, Ana entendeu o incômodo de tia Bianca com o termo “trouxa”. Não da mesma forma de quando tinha descoberto o Mundo Mágico, época na qual encarava o fato até com certo humor; mas agora via o assunto com indisposição, frente ao preconceito contido na origem palavra.
- Então, talvez a senhora pudesse nos explicar... – O tom de armadilha velado na voz de Felícia a deixou alerta no mesmo instante.
- Sim. – Winterbring apoiou. - Nos dê um exemplo desta... “Utilidade”, senhora Weasley. Qual seria a classificação trouxa para um dragão, e em que isso iria ajudar diante do perigo? Suponho que um trouxa também ache útil ficar vivo!
Ótimo. Estava entre o orgulho e a cautela. Escolha difícil, especialmente diante daquela necessidade premente de defender todo o estilo de vida no qual fora criada. Principalmente, porque queria tirar aquele sorriso que começava a se formar nos cantos dos lábios de Felícia. E, finalmente, porque nunca em sua vida gostou de perder uma batalha verbal.
O orgulho venceu. Respirando fundo, respondeu ao desafio:
- Animal, vertebrado, ovíparo... Um elo perdido entre os répteis e as aves. Acompanhando a hipótese dele se enquadrar na classe dos répteis, ouso afirmar que a melhor hora para investir contra um dragão é pela manhã, quando sua temperatura estiver mais baixa, como acontece com todos os répteis. Isso se a capacidade de gerar fogo não interferir nesta peculiaridade, é claro. Nenhum animal exotérmico que eu conheça tem esta habilidade... “Pirotécnica”, digamos assim. De forma que só estou conjeturando. Sua capacidade de vôo indica uma caixa torácica semelhante aos dos pássaros, o que chamamos de “ossos pneumáticos”, além de sacos aéreos. Se em um confronto não houver meios de lançar um feitiço conjutictus, mas existir a seu alcance algo capaz de atravessar a couraça de um dragão, então aconselho a atingi-lo nas costelas, próximo ao pulmão, onde irá impedi-lo tanto de cuspir fogo quanto de voar. Isso se não quiser matá-lo, é claro.
- Perfeito! – O senhor Althorp exclamou, positivamente impressionado. Era o único. Os demais pareciam desconfortáveis e Winterbring estava com cara de quem tinha acabado de cair do pedestal (e não estava nem um pouco satisfeito com isso). – Weasley, andou conversando sobre nosso ramo com sua esposa?
- Não senhor – Carlinhos forçou um sorriso – Ela deduziu tudo isso sozinha.
- Incrível! É preciso um nível avançado no estudo de dragões para isso. – Althorp estava animado, alheio ao clima ao seu redor.
Ana pousou rapidamente o olhar em Felícia e pelo ar de felicidade dela soube que, apesar de ter ganho a discussão, não saíra vencedora. Tinha acabado de fazer um grande nome entre as pessoas naquela mesa passar por ignorante, alguém de quem dependiam profissionalmente. Nem queria pensar no que isso poderia significar para a carreira do marido.
Como ela estava se odiando agora!
***
- Eu fui provocada! – Ana se defendia mais tarde, já em casa, visivelmente chateada. - É o que eu sou, quer dizer... Dá para tirar uma pessoa do Mundo Trouxa, mas não o Mundo trouxa de uma pessoa.
- Você podia ter pego mais leve... – Carlinhos retrucou em tom que pretendia ser neutro.
- Pegar mais leve? Felícia estava em tal estado de alegria que eu tive vontade de passa-lhe um guardanapo para pudesse enxugar o veneno que estava escorrendo da boca dela! É realmente uma pena que a cobra Nagini tenha morrido, porque iria achar o par perfeito na senhorita Althorp!
Carlinhos não conteve o riso diante das palavras da esposa:
- Merlim, devo agradecer por você não ter usado a força total de sua língua ferina esta noite, porque então eu já estaria despedido a esta hora!
O sorriso desapareceu no rosto de Carlinhos tão logo se deu conta do efeito que suas palavras haviam causado na esposa. Ana ficara pálida, suspensa por alguns segundos diante do choque:
- Eu te prejudiquei, não foi? – Ela finalmente conseguiu dizer. – Eu simplesmente não sabia como agir...
Ele avançou alguns passos, segurando o rosto dela entre as mãos:
- Não... É só uma questão de tempo até que você aprenda certos detalhes... Menores, sobre o comportamento bruxo. Etiqueta nunca foi importante entre os Weasley, você sabe. – Ele sorriu.
- Etiqueta? – Ana arregalou os olhos, dando alguns passos para trás ao perceber que eles estavam falando de coisas diferentes. – Quer dizer que... Oh, Meu Deus, nestes últimos meses eu estive fazendo coisas que no Mundo Mágico correspondem a... Arrotar ou assuar o nariz de forma espalhafatosa?
- Bem... – Era evidente que sim, mas o marido não sabia como dizer aquilo.
- E todos estavam escondendo isso de mim? Os Wealeys, Harry e Gina, Lupin e Tonks... Quim? Preferindo ignorar a me magoar avisando que eu havia cometido uma gafe? – O olhar culpado de Carlinhos dizia tudo. – Meu Deus! – Ana se virou, passando a mão na testa em uma mistura de vergonha e exasperação. Então, voltando-se para ele, questionou, com voz firme: - O que? Como o quê, por exemplo? – Agora tinha uma necessidade mórbida de saber quantas vezes tinha feito papel de idiota.
- Er... – Era evidente que o ruivo preferia enfrentar um dragão a estar ali, respondendo as perguntas de Ana, mas Carlinhos não era de fugir dos problemas, então resolveu ir direto ao assunto: - Lembra quando chegamos no restaurante? Ainda estávamos com as varinhas nas mãos, porque tínhamos acabado de aparatar. Bem... Geralmente se espera alguns momentos antes de se apertar a mão de alguém com a mão que acabou de usar a varinha para se fazer mágica. A magia deixa vestígios, uma “corrente” muito pessoal, que permanece por alguns segundos...
Ana fechou os olhos: ela estendera a mão imediatamente após ter sido apresentada. Lembrava disso muito bem, porque houve um momento constrangedor – que ela não entendera, é claro – seguido do primeiro sorriso radiante de Felícia naquela noite.
- Ana... Não há razão para ficar assim. São detalhes sem importância. É só uma questão de tempo para você se acostumar. Aposto que eu também cometi vários erros enquanto estava sendo apresentado aos seus parentes e amigos.
Ela iria retrucar quando a lembrança do seu primo Eduardo se desculpando por um espirro, seguida de um Carlinhos confuso respondendo “Não se preocupe, não me atrapalhou”, fez surgir um princípio de sorriso em seus lábios.
Carlinhos percebeu também e, de consolador, passou a “preocupado”:
- O quê? Como? Eu fiz algo? O que eu fiz?
- Calma, amor... – Ana conseguiu abrir um pequeno sorriso. – Vamos fazer um acordo: de agora em diante, vamos ser sinceros um com o outro, certo? – Diante de um balançar afirmativo de cabeça dele, ela continuou – Agora vou subir e ir para cama. O dia não foi fácil hoje.
O sorriso de Ana sumiu tão logo deu as costas para o ruivo. Não tinha se convencido da justiça no acordo. Afinal, as oportunidades sociais onde as habilidades de Carlinhos iriam ser necessárias eram mínimas. Estavam na Inglaterra, longe da família e dos amigos de Ana. Não viviam entre os trouxas, mas no mundo paralelo dos bruxos – ela mesma optara por isso. De forma que cabia a ela aprender a “corrigir-se” e aprender a transitar naquele mundo. O sucesso de seu casamento dependia disso. Mas, será que a animação de Felícia tinha fundamento? Se ela não conseguisse se adaptar, isso significaria que Carlinhos estaria melhor com outra esposa?
Carlinhos tinha razão, devia ter se controlado no jantar. Pelo menos o arrogante do Winterbring nem iria se lembrar dela. Diante dos acontecimentos, isso seria melhor.
Estava deitada, rezando para que aquela angústia que sentia passasse, que tudo desse certo. Foi então que sentiu o marido deitando-se ao seu lado na cama, passando um braço ao redor de sua cintura:
- Eu te amo – ele murmurou.
- Eu também.
***
Trecho perturbador esse aí de cima, não? Detesto contar coisas deste tipo. A realidade é uma droga.
Por isso que os contos de fadas fazem mais sucesso. Depois dos problemas resolvidos, o narrador simplesmente diz que “eles viveram felizes para sempre”, livrando o leitor das minúcias a respeito do restante dos dias da vida dos personagens. É como sempre digo: Monteiro Lobato, Irmãos Grim e Disney – esses foram gênios de verdade!
Já sei, já sei! Terceira pessoa do singular...
Em Hogwarts, a primeira semana de aula transcorrera normalmente. Ao menos, dentro da normalidade de uma escola de magia e bruxaria. Embora as coisas não transcorressem às mil maravilhas para Mel, ela estava se adaptando bem à rotina – até mesmo as escadas tinham deixado de ser um problema. Os alunos aprendem a “intuir” os caprichos daqueles degraus encantados depois de alguns dias.
Na quinta-feira, tivera a primeira aula de vôo com Madame Hooch. Estava animada, embora soubesse que não se descobriria um talento oculto para o quadribol. Nunca havia sido um sucesso nos esportes, não seria agora que isso iria mudar. Mas, como meio de transporte entre os bruxos ocidentais, voar seria bem útil... Além de emocionante!
Após se certificar que os olhos amarelos como os de um falcão e os cabelos cinzentos da professora condiziam com a descrição feita nos livros, apressou-se a ficar ao lado de sua vassoura, sorrindo para o objeto como se fosse um cãozinho ao invés de um artefato enfeitiçado.
Ah, como a imaginação nos leva a desligar do mundo ao redor! Imediatamente, a garota lembrou-se de outro grupo de garotos primeiro-anistas, há anos atrás. Entre eles, um garoto moreno e magricela, usando óculos de aro redondo. Conhecia a cena com tal riqueza de detalhes, que lhe pareceu ouvir a voz de Madame Hooch ordenando se colocarem ao lado das vassouras. E ela estava lá, com Harry, Hermione e Rony. E foi por estar perdida em sua fantasia que não titubeou ao ordenar à sua vassoura:
- EM PÉ!
Entusiasmada, viu sua vassoura obedecer-lhe imediatamente e ir parar em sua mão.
- Muito bem, senhorita Warmlling. – a voz de Madame Hooch tirou Mel de seus devaneios. – Mas eu estava justamente dizendo como é importante prestarem atenção no que eu digo... – A garota não saberia dizer se era satisfação ou ironia nas palavras da professora, tamanho era o brilho divertido em seus olhos. – Bem... Agora que a senhorita Warmlling lhes mostrou como se faz, o que estão esperando? Rápido, rápido!
Assim que todos conseguiram “dominar” suas vassouras, Madame Hooch lhes ensinou como montar e segura-las adequadamente, de forma que não escorregassem pelo outro lado.
- Quando eu apitar, dêem um impulso com os pés, mantenham-se firmes nas vassouras e voando por alguns segundos. Depois retornem ao chão inclinando um pouco o corpo para frente.
Assim que ouviu o apito, Mel impulsionou os pés. A vassoura subiu tão rápido que, assustada, segurou-se com mais força do que o necessário no cabo, o corpo inclinando-se para trás. Resultado: a vassoura deu uma pirueta no ar e ela acabou caindo de costas no chão.
Não feriu nada, exceto o orgulho. Olhando para os demais colegas, percebeu que não tinha sido a única a não se sair bem na primeira tentativa. Um garoto da Lufa-lufa tinha dado um impulso tão forte que ele subiu mais alto do que pretendia. Ao tentar voltar ao chão tão rápido quanto tinha subido, acabara estatelando-se nele, o cabo da vassoura cravado na grama com o impacto. Elisa Coffman, companheira de quarto de Mel, junto com outro menino da Corvinal e mais duas garotas da Lufa-Lufa, nem sequer tinham saído do chão.
No final das contas, saiu da primeira aula com algumas escoriações, mas satisfeita. Tinha sido a décima quinta pessoa a conseguir se manter na vassoura. O que importava se a classe tinha vinte alunos? Não tinha planos de jogar no “Canhões de Chudley” mesmo. Ela tinha conseguido. Era o que bastava.
Na segunda-feira, finalmente encontrara o filho de Remo Lupin e Nimphadora Tonks. E não podia dizer que havia sido um prazer. O garoto era a criatura mais arrogante que havia conhecido! *
Hector Lupin era um aluno do segundo ano da Grifinória e, longe de ter a gentileza do pai e a simpatia da mãe, apresentava uma postura cheia de si e reagira negativamente só porque ela tinha... Er... Bem... Ouvido uma conversa entre ele e mais dois amigos. Ora, eles estavam falando sobre Harry Potter o que poderia ter feito? Impossível não ouvir!
Tudo bem que a curiosidade a tinha feito ir um pouquinho longe. Mas ela estava quieta em seu canto na Sala de Estudos quando eles chegaram. Se não queriam que ninguém ouvisse, então que não se sentassem tão próximos! Lembrava que eles quase acertaram Danna e ela com as mochilas, praticamente atirando-as por cima das meninas. Sim, ela e Danna costumavam sentar próximas, embora não conversassem. “As duas excluídas de Hogwarts”. Era quase como estarem mais seguras se ficassem juntas. E então chega aquele grosso e...
Incapaz de se controlar com o que tinha ouvido (lembrando que “eles” estavam falando de uma forma que simplesmente não dava para não ouvir), ela se intrometeu e fez uma pergunta. Uma perguntinha, só. E o tal do Hector fez um comentário nada lisonjeiro sobre o tom de sua pele, imagine, só porque estava “ligeiramente” mais pálido que a média na população brasileira. Que grosso! Recordando-se disso, deu uma olhadela para a pele de sua mão. É... Talvez precisasse pegar um solzinho.
E agora o garoto não podia passar por ela sem fazer uma careta, murmurar algo que evidentemente era um comentário depreciativo sobre ela para os amigos dele ou ter que ser “levado” para outro lugar por estes mesmos amigos – um outro grifinório e um lufa-lufa que Mel havia descoberto que era filho de Kingsley Shacklebolt.
Ela não ligava. Simplesmente ignorava o garoto. A única coisa que a incomodava é que talvez Lupin não gostasse mais dela se o Hector contasse do que o tinha chamado. Mel ficava vermelha de vergonha só de lembrar. Não quisera dizer exatamente aquilo, mas ficou parecendo... Bem, irritada por ele a ter chamado de “branquela” ela comentou que ele só podia ser adotado, pois um filho de Remo Lupin jamais seria tão mal-educado. E ela sabia que realmente ele não poderia ser filho biológico deles, por causa da idade do garoto. Que mancada! Aquilo tinha sido cruel, mesmo que não tivesse sido sua intenção.
De qualquer forma, tinha coisas mais importantes para se preocupar do que o garoto arrogante da Grifinória. Como por exemplo, aquele símbolo no retrato de Rowena Ravenclaw.
Insatisfeita com o que tinha encontrado na biblioteca, acabara se decidindo por entrar em contato com o irmão. Ele tinha acesso a ferramentas das quais não dispunha ali. Então, quando Dumbledore aparecera na quinta-feira, ainda na primeira semana, aproveitou para mandar uma carta para o irmão. Ainda bem que a harpia tinha aparecido depois das aulas e encontrou a menina no pátio, de forma de não houve confusão desta vez. Bem, não “tanta” confusão...
A correspondência entre os irmãos foi intensa nos dias seguintes, sendo que a eficiência das harpias frente às corujas em viagens longas foi comprovada.
“Mel, Cara-de-Pastel:
Pesquisei na Internet o que você me pediu. Está tudo imprimidinho e bem guardado aqui comigo.
Agora me diz: o que há de errado com a biblioteca de Hogwarts? Será que finalmente a Madame Pince surtou com as zilhões de regras que ela mesma criou e o lugar foi fechado?
Você está aprontando, não está?
Vamos fazer uma troca: você me conta qual é o mistério de Hogwarts que está resolvendo, que eu te mando o que eu achei. É um bom negócio, se eu fosse você eu aceitaria...
Saudades,
Lipe.”
“Lipe, Mais-Chato-Que-Bipe:
Corta essa, garoto! Tá pensando que é quem?
Mesmo que você estivesse com essa bola toda e eu fosse obrigada a contar para você, eu não saberia o que contar.
É isso mesmo: eu só vou ter idéia se há realmente um mistério depois de ver o que você pesquisou. Talvez não seja nada. Tudo o que eu posso dizer é que há um símbolo celta no retrato de Rowena Ravenclaw (sim: há retratos dos Fundadores aqui, não é o máximo? Assim que eu conseguir uma câmera bruxa – daquelas que o Colin Creevey tinha – eu tiro uma foto e te mando).
As coisas que encontrei na biblioteca de Hogwarts não me esclareceram muita coisa. E, por mais que ela seja enoooooooorme e uma das mais completas do mundo bruxo, ninguém me convence que ela possui mais informações do que a Internet. Além do que, estou sentindo que vai ser necessária uma visão trouxa sobre este assunto...
Portanto, tire o cavalinho da chuva e manda logo o que você achou se realmente quer saber de alguma coisa!
Saudades também,
Mel.”
“Mel, Branca-Que-Nem-Papel:
Sei não, isso tá com cara de enrolação sua para cima de mim. Mas eu aceito trocar a pesquisa por uma foto do retrato de Ravenclaw.
Ele se meche? Digo, o retrato? Nesse caso, não seria mais fácil perguntar direto para o quadro dela, ó cérebro da família!?!
Ah, antes que eu me esqueça: da próxima vez, vou querer um autógrafo do Firenze como pagamento.
Seu irmão que te adora,
Lipe.”
“Lipe, Feio-Como-Celulite:
Seu mercenáriozinho de uma figa!
É lógico que, se o retrato falasse, eu teria perguntado para ele (digo, ela... Ah, sei lá!).
Mas o retrato é trouxa. Totalmente imóvel.
Os livros da biblioteca de Hogwarts dizem que os Fundadores decidiram que não haveria nenhuma parte deles sobrevivendo após a sua morte, além das idéias que eles ensinaram na escola. Segundo os livros, eles concordaram que Hogwarts deveria sobreviver sem eles, se quisesse durar mais que alguns anos.
Deviam ter razão, porque ela está aqui há mil anos!
É... Eu também te adoro (ainda).
Mel.”
Nenhum dos livros que Mel pesquisara explicava porque Rowena Ravenclaw tinha um símbolo celta no seu retrato. Quer dizer, nenhum, exceto pelo fato de que a tradição bruxa na Grã-Bretanha vinha em grande parte deste povo, e que na época de Rowena o conhecimento mágico ainda não estava totalmente separado do misticismo. Mais ou menos como a religião e a ciência para os trouxas. Mas, nenhum livro sequer sugeria que Ravenclaw tenha sido uma mulher “religiosa”, muito pelo contrário: parecia ter sido cética, embora tolerante com aqueles que pensavam diferente.
Quando Mel se deu conta, mais uma sexta-feira havia chegado. Estava ali a exatos onze dias. Se não fosse a solidão que estava sentindo – e isso era tão difícil de enfrentar – até diria que estava sendo feliz em Hogwarts.
Então, algo surpreendente aconteceu naquela sexta-feira. * Vira Danna cercada por um grupinho de sonserinas (mau sinal, logo pensou) que faziam troças da grifinória. Bem, não sabia que era Danna, a princípio, mas ficou ainda mais furiosa quando percebeu que era a garota com quem simpatizara tanto. A líder do grupo, como podem imaginar, era Caroline Bothwell, ou como Mel gostava de chamá-la mentalmente, “a versão feminina da doninha do Draco Malfoy”.
Mel disse umas poucas e boas para a garota e chegou até a encostar a varinha no rosto da sonserina para realçar a validade de suas palavras: iria azará-la se incomodasse Danna novamente.
O que aconteceu em seguida sempre iria ficar meio confuso nas lembranças de Mel. O Professor Widenprince, de Transfiguração, chegara neste momento. Ele era um bom professor, embora meio atrapalhado e com uma séria falta de confiança em sua autoridade didática. Ele quis saber o que tinha acontecido, e Caroline se apressou a contar uma mentira absurda onde Mel era a culpada, óbvio.
Então, Andrew aparecera do nada e a defendera. Andrew era o garoto moreno e de pequenos olhos azuis que era amigo de Hector Lupin. Joshua Shacklebolt o imitou. E, para a absoluta perplexidade de Mel, Lupin fez o mesmo.
Embora nem a Sonserina nem a Corvinal tenham saído ilesas em suas pontuações deste episódio, após este dia, os cinco estudantes de Hogwarts se tornaram inseparáveis: Hector McLellan Lupin, Andrew Willian Bennet, Dana Éowin O’Brian, Joshua Kingsley Shacklebolt e Mel Anhanguera Warmlling. Um dia, o grupo seria conhecido como “Os Novos Marotos”.
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NOTAS
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* Ler Harry Potter e o Retorno das Trevas, da Sally Owens.
** Harry Potter e a Ordem da Fênix, Capítulo 7.
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(N/A): Foi um capítulo “idílico”. Pelo menos para mim. Espero que não tenha sido justamente o pesadelo de vocês, hehehehehe! Peço desculpas adiantadas se me deixei levar pela empolgação.
Agora, mais do que nunca, para ter uma idéia completa deste capítulo é necessário ler a fic da Sally Owens. O encontro da turminha, mais detalhado, está lá. Claro que eu vou escrever mais aventuras deles, mas eu precisava de uma “virgula” agora para dar novo fôlego e dar impulso a esse “grupinho de cinco liderado por Hector Lupin, e que Merlin nos proteja”, como diz a Madame Pomfrey.
Obrigada pelos comentários. Agradeço até mesmo aos que lêem em “silêncio”.
Last edited by Belzinha on 02/06/06, 13:04, edited 1 time in total.

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"ler em silêncio" realmente não é o meu caso... hihi
muito... fofo!
:palmas :palmas :palmas
hehe... tal tia, tal sobrinha...
(mas coitada da Ana, tia Agata se esqueceu destes pequenos detalhes???
)
(estou mandando um email com algumas... reflexões)
muito... fofo!
:palmas :palmas :palmas
hehe... tal tia, tal sobrinha...
(mas coitada da Ana, tia Agata se esqueceu destes pequenos detalhes???
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Regina McGonagall
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AVISO: Galerinha sangue-bom que acompanha as minhas fics e as da Sally Owens *Belzinha tendo surtos de surfista, hehehehehe!* Seguinte: eu estou usando informações de outra fic aqui, a da Regina McGonagall, chamada “O Paciente Inglês”. Os personagens novos que entraram são dela (o endereço está lá no final deste capítulo). Lembrando que a opção por “cruzar” os dados da fic com os da Regina foi minha idéia, e que a fic da Sally Owens continua independente (embora ela seja tão fã da Regina quanto eu, hehe). O que quer dizer que pode ser que personagens e tramas não sigam exatamente o mesmo curso daqui para frente nas nossas fics, ok? Beijos! Amo todos vocês.
8. O Tempo Não Pára
Smith House é uma simpática mansão localizada na vilazinha de Hogsmeade, que é, como todos sabem, o único povoado totalmente bruxo da Grã-Bretanha. Para os que se perguntam como é que uma mansão pode ser simpática, quando o próprio nome “mansão” traz à mente a imagem de uma enorme casa, imponente e esnobe (como seus possíveis habitantes), e cheia de coisas velhas nas quais não se pode tocar... A explicação é simples: essa mansão não era assim.
O lugar irradiava descontração em cada um de seus cantos, e uma simplicidade que as pessoas que a visitavam esqueciam-se de estarem em uma “mansão”. De fato, em nada diferia da maioria das casas, exceto pelo tamanho.
Por exemplo, seus jardins ostentavam estátuas bem curiosas. Nada das célebres poses das estátuas gregas, muito pelo contrário: havia a de um velho bruxo assuando o nariz, a expressão contorcida de quem estava na iminência de soltar um poderoso e sonoro espirro. Tia Agatha lhe explicara que a estátua era de seu trisavô, Ebeneezer Smith (1). O pobre homem passara a vida toda espirrando, conseqüência de uma alergia cuja cura, na época, não tinha sido encontrada nem por bruxos nem por trouxas. Mas ele tivera o bom humor de mandar fazer uma estátua de si mesmo, daquele jeito, com os dizeres: “Respiro, logo espirro”.
Com coisas assim por toda a propriedade, não seria de se surpreender se as pessoas imaginassem que a loucura corria solta pelas veias dos Smiths. Como era uma loucura inofensiva e de índole festiva, Ana não se importaria se descobrisse ter herdado um pouco dela também.
Estava em Smith House visitando a tia, que acabara de retornar de sua última viagem com Moody. Eles tinham ido conhecer algum lugar longínquo da Europa Central. Um desses lugares que os trouxas só costumam ligar a prosaicas histórias do sobrenatural, mas que não colocam entre suas escolhas turísticas. No entanto, são lugares de intensa visitação da bruxilidade, por razões que só esta conhece.
Tia Agatha estava de ótimo humor, e parecia ter rejuvenescido uns dez anos. Na realidade, Ana desconfiava que talvez tivesse mesmo, pois tinha uma vaga lembrança de ter lido algo a respeito de uma poção rejuvenescedora vinda daquela região onde a tia estivera, em uma das revistas medibruxas de Alicia, a esposa de Jorge.
- Entre, querida. - Agatha chamara. - O chá está pronto.
A voz da tia a fez retornar de suas lembranças daquele jardim. Carlinhos e ela tinham passado bons momentos ali em seu começo de namoro. Momentos angustiados também, mas, ainda assim, tão belos... Um sorriso bobo delineou-se no canto de seus lábios: “tão bons...”.
Respirando fundo, deu por encerradas suas divagações sobre o passado. Foi quando sentiu uma coceirinha no nariz, insistente, mas poderosa. Todo o corpo se contraiu, na antecipação do que aconteceria. Ah, a urgência do desentupimento das vias nasais! Depois do espirro, a sensação de alívio, bem estar, contentamento.
“Dá para entender o porquê de o vovô Ebeneezer ser tão bem humorado”, Ana pensou, soltando uma risadinha antes de entrar.
Acomodando-se em uma das poltronas da sala de estar, lembrou-se que, antes do confronto com Voldemort, naqueles meses que passara ali depois de literalmente ter sido “sugada” por um livro, Harry e ela costumavam estudar Oclumência naquela mesma sala. (2) Naquela época – que para Ana havia sido há apenas quase um ano, mas para os outros eram nove – imperava a preocupação com a Guerra, com as horcruxes, com Voldemort. Tempos sombrios, que pareciam querer voltar agora...(3)
- Soube que Harry e Gina vão ter gêmeos! – Moody fez sua voz de rosnado soar pela sala, em um tom que os amigos reconheciam como sendo o “rosnado satisfeito”.
Ana custou a voltar ao presente e entender o que o ex-Auror dizia. Quando compreendeu, abriu um pequeno sorriso feliz. Sim, os Potter iriam ter gêmeos. A notícia maravilhosa tinha sido dada algumas semanas atrás. Um pouco antes de Carlinhos e ela terem que estragar a felicidade de todos contando sobre os “beusclainh”. (3) Moody e Agatha iriam ser informados sobre tudo aquilo na reunião da Ordem marcada para dali a alguns dias. Portanto, ela resolveu falar nada para os tios sobre aquelas criaturas terríveis, esperando a reunião. Agatha não era nenhuma flor de fragilidade, mas Ana sabia que também não era feita de ferro. E Moody não precisava de muito para deixar a tranqüilidade que a tia a custo havia lhe incutido, voltando a sua “vigilância constante”.
- Querida, algo a está preocupando. – Agatha sentenciou ao perceber as reações da sobrinha-neta. – Te conheço o suficiente para saber que quer me falar algo.
Ela sorriu fracamente para a tia. Sim, precisava muito dela agora. Mas o pedido de ajuda não era sobre os problemas envolvendo os comensais foragidos, ou os demônios chamados “beusclainh” com os quais aqueles haviam se aliado. Era um tanto constrangedor falar sobre isso, e ela sentia-se egoísta se preocupando com estas futilidades quando demônios estavam à solta, aliando-se a Comensais da Morte e seqüestrando crianças... Mas precisava desabafar. E quem melhor que Tia Agatha para entendê-la e ajudá-la?
Moody percebeu seu constrangimento:
- Acho que precisam conversar sozinhas... – O velho Auror nunca tinha sido muito bom com “sutilezas”, e já estava saindo quando Ana protestou:
- Não, tio Moody, por favor, fique. Não tenho nada a esconder do senhor.
Olho-Tonto Moody não tivera filhos e, de repente, ser “tio Moody” lhe trazia grande alegria. Ele exibiu um esgar que correspondia a um sorriso sem graça, que mal disfarçava o contentamento pela confiança que a “sobrinha” depositava nele e voltou a sentar-se ao lado da esposa.
Então, ela contou sobre o jantar, sobre os pequenos detalhes que havia na vida bruxa que, infelizmente, não faziam parte do “Kit Helga Hufflepuff Para Transmissão de Conhecimentos Via Braceletes Encantados” – e a comparação, inevitavelmente, fez Agatha e Moody rirem, sendo seguidos por Ana. Depois de desabafar com os tios, sentia-se bem mais leve e a brincadeira descontraiu o ambiente.
Já mais séria, Agatha pegou as mãos da sobrinha, e disse:
- Perdoe-me, Ana. Eu DEVIA ter pensado nisso. – Censurou-se. - Quer dizer, estava tudo tão perfeito, com você e Carlinhos ficando juntos depois de tanto tempo, e você finalmente podendo voltar ao mundo mágico... Não cogitei sobre os costumes bruxos, que eles talvez não tivessem sido transmitidos a você. Essas coisas são tão... Pequenas!
- Realmente, um monte de bobagens! – Moody concordou, áspero. – Do tipo que gentinha esnobe como Lúcio Malfoy gostava de exibir, mas que não serve para nada, além de dar a ilusão a alguns bruxos que são melhores que os outros por conhecerem seus “códigos”. Você é muito melhor do que isso, Ana.
Ela sorriu, agradecida, diante daquela defesa veemente de Moody.
- Obrigada. Mas... Acho que não vai fazer mal algum se eu me inteirasse desses costumes, não é?
Agatha sorriu, e um brilho determinado passou por seus olhos. Se Ana conhecia aquele brilho, significava que a velha senhora tinha acabado de tomar a decisão de fazer de Ana uma versão de “My Fair Lady” (4). E brasileira torcia do fundo do coração que o plano de Agatha desse certo.
A tia afirmou confiante, dando palmadinhas na mão de Ana:
- Entendo perfeitamente pelo o que está passando, querida. Fiz o caminho inverso do que você está fazendo agora, há quarenta anos atrás, lembra-se? E, acredite, vai ser mais fácil para você. Vamos conseguir contornar esta situação em dois tempos, minha filha.
- Mais fácil? – Ana ergueu uma sobrancelha, duvidando.
- A maior parte do caminho já foi percorrido, seja através do bracelete, seja por causa dos... Livros. E você foi criada em um mundo onde se adaptar, e rápido, é fundamental. – Agatha acrescentou com um sorriso: - Se tem uma coisa que os trouxas fazem bem, é absorver uma grande quantidade de informações em um pequeno espaço de tempo. Quando você se der conta, o problema não existirá mais.
Um “crack” foi ouvido no hall de entrada.
- Deve ser o Carlinhos. – Ana anunciou, a face iluminada de um jeito que só acontecia quando sabia que o marido estava por perto.
Smith House tinha uma proteção anti-aparatação muito específica: os membros da família tinham acesso a ela e, ainda assim, os que estavam em um “círculo de confiança” do seu atual senhor. Carlinhos, é claro, estava mais do que autorizado por Agatha.
O marido também apreciava visitar os tios da esposa. Agatha fora sua melhor amiga naqueles oito anos que se vira obrigado a ficar separado de Ana, pondo-o a par do que estava acontecendo na vida da sobrinha, amenizando um pouco da dor que ele sentia por estar longe dela. A velha senhora o escutava, aconselhava e compreendia, tornado-se uma segunda mãe para ele. Quanto a Moody, conhecia-o desde que era um menino e visitava o pai no Ministério. Na época, já era o Auror mais respeitado de todos os tempos e... Um pouco assustador também, mas isso o tornava ainda mais interessante para o garoto ruivo que gostava de se meter em confusões.
Conversaram a tarde toda com eles, mal notando o tempo passar. Quando finalmente notaram o adiantado da hora, se despediram do casal, resolvendo dar uma volta pelos jardins antes de irem embora.
- Lembra-se dos nossos primeiros passeios por aqui? – Carlinhos perguntou, um misto de saudade e malícia na voz.
- Hum... Vagamente – ela provocou, rindo muito da expressão de falsa indignação que o marido exibiu.
- Como é? – Ele a abraçou, trazendo-a para junto de si.
- Isso não é justo! – Ana ria enquanto tentava se desvencilhar – Você é muito mais forte do que eu. Que armas eu tenho contra o ex-capitão do time de quadribol da Grifinória?
- Mérlin, seu problema de memória deve ser mais grave do que eu pensava! Se não tem idéia de que armas suas me deixam... “Rendido”... – Ele falou enquanto salpicava beijos da têmpora ao queixo de Ana, fazendo-a rir ainda mais.
- Comporte-se, meu marido. – Ela pegou o rosto dele entre as mãos – Temos que ir até a Dedosdemel ainda.
- “Temos”? – A pergunta saiu mais como um “Ah, vamos ficar aqui!”.
- Temos sim. – Ana fez força para resistir ao olhar que ele lhe lançou – Gina andou comentando comigo sobre uns desejos que ela vem tendo de comer doces da Dedosdemel, e que só tem por lá. – Pegou a mão dele e começou a puxá-lo – Vamos, você não quer que seus sobrinhos nasçam com cara de Ratinhos de Sorvete ou de Penas de Algodão Doce, quer?
- Decididamente, não! – Ele arregalou os olhos, fingindo horror, e, roubando um último beijo, a seguiu para loja de doces de Hogsmeade.
Naquele momento, Ana jurou que iria fazer de tudo para ser motivo de orgulho para Carlinhos. Ele merecia.
***
[Dezembro de 2006]
Amizade.
Pela primeira vez, Mel sabia o significado desta palavra. Era curioso observar aquele grupo singular. Mel era a única do primeiro ano, e ainda havia o fato dos outros serem de Casas diferentes. Mas, contra todas as probabilidades, os meses se passaram e a união entre eles cresceu a tal ponto, que era de conhecimento geral em Hogwarts que mexer com um deles era mexer com todos.
O inverno havia chegado com toda a sua força. À apenas algumas semanas do Natal, a neve cobria toda a paisagem da escola de magia e bruxaria. O efeito era digno de ser retratado por um grande pintor, ou então ser cenário daqueles filmes de fantasia como... Harry Potter!
Naquela manhã, a agitação era completa, pois os alunos estavam se preparando para partirem para as férias de fim de ano. Hogwarts virara uma mistura de branco (da neve), de casacos, luvas, gorros e cachecóis de lã das mais variadas cores, e de rostos rosados por causa do vento frio que soprava. E tudo em constante movimento.
- Aqui estão aqueles livros que eu te falei, Mel – Andy lhe entregou três volumes enquanto estavam voltando para os dormitórios – Eles me ajudaram muito no ano passado, em DCAT.
- Ah, obrigada! – Mel sorriu, os olhos brilhando ao imaginar-se descobrindo o conteúdo dos livros.
- Quer saber de uma coisa? – Josh se meteu no meio deles, passando os braços nos ombros dos amigos. – Acho que vocês dois são malucos. Estudar durante as férias, imagine!
Ambos riram do comentário típico de Joshua. O bom-humor do lufa-lufano “contrabalanceava” a pressão por ter dois irmãos mais velhos que eram um sucesso em Hogwarts. Otwani estava no sétimo ano e era o goleiro da Lufa-Lufa. Madeleine – ou Lane, como a chamavam – era uma quintanista belíssima e muito popular. Por fim, ser filho de Kingsley Shacklebolt, o chefe dos Aurores, não devia ajudar muito para aliviar a responsabilidade que Josh sentia de ser tão bem-sucedido quanto as pessoas em sua família. Ainda assim, era inegável que o espírito “para cima” do menino o fazia encarar tudo melhor. Tanto, que ele acabava sendo o “pacificador” nos desentendimentos dos amigos.
Com Andy, as coisas eram um pouco diferentes.
Andrew Bennet era da Grifinória, e o mais responsável dos cinco. Estudioso e seguidor das regras, frequentemente era chamado de “o Senhor Certinho”. Mel tinha a impressão de que ele era muito cobrado pelos pais e, em conseqüência, não tolerava erros, especialmente os próprios.
- Para a gente, estudar é uma distração, Josh – ela respondeu, ainda rindo.
- Loucos! – Josh reafirmou, balançando a cabeça em desaprovação.
O menino iria dizer mais alguma coisa, mas murmurou que os encontraria mais tarde e saiu rápido e rasteiro em direção a Sala Comunal da Lufa-Lufa. Procurando pelo quê teria espantado o amigo, eles viram Lane com uma cestinha de frutas, chamando o irmão.
Comida saudável. Tudo o que Josh mais odiava e o que a irmã insistia em empurrar para ele.
Ainda rindo das “desventuras” do amigo, os dois seguiram para as escadas. Danna e Hector haviam tomado o café da manhã correndo porque tinham que fazer as malas ainda. Sabia que a grifinória não precisaria mais do que alguns minutos para arrumar as suas coisas, pois era muito cuidadosa com seus pertences. Já Hector... Bem, ele era do tipo despreocupado e confiante, que sempre deixa tudo para a última hora.
Encontraram a colega no sopé das escadas, esperando sozinha.
- Onde está o Hector? – Andy verbalizara a pergunta antes de Mel.
- Procurando o Ferdinando – Danna respondeu, mal contendo a risadinha tímida.
- Ferdinando sumiu... De novo? – A corvinal exclamou, caindo na gargalhada junto com os amigos.
Os hábitos fugitivos de Ferdinando, o gato de Hector, eram bem conhecidos por todos. Era impressionante como o animal sempre dava um jeito de escapar de seu dono.
Ferdinando odiava Hogwarts. E Hector encarava isso como uma afronta a sua autoridade de dono, já que, teoricamente, todo animal de estimação gosta de ficar com o seu, não importa onde. Orgulhoso, apressava-se a explicar que o bichano era um “espírito livre”, como ele próprio. Assim, exaltando o gato, esperava salvar sua imagem de dono. A desculpa não colou, claro. Especialmente porque o gato começou a seguir Mel para onde quer que ela fosse.
Quando Mel finalmente conseguiu parar de rir, viu que Andy exibia aquela mesma expressão esquisita sempre que Danna sorria. Um jeito meio abobalhado, como se não conseguisse olhar para nada além da garota. E ele não era o único. Mel desconfiava que as “selkies”(3), o povo do qual a família da mãe de Danna descendia, tivessem algum poder semelhante às veelas. Ou então, o garoto gostava dela. Bem, provavelmente era os dois. E, como diria a tia Ana, aquilo era “tão fofo!”. Pena que a amiga sorria tão pouco... “Tenho que fazer Danna sorrir mais”, pensava com seus botões.
Decidindo que não havia muito que fazer senão esperar, foram subindo as escadas e conversando. De repente, uma cauda de pêlos castanhos passou pela entrada de um dos corredores, chamando-lhes a atenção.
- Deixem que eu vou atrás do Ferdinando – a brasileira se prontificou, com um sorriso zombeteiro – E digam para o Hector onde estamos – ela sabia que o grifinório iria ficar injuriado ao ter uma nova demonstração de que o gato fugia de todos (especialmente dele) menos de Mel.
Não sabia porquê, mas fazer Hector Lupin saber que não era o centro do Universo era muito compensador para ela.
Estava no quarto andar. Chamou Ferdinando algumas vezes, até que o gato veio correndo em sua direção, enroscando-se em suas pernas.
- Eu acho que vi um gatinho! – Ela riu, pegando o bichinho no colo e o acariciando.
Voltando os olhos para as paredes, visualizou o retrato que tanto lhe chamava atenção nos seus primeiros dias em Hogwarts. Abandonar o mistério não tinha sido intencional. Simplesmente... Esquecera. Envolvera-se em tantas confusões desde que conhecera os amigos, que sua mente fora ocupada pelas aventuras que estavam tendo.
- O olhar dela intriga, não é?
Um garoto aproximara-se sem que notasse e estava parado a alguns passos dela. Mel nunca tinha falado com aquele menino da Sonserina, mas já o tinha visto com Rupert, o irmão mais velho da intragável Caroline Bothwell. Se não estava enganada, estavam no mesmo ano.
O aviso de tio Carlinhos para se manter longe dos sonserinos reverberou em algum canto de sua cabeça, mas ela o afastou. Nunca vira o garoto participando das atividades condenáveis que os membros de sua Casa promoviam. Pelo contrário, ele se mantinha afastado deles, sendo Rupert um dos poucos com quem conversava. E ser amigo de Rupert, que apesar de sonserino era uma boa pessoa, contava pontos a favor do garoto.
- Sim, mas... – Ela respondeu, sorrindo timidamente – É aquele símbolo que eu acho estranho.
- Ah! – Ele ergueu uma sobrancelha – A Rosa dos Ventos.
- Rosa dos Ventos? – Mel piscou várias vezes, confusa – Mas não é o símbolo celta para “energia mágica”?
- Os símbolos celtas – começou a explicar, parecendo satisfeito com a questão proposta pela garota – geralmente não significam apenas uma coisa. Esse aí – fez um gesto com a cabeça para o desenho – inspirou vários símbolos trouxas.
- Como o símbolo atômico. – Ela concordou.
O garoto cerrou um pouco os olhos, como se estivesse buscando a informação.
- Ah, sim – ele era excessivamente formal para um garoto – Sei ao que se refere.
- Consigo entender porque “energia mágica” virou “energia nuclear” – Mel não se deu por vencida – Mas o que os pontos cardinais teriam com isto?
Um novo sorriso do sonserino. Ele estava achando agradável a conversa.
- Simples. Os celtas ligavam a mágica com intervenções divinas. Todo o poder vinha dos deuses. E a Terra Sagrada ficava ao Norte. Inclusive a palavra “norte” é a mesma para “céu” em celta. – Verificando o interesse crescente da menina, ele continuou: - A Rosa dos Ventos aponta o Norte para cima – o céu – sendo que a ponta de cima do símbolo faz às vezes da agulha do Norte, a de baixo, o sul, e assim por diante, o Leste, o Oeste, Nordeste, Sudoeste, etc...
- Como você sabe disso tudo? – O queixo da corvinal estava caído. Nada da pesquisa que Lipe fizera na Internet apontava para aquela direção.
- Meu pai me contou quando nós vimos uma Rosa dos Ventos pintada em uma calçada.
Ela desanuviou o semblante e sorriu. Ao se perguntar quem seria o pai dele, lembrou-se de que ainda não tinham sido apresentados. Sem jeito, passou Ferdinando para um dos braços, de forma que a outra mão ficasse livre para ser estendida:
- Sou Mel Warmlling.
- Eu sei – ele apertou a mão estendida e arqueou os lábios em um esboço de sorriso – Sua harpia chama bastante atenção.
Ela fez uma careta divertida, não se ofendendo com o comentário.
- Sou Alan Snape – ele se apresentou. (5)
A corvinal parou de sorrir. Dois segundos mais tarde, soltou um suspiro de alívio, como se tivesse compreendido algo, e disse, com uma risadinha marota:
- Você quase me pegou!
Alan torceu os lábios e também suspirou, mas como se dissesse: “Estava demorando”.
- Não, é isso mesmo que pensou. Sou filho de Severo Snape.
Ela esbugalhou os olhos, o queixo caiu ainda mais do que quando ele mencionara a Rosa dos Ventos:
- Isso é impossível. O Morcegão não tem filhos.
Lançando-lhe um olhar ao mesmo tempo superior e condescendente, o sonserino replicou:
- Não deveria acreditar em tudo o que lê.
“Ele sabe dos livros”, Mel pensou. Analisou mais atentamente o rapaz. Todo vestido de preto, cabelos negros e compridos até os ombros. Porte altivo e maneiras adultas – até demais para a idade dele. Céus, encaixava!
- Não... – A menina balançou a cabeça negativamente – Seria até antinatural Snape sendo um... Pai!
- Estou vendo que não é fã dele.
- Sinto muito, mas... Não. – Respondeu com todo o tato possível. – É realmente filho dele? Quer dizer... Existe uma “Sra. Snape”? – Ela estava assombrada.
- Sim, e não. – O garoto agora parecia estar se divertindo com a reação dela. – Sou adotado.
Aquilo era ainda mais surpreendente para Mel. Adotar alguém parecia um gesto tão... Humano! Não combinava, em absoluto, com o Seboso. Mas o garoto não estava brincando ao dizer que era filho de Snape, podia perceber isso.
- Bem... – Concluiu mais para si mesma, olhando-o de lado. – Pelo menos os cabelos não são oleosos. – Ela levou rapidamente a mão à boca, horrorizada, quando percebeu que deixara o comentário escapar.
- Vou tomar isso como um elogio – ele riu mais abertamente, demonstrando não ter se ofendido.
Alan era do tipo compenetrado que vivia com o nariz enfiado nos livros. E a solidariedade existente entre duas pessoas que passam tanto tempo entre páginas e mais páginas de livros acabou por facilitar um sentimento de simpatia mútua.
- Seu... Seu pai e eu não tivemos um encontro muito agradável em agosto – ela resolveu contar de uma vez. Assim daria oportunidade para ele decidir se queria continuar conversando com ela depois disso ou não.
- Hum... – os olhos do menino se tornaram sombrios – O Ministério quase me tirou dele, nesta época. A adoção ainda não tinha se oficializado, e eles tinham dúvidas de que ele... Bem, seja lá o que tenha acontecido, não ligue. Ele estava nervoso naqueles dias.
Por um segundo, Mel quase fez isso mesmo. A possibilidade de perder um filho... Mas não, corrigiu-se. Como se o Ranhoso pudesse ser afetado por “sentimentos”. No entanto, ele “adotara”! A atitude geralmente era impulsionada por nobreza e afeição...
Curiosa como só Mel podia ser, estava prestes a fazer mais perguntas quando a chegada de Hector desviou a atenção de ambos.
- Há-há! Aí está você, Ferdinando! – Entre o alívio e a contrariedade, o grifinório dirigiu-se diretamente para o felino, aparentemente ignorando os dois.
Já com o animalzinho no colo, Hector finalmente se deu conta dos demais.
- Olá, Alan – cumprimentou polidamente, recebendo um aceno de cabeça em resposta. – O que Ferdinando estava fazendo com você? – Dirigiu-se a Mel, com um tom levemente acusatório.
- Eu o encontrei! – Respondeu um tanto indignada.
- Impossível. Eu o procurei no quarto andar antes.
- Não tenho culpa se seu gato aparece quando “eu” chamo, e não você, Lupin! Estou começando a pensar que não é de Hogwarts que ele não gosta, mas de você.
Torcendo o nariz e ignorando acintosamente o comentário, Hector voltou-se para o outro:
- Vai passar o Natal em casa?
- Sim, meu pai está me esperando.
- Que bom, nos vemos na volta, então.
Havia certa distância na maneira como os dois garotos se comunicavam. Ainda assim, parecia haver simpatia, e até respeito entre eles, embora o constrangimento fosse evidente.
Despediram-se de Alan e, enquanto estavam se afastando, Mel perguntou:
- Você sabia que ele é filho do Snape?
- Claro, o sobrenome já diz tudo não? – Ele deu de ombros. – Ele está no mesmo ano que eu, fazemos algumas aulas juntos. Mas não conversamos muito. Acho que o Alan não compartilha da minha opinião do que é ser aluno de Hogwarts.
- Ou seja, uma aventura – ela revirou os olhos, provocando.
- Claro. Além do que... As pessoas parecem esperar que a gente seja um tipo de... Inimigo mortal, só por causa dos nossos pais. E eles nem são inimigos, só... – o grifinório não sabia como definir a situação exatamente.
- Entendo. – Ela balançou a cabeça afirmativamente. – As pessoas apenas vêem Comensal da Morte e o membro da Ordem da Fênix, e imaginam... Bem, a verdade é que a época de estudantes deles não traz boas recordações, não é?
Hector passou de indiferente para subitamente interessado:
- Você diz isso por causa do que está nos... Você-Sabe-O-Quê, não é? – Os olhos do menino estavam imensos, a ansiedade evidente no seu rosto.
- “Você-Sabe-O-Quê”, “Você-Sabe-Quem”. As pessoas podem pensar que os bruxos não têm muita imaginação, sabe? – Riu – Não precisa ser um gênio para inventar o próximo apelido: “Aquilo-Que-Não-Deve-Ser-Mencionado”. Que tal?
- Você está fazendo de novo. – Hector franziu o cenho.
- O quê? – Ela parou de subir os degraus, esperando uma resposta.
O grifinório parou também, ficando dois degraus acima:
- Fugindo do assunto. – Ele respondeu encarando-a com os lábios apertados.
- Não estou não! – Protestou. – Eu não posso falar, você sabe disso. As palavras “encantamento” e “expulsão” te lembram alguma coisa? – Ela Desanuviou a expressão do rosto e acrescentou: - E eu já respondi o que você quer saber, Hector: Você chegou “depois”. Tudo parou em junho de 1997!
Os bruxinhos gastaram dois segundos medindo-se, tentando avaliar o que se passava na cabeça do outro.
- O que parou em 1997? – Andy apareceu puxando um baú pesado, com Danna logo atrás dele.
Hector e Mel se sobressaltaram. Não tinham notado que estavam tão próximos da Sala Comunal da Grifinória. O que diriam?
- Bem... É... – Mel começou.
Hector viu um setimoanista, apanhador da Grifinória, passar e disse:
- Quadribol.
- Quadribol?!? – Andy e Danna os fitaram, confusos.
- Quadribol? – Mel disse quase ao mesmo tempo, no mesmo tom confuso. Hector lhe lançou um olhar de aviso, e ela percebeu a mancada: - Ah, é... – Continuou, também dizendo qualquer coisa: - Campeonato.
Os olhos do grifinório brilharam, e ela soube no mesmo instante que, agora sim, ele tinha uma idéia:
- É. A Mel estava dizendo que a Grifinória não tem um time decente desde 1997.
Vários grifinórios que estavam passando a olharam com despeito, enquanto Hector exibia um risinho debochado e satisfeito. Parecia que ele acabara de se vingar pelo que ela dissera sobre Ferdinando.
- Melhor você se apressar, Mel – Danna a avisou – Temos que estar lá embaixo em vinte minutos.
- Mérlin! – Ela começou a correr em direção à Torre da Corvinal.
Falara tanto de Hector, que sempre deixava tudo para a última hora, e no entanto se esqueceu que ela tinha que pegar suas coisas no dormitório ainda.
- Vou ficar te esperando aqui! – Hector falou mais alto, para que ela ouvisse.
Mel parou, apoiou-se no corrimão do corredor e olhou para baixo:
- Não, vão indo na frente, assim avisam o Hagrid!
- A Danna e o Andy vão, eu fico aqui. Caroline ainda está bem brava.
- Eu sei me defender! – Retrucou.
- Não contra cinco de uma vez só. – Hector sorriu, sabendo que tinha dado o “cheque-mate” no assunto.
Bufando em resposta, Mel retomou sua corrida em direção ao dormitório. Essa era boa. Primeiro, ele a acusa de ter pego o seu gato, depois, inventa uma mentira onde “ela” acaba falando mal do time da Grifinória. Agora, está preocupado com a segurança dela! Garoto idiota!
Minutos mais tarde, Hector e ela chegaram ofegantes até as carruagens que levariam os alunos para a estação em Hogsmeade. Josh chegou também, embora o motivo do atraso dele fosse outro: Lane agora estava dando de ombros, desistindo de procurá-lo, e entrando em uma das carruagens com os amigos.
- Me diz – o lufa-lufano puxava o ar entre os dentes, recuperando o fôlego – O que tem demais querer comer os doces do Expresso de Hogwarts em vez de frutas e aquelas coisas que a Lane vive me empurrando? Só uma vezinha?
***
Mãos nos bolsos do casaco, encolhendo-se toda por causa do vento gélido que soprava, caminhou com falsa determinação pelas ruas de Londres até o casarão antigo. Um rápido olhar pelo ambiente demonstrava o quanto o homem que pretendia visitar mudara.
A grande metrópole estava agitada com a proximidade do Natal. Nas ruas, trânsito lento e congestionado, calçadas exibindo os últimos vestígios de uma fina neve que caíra na noite anterior. A Prefeitura tinha trabalhado rápido na remoção da neve, de forma que os londrinos não interrompessem suas atividades – especialmente as consumistas, que enchiam os olhos de satisfação, os bolsos dos vendedores de dinheiro, e os cofres públicos de impostos.
E lá estava o velho casarão no meio dos prédios modernos. Estranhamente, naquilo tudo, ele era o que mais lembrava o Natal em Londres.
Tradicional e rebuscado, por certo algum dia aquela casa teria sido imponente. Mas agora parecia que o século XXI a oprimia com a sua magnitude, erguendo-se ao seu redor e projetando ameaçadoramente as sombras da modernidade sobre ela. Ainda assim, o lugar permanecia de pé, resistindo de forma digna a qualquer olhar de estranheza que lhe lançassem.
“Cheio de nobreza, poesia e nostalgia. Como em um conto de Natal”, pensou Ana.
Só percebeu que estava parada na calçada quando um passante se chocou contra ela. Fez um sinal de “tudo bem” quando o homem lhe pediu desculpas, sorrindo e pensando que, afinal de contas, Londres ainda não estava perdida se as pessoas tinham a decência de se desculparem. A menos que... Botou a mão no bolso do casaco, verificando que sua carteira ainda estava lá. Que alívio! Rindo de si mesma, pensou que, se a faculdade de Direito não tivesse feito dela uma pessoa desconfiada, acharia que era a proximidade com o Morcegão que devia estar a afetando.
Decidiu-se por entrar de uma vez. O tempo não estava nada bom para ficar do lado de fora, mesmo com o pesado sobretudo preto de lã, calça no mesmo tecido e botas que ela usava.
Subiu os degraus até a porta de carvalho decorada com uma guirlanda de ramos verdes trançados e amarrados com uma bela fita vermelha. Concluiu que aquele enfeite só poderia ter sido idéia de sua sogra. Claro, “dele” é que não iria ser.
Tocou a campainha, sentindo todos os músculos do corpo ficarem tensos. Tinha se aproximado bastante de seu “vigiado” naqueles meses, mas sabia que ele não tinha gênio fácil. Especialmente quando indagado sobre assuntos de índole pessoal.
A porta foi aberta bruscamente, um gesto que indicava o quanto seu anfitrião estava irritado por estar recebendo visitas. E, naquele momento, Ana desejou ter se preparado melhor para o confronto. Ficou imóvel, fitando homem mudamente, enquanto procurava uma linha de raciocínio lógico que lhe garantisse se sair bem daquela situação.
- Smith, aposto que tem coisas melhores para fazer do que ficar parada em frente à minha porta e tremendo de frio – Snape fez ressoar secamente sua voz grave.
Pelo pouco que conhecia daquele homem, sabia que a grosseria dita “a queima roupa” se devia ao fato de saber o assunto que a trouxera até ali. Fora por decisão do próprio Snape que Molly lhe contara tudo, mas mesmo assim, ele reagia àquela abertura de sua vida particular erguendo um muro ao seu redor, um aviso: “Cuidado. Não importa o que saiba sobre mim, ainda sou Severo Snape, o temível professor de Hogwarts”.
- Se isso foi a sua versão de “Por favor, entre, está frio aí fora” – Ana respondeu ironicamente assim que recuperou a fala – Receio dizer que precisa melhorar muito seus modos, Snape.
A reação dele foi puxar os lábios em seu característico sorriso “sarcástico-desdenhoso”. Ainda segurando a maçaneta com a mão esquerda, ele abriu a porta, afastando-se e dando passagem, a mão direito estendida para o interior da casa, convidando-a a entrar. Apesar de o gesto ser calculadamente irônico, não pôde deixar de notar o brilho de alívio nos olhos negros. Ao aceitar trocar farpas verbais com ele, garantiu ao ex-Mestre de Poções que não pretendia alterar sua opinião sobre ele por conhecer seu segredo, muito menos ter pena dele.
- Suponho que deva ter aprendido alguma coisa sobre boas maneiras com Agatha neste meio tempo, então.
Ana virou-se bruscamente para ele, um brilho furioso e magoado ao mesmo tempo no olhar. Desta vez, era ela que dizia “Cuidado” silenciosamente. Mas Snape já se mostrava constrangido, como se só tivesse se dado conta da exata repercussão de suas palavras depois que as pronunciara. Ela percebeu isso e, se Snape estava falando coisas sem pensar antes, coisa que não era de seu feitio, era indicação de que estava muito preocupado. Então, ele disse em um tom mais brando, evitando fitá-la nos olhos:
- Por favor, sente-se.
Respirando profundamente, Ana buscou forças para retomar a calma. Estavam se dando relativamente bem nos últimos tempos – “bem” para os padrões de Severo Snape – e precisava ter muita paciência agora. É claro que o assunto que a trouxera até ali perturbava o mundinho fechado do antigo professor.
Havia algumas poltronas no que seria a recepção do local, e aceitou o convite para se sentar, sendo imitada por ele. Ana controlou um sorrisinho irônico ao lembrar que até mesmo aquele lugar era um contra-senso à personalidade de Severo Snape. Vinha apoiando-o naquele projeto desde que lhe contara sobre ele, apesar do choque inicial que levou ao ouvi-lo expor o que tinha em mente. Embora ela fosse seu contato no Ministério (ele preferia considerá-la sua “agente de condicional”) e dele estar os auxiliando com o problema dos Comensais da Morte fugitivos, nunca dera indícios de que tinha mudado a tal ponto de querer fundar um local como aquele.
Um orfanato. Não, um... Um refúgio para crianças que haviam perdido seus pais durante a Guerra. (5) Fora uma surpresa e tanto para ela, apesar de se considerar, até então, a pessoa adulta mais próxima do ranzinza ex-Comensal. Ana quase se levantara ao fim da exposição de idéias que ele lhe fizera, a fim de questionar, perplexa: “Quem é você e o que fez com Severo Snape?”.
E agora... Mais uma revelação que causava uma reviravolta na idéia que ela fazia do mistério que era aquele homem. Quando Molly a chamara para vir a Toca porque tinha algo muito sério para lhe falar, jamais imaginou que ela lhe contaria algo parecido. Para falar a verdade, sequer imaginou que fosse sobre Snape, apesar a sogra também estar mais próxima dele porque era voluntária na instituição.
- Molly deve ter lhe contado sobre meu... Encontro com o passado no último Natal. – Ele foi direto ao assunto.
- Sim. E confesso que estou surpreendida por terem escondido isto de mim. Eu teria entendido a situação, e teria podido te ajudar... – Ela passou os olhos irrequietos pela sala, buscando palavras – Ajudar a estabilizar sua situação mais rápido para que pudesse adotar Alan – Ela o encarou, muito séria: – Para que pudesse buscar a moça também.
- Arthur Weasley e Potter também sabiam. Ou acha que poderia fazer mais do que o “maravilhoso Harry Potter”? – A voz dele estava entre a zombaria e o despeito.
- Pensei que confiasse em mim – ela rebateu.
- Confiei a você mais segredos do que a qualquer outra pessoa. – Os olhos dele brilhavam em amargura – Não precisa se sentir em dívida comigo pelo que acha que eu deixei de viver, Smith.
Então era isso, pensou Ana. Snape não queria depender emocionalmente de ninguém. Vivera tempo demais alimentando sua fama de homem sem sentimentos para abrir mão deste escudo que o envolvia. Devia ser difícil demais para ele conviver com o fato de que alguém tão próximo a Elizabeth soubesse de seu segredo da juventude. Ainda que Harry também soubesse, preferia o auxílio altruísta e impessoal com que o ex-grifinório agraciava a tanta gente do que a ajuda dela, que seria motivada por sentimentos pessoais de culpa pelo que literalmente “arrancara” da mente dele naquela noite em que Ana se defrontara com Voldemort.
- Pro inferno com suas idéias sonserinas sobre confiança, Snape! – Ana sentia-se frustrada com o quebra-cabeça que era a mente daquele homem. – A forma como fica medindo intenções e relacionamentos, esquadrinhando cada mínimo detalhe antes de admitir que precisa de ajuda... As pessoas têm mais a dar umas a outras do que jogos de poder! Quando vai entender que é possível confiar em alguém sem temer que ele use isso contra você?
Ela estava de pé, encarando-o com o ardor típico de quem acreditava em suas palavras. Snape não se perturbou, apenas suavizou a expressão, fitando-a com um sorriso triste:
- É em momentos como este que tenho certeza de que é filha de sua mãe.
Desconcertada com a frase, ficou sem ação. Ser comparada a sua mãe a pegou de surpresa: primeiro, porque sabia que vindo de Snape era um elogio e tanto; segundo, porque ambos sempre evitavam falar sobre a mãe de Ana. Era um acordo tácito que tinham.
- Teria sido mais fácil com Alan se a moça estivesse aqui. – Ela voltou a sentar-se, retomando o tom polido, embora a voz estivesse mais carregada de intimidade: - Uma mulher, tão próxima a você, com fortes laços de afeto... Uma figura feminina dentro da família em quem Alan pudesse contar.
- Ela ainda não estava preparada, não poderia trazê-la naquela época, de qualquer jeito. Ponto final, Smith. – Snape suspirou, evidentemente cansado. – De qualquer forma, chegamos até aqui e temos outras coisas com que nos preocupar. Quero saber se posso com você.
- E precisa perguntar? – Ela começou a abrir um pequeno sorriso. – Se estar com ela apenas algum tempo já te mudou a ponto de pensar nisso... – Ana olhou ao seu redor, indicando a instituição, e continuou: - Eu quero mais é que ela venha! Além do mais – agora o sorriso era malicioso – Vai ser muito divertido. Aposto que a chegada dela será uma bomba na comunidade bruxa!
- Pelo o que andei sabendo, também o seria entre os trouxas. – Ele ergueu uma sobrancelha, rosto contorcido em uma expressão sarcástica e mal humorada – Estive entre eles, li o que comentam sobre mim na tal da Internet. E, para não restar dúvidas, ouvi muito bem do que sua “sobrinha” me chamou no Ministério.
“Morcegão”, lembrou-se Ana. Mordendo os lábios para não rir, disse:
- Ora, não pode culpar os leitores por terem te dado este apelido. – Ela deu de ombros – Todo vestido de preto, pálido como se tivesse medo do sol e... Lembra-se do terceiro ano do Harry? Aula de Defesa Contra as Artes das Trevas. Aquele clima de mistério sobre o que teria acontecido com Lupin, para ele não ter vindo dar aula. E você, que não era exatamente o professor mais querido de Hogwarts, chega para substituí-lo. Qual é a primeira coisa que faz? Fecha todas as janelas! Como um... Morcego que não suporta a luz do sol!
Snape apenas fez um gesto com a mão, indicando que aquilo não era importante para ele. Mas sua convidada tinha mudado a expressão zombeteira por uma de perplexidade:
- Mérlin, se eu consegui falar tudo isso... Eu bem que desconfiava! – Ela sorriu marotamente, fingindo censura quando ele não se abalou com a sua reação: - Snape, seu patife! Você arranjou um jeito de neutralizar o feitiço do Ministério!
Quando ele permaneceu em um silêncio satisfeito, ela comentou:
- Não vai me dizer como faz estas coisas, não é?
- Não mesmo. – Ele sorriu, presunçoso. – Sou um patife, como você mesma disse. Não é a idéia geral que se faz de mim?
Ana recostou-se na cadeira, estreitando os olhos.
- Não, e se teve acesso ao mundo trouxa no final do ano passado, deve saber disso. – Snape devia ter “esbarrado” nas “Fan Fictions” sobre ele na Internet quando estava procurando informações sobre os livros. É claro que tinha conhecimento de que era a fixação de muita gente. – O que me faz lembrar...
Ela levantou o dedo indicador em sinal de “espere um minuto”, enquanto tirava um papel dobrado de seu casaco:
- Pedi para meu sobrinho, Felipe, imprimir isto – E entregou-lhe a folha. – Arrisquei minha posição no mundo bruxo ao carregar isso por aí, espero que reconheça meu sacrifício.
Snape desdobrou o papel e percorreu o olhar por seu conteúdo, reconhecendo o formato de um famoso “fórum” de discussão sobre os livros e os filmes. Seu primeiro contado com a ferramenta que os trouxas chamavam de “computador” fora feita através da mesma mulher que estavam planejando trazer para perto dele.
- O que é isso? – Ele franziu o cenho, confuso, quando se deteve em um quadrado em específico na folha.
- A frase é bem clara. – Ana abriu um sorriso de falsa inocência: – “Eu ainda acredito em Severo Snape”. É o que muitos trouxas estão colocando em suas assinaturas nos fóruns de discussão da Internet. - Ela indicou a folha em suas mãos: - Essa assinatura ganhou espaço nos fóruns em janeiro deste ano. Logo, imaginei que ainda não tinha visto isso.
Ele permaneceu alguns instantes com o olhar fixo na frase e... “Não, será?”, Ana pensou, satisfeita. Aquilo teria sido um brilho emocionado que vira nos olhos do Morcegão? Definitivamente, agora poderia sair por aí dizendo que já tinha visto de tudo nesta vida.
- O “Seviezinho” que desenharam não é uma gracinha? – Ela provocou, fazendo o velho Mestre de Poções voltar à realidade e lhe lançar um olhar que poderia congelar o inferno. – Ora, vamos... – Ela não se abalou – Vai me dizer que não é?
- Francamente, Smith! Temos coisas mais sérias para tratar! – Ele largou o papel como se queimasse em sua mão.
- Certo, tem razão. – Ela balançou a cabeça, rindo e concordando. - Depois eu tenho que buscar Mel em Kings Cross. Suponho que tenha que ir buscar o Alan também, não?
- Sim. – Ele voltara, definitivamente, à antiga frieza “snapeana”.
Passaram as horas seguintes conversando sobre as últimas notícias que tivera da outra brasileira, e que em breve ela estaria na Inglaterra. Havia tantas coisas que a mulher deveria saber! Ana ponderou que deveriam ir com calma, realmente. Mas se mostrou confiante de que tudo iria dar certo.
Quando comentara com ele, mais uma vez, que ele não parecia o mesmo, Snape simplesmente comentou: “O tempo não pára Smith. E as pessoas mudam com ele. É assim que o mundo é”.
Notas
(1) Nome inspirado em “Ebeneezer Scrooge”, personagem central do conto de Charles Dickens, “O Conto de Natal”, que era um velho avarento e muito rico, que recebe, na noite de Natal, a visita dos fantasmas ou espíritos dos natais passados, presente e futuros. Depois das lições aprendidas com os fantasmas, ele muda seu modo de viver, e passa a ser generoso e gentil.
(2) Harry Potter e o Segredo de Sonserina.
(3) Harry Potter e o Retorno das Trevas, da Sally Owens.
(4) “My Fair Lady”: Filme norte-americano de 1964, baseado em uma peça de teatro de mesmo nome, da Broadway. Henry Higgins (Rex Harrison), um intelectual e professor de fonética, aposta que conseguirá, no período máximo de seis meses, transformar Eliza Doolittle (Audrey Hepburn), uma simples florista de rua que não sabe falar direito, em uma dama.
(5) O Paciente Inglês, da Regina McGonagall. http://potterish.com/forum/viewtopic.php?t=26259
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N/A: Olha gente, eu planejava só postar este capítulo quando já tivesse escrito mais uns 3... Mas não deu. De qualquer forma, aí está ele, desculpem pela demora. Me deixei levar nele... Saiu enoooorme, mil desculpem por isso também. É um “Groupe”, sem dúvida... *ficando vermelha*.
Valeu pelo incentivo, pelos pedidos de atualização, e pelas opiniões lá nas Comunidades sobre quem seria o rosto perfeito para a Ana. Adoooooooooooooooro vocês!
A foto do personagem novo, o ALAN (Bem, não é “novo” exatamente, né? Esse persongaem é da Regina McGonagall, da fic “O Paciente Inglês”) está “publicada” lá no Espaço MSN dos SEGREDOS DOS FUNDADORES: http://segredodosfundadores.spaces.msn.com/
8. O Tempo Não Pára
Smith House é uma simpática mansão localizada na vilazinha de Hogsmeade, que é, como todos sabem, o único povoado totalmente bruxo da Grã-Bretanha. Para os que se perguntam como é que uma mansão pode ser simpática, quando o próprio nome “mansão” traz à mente a imagem de uma enorme casa, imponente e esnobe (como seus possíveis habitantes), e cheia de coisas velhas nas quais não se pode tocar... A explicação é simples: essa mansão não era assim.
O lugar irradiava descontração em cada um de seus cantos, e uma simplicidade que as pessoas que a visitavam esqueciam-se de estarem em uma “mansão”. De fato, em nada diferia da maioria das casas, exceto pelo tamanho.
Por exemplo, seus jardins ostentavam estátuas bem curiosas. Nada das célebres poses das estátuas gregas, muito pelo contrário: havia a de um velho bruxo assuando o nariz, a expressão contorcida de quem estava na iminência de soltar um poderoso e sonoro espirro. Tia Agatha lhe explicara que a estátua era de seu trisavô, Ebeneezer Smith (1). O pobre homem passara a vida toda espirrando, conseqüência de uma alergia cuja cura, na época, não tinha sido encontrada nem por bruxos nem por trouxas. Mas ele tivera o bom humor de mandar fazer uma estátua de si mesmo, daquele jeito, com os dizeres: “Respiro, logo espirro”.
Com coisas assim por toda a propriedade, não seria de se surpreender se as pessoas imaginassem que a loucura corria solta pelas veias dos Smiths. Como era uma loucura inofensiva e de índole festiva, Ana não se importaria se descobrisse ter herdado um pouco dela também.
Estava em Smith House visitando a tia, que acabara de retornar de sua última viagem com Moody. Eles tinham ido conhecer algum lugar longínquo da Europa Central. Um desses lugares que os trouxas só costumam ligar a prosaicas histórias do sobrenatural, mas que não colocam entre suas escolhas turísticas. No entanto, são lugares de intensa visitação da bruxilidade, por razões que só esta conhece.
Tia Agatha estava de ótimo humor, e parecia ter rejuvenescido uns dez anos. Na realidade, Ana desconfiava que talvez tivesse mesmo, pois tinha uma vaga lembrança de ter lido algo a respeito de uma poção rejuvenescedora vinda daquela região onde a tia estivera, em uma das revistas medibruxas de Alicia, a esposa de Jorge.
- Entre, querida. - Agatha chamara. - O chá está pronto.
A voz da tia a fez retornar de suas lembranças daquele jardim. Carlinhos e ela tinham passado bons momentos ali em seu começo de namoro. Momentos angustiados também, mas, ainda assim, tão belos... Um sorriso bobo delineou-se no canto de seus lábios: “tão bons...”.
Respirando fundo, deu por encerradas suas divagações sobre o passado. Foi quando sentiu uma coceirinha no nariz, insistente, mas poderosa. Todo o corpo se contraiu, na antecipação do que aconteceria. Ah, a urgência do desentupimento das vias nasais! Depois do espirro, a sensação de alívio, bem estar, contentamento.
“Dá para entender o porquê de o vovô Ebeneezer ser tão bem humorado”, Ana pensou, soltando uma risadinha antes de entrar.
Acomodando-se em uma das poltronas da sala de estar, lembrou-se que, antes do confronto com Voldemort, naqueles meses que passara ali depois de literalmente ter sido “sugada” por um livro, Harry e ela costumavam estudar Oclumência naquela mesma sala. (2) Naquela época – que para Ana havia sido há apenas quase um ano, mas para os outros eram nove – imperava a preocupação com a Guerra, com as horcruxes, com Voldemort. Tempos sombrios, que pareciam querer voltar agora...(3)
- Soube que Harry e Gina vão ter gêmeos! – Moody fez sua voz de rosnado soar pela sala, em um tom que os amigos reconheciam como sendo o “rosnado satisfeito”.
Ana custou a voltar ao presente e entender o que o ex-Auror dizia. Quando compreendeu, abriu um pequeno sorriso feliz. Sim, os Potter iriam ter gêmeos. A notícia maravilhosa tinha sido dada algumas semanas atrás. Um pouco antes de Carlinhos e ela terem que estragar a felicidade de todos contando sobre os “beusclainh”. (3) Moody e Agatha iriam ser informados sobre tudo aquilo na reunião da Ordem marcada para dali a alguns dias. Portanto, ela resolveu falar nada para os tios sobre aquelas criaturas terríveis, esperando a reunião. Agatha não era nenhuma flor de fragilidade, mas Ana sabia que também não era feita de ferro. E Moody não precisava de muito para deixar a tranqüilidade que a tia a custo havia lhe incutido, voltando a sua “vigilância constante”.
- Querida, algo a está preocupando. – Agatha sentenciou ao perceber as reações da sobrinha-neta. – Te conheço o suficiente para saber que quer me falar algo.
Ela sorriu fracamente para a tia. Sim, precisava muito dela agora. Mas o pedido de ajuda não era sobre os problemas envolvendo os comensais foragidos, ou os demônios chamados “beusclainh” com os quais aqueles haviam se aliado. Era um tanto constrangedor falar sobre isso, e ela sentia-se egoísta se preocupando com estas futilidades quando demônios estavam à solta, aliando-se a Comensais da Morte e seqüestrando crianças... Mas precisava desabafar. E quem melhor que Tia Agatha para entendê-la e ajudá-la?
Moody percebeu seu constrangimento:
- Acho que precisam conversar sozinhas... – O velho Auror nunca tinha sido muito bom com “sutilezas”, e já estava saindo quando Ana protestou:
- Não, tio Moody, por favor, fique. Não tenho nada a esconder do senhor.
Olho-Tonto Moody não tivera filhos e, de repente, ser “tio Moody” lhe trazia grande alegria. Ele exibiu um esgar que correspondia a um sorriso sem graça, que mal disfarçava o contentamento pela confiança que a “sobrinha” depositava nele e voltou a sentar-se ao lado da esposa.
Então, ela contou sobre o jantar, sobre os pequenos detalhes que havia na vida bruxa que, infelizmente, não faziam parte do “Kit Helga Hufflepuff Para Transmissão de Conhecimentos Via Braceletes Encantados” – e a comparação, inevitavelmente, fez Agatha e Moody rirem, sendo seguidos por Ana. Depois de desabafar com os tios, sentia-se bem mais leve e a brincadeira descontraiu o ambiente.
Já mais séria, Agatha pegou as mãos da sobrinha, e disse:
- Perdoe-me, Ana. Eu DEVIA ter pensado nisso. – Censurou-se. - Quer dizer, estava tudo tão perfeito, com você e Carlinhos ficando juntos depois de tanto tempo, e você finalmente podendo voltar ao mundo mágico... Não cogitei sobre os costumes bruxos, que eles talvez não tivessem sido transmitidos a você. Essas coisas são tão... Pequenas!
- Realmente, um monte de bobagens! – Moody concordou, áspero. – Do tipo que gentinha esnobe como Lúcio Malfoy gostava de exibir, mas que não serve para nada, além de dar a ilusão a alguns bruxos que são melhores que os outros por conhecerem seus “códigos”. Você é muito melhor do que isso, Ana.
Ela sorriu, agradecida, diante daquela defesa veemente de Moody.
- Obrigada. Mas... Acho que não vai fazer mal algum se eu me inteirasse desses costumes, não é?
Agatha sorriu, e um brilho determinado passou por seus olhos. Se Ana conhecia aquele brilho, significava que a velha senhora tinha acabado de tomar a decisão de fazer de Ana uma versão de “My Fair Lady” (4). E brasileira torcia do fundo do coração que o plano de Agatha desse certo.
A tia afirmou confiante, dando palmadinhas na mão de Ana:
- Entendo perfeitamente pelo o que está passando, querida. Fiz o caminho inverso do que você está fazendo agora, há quarenta anos atrás, lembra-se? E, acredite, vai ser mais fácil para você. Vamos conseguir contornar esta situação em dois tempos, minha filha.
- Mais fácil? – Ana ergueu uma sobrancelha, duvidando.
- A maior parte do caminho já foi percorrido, seja através do bracelete, seja por causa dos... Livros. E você foi criada em um mundo onde se adaptar, e rápido, é fundamental. – Agatha acrescentou com um sorriso: - Se tem uma coisa que os trouxas fazem bem, é absorver uma grande quantidade de informações em um pequeno espaço de tempo. Quando você se der conta, o problema não existirá mais.
Um “crack” foi ouvido no hall de entrada.
- Deve ser o Carlinhos. – Ana anunciou, a face iluminada de um jeito que só acontecia quando sabia que o marido estava por perto.
Smith House tinha uma proteção anti-aparatação muito específica: os membros da família tinham acesso a ela e, ainda assim, os que estavam em um “círculo de confiança” do seu atual senhor. Carlinhos, é claro, estava mais do que autorizado por Agatha.
O marido também apreciava visitar os tios da esposa. Agatha fora sua melhor amiga naqueles oito anos que se vira obrigado a ficar separado de Ana, pondo-o a par do que estava acontecendo na vida da sobrinha, amenizando um pouco da dor que ele sentia por estar longe dela. A velha senhora o escutava, aconselhava e compreendia, tornado-se uma segunda mãe para ele. Quanto a Moody, conhecia-o desde que era um menino e visitava o pai no Ministério. Na época, já era o Auror mais respeitado de todos os tempos e... Um pouco assustador também, mas isso o tornava ainda mais interessante para o garoto ruivo que gostava de se meter em confusões.
Conversaram a tarde toda com eles, mal notando o tempo passar. Quando finalmente notaram o adiantado da hora, se despediram do casal, resolvendo dar uma volta pelos jardins antes de irem embora.
- Lembra-se dos nossos primeiros passeios por aqui? – Carlinhos perguntou, um misto de saudade e malícia na voz.
- Hum... Vagamente – ela provocou, rindo muito da expressão de falsa indignação que o marido exibiu.
- Como é? – Ele a abraçou, trazendo-a para junto de si.
- Isso não é justo! – Ana ria enquanto tentava se desvencilhar – Você é muito mais forte do que eu. Que armas eu tenho contra o ex-capitão do time de quadribol da Grifinória?
- Mérlin, seu problema de memória deve ser mais grave do que eu pensava! Se não tem idéia de que armas suas me deixam... “Rendido”... – Ele falou enquanto salpicava beijos da têmpora ao queixo de Ana, fazendo-a rir ainda mais.
- Comporte-se, meu marido. – Ela pegou o rosto dele entre as mãos – Temos que ir até a Dedosdemel ainda.
- “Temos”? – A pergunta saiu mais como um “Ah, vamos ficar aqui!”.
- Temos sim. – Ana fez força para resistir ao olhar que ele lhe lançou – Gina andou comentando comigo sobre uns desejos que ela vem tendo de comer doces da Dedosdemel, e que só tem por lá. – Pegou a mão dele e começou a puxá-lo – Vamos, você não quer que seus sobrinhos nasçam com cara de Ratinhos de Sorvete ou de Penas de Algodão Doce, quer?
- Decididamente, não! – Ele arregalou os olhos, fingindo horror, e, roubando um último beijo, a seguiu para loja de doces de Hogsmeade.
Naquele momento, Ana jurou que iria fazer de tudo para ser motivo de orgulho para Carlinhos. Ele merecia.
***
[Dezembro de 2006]
Amizade.
Pela primeira vez, Mel sabia o significado desta palavra. Era curioso observar aquele grupo singular. Mel era a única do primeiro ano, e ainda havia o fato dos outros serem de Casas diferentes. Mas, contra todas as probabilidades, os meses se passaram e a união entre eles cresceu a tal ponto, que era de conhecimento geral em Hogwarts que mexer com um deles era mexer com todos.
O inverno havia chegado com toda a sua força. À apenas algumas semanas do Natal, a neve cobria toda a paisagem da escola de magia e bruxaria. O efeito era digno de ser retratado por um grande pintor, ou então ser cenário daqueles filmes de fantasia como... Harry Potter!
Naquela manhã, a agitação era completa, pois os alunos estavam se preparando para partirem para as férias de fim de ano. Hogwarts virara uma mistura de branco (da neve), de casacos, luvas, gorros e cachecóis de lã das mais variadas cores, e de rostos rosados por causa do vento frio que soprava. E tudo em constante movimento.
- Aqui estão aqueles livros que eu te falei, Mel – Andy lhe entregou três volumes enquanto estavam voltando para os dormitórios – Eles me ajudaram muito no ano passado, em DCAT.
- Ah, obrigada! – Mel sorriu, os olhos brilhando ao imaginar-se descobrindo o conteúdo dos livros.
- Quer saber de uma coisa? – Josh se meteu no meio deles, passando os braços nos ombros dos amigos. – Acho que vocês dois são malucos. Estudar durante as férias, imagine!
Ambos riram do comentário típico de Joshua. O bom-humor do lufa-lufano “contrabalanceava” a pressão por ter dois irmãos mais velhos que eram um sucesso em Hogwarts. Otwani estava no sétimo ano e era o goleiro da Lufa-Lufa. Madeleine – ou Lane, como a chamavam – era uma quintanista belíssima e muito popular. Por fim, ser filho de Kingsley Shacklebolt, o chefe dos Aurores, não devia ajudar muito para aliviar a responsabilidade que Josh sentia de ser tão bem-sucedido quanto as pessoas em sua família. Ainda assim, era inegável que o espírito “para cima” do menino o fazia encarar tudo melhor. Tanto, que ele acabava sendo o “pacificador” nos desentendimentos dos amigos.
Com Andy, as coisas eram um pouco diferentes.
Andrew Bennet era da Grifinória, e o mais responsável dos cinco. Estudioso e seguidor das regras, frequentemente era chamado de “o Senhor Certinho”. Mel tinha a impressão de que ele era muito cobrado pelos pais e, em conseqüência, não tolerava erros, especialmente os próprios.
- Para a gente, estudar é uma distração, Josh – ela respondeu, ainda rindo.
- Loucos! – Josh reafirmou, balançando a cabeça em desaprovação.
O menino iria dizer mais alguma coisa, mas murmurou que os encontraria mais tarde e saiu rápido e rasteiro em direção a Sala Comunal da Lufa-Lufa. Procurando pelo quê teria espantado o amigo, eles viram Lane com uma cestinha de frutas, chamando o irmão.
Comida saudável. Tudo o que Josh mais odiava e o que a irmã insistia em empurrar para ele.
Ainda rindo das “desventuras” do amigo, os dois seguiram para as escadas. Danna e Hector haviam tomado o café da manhã correndo porque tinham que fazer as malas ainda. Sabia que a grifinória não precisaria mais do que alguns minutos para arrumar as suas coisas, pois era muito cuidadosa com seus pertences. Já Hector... Bem, ele era do tipo despreocupado e confiante, que sempre deixa tudo para a última hora.
Encontraram a colega no sopé das escadas, esperando sozinha.
- Onde está o Hector? – Andy verbalizara a pergunta antes de Mel.
- Procurando o Ferdinando – Danna respondeu, mal contendo a risadinha tímida.
- Ferdinando sumiu... De novo? – A corvinal exclamou, caindo na gargalhada junto com os amigos.
Os hábitos fugitivos de Ferdinando, o gato de Hector, eram bem conhecidos por todos. Era impressionante como o animal sempre dava um jeito de escapar de seu dono.
Ferdinando odiava Hogwarts. E Hector encarava isso como uma afronta a sua autoridade de dono, já que, teoricamente, todo animal de estimação gosta de ficar com o seu, não importa onde. Orgulhoso, apressava-se a explicar que o bichano era um “espírito livre”, como ele próprio. Assim, exaltando o gato, esperava salvar sua imagem de dono. A desculpa não colou, claro. Especialmente porque o gato começou a seguir Mel para onde quer que ela fosse.
Quando Mel finalmente conseguiu parar de rir, viu que Andy exibia aquela mesma expressão esquisita sempre que Danna sorria. Um jeito meio abobalhado, como se não conseguisse olhar para nada além da garota. E ele não era o único. Mel desconfiava que as “selkies”(3), o povo do qual a família da mãe de Danna descendia, tivessem algum poder semelhante às veelas. Ou então, o garoto gostava dela. Bem, provavelmente era os dois. E, como diria a tia Ana, aquilo era “tão fofo!”. Pena que a amiga sorria tão pouco... “Tenho que fazer Danna sorrir mais”, pensava com seus botões.
Decidindo que não havia muito que fazer senão esperar, foram subindo as escadas e conversando. De repente, uma cauda de pêlos castanhos passou pela entrada de um dos corredores, chamando-lhes a atenção.
- Deixem que eu vou atrás do Ferdinando – a brasileira se prontificou, com um sorriso zombeteiro – E digam para o Hector onde estamos – ela sabia que o grifinório iria ficar injuriado ao ter uma nova demonstração de que o gato fugia de todos (especialmente dele) menos de Mel.
Não sabia porquê, mas fazer Hector Lupin saber que não era o centro do Universo era muito compensador para ela.
Estava no quarto andar. Chamou Ferdinando algumas vezes, até que o gato veio correndo em sua direção, enroscando-se em suas pernas.
- Eu acho que vi um gatinho! – Ela riu, pegando o bichinho no colo e o acariciando.
Voltando os olhos para as paredes, visualizou o retrato que tanto lhe chamava atenção nos seus primeiros dias em Hogwarts. Abandonar o mistério não tinha sido intencional. Simplesmente... Esquecera. Envolvera-se em tantas confusões desde que conhecera os amigos, que sua mente fora ocupada pelas aventuras que estavam tendo.
- O olhar dela intriga, não é?
Um garoto aproximara-se sem que notasse e estava parado a alguns passos dela. Mel nunca tinha falado com aquele menino da Sonserina, mas já o tinha visto com Rupert, o irmão mais velho da intragável Caroline Bothwell. Se não estava enganada, estavam no mesmo ano.
O aviso de tio Carlinhos para se manter longe dos sonserinos reverberou em algum canto de sua cabeça, mas ela o afastou. Nunca vira o garoto participando das atividades condenáveis que os membros de sua Casa promoviam. Pelo contrário, ele se mantinha afastado deles, sendo Rupert um dos poucos com quem conversava. E ser amigo de Rupert, que apesar de sonserino era uma boa pessoa, contava pontos a favor do garoto.
- Sim, mas... – Ela respondeu, sorrindo timidamente – É aquele símbolo que eu acho estranho.
- Ah! – Ele ergueu uma sobrancelha – A Rosa dos Ventos.
- Rosa dos Ventos? – Mel piscou várias vezes, confusa – Mas não é o símbolo celta para “energia mágica”?
- Os símbolos celtas – começou a explicar, parecendo satisfeito com a questão proposta pela garota – geralmente não significam apenas uma coisa. Esse aí – fez um gesto com a cabeça para o desenho – inspirou vários símbolos trouxas.
- Como o símbolo atômico. – Ela concordou.
O garoto cerrou um pouco os olhos, como se estivesse buscando a informação.
- Ah, sim – ele era excessivamente formal para um garoto – Sei ao que se refere.
- Consigo entender porque “energia mágica” virou “energia nuclear” – Mel não se deu por vencida – Mas o que os pontos cardinais teriam com isto?
Um novo sorriso do sonserino. Ele estava achando agradável a conversa.
- Simples. Os celtas ligavam a mágica com intervenções divinas. Todo o poder vinha dos deuses. E a Terra Sagrada ficava ao Norte. Inclusive a palavra “norte” é a mesma para “céu” em celta. – Verificando o interesse crescente da menina, ele continuou: - A Rosa dos Ventos aponta o Norte para cima – o céu – sendo que a ponta de cima do símbolo faz às vezes da agulha do Norte, a de baixo, o sul, e assim por diante, o Leste, o Oeste, Nordeste, Sudoeste, etc...
- Como você sabe disso tudo? – O queixo da corvinal estava caído. Nada da pesquisa que Lipe fizera na Internet apontava para aquela direção.
- Meu pai me contou quando nós vimos uma Rosa dos Ventos pintada em uma calçada.
Ela desanuviou o semblante e sorriu. Ao se perguntar quem seria o pai dele, lembrou-se de que ainda não tinham sido apresentados. Sem jeito, passou Ferdinando para um dos braços, de forma que a outra mão ficasse livre para ser estendida:
- Sou Mel Warmlling.
- Eu sei – ele apertou a mão estendida e arqueou os lábios em um esboço de sorriso – Sua harpia chama bastante atenção.
Ela fez uma careta divertida, não se ofendendo com o comentário.
- Sou Alan Snape – ele se apresentou. (5)
A corvinal parou de sorrir. Dois segundos mais tarde, soltou um suspiro de alívio, como se tivesse compreendido algo, e disse, com uma risadinha marota:
- Você quase me pegou!
Alan torceu os lábios e também suspirou, mas como se dissesse: “Estava demorando”.
- Não, é isso mesmo que pensou. Sou filho de Severo Snape.
Ela esbugalhou os olhos, o queixo caiu ainda mais do que quando ele mencionara a Rosa dos Ventos:
- Isso é impossível. O Morcegão não tem filhos.
Lançando-lhe um olhar ao mesmo tempo superior e condescendente, o sonserino replicou:
- Não deveria acreditar em tudo o que lê.
“Ele sabe dos livros”, Mel pensou. Analisou mais atentamente o rapaz. Todo vestido de preto, cabelos negros e compridos até os ombros. Porte altivo e maneiras adultas – até demais para a idade dele. Céus, encaixava!
- Não... – A menina balançou a cabeça negativamente – Seria até antinatural Snape sendo um... Pai!
- Estou vendo que não é fã dele.
- Sinto muito, mas... Não. – Respondeu com todo o tato possível. – É realmente filho dele? Quer dizer... Existe uma “Sra. Snape”? – Ela estava assombrada.
- Sim, e não. – O garoto agora parecia estar se divertindo com a reação dela. – Sou adotado.
Aquilo era ainda mais surpreendente para Mel. Adotar alguém parecia um gesto tão... Humano! Não combinava, em absoluto, com o Seboso. Mas o garoto não estava brincando ao dizer que era filho de Snape, podia perceber isso.
- Bem... – Concluiu mais para si mesma, olhando-o de lado. – Pelo menos os cabelos não são oleosos. – Ela levou rapidamente a mão à boca, horrorizada, quando percebeu que deixara o comentário escapar.
- Vou tomar isso como um elogio – ele riu mais abertamente, demonstrando não ter se ofendido.
Alan era do tipo compenetrado que vivia com o nariz enfiado nos livros. E a solidariedade existente entre duas pessoas que passam tanto tempo entre páginas e mais páginas de livros acabou por facilitar um sentimento de simpatia mútua.
- Seu... Seu pai e eu não tivemos um encontro muito agradável em agosto – ela resolveu contar de uma vez. Assim daria oportunidade para ele decidir se queria continuar conversando com ela depois disso ou não.
- Hum... – os olhos do menino se tornaram sombrios – O Ministério quase me tirou dele, nesta época. A adoção ainda não tinha se oficializado, e eles tinham dúvidas de que ele... Bem, seja lá o que tenha acontecido, não ligue. Ele estava nervoso naqueles dias.
Por um segundo, Mel quase fez isso mesmo. A possibilidade de perder um filho... Mas não, corrigiu-se. Como se o Ranhoso pudesse ser afetado por “sentimentos”. No entanto, ele “adotara”! A atitude geralmente era impulsionada por nobreza e afeição...
Curiosa como só Mel podia ser, estava prestes a fazer mais perguntas quando a chegada de Hector desviou a atenção de ambos.
- Há-há! Aí está você, Ferdinando! – Entre o alívio e a contrariedade, o grifinório dirigiu-se diretamente para o felino, aparentemente ignorando os dois.
Já com o animalzinho no colo, Hector finalmente se deu conta dos demais.
- Olá, Alan – cumprimentou polidamente, recebendo um aceno de cabeça em resposta. – O que Ferdinando estava fazendo com você? – Dirigiu-se a Mel, com um tom levemente acusatório.
- Eu o encontrei! – Respondeu um tanto indignada.
- Impossível. Eu o procurei no quarto andar antes.
- Não tenho culpa se seu gato aparece quando “eu” chamo, e não você, Lupin! Estou começando a pensar que não é de Hogwarts que ele não gosta, mas de você.
Torcendo o nariz e ignorando acintosamente o comentário, Hector voltou-se para o outro:
- Vai passar o Natal em casa?
- Sim, meu pai está me esperando.
- Que bom, nos vemos na volta, então.
Havia certa distância na maneira como os dois garotos se comunicavam. Ainda assim, parecia haver simpatia, e até respeito entre eles, embora o constrangimento fosse evidente.
Despediram-se de Alan e, enquanto estavam se afastando, Mel perguntou:
- Você sabia que ele é filho do Snape?
- Claro, o sobrenome já diz tudo não? – Ele deu de ombros. – Ele está no mesmo ano que eu, fazemos algumas aulas juntos. Mas não conversamos muito. Acho que o Alan não compartilha da minha opinião do que é ser aluno de Hogwarts.
- Ou seja, uma aventura – ela revirou os olhos, provocando.
- Claro. Além do que... As pessoas parecem esperar que a gente seja um tipo de... Inimigo mortal, só por causa dos nossos pais. E eles nem são inimigos, só... – o grifinório não sabia como definir a situação exatamente.
- Entendo. – Ela balançou a cabeça afirmativamente. – As pessoas apenas vêem Comensal da Morte e o membro da Ordem da Fênix, e imaginam... Bem, a verdade é que a época de estudantes deles não traz boas recordações, não é?
Hector passou de indiferente para subitamente interessado:
- Você diz isso por causa do que está nos... Você-Sabe-O-Quê, não é? – Os olhos do menino estavam imensos, a ansiedade evidente no seu rosto.
- “Você-Sabe-O-Quê”, “Você-Sabe-Quem”. As pessoas podem pensar que os bruxos não têm muita imaginação, sabe? – Riu – Não precisa ser um gênio para inventar o próximo apelido: “Aquilo-Que-Não-Deve-Ser-Mencionado”. Que tal?
- Você está fazendo de novo. – Hector franziu o cenho.
- O quê? – Ela parou de subir os degraus, esperando uma resposta.
O grifinório parou também, ficando dois degraus acima:
- Fugindo do assunto. – Ele respondeu encarando-a com os lábios apertados.
- Não estou não! – Protestou. – Eu não posso falar, você sabe disso. As palavras “encantamento” e “expulsão” te lembram alguma coisa? – Ela Desanuviou a expressão do rosto e acrescentou: - E eu já respondi o que você quer saber, Hector: Você chegou “depois”. Tudo parou em junho de 1997!
Os bruxinhos gastaram dois segundos medindo-se, tentando avaliar o que se passava na cabeça do outro.
- O que parou em 1997? – Andy apareceu puxando um baú pesado, com Danna logo atrás dele.
Hector e Mel se sobressaltaram. Não tinham notado que estavam tão próximos da Sala Comunal da Grifinória. O que diriam?
- Bem... É... – Mel começou.
Hector viu um setimoanista, apanhador da Grifinória, passar e disse:
- Quadribol.
- Quadribol?!? – Andy e Danna os fitaram, confusos.
- Quadribol? – Mel disse quase ao mesmo tempo, no mesmo tom confuso. Hector lhe lançou um olhar de aviso, e ela percebeu a mancada: - Ah, é... – Continuou, também dizendo qualquer coisa: - Campeonato.
Os olhos do grifinório brilharam, e ela soube no mesmo instante que, agora sim, ele tinha uma idéia:
- É. A Mel estava dizendo que a Grifinória não tem um time decente desde 1997.
Vários grifinórios que estavam passando a olharam com despeito, enquanto Hector exibia um risinho debochado e satisfeito. Parecia que ele acabara de se vingar pelo que ela dissera sobre Ferdinando.
- Melhor você se apressar, Mel – Danna a avisou – Temos que estar lá embaixo em vinte minutos.
- Mérlin! – Ela começou a correr em direção à Torre da Corvinal.
Falara tanto de Hector, que sempre deixava tudo para a última hora, e no entanto se esqueceu que ela tinha que pegar suas coisas no dormitório ainda.
- Vou ficar te esperando aqui! – Hector falou mais alto, para que ela ouvisse.
Mel parou, apoiou-se no corrimão do corredor e olhou para baixo:
- Não, vão indo na frente, assim avisam o Hagrid!
- A Danna e o Andy vão, eu fico aqui. Caroline ainda está bem brava.
- Eu sei me defender! – Retrucou.
- Não contra cinco de uma vez só. – Hector sorriu, sabendo que tinha dado o “cheque-mate” no assunto.
Bufando em resposta, Mel retomou sua corrida em direção ao dormitório. Essa era boa. Primeiro, ele a acusa de ter pego o seu gato, depois, inventa uma mentira onde “ela” acaba falando mal do time da Grifinória. Agora, está preocupado com a segurança dela! Garoto idiota!
Minutos mais tarde, Hector e ela chegaram ofegantes até as carruagens que levariam os alunos para a estação em Hogsmeade. Josh chegou também, embora o motivo do atraso dele fosse outro: Lane agora estava dando de ombros, desistindo de procurá-lo, e entrando em uma das carruagens com os amigos.
- Me diz – o lufa-lufano puxava o ar entre os dentes, recuperando o fôlego – O que tem demais querer comer os doces do Expresso de Hogwarts em vez de frutas e aquelas coisas que a Lane vive me empurrando? Só uma vezinha?
***
Mãos nos bolsos do casaco, encolhendo-se toda por causa do vento gélido que soprava, caminhou com falsa determinação pelas ruas de Londres até o casarão antigo. Um rápido olhar pelo ambiente demonstrava o quanto o homem que pretendia visitar mudara.
A grande metrópole estava agitada com a proximidade do Natal. Nas ruas, trânsito lento e congestionado, calçadas exibindo os últimos vestígios de uma fina neve que caíra na noite anterior. A Prefeitura tinha trabalhado rápido na remoção da neve, de forma que os londrinos não interrompessem suas atividades – especialmente as consumistas, que enchiam os olhos de satisfação, os bolsos dos vendedores de dinheiro, e os cofres públicos de impostos.
E lá estava o velho casarão no meio dos prédios modernos. Estranhamente, naquilo tudo, ele era o que mais lembrava o Natal em Londres.
Tradicional e rebuscado, por certo algum dia aquela casa teria sido imponente. Mas agora parecia que o século XXI a oprimia com a sua magnitude, erguendo-se ao seu redor e projetando ameaçadoramente as sombras da modernidade sobre ela. Ainda assim, o lugar permanecia de pé, resistindo de forma digna a qualquer olhar de estranheza que lhe lançassem.
“Cheio de nobreza, poesia e nostalgia. Como em um conto de Natal”, pensou Ana.
Só percebeu que estava parada na calçada quando um passante se chocou contra ela. Fez um sinal de “tudo bem” quando o homem lhe pediu desculpas, sorrindo e pensando que, afinal de contas, Londres ainda não estava perdida se as pessoas tinham a decência de se desculparem. A menos que... Botou a mão no bolso do casaco, verificando que sua carteira ainda estava lá. Que alívio! Rindo de si mesma, pensou que, se a faculdade de Direito não tivesse feito dela uma pessoa desconfiada, acharia que era a proximidade com o Morcegão que devia estar a afetando.
Decidiu-se por entrar de uma vez. O tempo não estava nada bom para ficar do lado de fora, mesmo com o pesado sobretudo preto de lã, calça no mesmo tecido e botas que ela usava.
Subiu os degraus até a porta de carvalho decorada com uma guirlanda de ramos verdes trançados e amarrados com uma bela fita vermelha. Concluiu que aquele enfeite só poderia ter sido idéia de sua sogra. Claro, “dele” é que não iria ser.
Tocou a campainha, sentindo todos os músculos do corpo ficarem tensos. Tinha se aproximado bastante de seu “vigiado” naqueles meses, mas sabia que ele não tinha gênio fácil. Especialmente quando indagado sobre assuntos de índole pessoal.
A porta foi aberta bruscamente, um gesto que indicava o quanto seu anfitrião estava irritado por estar recebendo visitas. E, naquele momento, Ana desejou ter se preparado melhor para o confronto. Ficou imóvel, fitando homem mudamente, enquanto procurava uma linha de raciocínio lógico que lhe garantisse se sair bem daquela situação.
- Smith, aposto que tem coisas melhores para fazer do que ficar parada em frente à minha porta e tremendo de frio – Snape fez ressoar secamente sua voz grave.
Pelo pouco que conhecia daquele homem, sabia que a grosseria dita “a queima roupa” se devia ao fato de saber o assunto que a trouxera até ali. Fora por decisão do próprio Snape que Molly lhe contara tudo, mas mesmo assim, ele reagia àquela abertura de sua vida particular erguendo um muro ao seu redor, um aviso: “Cuidado. Não importa o que saiba sobre mim, ainda sou Severo Snape, o temível professor de Hogwarts”.
- Se isso foi a sua versão de “Por favor, entre, está frio aí fora” – Ana respondeu ironicamente assim que recuperou a fala – Receio dizer que precisa melhorar muito seus modos, Snape.
A reação dele foi puxar os lábios em seu característico sorriso “sarcástico-desdenhoso”. Ainda segurando a maçaneta com a mão esquerda, ele abriu a porta, afastando-se e dando passagem, a mão direito estendida para o interior da casa, convidando-a a entrar. Apesar de o gesto ser calculadamente irônico, não pôde deixar de notar o brilho de alívio nos olhos negros. Ao aceitar trocar farpas verbais com ele, garantiu ao ex-Mestre de Poções que não pretendia alterar sua opinião sobre ele por conhecer seu segredo, muito menos ter pena dele.
- Suponho que deva ter aprendido alguma coisa sobre boas maneiras com Agatha neste meio tempo, então.
Ana virou-se bruscamente para ele, um brilho furioso e magoado ao mesmo tempo no olhar. Desta vez, era ela que dizia “Cuidado” silenciosamente. Mas Snape já se mostrava constrangido, como se só tivesse se dado conta da exata repercussão de suas palavras depois que as pronunciara. Ela percebeu isso e, se Snape estava falando coisas sem pensar antes, coisa que não era de seu feitio, era indicação de que estava muito preocupado. Então, ele disse em um tom mais brando, evitando fitá-la nos olhos:
- Por favor, sente-se.
Respirando profundamente, Ana buscou forças para retomar a calma. Estavam se dando relativamente bem nos últimos tempos – “bem” para os padrões de Severo Snape – e precisava ter muita paciência agora. É claro que o assunto que a trouxera até ali perturbava o mundinho fechado do antigo professor.
Havia algumas poltronas no que seria a recepção do local, e aceitou o convite para se sentar, sendo imitada por ele. Ana controlou um sorrisinho irônico ao lembrar que até mesmo aquele lugar era um contra-senso à personalidade de Severo Snape. Vinha apoiando-o naquele projeto desde que lhe contara sobre ele, apesar do choque inicial que levou ao ouvi-lo expor o que tinha em mente. Embora ela fosse seu contato no Ministério (ele preferia considerá-la sua “agente de condicional”) e dele estar os auxiliando com o problema dos Comensais da Morte fugitivos, nunca dera indícios de que tinha mudado a tal ponto de querer fundar um local como aquele.
Um orfanato. Não, um... Um refúgio para crianças que haviam perdido seus pais durante a Guerra. (5) Fora uma surpresa e tanto para ela, apesar de se considerar, até então, a pessoa adulta mais próxima do ranzinza ex-Comensal. Ana quase se levantara ao fim da exposição de idéias que ele lhe fizera, a fim de questionar, perplexa: “Quem é você e o que fez com Severo Snape?”.
E agora... Mais uma revelação que causava uma reviravolta na idéia que ela fazia do mistério que era aquele homem. Quando Molly a chamara para vir a Toca porque tinha algo muito sério para lhe falar, jamais imaginou que ela lhe contaria algo parecido. Para falar a verdade, sequer imaginou que fosse sobre Snape, apesar a sogra também estar mais próxima dele porque era voluntária na instituição.
- Molly deve ter lhe contado sobre meu... Encontro com o passado no último Natal. – Ele foi direto ao assunto.
- Sim. E confesso que estou surpreendida por terem escondido isto de mim. Eu teria entendido a situação, e teria podido te ajudar... – Ela passou os olhos irrequietos pela sala, buscando palavras – Ajudar a estabilizar sua situação mais rápido para que pudesse adotar Alan – Ela o encarou, muito séria: – Para que pudesse buscar a moça também.
- Arthur Weasley e Potter também sabiam. Ou acha que poderia fazer mais do que o “maravilhoso Harry Potter”? – A voz dele estava entre a zombaria e o despeito.
- Pensei que confiasse em mim – ela rebateu.
- Confiei a você mais segredos do que a qualquer outra pessoa. – Os olhos dele brilhavam em amargura – Não precisa se sentir em dívida comigo pelo que acha que eu deixei de viver, Smith.
Então era isso, pensou Ana. Snape não queria depender emocionalmente de ninguém. Vivera tempo demais alimentando sua fama de homem sem sentimentos para abrir mão deste escudo que o envolvia. Devia ser difícil demais para ele conviver com o fato de que alguém tão próximo a Elizabeth soubesse de seu segredo da juventude. Ainda que Harry também soubesse, preferia o auxílio altruísta e impessoal com que o ex-grifinório agraciava a tanta gente do que a ajuda dela, que seria motivada por sentimentos pessoais de culpa pelo que literalmente “arrancara” da mente dele naquela noite em que Ana se defrontara com Voldemort.
- Pro inferno com suas idéias sonserinas sobre confiança, Snape! – Ana sentia-se frustrada com o quebra-cabeça que era a mente daquele homem. – A forma como fica medindo intenções e relacionamentos, esquadrinhando cada mínimo detalhe antes de admitir que precisa de ajuda... As pessoas têm mais a dar umas a outras do que jogos de poder! Quando vai entender que é possível confiar em alguém sem temer que ele use isso contra você?
Ela estava de pé, encarando-o com o ardor típico de quem acreditava em suas palavras. Snape não se perturbou, apenas suavizou a expressão, fitando-a com um sorriso triste:
- É em momentos como este que tenho certeza de que é filha de sua mãe.
Desconcertada com a frase, ficou sem ação. Ser comparada a sua mãe a pegou de surpresa: primeiro, porque sabia que vindo de Snape era um elogio e tanto; segundo, porque ambos sempre evitavam falar sobre a mãe de Ana. Era um acordo tácito que tinham.
- Teria sido mais fácil com Alan se a moça estivesse aqui. – Ela voltou a sentar-se, retomando o tom polido, embora a voz estivesse mais carregada de intimidade: - Uma mulher, tão próxima a você, com fortes laços de afeto... Uma figura feminina dentro da família em quem Alan pudesse contar.
- Ela ainda não estava preparada, não poderia trazê-la naquela época, de qualquer jeito. Ponto final, Smith. – Snape suspirou, evidentemente cansado. – De qualquer forma, chegamos até aqui e temos outras coisas com que nos preocupar. Quero saber se posso com você.
- E precisa perguntar? – Ela começou a abrir um pequeno sorriso. – Se estar com ela apenas algum tempo já te mudou a ponto de pensar nisso... – Ana olhou ao seu redor, indicando a instituição, e continuou: - Eu quero mais é que ela venha! Além do mais – agora o sorriso era malicioso – Vai ser muito divertido. Aposto que a chegada dela será uma bomba na comunidade bruxa!
- Pelo o que andei sabendo, também o seria entre os trouxas. – Ele ergueu uma sobrancelha, rosto contorcido em uma expressão sarcástica e mal humorada – Estive entre eles, li o que comentam sobre mim na tal da Internet. E, para não restar dúvidas, ouvi muito bem do que sua “sobrinha” me chamou no Ministério.
“Morcegão”, lembrou-se Ana. Mordendo os lábios para não rir, disse:
- Ora, não pode culpar os leitores por terem te dado este apelido. – Ela deu de ombros – Todo vestido de preto, pálido como se tivesse medo do sol e... Lembra-se do terceiro ano do Harry? Aula de Defesa Contra as Artes das Trevas. Aquele clima de mistério sobre o que teria acontecido com Lupin, para ele não ter vindo dar aula. E você, que não era exatamente o professor mais querido de Hogwarts, chega para substituí-lo. Qual é a primeira coisa que faz? Fecha todas as janelas! Como um... Morcego que não suporta a luz do sol!
Snape apenas fez um gesto com a mão, indicando que aquilo não era importante para ele. Mas sua convidada tinha mudado a expressão zombeteira por uma de perplexidade:
- Mérlin, se eu consegui falar tudo isso... Eu bem que desconfiava! – Ela sorriu marotamente, fingindo censura quando ele não se abalou com a sua reação: - Snape, seu patife! Você arranjou um jeito de neutralizar o feitiço do Ministério!
Quando ele permaneceu em um silêncio satisfeito, ela comentou:
- Não vai me dizer como faz estas coisas, não é?
- Não mesmo. – Ele sorriu, presunçoso. – Sou um patife, como você mesma disse. Não é a idéia geral que se faz de mim?
Ana recostou-se na cadeira, estreitando os olhos.
- Não, e se teve acesso ao mundo trouxa no final do ano passado, deve saber disso. – Snape devia ter “esbarrado” nas “Fan Fictions” sobre ele na Internet quando estava procurando informações sobre os livros. É claro que tinha conhecimento de que era a fixação de muita gente. – O que me faz lembrar...
Ela levantou o dedo indicador em sinal de “espere um minuto”, enquanto tirava um papel dobrado de seu casaco:
- Pedi para meu sobrinho, Felipe, imprimir isto – E entregou-lhe a folha. – Arrisquei minha posição no mundo bruxo ao carregar isso por aí, espero que reconheça meu sacrifício.
Snape desdobrou o papel e percorreu o olhar por seu conteúdo, reconhecendo o formato de um famoso “fórum” de discussão sobre os livros e os filmes. Seu primeiro contado com a ferramenta que os trouxas chamavam de “computador” fora feita através da mesma mulher que estavam planejando trazer para perto dele.
- O que é isso? – Ele franziu o cenho, confuso, quando se deteve em um quadrado em específico na folha.
- A frase é bem clara. – Ana abriu um sorriso de falsa inocência: – “Eu ainda acredito em Severo Snape”. É o que muitos trouxas estão colocando em suas assinaturas nos fóruns de discussão da Internet. - Ela indicou a folha em suas mãos: - Essa assinatura ganhou espaço nos fóruns em janeiro deste ano. Logo, imaginei que ainda não tinha visto isso.
Ele permaneceu alguns instantes com o olhar fixo na frase e... “Não, será?”, Ana pensou, satisfeita. Aquilo teria sido um brilho emocionado que vira nos olhos do Morcegão? Definitivamente, agora poderia sair por aí dizendo que já tinha visto de tudo nesta vida.
- O “Seviezinho” que desenharam não é uma gracinha? – Ela provocou, fazendo o velho Mestre de Poções voltar à realidade e lhe lançar um olhar que poderia congelar o inferno. – Ora, vamos... – Ela não se abalou – Vai me dizer que não é?
- Francamente, Smith! Temos coisas mais sérias para tratar! – Ele largou o papel como se queimasse em sua mão.
- Certo, tem razão. – Ela balançou a cabeça, rindo e concordando. - Depois eu tenho que buscar Mel em Kings Cross. Suponho que tenha que ir buscar o Alan também, não?
- Sim. – Ele voltara, definitivamente, à antiga frieza “snapeana”.
Passaram as horas seguintes conversando sobre as últimas notícias que tivera da outra brasileira, e que em breve ela estaria na Inglaterra. Havia tantas coisas que a mulher deveria saber! Ana ponderou que deveriam ir com calma, realmente. Mas se mostrou confiante de que tudo iria dar certo.
Quando comentara com ele, mais uma vez, que ele não parecia o mesmo, Snape simplesmente comentou: “O tempo não pára Smith. E as pessoas mudam com ele. É assim que o mundo é”.
Notas
(1) Nome inspirado em “Ebeneezer Scrooge”, personagem central do conto de Charles Dickens, “O Conto de Natal”, que era um velho avarento e muito rico, que recebe, na noite de Natal, a visita dos fantasmas ou espíritos dos natais passados, presente e futuros. Depois das lições aprendidas com os fantasmas, ele muda seu modo de viver, e passa a ser generoso e gentil.
(2) Harry Potter e o Segredo de Sonserina.
(3) Harry Potter e o Retorno das Trevas, da Sally Owens.
(4) “My Fair Lady”: Filme norte-americano de 1964, baseado em uma peça de teatro de mesmo nome, da Broadway. Henry Higgins (Rex Harrison), um intelectual e professor de fonética, aposta que conseguirá, no período máximo de seis meses, transformar Eliza Doolittle (Audrey Hepburn), uma simples florista de rua que não sabe falar direito, em uma dama.
(5) O Paciente Inglês, da Regina McGonagall. http://potterish.com/forum/viewtopic.php?t=26259
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N/A: Olha gente, eu planejava só postar este capítulo quando já tivesse escrito mais uns 3... Mas não deu. De qualquer forma, aí está ele, desculpem pela demora. Me deixei levar nele... Saiu enoooorme, mil desculpem por isso também. É um “Groupe”, sem dúvida... *ficando vermelha*.
Valeu pelo incentivo, pelos pedidos de atualização, e pelas opiniões lá nas Comunidades sobre quem seria o rosto perfeito para a Ana. Adoooooooooooooooro vocês!
A foto do personagem novo, o ALAN (Bem, não é “novo” exatamente, né? Esse persongaem é da Regina McGonagall, da fic “O Paciente Inglês”) está “publicada” lá no Espaço MSN dos SEGREDOS DOS FUNDADORES: http://segredodosfundadores.spaces.msn.com/

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Belzinha
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Blim-Blom No Seu Coração
Harry perdera a conta de quantas vezes Rony e ele trocaram os enfeites de natal de lugar. Vários laços, anjinhos, ramos verdes entrelaçados e sininhos flutuavam no ar, enquanto a senhora Weasley e Fleur tentavam se decidir onde os colocavam.
A Toca estava repleta de Weasleys ajudando nos preparativos para o Natal, que seria dali a dois dias. Na cozinha, Alicia e Hermione se encarregaram das fornadas de biscoitos que tradicionalmente os Weasleys mandavam para os amigos. Cátia e Ana, reconhecendo que seus conhecimentos culinários beiravam à inexistência, preferiram cuidar da arrumação da casa e verificar se havia lençóis, cobertores e travesseiros o suficiente - os Weasleys são o tipo de família que sempre está recebendo mais um, ainda mais em ocasiões como o Natal... Então, tinham que estar preparados! Harry e Rony foram escalados pela senhora Weasley para ajudá-la na decoração, embora eles não fossem consultados para nada e se limitassem a mover os objetos de um lado para o outro quando solicitados.
Ao olhar para o amigo, Harry teve certeza que o braço de Rony estava tão dolorido quanto o dele, de tanto manterem as varinhas erguidas, enquanto Fleur e Molly discutiam se o grande enfeite com ramos, laços e sininhos ficaria melhor sob a lareira ou na parede de frente para a sala.
Era evidente que Rony já estava ficando exasperado com a demora das duas em entrarem em um acordo sobre algo tão simples (ainda mais com o braço doendo daquele jeito). Mas Harry nunca se fartaria de ocasiões tão familiares como aquela. Se o preço era um braço dolorido, então que doesse até cair: valia a pena se isso fosse deixar a senhora Weasley contente.
Voltou a olhar para a sala onde Gina, cercada pelas crianças, ocupava-se em fazer cordões de pipoca (uma tradição americana sugerida por Mel). Iriam dependurar nas árvores lá fora. Assim, ela mantinha as crianças entretidas fabricando um “presente de natal para os passarinhos”.
Esquecido de tudo, demorou-se observando a esposa: o rosto adorável emoldurado pelos cabelos flamejantes, a pele delicada e macia, e o sorriso... Harry não sabia explicar o sorriso de Gina. Era simplesmente maravilhoso, único. Inocente, provocante, inteligente, cheio de vida. Podia descrever mil detalhes diferentes em um único sorriso dela.
Pousou o olhar no ventre dilatado da esposa e sorriu, enchendo-se de orgulho e esperança ao pensar que em pouco tempo os filhos de ambos nasceriam. Ficava espantado como este simples pensamento o fazia sentir-se tão absurdamente feliz. Sentia-se completo, capaz de fazer qualquer coisa, só com a lembrança de que tinha Gina. Que tinha os filhos de ambos.
- Harry! – A senhora Weasley o alertou. – Assim vai deixar o anjo de vidro cair, querido!
Ele rapidamente ergueu a varinha que, em sua distração, fora deixando cair. Murmurou um pedido de desculpas totalmente envergonhado, consciente, pelos sorrisos estampados nos rostos de Fleur, Rony e de Molly que eles sabiam de onde estivera toda a sua atenção até aquele momento.
Harry perguntou-se se algum dia iria parar de agir como um adolescente quando o assunto era Gina.
“Provavelmente, não”, concluiu, seu olhar sendo atraído novamente para ela.
Chantal e Mel estavam sentadas ao lado de Gina, e as três “costuravam” os cordões de pipoca. Harry percebeu que a sobrinha de Ana imitava Gina em tudo o que ela fazia, prestando atenção principalmente nos feitiços que ela praticava. Enquanto isso, Sean e Kenneth iam passando os grãos de pipoca, comendo três a cada um que lhes entregavam. Os meninos tinham três anos, com apenas alguns meses de diferença entre eles, e não havia dúvidas de que tinham herdado o “espírito das Gemialidades Weasley”.
Rony, que agora estava observando o pequeno Sirius fazer festa com uma das tigelas com pipoca, jogando o conteúdo para cima, cochichou, divertido, que provavelmente eles não teriam muitos cordões naquele ritmo.
- Vocês dois querem... - A senhora Weasley começou a ralhar, mas se interrompeu quando um grande barulho vindo do telhado foi ouvido, e viram, pela janela, o senhor Weasley despencar lá fora, parando a meio metro do chão, aparvalhado e um tanto tonto.
- Eu estou bem! – O senhor Weasley finalmente gritou, ofegante, quando percebeu que era o centro das atenções, com um sorriso entre encabulado e vitorioso nos lábios.
Todos correram para o lado de fora, querendo constatar a afirmação com os próprios olhos. Os enfeites tinham sido esquecidos, alguns se espatifando no chão quando Rony e Harry deixaram a sala como raios. Cátia e Ana desceram as escadas depressa, assustadas, querendo saber que barulho tinha sido aquele. Ao verem o sogro ainda flutuando, mas bem, suspiraram aliviadas. Sorriram uma para a outra, sabendo que por aí vinha mais uma das loucuras maravilhosas do senhor Weasley.
- Os meninos me pegaram a tempo - Arthur anunciou, levantando o indicador para Gui e Jorge no telhado, que mantinham as varinhas erguidas na direção do senhor Weasley, sustentando-o. Fred e Carlinhos apareceram em seguida ao lado deles, vindos do outro lado da casa. Os quatro ainda olhavam assustados para baixo. - Podem deixar agora, rapazes! - O senhor Weasley ordenou com um sorriso confiante.
Tão logo viu o marido seguro, no chão, a senhora Weasley foi se recuperando do choque, e lançou a carga, ainda com os lábios trêmulos:
- Arthur, o que é estava fazendo lá em cima? - Olhou para o telhado: - Aliás, o que todos vocês estão fazendo aí em cima, com toda esta neve escorregadia? - Voltou-se novamente para o marido, agora totalmente recuperada: - Arthur, você não tem mais idade...
- Você vai ver, querida. - Ele a interrompeu, abrindo um sorriso maior ainda e passando o braço em torno dos ombros dela. - Liguem, rapazes!
Os quatro obedeceram ao pai após alguns segundos. A forma como olharam apreensivos para a expressão zangada da mãe fazia com que parecessem meninos com medo de levar uma surra por alguma travessura praticada.
Exclamações surpresas foram ouvidas quando centenas de luzes se acenderam por toda a Toca.
- Pisca-piscas? - Hermione perguntou confusa. - Mas, como? A eletricidade...
- Ah, fiz algumas modificações. Funcionam com magia.
Maravilhados com os efeitos das luzes, ninguém notava que estava ficando mais frio lá fora, já que a noite estava caindo. Os olhos da senhora Weasley se encheram de lágrimas entremeadas com um sorriso. Foi quando Ana tirara as palavras da boca de Harry:
- Deus, eu adoro esta família! - Ela murmurou, com um sorriso divertido nos lábios.
Por falar em família... Harry notou que estavam faltando membros dela lá fora. Voltou-se para dentro da casa, pegando Sean e Ken com as bocas cheias de pipoca, e as tigelas no chão, vazias. Quando os outros adultos acompanharam o olhar de Harry, pousado sobre os meninos, os garotinhos se apressaram a dizer:
- Foi ele! - Falaram ao mesmo tempo, apontando para Sirius.
O bebê ria abertamente, batendo palminhas e balbuciando em sua inocência, na ignorância da "acusação" feita.
Os adultos explodiram em uma risada diante da tentativa pobre dos meninos de jogar a culpa no primo menor. Harry ouviu a voz de Ana em sua cabeça, totalmente derretida: "Ai, os três são tão fofinhos!".
Mas as mães dos meninos não estavam rindo. Alícia e Cátia lançavam olhares de reprimenda aos filhos, indicando que iria haver um longo discurso sobre honestidade e, muito provavelmente, um castigo bem merecido, não tanto pela pipoca, mas pela mentira.
- O que houve? - Fred gritou do telhado.
- Houve que vocês estão criando dois tratantes! - Rony respondeu, tentando parecer sério. Afinal estava em "defesa" de seu filho. Mas os cantos dos lábios do ruivo tremiam em um riso mal contido.
- E qual é a novidade nisso? - Fred replicou, dando de ombros. Ele e o irmão gêmeo se olharam, divertidos, entendendo que seus filhos tinham aprontado mais uma das suas.
Hermione entrou para limpar o rosto e as mãos do filho, já todas meladas por causa das pipocas doces nas quais ele estivera mexendo antes. Os outros começaram a entrar também, ainda sorridentes.
- Desçam já daí, meninos, antes que peguem um resfriado! - Foi a última palavra da senhora Weasley antes de entrar também.
Harry e Gina ficaram para trás. Ele se voltou para ela, com um sorriso provocador:
- Acho que não vamos ter cordões de pipoca este ano.
Gina olhou para ele, sorrindo, respondendo com fingida indignação:
- Desde quando eu desisto de alguma coisa, Harry Potter? - Beijou-o levemente nos lábios, antes de entrar em casa novamente, chamando Mel e Chantal: - Vamos fazer mais pipocas, meninas?
Não, Gina não era de desistir, Harry ia pensando, feliz, enquanto entrava na Toca com os outros Weasleys que tinham acabado de descer. E, graças a Merlim, ela nunca tinha desistido dele.
***
Ainda naquela noite, Mel se despediu dos Weasleys. Iria passar o Natal e o Ano Novo com os pais no Brasil. Quando saíra de lá, há quatro meses, sentia a expectativa de estar indo para um lugar em que não existiam pais para ficarem como babás dela, mandando e criticando cada coisa errada que fazia. Sabia que iria ser um aprendizado duro, que teria que ser responsável por ela mesma, mas isso a fazia se sentir livre, feliz.
Só não contava que a saudade da família fosse tão grande, ou que estar longe dos pais pudesse ser tão difícil. Você bate os pés, briga, acha que a vida seria mais fácil sem a tirania deles... Mas quando a coisa aperta, sempre pode recorrer a eles. E Mel sentia falta daquele apoio, embora estivesse se adaptando muito bem em Hogwarts.
- Faça uma boa viagem, querida! – Molly a abraçou tão forte a ponto de ela temer pela integridade de seus ossos – E, aqui – Ela lhe entregou um pacote colorido, cuidadosamente embrulhado – Seu presente de Natal. Oh, se eu não fosse mãe e não soubesse o quanto a sua deve estar sentindo falta de você, diria para que ficasse aqui conosco!
A pequena corvinal já gostava da senhora Weasley quando ela era apenas uma personagem vinda da imaginação fantástica de uma autora inglesa. Mas acabou descobrindo que a realidade era ainda melhor, e Molly, como os demais, eram ainda mais maravilhosos do que os livros podiam descrever.
- Obrigada, senhora Weasley.
- Seu pacote é igual ao meu. – Rony comentou, cúmplice, apontando para os embrulhos debaixo da árvore – O que será que tem neles?
A garota olhou seriamente para o embrulho que ele indicara e, depois de um sorriso que só poderia ser chamado de “maroto”, disse:
- O meu eu não sei... Mas o seu só pode ser um suéter marrom-tijolo.
Os gêmeos e Ana, que estavam perto, reprimiram uma gargalhada. Todos sabiam que a senhora Weasley dava suéteres para todo mundo no Natal, e o de Rony sempre era daquela cor.
Rony fez uma careta, talvez pensando que o mundo todo sabia o quanto ficava horrível de marrom-tijolo, enquanto Ana comentava, divertida:
- A própria Rainha daria todas as jóias da Coroa por um suéter feito pela senhora Weasley.
- Quando você diz todas... – Fred pareceu muito interessado – Quer dizer TODAS?
- Rápido! – Ordenou Jorge - Para o Palácio de Buckingham!
Desta vez riram com vontade, chamando a atenção dos demais.
- O que é tão engraçado, meninos? – O senhor Weasley entrou na sala, parecendo muito bem-humorado.
- Nada... – Fred respondeu – Ana só estava nos contando que temos uma fã... “Real”.
- A Rainha – Ana explicou – E que ela adoraria estar aqui agora, dando qualquer coisa por esse privilégio.
- Ora, não precisaria tanto. Se fosse possível, não nos importaríamos em receber Sua Majestade em nossa casa – O senhor Weasley respondeu abrindo um sorriso. – Não é, Molly?
- Oh, Mérlin, a Rainha na minha casa! – Molly riu, entre nervosa e orgulhosa – Claro. Sempre há lugar para mais um... – Disse muito simplesmente.
- Como, por exemplo, o Snape. – Jorge resmungou.
- Mãe, tinha mesmo que convidar o Snape para passar o Natal conosco? – Reclamou Fred.
- Não sejam ingratos! – Molly pôs as mãos na cintura, empertigando-se, sinal que vinha bronca – Esqueceram-se do quanto ele nos vem ajudando com o assunto de sua irmã?(1) – Ela levantou um dedo, em advertência: - Se se atreverem a serem desagradáveis com ele, juro que me esquecerei que são homens crescidos e lhes darei uma daquelas surras que dava em vocês quando aprontavam, entenderam?
- Molly tem razão. – Ana apoiou – Está na hora de esquecermos as mágoas do passado. O próprio Harry já esqueceu, não é Harry?
- Hã? – O jovem Auror estava perdido em seus pensamentos. – Ah, sim. Claro – Olhou para a sogra, para confirmar - Por mim, sem problemas.
- Ótimo! – Ironizou Fred. – Qual será o próximo que irão convidar para o Natal? O Draco?
- Draco Malfoy está no país? – Mel deu um pulo do sofá – Mas como isso é possível? E ele está solto?
- Acalme-se Mel – Ana disse – Talvez... Ele esteja do nosso lado.
Protestos de dúvidas ressoaram por toda a Toca. Parecia que a família inteira estava concentrada na conversa, até mesmo os bebês ficaram quietinhos, olhando para os adultos, curiosos.
- A doninha quicante albina... Se juntando aos “bonzinhos”? – A menina duvidou.
- Doninha... Albina? – Harry perguntou, segurando o riso.
- E quicante – Mel completou, sorrindo inocentemente.
A sala explodiu em risos, e até mesmo a senhora Weasley não resistira, embora estivesse tentando se recompor e assumir a posição da voz da sensatez. Como não se lembrar do episódio em que o falso Moody transformara Draco Malfoy em uma doninha?
Enxugando as lágrimas do riso, Ana respirou fundo:
- Ora, gente... Vocês têm que confiar mais nas pessoas... Mesmo desconfiando. É época de confraternização. Deixem que a magia do Natal os toque. Ou, como dizemos na minha terra: “Deixe o Natal fazer “Blim-Blom” no seu coração”.
***
Snape comparecera na manhã de Natal na Toca, junto com uma mulher que devia ter uns trinta anos, – se tanto – morena, esguia, pele bronzeada. Ela estava maravilhada e tímida ao mesmo tempo, olhando tudo e a todos com interesse constrangido, que aumentou quando viu Harry. (2)
Alan estava com eles e, embora todos apresentassem certa reprovação pelo menino insistir em se vestir e comportar como o pai adotivo, os Weasleys adoravam Alan e ninguém disse uma palavra ofensiva a Snape. Ana mesmo estava apaixonada por aquele “mini-cavalheiro”. Era uma pena que Mel já tivesse ido embora, porque, pelo que sabia, os dois se davam bem.
- Olha, tia! – Disse o menino, referindo-se a Sarah, a “amiga” de Snape - Que maravilha este telescópio novo! O meu quebrou no semestre passado... Pirraça o derrubou do pedestal... Você sabe quem é o Pirraça, não sabe?
Snape voltou a se aproximar de Sarah, parecendo preocupado. A outra brasileira parecia assustada e deslocada, e Ana resolveu intervir. Após uma troca de olhar com Carlinhos, que entendeu o que ela pretendia, ambos se dirigiram até onde Snape e Sarah estavam:
- Oi, você deve ser Sarah. Sou Ana Weasley. Prazer em conhecê-la. – Apresentou-se, em português.
A mulher pareceu surpresa, mas então sorriu, e respondeu, também em português:
- Oi, muito prazer. Desculpe, mas estou ainda meio perdida por aqui. Tudo é novidade e... Começo a pensar que é melhor o Snape me aplicar um novo obliviate e me deixar voltar sossegada para o Brasil.
- Não diga isso! – Ana falou em tom brincalhão, depois de um olhar rápido para Snape, que parecia ter sido petrificado com o susto da afirmação de Sarah – Você se acostuma logo. Até seu irmão está se acostumando... – André, o marido de Susan Bones, era irmão de Sarah - Venha, vamos caminhar um pouco, deixar essa balbúrdia para trás... E vamos sozinhas, senhores, por favor.
A firmeza com que dissera as últimas palavras fez os homens estacarem o movimento que já faziam para segui-las.
- Isso mesmo. Fiquem aí. Eu e Sarah temos muitas figurinhas pra trocar, e queremos fazer isto sozinhas. Tenho coisas importantes a perguntar, tipo... como terminou a última novela das oito que consegui assistir até a metade... – e virando-se para Sarah – Você já deve saber que aqui não tem tv. Aliás, nem pega sinal de tv. Magia demais.
Ana gostou muito de Sarah e ela parecia mais a vontade à medida que a manhã avançava. No entanto, que algo deve ter acontecido, porque Snape pediu para que Ana se despedisse dos Weasleys por eles e, abraçando Sarah, ambos foram aparataram. Estava preocupada com a palidez que Sarah apresentava pouco antes deles saírem. Talvez devesse mesmo ter uma conversinha com Snape para que fosse mais devagar...
***
Enquanto terminava de se arrumar, Ana tentava a todo custo não dar atenção para o banheiro que estava em desordem ou para a cozinha que precisava de uma geral. Aquela noite ela devia se preocupar somente com vestidos, penteados e.... Torceu o nariz. Que coisa mais frívola de se pensar! Mas, se parasse o que estava fazendo e cedesse ao impulso de pegar a varinha e sair pela casa arrumando tudo... Não iria sair dali tão cedo.
- Ana, já estamos atrasados, amor! – Carlinhos estava impaciente lá em baixo.
Uma sombra de irritação passou pela mente de Ana. Ele que tentasse lidar com poções para penteado e aqueles vestidos bruxos esquisitos, para ver o que era bom! Durante todos aqueles meses, tinha relutado em deixar certos costumes trouxas. E a forma como se arrumava era uma delas. Mas resolvera assumir de vez sua “bruxilidade”: quem sabe isso não facilitaria a sua adaptação?
Foram meses de lições de etiqueta bruxa com Tia Agatha. Lições estas entremeadas com lutas contra feitiços poderosos, busca a Comensais da Morte foragidos e vigilância sobre Draco Malfoy. Lembrar dos acontecimentos envolvendo ex-sonserino a fez se sentir ainda pior. Não poderia dizer que o ano tivesse sido relaxante...
“Ora, ora. Do quê está reclamando, Ana?” pensou consigo mesma. “Pelo menos não teve que encarar nenhum basilisco... Até agora”. E este último pensamento a fez descer as escadas com o semblante novamente “Ana”.
Assim que se deparou com o olhar que o marido lhe lançava, reconheceu que, realmente, não tinha nada a reclamar...
Ana usava um vestido apropriado para o inverno inglês, de veludo azul-celeste, combinando à perfeição com a cor de seus olhos. As mangas compridas se alargavam do cotovelo até as mãos. Dos quadris até os tornozelos, o tecido caía solto, apenas uma fenda frontal deixava entrever o cetim de um azul mais claro por baixo do veludo, o mesmo que se via por baixo do corpete em decote princesa. Os cabelos, presos no alto e seguros por uma presilha de diamantes (ela prendia a respiração toda vez que pensava na pequena fortuna que tia Agatha lhe tinha confiado ao emprestar aquele objeto). Uma faixa do mesmo cetim circundava a cintura dela: era um acessório estratégico onde as bruxas guardavam suas varinhas.
- Esqueça a festa! – Carlinhos ordenou, boquiaberto, como se estivesse sem fôlego – Vamos lá para cima. – Sorriu, de forma matreira – Está tão bonita, que não me deixa a mínima vontade de prestar a atenção em qualquer outra coisa que não seja você.
Ele também não estava nada mau com aquele traje de gala bruxo, a casaca negra, camisa branca, gravata na mesma cor presa por um alfinete elegantíssimo. A capa negra lhe dava um ar de “lord”, que seria quase gótico se não fosse pela pele bronzeada.
- Nada disso! Depois de todo este trabalho? – Ela sorriu, aceitando a mão que ele lhe estendia, mas o puxando para a porta – Eu quero ser vista agora!
- Você pode se mostrar para mim, oras – o sorriso dele se alargou – Só para mim.
- Mais tarde – Ana piscou para ele – Mais tarde.
- Lembre-se que promessa é dívida – Carlinhos finalmente concordou, puxando-a para mais perto antes de aparatarem.
***
Era um grande evento social, feito para todos que compunham a estrutura do governo bruxo que cuidava dos animais mágicos. Uma “confraternização” de fim de ano, onde todos os grandes nomes estavam, os chefes. Vez ou outra alguém era admitido naquele círculo restrito, por seus grandes feitos na área. E Carlinhos era um deles, por seus avanços nas pesquisas com dragões.
Hagrid também estaria ali, se não tivesse preferido passar as festas de fim de ano com Olímpia Maxime em Paris. Sua recusa deixou alguns dos figurões aliviados. Era uma coisa surpreendente pensar que os bruxos haviam conseguido vencer Voldemort, mas não o preconceito. Devia ser uma daquelas coisas que têm a mesma natureza das baratas: nojenta e resistente.
Ana, por sua vez, havia se tornado a grande novidade da festa. Bonita e elegante, tinha sempre algo inteligente para dizer. Seu modo espirituoso de ver as coisas fazia as pessoas quererem se aproximar dela. Dançou muito, especialmente com o marido, embora vários cavalheiros, tomando coragem, tinham pedido a “honra de uma dança”, enfrentando um relutante Carlinhos que a custo cedia a vez.
Depois de ter assimilado o comportamento bruxo, tudo se revelou mais fácil. Aprendera coisas pequenas, que facilitavam a vida: sabia que a varinha presa do lado esquerdo da faixa que circundava a cintura a sua cintura, por exemplo, indicava que segurava a varinha com a mão direita. Que jamais se deveria fazer um cálice ou prato levitar até você de uma distância maior que trinta centímetros – além de deselegante, as pessoas poderiam chocar-se contra eles e, conforme explicara tia Agatha, ninguém é obrigado a prestar atenção na “comida levitante” dos outros. Entendidos detalhes como este, Ana não tivera problemas em adaptar-se.
O comentário geral era que não havia casal mais adorável naquela festa: Carlinhos e seu sorriso charmoso; Ana, com o riso cristalino e agradável. Os dois jovens, belos e inteligentes. E como pareciam apaixonados!
Claro que a novidade não agradou a todos. Felícia Althorp parecia ter ouvido o canto de um agoureiro, tamanho era o semblante depressivo que apresentava. Exceto quando olhava para Ana: nestas ocasiões, seus olhos brilhavam de ódio.
- Você dança tão bem quanto sua mãe, Ana.
- Obrigada, Jeremiah.
Jeremiah Smith era primo distante da mãe de Ana, e também o pai de Zacharias Smith. Um senhor de meia-idade, cabelos loiros penteados impecavelmente, com algumas mechas já grisalhas. Ainda era muito bonito, e alguns o chamariam de “elegante”, mas Ana preferia “esnobe”. E o mérito da escolha desta palavra era devido a J.K. Rowling que, apesar de não gastar mais que uma frase com o empresário bruxo em todos os seus livros lançados até o momento, conseguiu, com este único adjetivo, atingir a essência daquele homem.
Agora mesmo, com aquele jeito jovial e solícito, ele nada mais queria do que dar a impressão de ser alguém de “mente aberta” (coisa muito em moda ultimamente) e, assim, ganhar a simpatia dos colunistas sociais. Ele acreditava que ser citado entre os mais “colunáveis” faria bem para os negócios.
- Papai não é incrivelmente... Artístico? – Zach se aproximara da mesa onde Ana estava, enquanto observava Jeremiah tirar uma matrona para dançar, sorrindo para a velha senhora, como se não doesse nada o fato dela estar pisando em seus pés.
- De fato – Ana concordou, usando o mesmo tom irônico do primo. Então, estreitou os olhos com ares de grande entendida: - Deixe-me adivinhar o que estão fazendo aqui: doações?
- Exatamente – ele respondeu, com evidente reprovação na voz, embora o fizesse soar de maneira divertida – Fizemos doações para algum departamento de estudos de animais mágicos qualquer. Não lembro qual, foi papai tratou disso. É o tipo de publicidade positiva que Jeremiah Smith acha que “faz bem para os negócios”.
- E está aqui porque concorda com ele? – Ana provocou.
- Não – desta vez ele exibiu uma careta de desgosto – Estou aqui para ver desfilar diante de mim o que meu pai chama de “candidatas a futura senhora Zacharias Smith”. Parece que um casamento também seria bom para demonstrar a solidez dos empreendimentos da família.
Ana só reprimiu a gargalhada porque não devia ser nada fácil ter um pai que só pensava em trabalho e em aparências.
- Pobrezinho – tentou não deixar transparecer a pontinha de pena verdadeira que estava sentindo do primo – Já que veio escolher uma noiva... Que tal Felícia Althorp? – Brincou. “Quem sabe assim matamos dois coelhos com uma cajadada só”, acrescentou mentalmente.
- Mérlin me proteja! – Ele exclamou – Aquilo é uma víbora! – E Ana não pode deixar de concordar com a opinião do primo – Além do mais, só concordei em vir porque não quero passar a semana inteira ouvindo meu pai resmungar sobre como sou anti-social.
Ele disse aquilo com tamanho mau humor, que os dois acabaram rindo. Depois, querendo trocar de assunto, Zacharias perguntou:
- Mas onde está o Carlinhos?
- O senhor Althorp o chamou. Parece que tinha que mostrar algo a ele antes de partir. A filha e ele vão embora para a Romênia amanhã – Ana tentou ao máximo não soar tão satisfeita quanto se sentia. Se houvessem fogos do Dr. Filibusteiro ali, era bem capaz de soltá-los agora.
O senhor Smith apareceu segundos depois, trazendo mais uma das “donzelas casadoiras” com ele, e não perdeu tempo ao sugerir que ela e Zach dançassem. Ana achou melhor ir procurar Carlinhos, “para não atrapalhar”. Ah, ela iria pegar no pé do primo durante semanas com aquele assunto de casamento!
Tinha quase certeza que o escritório ficava do outro lado do jardim. Foi para lá se sentindo subitamente cansada. Se eles ainda não tivessem terminado o assunto, iria esperar pacientemente do lado de fora – sabia quanto o trabalho era importante para o marido – mas o convidaria em seguida para irem embora.
Foi quando os viu. Ou melhor, viu Felícia, com o rosto transtornado, atirar-se sobre Carlinhos e o beijar apaixonadamente. Um segundo depois, ele tirava as mãos dela que estavam entrelaçadas em seu pescoço e a afastava com uma expressão contrariada no rosto. Então, ele percebeu que Ana estava no jardim, e que tinha visto tudo.
Percebendo a expressão chocada de Carlinhos, Felícia voltou o olhar em sua direção. O rosto dela exibiu satisfação, os olhos lançando uma mensagem maliciosa de “ele é meu”.
- Ana... – A voz dele saiu quase em um lamento rouco.
- Eu gostaria de ir embora – Ela o interrompeu – Vou buscar meu casaco.
Virou-se o mais rápido que pôde em direção do quarto para onde os elfos tinham levado os casacos dos convidados, rejeitando um simples feitiço convocatório. A caminhada até lá lhe daria tempo para pensar. Ainda estava abalada com algo que tinha se dado conta só naquele instante. Quando entrou naquele pequeno aposento, Felícia aparatou dentro dele em seguida.
- Seu pai nunca lhe ensinou que é falta de educação aparatar dentro de casa?
- Ah, é, esqueci que agora você é uma grande especialista em boas maneiras. – A loira ironizou.
- Bondade sua ter notado – Ana não sabia de onde estava tirando tanta frieza para conseguir responder no mesmo tom irônico. Pegou o seu casaco e estava prestes a sair quando Felícia ordenou, presunçosa:
- Deixe-o livre. Nós nos amamos.
“A gota d água”, Ana pensou. Não queria perder tempo com ela, mas não podia sair e deixar por isso mesmo. Aquela mulher não tinha a mínima noção de limites, de decência... Felícia a deixava cansada. Pacientemente, como se estivesse falando com uma criança, replicou:
- Você não o ama. E muito menos ele a ama.
- É cega, por acaso? – Felícia debochou – Não viu o que aconteceu no jardim?
- O que eu vi foi a última tentativa desesperada de uma menina mimada. – Declarou dignamente, a voz firme e clara, esperando que a outra entendesse a mensagem.
- Não sei do que está falando – A loira empalideceu, ficando visivelmente menos segura.
- Não sabe? – A irritação de Ana era crescente – Então eu vou fazer o favor de te esclarecer. Estou falando de como ficou desesperada quando viu que todos os seus planos de me diminuir diante de meu marido falharam. De como resolveu apelar para uma sedução física, esperando que ele se sentisse atraído o suficiente para ficar tentado a ter um caso. E, é claro, de como cuidou para que eu visse tudo, só para aumentar as probabilidades de que seu plano daria certo. – Felícia arregalou os olhos – Ah, sim, eu notei. Tem que melhorar a sua performance, sabe? Sua expressão de surpresa não é muito convincente.
Saboreou sua vitória por alguns momentos antes de completar:
- O velho plano do “falso flagrante”. Você achava mesmo que eu iria cair nessa? Ou é incapaz que criar algo mais inteligente?
- Ora, sua... – Recuperada e com a expressão carregada de ódio, Felícia pegou a varinha, ameaçando Ana.
Por um átimo de segundo, pensou em pegar a sua varinha para se defender. Mas a intuição a fez ficar parada, esperando que a outra fizesse o primeiro movimento. Como este não veio, sorriu e cruzou os braços:
- Imagino que também espere que eu te lance uma azaração, para que todos a vejam como vítima. – Balançou a cabeça em desdém: - Cresça, Felícia Althorp!
Ana abriu a porta e se dirigiu para a saída do prédio, onde Carlinhos já a esperava. Ele fez menção de dizer algo, mas Ana o cortou:
- Por favor, em casa – pediu, cansada – Aqui não é o lugar.
Em instantes, estavam no apartamento deles. A escuridão e o silêncio nos quais o lugar estava mergulhado adiavam o momento em que teriam que conversar, e Ana se sentia feliz com isso, pois não tinha certeza que poderia pôr em palavras o que estava pensando ou sentindo. Na realidade, nem mesmo sabia se o que estava se passando em sua mente fazia algum sentido, e desconfiava que toda e qualquer argumentação que pudesse chamar em sua defesa estava presa por um fio de racionalidade que poderia se romper a qualquer momento.
Carlinhos não se sentia do mesmo modo, pois se apressou a acender a luz, ansioso para colocar tudo em pratos limpos, ter certeza de que nada mais estaria entre eles, afastando-a dele. Estava aflito por ver o rosto da esposa, tentar de alguma forma captar o que ela estaria pensando.
Quando ele se aproximou buscando seu olhar, Ana o fitou hesitante, um misto de dor e tristeza no rosto. Aquilo foi o suficiente para que Carlinhos experimentasse um peso em seu peito que o impulsionou a dizer:
- Ana, eu não a beijei, estávamos só conversando quando...
- Eu sei. – Ela respondeu tranquilamente, mas Carlinhos não percebeu:
-... Ela me beijou, mas eu jamais pensaria...
- Eu sei. – Concordou mais uma vez, sendo novamente ignorada.
-... Não depois de ter te esperado por oito anos...
- Carlinhos – ela pegou o rosto dele entre as mãos, fazendo-o finalmente fixar a atenção no que ela dizia: - Eu sei. Sei que foi ela que te beijou, e que você não correspondeu.
- Sabe? – Ele piscou várias vezes, confuso. – Então, por que parece tão... Triste? Não há razão para se preocupar, juro que depois que você saiu deixei bem claro para Felícia que não sinto nada por ela, que te amo e que não alimentasse nenhuma esperança.
Ele chegara ao ponto crucial, pensou Ana. Era exatamente aquilo que a estava destruindo por dentro, algo que pressentira estar errado durante todos aqueles meses, mas que não identificara de pronto.
- Você fez isso agora, Carlinhos. – Declarou pesarosa. – Só agora.
- O que quer dizer? – Ele franziu o cenho, a preocupação mesclando-se à incompreensão anterior – Não aconteceu nada antes. Foi a primeira vez...
- Que ela tentou algo mais... “Direto”. Mas não foi a primeira vez que deu sinais do que queria, não é? – Carlinhos permaneceu mudo e desviou o olhar, demonstrando que entendia – Há muito tempo ela vem deixando claro suas intenções de formas diferentes, mas não menos sutis. E você não fez nada.
- Ana, não havia o que fazer...
- Havia sim! – A angústia que estava dentro dela finalmente conseguiu sair – Exatamente o que você fez hoje, deixar as coisas claras, sem perder tempo. E não... Esperar até a situação chegasse a este ponto. – Ela fez uma pausa, respirou fundo, e, mais calma, continuou: - Eu sabia que algo estava errado, mas pensei que era comigo. – Ela balançou a cabeça tristemente: - Não era.
- Pode ser que eu tenha errado por não ter prestado atenção no que estava acontecendo. Mas não fiz nada intencionalmente. Eu te amo, Ana. Isso nunca mudará.
- Eu sei que me ama. Tenho certeza disso, nem por um momento duvidei. No entanto, acho que não será suficiente me amar se tem medo de deixar isso bem claro para as outras pessoas também.
- Como assim deixar claro para outras pessoas? – Carlinhos começava a impacientar-se – Eu esperei por você por oito anos, se isso não é deixar bem claro que...
- Quer parar de ficar repetindo que me esperou por oito anos? Eu sei disso, sua família sabe disso... Mas ter me esperado ou me amar não altera o fato de que você fingiu que nada estava acontecendo.
- Não entendo...
“É claro que não”, pensou Ana. “Como fazer um homem entender orgulho feminino ferido? Que não só a traição com uma mulher pode perturbar este nosso mundinho cheio de inseguranças?”.
- Talvez pudesse ajudar se perguntasse a si mesmo “por que” agiu assim, Carlinhos. – Ela sugeriu com suavidade, olhando-o com um misto de ternura e ansiedade.
Ana prendeu a respiração esperando que ele desse a resposta, temendo-a, ao mesmo tempo. Sabia que o marido não havia sido ele mesmo quando não foi direto com Felícia. Então devia haver um motivo. Medo de prejudicar sua carreira? De que, se Felícia tivesse seu orgulho ferido, e resolvesse descontar em Ana, ela não fosse páreo para a loira? Qualquer destas respostas a feria profundamente e tinha consciência que não poderia viver com elas.
Como ele não respondeu, respirou fundo mais uma vez e continuou em um tom decepcionado, mas decido:
- Talvez ambos precisemos de tempo para pensar... Sozinhos.
- O que quer dizer? – Carlinhos levantou rápido o olhar, buscando o dela, aflito.
- Combinamos de passar o Ano Novo com a minha família, no Brasil. Eu vou mais cedo. Na verdade, vou hoje. – Ela fitou o chão, fugindo dos olhos dele, enquanto tentava organizava as idéias. - Você vai depois, no dia combinado.
- Ana, não! – Ele negou terminantemente. – Isso é absurdo! Sua reação está sendo desproporcional.
- Carlinhos... – Ela suspirou, cansada, perdendo as forças. Não tinha certeza do que estava fazendo, e parte dela se perguntava se ele não tinha razão ao afirmar que ela estava agindo exageradamente. Mas precisava ficar longe de tudo, ficar sozinha para poder pensar. – Eu TENHO que ir. – Ana sentiu a voz tremer.
Subiu as escadas rapidamente, tendo consciência de que era seguida por Carlinhos. Com um movimento de varinha, a mala que estava em cima do guarda-roupas flutuou até a cama e abriu-se. Mais um movimento, e as roupas que escolhia faziam o mesmo caminho, parando bem em cima da mala, dobrando-se sozinhas e logo em seguida se encaixando da melhor forma possível no objeto.
- Não pode utilizar uma chave de portal para tão longe à noite. – Carlinhos usou sua varinha para fechar a mala, interrompendo o que ela estava fazendo - É perigoso, não vai ver um palmo diante do nariz.
Ela considerou a questão por alguns segundos e então concluiu:
- Vou de avião, então.
- A esta hora? O aeroporto deve estar fechado, não vai conseguir passar da porta. E mesmo que esteja aberto, é fim de ano, todos os trouxas devem estar indo para lá e para cá nessas coisas voadoras, não vai conseguir um lugar.
- Pois eu vou ficar plantada lá até conseguir, oras! – Ana não sabia se estava com raiva por ele insistir tanto ou por conseguir, mais uma vez, estar com a razão.
- Amor... – A voz dele soou persuasiva, suave. O tom foi o suficiente para baixar suas defesas e fazer com que visse o quanto suas palavras tinham sido infantis. Carlinhos percebeu isso imediatamente: - Não me deixe – ele sussurrou, aproximando-se.
O pedido definitivamente foi como um trator passando por cima de sua já enfraquecida perseverança. Não resistiu a se aproximar também, enlaçando-o pelo pescoço:
- Não estou te deixando – e para reforçar a afirmação, beijou-o ternamente nos lábios.
Carlinhos aprofundou o beijo, puxando-a para mais perto. Um tremor percorreu-a da cabeça aos pés. Soube imediatamente como aquilo iria terminar, e também entendeu o que o marido pretendia. Sabia exatamente o que ele estava pensando em fazer, porque geralmente era ela quem usava esta tática de persuasão para apaziguar “O Senhor dos Dragões”. Ah, não! Não se deixaria levar...
Afastou-o delicada, porém firmemente, tendo consciência de que ele precisaria de muito pouco naquele momento para fazê-la mudar de idéia:
- Só estou pedindo um tempo a sós com os meus próprios pensamentos, Carlinhos – e se virou para a mala, continuando o que estava fazendo.
Ana soube que o marido novamente se impacientara, porque o suspiro audível que ele dera fora claramente uma tentativa de acalmar a fúria e a frustração. Sentiu uma pontinha de arrependimento e quase desistiu. Quase.
- Tudo bem, se você quer isso... – Ana imediatamente desconfiou do tom conformado dele. - Mas você não precisa ir hoje. – Ele argumentou.
- Preciso. – Olhou-o rapidamente, antes de explicar: - Não vou dormir com você hoje, Carlinhos – Assim, pretendia deixar bem claro que não daria oportunidade para o plano dele ser posto em prática.
Pôde sentir o olhar chocado do marido cravado em suas costas. Até mesmo conseguia imaginar a expressão dele, certamente uma que traduziria o quanto tinha achado aquela declaração louca e ofensiva. Bem, uma parte dela também protestou veementemente quando disse aquilo, mas... Precisava ser forte!
- Bem... – Ele finalmente disse, devagar. – Está bem. Como eu disse, se é o que você quer... – uma pausa – Mas você concorda que não pode usar uma chave de portal agora, nem pegar um avião, não é?
Ainda que relutante, ela teve que concordar, acenando afirmativamente.
- Então está resolvido. Eu vou dormir no sofá lá de baixo, e, amanhã, assim que puder, você vai. – Carlinhos disse tudo rápido, como que para não dar chance a ela de retrucar. Foi separando um travesseiro e um cobertor, para reforçar as próprias palavras, colocando-os sobre o baú aos pés da cama. Olhou para Ana por alguns instantes, indeciso.
- Carlinhos... – Ela tentou argumentar, sendo interrompida por ele.
– Hã.... Vou só trocar de roupa...
Enquanto ele se voltava para o roupeiro, Ana pensou, em questão de segundos, que aquele ruivo teimoso era impossível. Sabia exatamente qual era a tática dele, e não se espantaria se, no meio da noite, ele aparecesse no quarto com a desculpa de pegar mais um cobertor ou travesseiro... Daí, estaria perdida.
A mala estava pronta. Apontou a varinha para um bloco de notas que estava sobre o criado mudo, ao lado da cama. Depois, pegou a mala e desapareceu.
Carlinhos só teve tempo de ouvir um “Crack” atrás de si, e se virou, mal acreditando que ela fizera aquilo... Embora algo dentro dele sempre soubera que ela poderia. Mulher impossível! Mais frustrado ainda, deu um soco na parede, querendo descontar a raiva que sentia de si mesmo.
Foi quando viu o bilhete, no bloco sobre o criado mudo:
“Não se preocupe, não vou usar uma chave de portal, nem pegar um avião. Estou em Smith House. Agatha e Moody já estão no Brasil, mas tenho certeza de que não irão se importar. Por favor, querido, não me siga. Preciso de tempo. Sei que vai entender. E... Antes de sentir raiva por eu ter saído desse jeito... Leve em consideração que eu te amo, e muito. Ana”.
Controlando o impulso de ir até Hogsmeade e fazer justamente o que ela tinha lhe pedido para não fazer, caiu sobre a cama, exasperado. Tinha vontade de aparecer em Smith House, fazer um longo sermão e enchê-la de beijos... Bem, talvez só enchê-la de beijos. Beijá-la até que ambos se esquecessem de qualquer outra coisa que não fosse o amor que sentiam um pelo outro. Era isso que importava, será que ela não via?
Mas ele sabia que Ana jamais o perdoaria se fosse atrás dela quando pediu para ficar sozinha. Além disso, queria amá-la, não sufocá-la com a necessidade que sentia dela.
Dera-se conta que, realmente, não havia sido ele mesmo. Só percebera quando Ana o pressionara contra a parede. Mas... Por quê? Por que fugira de enfrentar o problema? E agora a tinha magoado, mesmo que não entendesse por quê.
Pressionou o travesseiro contra o rosto, sabendo de antemão que não conseguiria dormir naquela noite ou em qualquer outra em que a esposa estivesse longe dele.
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Notas
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(1) Ler “Harry Potter e o Retorno das Trevas”, da Sally Owens.
(2) Ler “O Paciente Inglês”, da Regina McGonagall. Vários dos diálogos deste trecho foram tirados do Capítulo 20 desta fic.
Blim-Blom No Seu Coração
Harry perdera a conta de quantas vezes Rony e ele trocaram os enfeites de natal de lugar. Vários laços, anjinhos, ramos verdes entrelaçados e sininhos flutuavam no ar, enquanto a senhora Weasley e Fleur tentavam se decidir onde os colocavam.
A Toca estava repleta de Weasleys ajudando nos preparativos para o Natal, que seria dali a dois dias. Na cozinha, Alicia e Hermione se encarregaram das fornadas de biscoitos que tradicionalmente os Weasleys mandavam para os amigos. Cátia e Ana, reconhecendo que seus conhecimentos culinários beiravam à inexistência, preferiram cuidar da arrumação da casa e verificar se havia lençóis, cobertores e travesseiros o suficiente - os Weasleys são o tipo de família que sempre está recebendo mais um, ainda mais em ocasiões como o Natal... Então, tinham que estar preparados! Harry e Rony foram escalados pela senhora Weasley para ajudá-la na decoração, embora eles não fossem consultados para nada e se limitassem a mover os objetos de um lado para o outro quando solicitados.
Ao olhar para o amigo, Harry teve certeza que o braço de Rony estava tão dolorido quanto o dele, de tanto manterem as varinhas erguidas, enquanto Fleur e Molly discutiam se o grande enfeite com ramos, laços e sininhos ficaria melhor sob a lareira ou na parede de frente para a sala.
Era evidente que Rony já estava ficando exasperado com a demora das duas em entrarem em um acordo sobre algo tão simples (ainda mais com o braço doendo daquele jeito). Mas Harry nunca se fartaria de ocasiões tão familiares como aquela. Se o preço era um braço dolorido, então que doesse até cair: valia a pena se isso fosse deixar a senhora Weasley contente.
Voltou a olhar para a sala onde Gina, cercada pelas crianças, ocupava-se em fazer cordões de pipoca (uma tradição americana sugerida por Mel). Iriam dependurar nas árvores lá fora. Assim, ela mantinha as crianças entretidas fabricando um “presente de natal para os passarinhos”.
Esquecido de tudo, demorou-se observando a esposa: o rosto adorável emoldurado pelos cabelos flamejantes, a pele delicada e macia, e o sorriso... Harry não sabia explicar o sorriso de Gina. Era simplesmente maravilhoso, único. Inocente, provocante, inteligente, cheio de vida. Podia descrever mil detalhes diferentes em um único sorriso dela.
Pousou o olhar no ventre dilatado da esposa e sorriu, enchendo-se de orgulho e esperança ao pensar que em pouco tempo os filhos de ambos nasceriam. Ficava espantado como este simples pensamento o fazia sentir-se tão absurdamente feliz. Sentia-se completo, capaz de fazer qualquer coisa, só com a lembrança de que tinha Gina. Que tinha os filhos de ambos.
- Harry! – A senhora Weasley o alertou. – Assim vai deixar o anjo de vidro cair, querido!
Ele rapidamente ergueu a varinha que, em sua distração, fora deixando cair. Murmurou um pedido de desculpas totalmente envergonhado, consciente, pelos sorrisos estampados nos rostos de Fleur, Rony e de Molly que eles sabiam de onde estivera toda a sua atenção até aquele momento.
Harry perguntou-se se algum dia iria parar de agir como um adolescente quando o assunto era Gina.
“Provavelmente, não”, concluiu, seu olhar sendo atraído novamente para ela.
Chantal e Mel estavam sentadas ao lado de Gina, e as três “costuravam” os cordões de pipoca. Harry percebeu que a sobrinha de Ana imitava Gina em tudo o que ela fazia, prestando atenção principalmente nos feitiços que ela praticava. Enquanto isso, Sean e Kenneth iam passando os grãos de pipoca, comendo três a cada um que lhes entregavam. Os meninos tinham três anos, com apenas alguns meses de diferença entre eles, e não havia dúvidas de que tinham herdado o “espírito das Gemialidades Weasley”.
Rony, que agora estava observando o pequeno Sirius fazer festa com uma das tigelas com pipoca, jogando o conteúdo para cima, cochichou, divertido, que provavelmente eles não teriam muitos cordões naquele ritmo.
- Vocês dois querem... - A senhora Weasley começou a ralhar, mas se interrompeu quando um grande barulho vindo do telhado foi ouvido, e viram, pela janela, o senhor Weasley despencar lá fora, parando a meio metro do chão, aparvalhado e um tanto tonto.
- Eu estou bem! – O senhor Weasley finalmente gritou, ofegante, quando percebeu que era o centro das atenções, com um sorriso entre encabulado e vitorioso nos lábios.
Todos correram para o lado de fora, querendo constatar a afirmação com os próprios olhos. Os enfeites tinham sido esquecidos, alguns se espatifando no chão quando Rony e Harry deixaram a sala como raios. Cátia e Ana desceram as escadas depressa, assustadas, querendo saber que barulho tinha sido aquele. Ao verem o sogro ainda flutuando, mas bem, suspiraram aliviadas. Sorriram uma para a outra, sabendo que por aí vinha mais uma das loucuras maravilhosas do senhor Weasley.
- Os meninos me pegaram a tempo - Arthur anunciou, levantando o indicador para Gui e Jorge no telhado, que mantinham as varinhas erguidas na direção do senhor Weasley, sustentando-o. Fred e Carlinhos apareceram em seguida ao lado deles, vindos do outro lado da casa. Os quatro ainda olhavam assustados para baixo. - Podem deixar agora, rapazes! - O senhor Weasley ordenou com um sorriso confiante.
Tão logo viu o marido seguro, no chão, a senhora Weasley foi se recuperando do choque, e lançou a carga, ainda com os lábios trêmulos:
- Arthur, o que é estava fazendo lá em cima? - Olhou para o telhado: - Aliás, o que todos vocês estão fazendo aí em cima, com toda esta neve escorregadia? - Voltou-se novamente para o marido, agora totalmente recuperada: - Arthur, você não tem mais idade...
- Você vai ver, querida. - Ele a interrompeu, abrindo um sorriso maior ainda e passando o braço em torno dos ombros dela. - Liguem, rapazes!
Os quatro obedeceram ao pai após alguns segundos. A forma como olharam apreensivos para a expressão zangada da mãe fazia com que parecessem meninos com medo de levar uma surra por alguma travessura praticada.
Exclamações surpresas foram ouvidas quando centenas de luzes se acenderam por toda a Toca.
- Pisca-piscas? - Hermione perguntou confusa. - Mas, como? A eletricidade...
- Ah, fiz algumas modificações. Funcionam com magia.
Maravilhados com os efeitos das luzes, ninguém notava que estava ficando mais frio lá fora, já que a noite estava caindo. Os olhos da senhora Weasley se encheram de lágrimas entremeadas com um sorriso. Foi quando Ana tirara as palavras da boca de Harry:
- Deus, eu adoro esta família! - Ela murmurou, com um sorriso divertido nos lábios.
Por falar em família... Harry notou que estavam faltando membros dela lá fora. Voltou-se para dentro da casa, pegando Sean e Ken com as bocas cheias de pipoca, e as tigelas no chão, vazias. Quando os outros adultos acompanharam o olhar de Harry, pousado sobre os meninos, os garotinhos se apressaram a dizer:
- Foi ele! - Falaram ao mesmo tempo, apontando para Sirius.
O bebê ria abertamente, batendo palminhas e balbuciando em sua inocência, na ignorância da "acusação" feita.
Os adultos explodiram em uma risada diante da tentativa pobre dos meninos de jogar a culpa no primo menor. Harry ouviu a voz de Ana em sua cabeça, totalmente derretida: "Ai, os três são tão fofinhos!".
Mas as mães dos meninos não estavam rindo. Alícia e Cátia lançavam olhares de reprimenda aos filhos, indicando que iria haver um longo discurso sobre honestidade e, muito provavelmente, um castigo bem merecido, não tanto pela pipoca, mas pela mentira.
- O que houve? - Fred gritou do telhado.
- Houve que vocês estão criando dois tratantes! - Rony respondeu, tentando parecer sério. Afinal estava em "defesa" de seu filho. Mas os cantos dos lábios do ruivo tremiam em um riso mal contido.
- E qual é a novidade nisso? - Fred replicou, dando de ombros. Ele e o irmão gêmeo se olharam, divertidos, entendendo que seus filhos tinham aprontado mais uma das suas.
Hermione entrou para limpar o rosto e as mãos do filho, já todas meladas por causa das pipocas doces nas quais ele estivera mexendo antes. Os outros começaram a entrar também, ainda sorridentes.
- Desçam já daí, meninos, antes que peguem um resfriado! - Foi a última palavra da senhora Weasley antes de entrar também.
Harry e Gina ficaram para trás. Ele se voltou para ela, com um sorriso provocador:
- Acho que não vamos ter cordões de pipoca este ano.
Gina olhou para ele, sorrindo, respondendo com fingida indignação:
- Desde quando eu desisto de alguma coisa, Harry Potter? - Beijou-o levemente nos lábios, antes de entrar em casa novamente, chamando Mel e Chantal: - Vamos fazer mais pipocas, meninas?
Não, Gina não era de desistir, Harry ia pensando, feliz, enquanto entrava na Toca com os outros Weasleys que tinham acabado de descer. E, graças a Merlim, ela nunca tinha desistido dele.
***
Ainda naquela noite, Mel se despediu dos Weasleys. Iria passar o Natal e o Ano Novo com os pais no Brasil. Quando saíra de lá, há quatro meses, sentia a expectativa de estar indo para um lugar em que não existiam pais para ficarem como babás dela, mandando e criticando cada coisa errada que fazia. Sabia que iria ser um aprendizado duro, que teria que ser responsável por ela mesma, mas isso a fazia se sentir livre, feliz.
Só não contava que a saudade da família fosse tão grande, ou que estar longe dos pais pudesse ser tão difícil. Você bate os pés, briga, acha que a vida seria mais fácil sem a tirania deles... Mas quando a coisa aperta, sempre pode recorrer a eles. E Mel sentia falta daquele apoio, embora estivesse se adaptando muito bem em Hogwarts.
- Faça uma boa viagem, querida! – Molly a abraçou tão forte a ponto de ela temer pela integridade de seus ossos – E, aqui – Ela lhe entregou um pacote colorido, cuidadosamente embrulhado – Seu presente de Natal. Oh, se eu não fosse mãe e não soubesse o quanto a sua deve estar sentindo falta de você, diria para que ficasse aqui conosco!
A pequena corvinal já gostava da senhora Weasley quando ela era apenas uma personagem vinda da imaginação fantástica de uma autora inglesa. Mas acabou descobrindo que a realidade era ainda melhor, e Molly, como os demais, eram ainda mais maravilhosos do que os livros podiam descrever.
- Obrigada, senhora Weasley.
- Seu pacote é igual ao meu. – Rony comentou, cúmplice, apontando para os embrulhos debaixo da árvore – O que será que tem neles?
A garota olhou seriamente para o embrulho que ele indicara e, depois de um sorriso que só poderia ser chamado de “maroto”, disse:
- O meu eu não sei... Mas o seu só pode ser um suéter marrom-tijolo.
Os gêmeos e Ana, que estavam perto, reprimiram uma gargalhada. Todos sabiam que a senhora Weasley dava suéteres para todo mundo no Natal, e o de Rony sempre era daquela cor.
Rony fez uma careta, talvez pensando que o mundo todo sabia o quanto ficava horrível de marrom-tijolo, enquanto Ana comentava, divertida:
- A própria Rainha daria todas as jóias da Coroa por um suéter feito pela senhora Weasley.
- Quando você diz todas... – Fred pareceu muito interessado – Quer dizer TODAS?
- Rápido! – Ordenou Jorge - Para o Palácio de Buckingham!
Desta vez riram com vontade, chamando a atenção dos demais.
- O que é tão engraçado, meninos? – O senhor Weasley entrou na sala, parecendo muito bem-humorado.
- Nada... – Fred respondeu – Ana só estava nos contando que temos uma fã... “Real”.
- A Rainha – Ana explicou – E que ela adoraria estar aqui agora, dando qualquer coisa por esse privilégio.
- Ora, não precisaria tanto. Se fosse possível, não nos importaríamos em receber Sua Majestade em nossa casa – O senhor Weasley respondeu abrindo um sorriso. – Não é, Molly?
- Oh, Mérlin, a Rainha na minha casa! – Molly riu, entre nervosa e orgulhosa – Claro. Sempre há lugar para mais um... – Disse muito simplesmente.
- Como, por exemplo, o Snape. – Jorge resmungou.
- Mãe, tinha mesmo que convidar o Snape para passar o Natal conosco? – Reclamou Fred.
- Não sejam ingratos! – Molly pôs as mãos na cintura, empertigando-se, sinal que vinha bronca – Esqueceram-se do quanto ele nos vem ajudando com o assunto de sua irmã?(1) – Ela levantou um dedo, em advertência: - Se se atreverem a serem desagradáveis com ele, juro que me esquecerei que são homens crescidos e lhes darei uma daquelas surras que dava em vocês quando aprontavam, entenderam?
- Molly tem razão. – Ana apoiou – Está na hora de esquecermos as mágoas do passado. O próprio Harry já esqueceu, não é Harry?
- Hã? – O jovem Auror estava perdido em seus pensamentos. – Ah, sim. Claro – Olhou para a sogra, para confirmar - Por mim, sem problemas.
- Ótimo! – Ironizou Fred. – Qual será o próximo que irão convidar para o Natal? O Draco?
- Draco Malfoy está no país? – Mel deu um pulo do sofá – Mas como isso é possível? E ele está solto?
- Acalme-se Mel – Ana disse – Talvez... Ele esteja do nosso lado.
Protestos de dúvidas ressoaram por toda a Toca. Parecia que a família inteira estava concentrada na conversa, até mesmo os bebês ficaram quietinhos, olhando para os adultos, curiosos.
- A doninha quicante albina... Se juntando aos “bonzinhos”? – A menina duvidou.
- Doninha... Albina? – Harry perguntou, segurando o riso.
- E quicante – Mel completou, sorrindo inocentemente.
A sala explodiu em risos, e até mesmo a senhora Weasley não resistira, embora estivesse tentando se recompor e assumir a posição da voz da sensatez. Como não se lembrar do episódio em que o falso Moody transformara Draco Malfoy em uma doninha?
Enxugando as lágrimas do riso, Ana respirou fundo:
- Ora, gente... Vocês têm que confiar mais nas pessoas... Mesmo desconfiando. É época de confraternização. Deixem que a magia do Natal os toque. Ou, como dizemos na minha terra: “Deixe o Natal fazer “Blim-Blom” no seu coração”.
***
Snape comparecera na manhã de Natal na Toca, junto com uma mulher que devia ter uns trinta anos, – se tanto – morena, esguia, pele bronzeada. Ela estava maravilhada e tímida ao mesmo tempo, olhando tudo e a todos com interesse constrangido, que aumentou quando viu Harry. (2)
Alan estava com eles e, embora todos apresentassem certa reprovação pelo menino insistir em se vestir e comportar como o pai adotivo, os Weasleys adoravam Alan e ninguém disse uma palavra ofensiva a Snape. Ana mesmo estava apaixonada por aquele “mini-cavalheiro”. Era uma pena que Mel já tivesse ido embora, porque, pelo que sabia, os dois se davam bem.
- Olha, tia! – Disse o menino, referindo-se a Sarah, a “amiga” de Snape - Que maravilha este telescópio novo! O meu quebrou no semestre passado... Pirraça o derrubou do pedestal... Você sabe quem é o Pirraça, não sabe?
Snape voltou a se aproximar de Sarah, parecendo preocupado. A outra brasileira parecia assustada e deslocada, e Ana resolveu intervir. Após uma troca de olhar com Carlinhos, que entendeu o que ela pretendia, ambos se dirigiram até onde Snape e Sarah estavam:
- Oi, você deve ser Sarah. Sou Ana Weasley. Prazer em conhecê-la. – Apresentou-se, em português.
A mulher pareceu surpresa, mas então sorriu, e respondeu, também em português:
- Oi, muito prazer. Desculpe, mas estou ainda meio perdida por aqui. Tudo é novidade e... Começo a pensar que é melhor o Snape me aplicar um novo obliviate e me deixar voltar sossegada para o Brasil.
- Não diga isso! – Ana falou em tom brincalhão, depois de um olhar rápido para Snape, que parecia ter sido petrificado com o susto da afirmação de Sarah – Você se acostuma logo. Até seu irmão está se acostumando... – André, o marido de Susan Bones, era irmão de Sarah - Venha, vamos caminhar um pouco, deixar essa balbúrdia para trás... E vamos sozinhas, senhores, por favor.
A firmeza com que dissera as últimas palavras fez os homens estacarem o movimento que já faziam para segui-las.
- Isso mesmo. Fiquem aí. Eu e Sarah temos muitas figurinhas pra trocar, e queremos fazer isto sozinhas. Tenho coisas importantes a perguntar, tipo... como terminou a última novela das oito que consegui assistir até a metade... – e virando-se para Sarah – Você já deve saber que aqui não tem tv. Aliás, nem pega sinal de tv. Magia demais.
Ana gostou muito de Sarah e ela parecia mais a vontade à medida que a manhã avançava. No entanto, que algo deve ter acontecido, porque Snape pediu para que Ana se despedisse dos Weasleys por eles e, abraçando Sarah, ambos foram aparataram. Estava preocupada com a palidez que Sarah apresentava pouco antes deles saírem. Talvez devesse mesmo ter uma conversinha com Snape para que fosse mais devagar...
***
Enquanto terminava de se arrumar, Ana tentava a todo custo não dar atenção para o banheiro que estava em desordem ou para a cozinha que precisava de uma geral. Aquela noite ela devia se preocupar somente com vestidos, penteados e.... Torceu o nariz. Que coisa mais frívola de se pensar! Mas, se parasse o que estava fazendo e cedesse ao impulso de pegar a varinha e sair pela casa arrumando tudo... Não iria sair dali tão cedo.
- Ana, já estamos atrasados, amor! – Carlinhos estava impaciente lá em baixo.
Uma sombra de irritação passou pela mente de Ana. Ele que tentasse lidar com poções para penteado e aqueles vestidos bruxos esquisitos, para ver o que era bom! Durante todos aqueles meses, tinha relutado em deixar certos costumes trouxas. E a forma como se arrumava era uma delas. Mas resolvera assumir de vez sua “bruxilidade”: quem sabe isso não facilitaria a sua adaptação?
Foram meses de lições de etiqueta bruxa com Tia Agatha. Lições estas entremeadas com lutas contra feitiços poderosos, busca a Comensais da Morte foragidos e vigilância sobre Draco Malfoy. Lembrar dos acontecimentos envolvendo ex-sonserino a fez se sentir ainda pior. Não poderia dizer que o ano tivesse sido relaxante...
“Ora, ora. Do quê está reclamando, Ana?” pensou consigo mesma. “Pelo menos não teve que encarar nenhum basilisco... Até agora”. E este último pensamento a fez descer as escadas com o semblante novamente “Ana”.
Assim que se deparou com o olhar que o marido lhe lançava, reconheceu que, realmente, não tinha nada a reclamar...
Ana usava um vestido apropriado para o inverno inglês, de veludo azul-celeste, combinando à perfeição com a cor de seus olhos. As mangas compridas se alargavam do cotovelo até as mãos. Dos quadris até os tornozelos, o tecido caía solto, apenas uma fenda frontal deixava entrever o cetim de um azul mais claro por baixo do veludo, o mesmo que se via por baixo do corpete em decote princesa. Os cabelos, presos no alto e seguros por uma presilha de diamantes (ela prendia a respiração toda vez que pensava na pequena fortuna que tia Agatha lhe tinha confiado ao emprestar aquele objeto). Uma faixa do mesmo cetim circundava a cintura dela: era um acessório estratégico onde as bruxas guardavam suas varinhas.
- Esqueça a festa! – Carlinhos ordenou, boquiaberto, como se estivesse sem fôlego – Vamos lá para cima. – Sorriu, de forma matreira – Está tão bonita, que não me deixa a mínima vontade de prestar a atenção em qualquer outra coisa que não seja você.
Ele também não estava nada mau com aquele traje de gala bruxo, a casaca negra, camisa branca, gravata na mesma cor presa por um alfinete elegantíssimo. A capa negra lhe dava um ar de “lord”, que seria quase gótico se não fosse pela pele bronzeada.
- Nada disso! Depois de todo este trabalho? – Ela sorriu, aceitando a mão que ele lhe estendia, mas o puxando para a porta – Eu quero ser vista agora!
- Você pode se mostrar para mim, oras – o sorriso dele se alargou – Só para mim.
- Mais tarde – Ana piscou para ele – Mais tarde.
- Lembre-se que promessa é dívida – Carlinhos finalmente concordou, puxando-a para mais perto antes de aparatarem.
***
Era um grande evento social, feito para todos que compunham a estrutura do governo bruxo que cuidava dos animais mágicos. Uma “confraternização” de fim de ano, onde todos os grandes nomes estavam, os chefes. Vez ou outra alguém era admitido naquele círculo restrito, por seus grandes feitos na área. E Carlinhos era um deles, por seus avanços nas pesquisas com dragões.
Hagrid também estaria ali, se não tivesse preferido passar as festas de fim de ano com Olímpia Maxime em Paris. Sua recusa deixou alguns dos figurões aliviados. Era uma coisa surpreendente pensar que os bruxos haviam conseguido vencer Voldemort, mas não o preconceito. Devia ser uma daquelas coisas que têm a mesma natureza das baratas: nojenta e resistente.
Ana, por sua vez, havia se tornado a grande novidade da festa. Bonita e elegante, tinha sempre algo inteligente para dizer. Seu modo espirituoso de ver as coisas fazia as pessoas quererem se aproximar dela. Dançou muito, especialmente com o marido, embora vários cavalheiros, tomando coragem, tinham pedido a “honra de uma dança”, enfrentando um relutante Carlinhos que a custo cedia a vez.
Depois de ter assimilado o comportamento bruxo, tudo se revelou mais fácil. Aprendera coisas pequenas, que facilitavam a vida: sabia que a varinha presa do lado esquerdo da faixa que circundava a cintura a sua cintura, por exemplo, indicava que segurava a varinha com a mão direita. Que jamais se deveria fazer um cálice ou prato levitar até você de uma distância maior que trinta centímetros – além de deselegante, as pessoas poderiam chocar-se contra eles e, conforme explicara tia Agatha, ninguém é obrigado a prestar atenção na “comida levitante” dos outros. Entendidos detalhes como este, Ana não tivera problemas em adaptar-se.
O comentário geral era que não havia casal mais adorável naquela festa: Carlinhos e seu sorriso charmoso; Ana, com o riso cristalino e agradável. Os dois jovens, belos e inteligentes. E como pareciam apaixonados!
Claro que a novidade não agradou a todos. Felícia Althorp parecia ter ouvido o canto de um agoureiro, tamanho era o semblante depressivo que apresentava. Exceto quando olhava para Ana: nestas ocasiões, seus olhos brilhavam de ódio.
- Você dança tão bem quanto sua mãe, Ana.
- Obrigada, Jeremiah.
Jeremiah Smith era primo distante da mãe de Ana, e também o pai de Zacharias Smith. Um senhor de meia-idade, cabelos loiros penteados impecavelmente, com algumas mechas já grisalhas. Ainda era muito bonito, e alguns o chamariam de “elegante”, mas Ana preferia “esnobe”. E o mérito da escolha desta palavra era devido a J.K. Rowling que, apesar de não gastar mais que uma frase com o empresário bruxo em todos os seus livros lançados até o momento, conseguiu, com este único adjetivo, atingir a essência daquele homem.
Agora mesmo, com aquele jeito jovial e solícito, ele nada mais queria do que dar a impressão de ser alguém de “mente aberta” (coisa muito em moda ultimamente) e, assim, ganhar a simpatia dos colunistas sociais. Ele acreditava que ser citado entre os mais “colunáveis” faria bem para os negócios.
- Papai não é incrivelmente... Artístico? – Zach se aproximara da mesa onde Ana estava, enquanto observava Jeremiah tirar uma matrona para dançar, sorrindo para a velha senhora, como se não doesse nada o fato dela estar pisando em seus pés.
- De fato – Ana concordou, usando o mesmo tom irônico do primo. Então, estreitou os olhos com ares de grande entendida: - Deixe-me adivinhar o que estão fazendo aqui: doações?
- Exatamente – ele respondeu, com evidente reprovação na voz, embora o fizesse soar de maneira divertida – Fizemos doações para algum departamento de estudos de animais mágicos qualquer. Não lembro qual, foi papai tratou disso. É o tipo de publicidade positiva que Jeremiah Smith acha que “faz bem para os negócios”.
- E está aqui porque concorda com ele? – Ana provocou.
- Não – desta vez ele exibiu uma careta de desgosto – Estou aqui para ver desfilar diante de mim o que meu pai chama de “candidatas a futura senhora Zacharias Smith”. Parece que um casamento também seria bom para demonstrar a solidez dos empreendimentos da família.
Ana só reprimiu a gargalhada porque não devia ser nada fácil ter um pai que só pensava em trabalho e em aparências.
- Pobrezinho – tentou não deixar transparecer a pontinha de pena verdadeira que estava sentindo do primo – Já que veio escolher uma noiva... Que tal Felícia Althorp? – Brincou. “Quem sabe assim matamos dois coelhos com uma cajadada só”, acrescentou mentalmente.
- Mérlin me proteja! – Ele exclamou – Aquilo é uma víbora! – E Ana não pode deixar de concordar com a opinião do primo – Além do mais, só concordei em vir porque não quero passar a semana inteira ouvindo meu pai resmungar sobre como sou anti-social.
Ele disse aquilo com tamanho mau humor, que os dois acabaram rindo. Depois, querendo trocar de assunto, Zacharias perguntou:
- Mas onde está o Carlinhos?
- O senhor Althorp o chamou. Parece que tinha que mostrar algo a ele antes de partir. A filha e ele vão embora para a Romênia amanhã – Ana tentou ao máximo não soar tão satisfeita quanto se sentia. Se houvessem fogos do Dr. Filibusteiro ali, era bem capaz de soltá-los agora.
O senhor Smith apareceu segundos depois, trazendo mais uma das “donzelas casadoiras” com ele, e não perdeu tempo ao sugerir que ela e Zach dançassem. Ana achou melhor ir procurar Carlinhos, “para não atrapalhar”. Ah, ela iria pegar no pé do primo durante semanas com aquele assunto de casamento!
Tinha quase certeza que o escritório ficava do outro lado do jardim. Foi para lá se sentindo subitamente cansada. Se eles ainda não tivessem terminado o assunto, iria esperar pacientemente do lado de fora – sabia quanto o trabalho era importante para o marido – mas o convidaria em seguida para irem embora.
Foi quando os viu. Ou melhor, viu Felícia, com o rosto transtornado, atirar-se sobre Carlinhos e o beijar apaixonadamente. Um segundo depois, ele tirava as mãos dela que estavam entrelaçadas em seu pescoço e a afastava com uma expressão contrariada no rosto. Então, ele percebeu que Ana estava no jardim, e que tinha visto tudo.
Percebendo a expressão chocada de Carlinhos, Felícia voltou o olhar em sua direção. O rosto dela exibiu satisfação, os olhos lançando uma mensagem maliciosa de “ele é meu”.
- Ana... – A voz dele saiu quase em um lamento rouco.
- Eu gostaria de ir embora – Ela o interrompeu – Vou buscar meu casaco.
Virou-se o mais rápido que pôde em direção do quarto para onde os elfos tinham levado os casacos dos convidados, rejeitando um simples feitiço convocatório. A caminhada até lá lhe daria tempo para pensar. Ainda estava abalada com algo que tinha se dado conta só naquele instante. Quando entrou naquele pequeno aposento, Felícia aparatou dentro dele em seguida.
- Seu pai nunca lhe ensinou que é falta de educação aparatar dentro de casa?
- Ah, é, esqueci que agora você é uma grande especialista em boas maneiras. – A loira ironizou.
- Bondade sua ter notado – Ana não sabia de onde estava tirando tanta frieza para conseguir responder no mesmo tom irônico. Pegou o seu casaco e estava prestes a sair quando Felícia ordenou, presunçosa:
- Deixe-o livre. Nós nos amamos.
“A gota d água”, Ana pensou. Não queria perder tempo com ela, mas não podia sair e deixar por isso mesmo. Aquela mulher não tinha a mínima noção de limites, de decência... Felícia a deixava cansada. Pacientemente, como se estivesse falando com uma criança, replicou:
- Você não o ama. E muito menos ele a ama.
- É cega, por acaso? – Felícia debochou – Não viu o que aconteceu no jardim?
- O que eu vi foi a última tentativa desesperada de uma menina mimada. – Declarou dignamente, a voz firme e clara, esperando que a outra entendesse a mensagem.
- Não sei do que está falando – A loira empalideceu, ficando visivelmente menos segura.
- Não sabe? – A irritação de Ana era crescente – Então eu vou fazer o favor de te esclarecer. Estou falando de como ficou desesperada quando viu que todos os seus planos de me diminuir diante de meu marido falharam. De como resolveu apelar para uma sedução física, esperando que ele se sentisse atraído o suficiente para ficar tentado a ter um caso. E, é claro, de como cuidou para que eu visse tudo, só para aumentar as probabilidades de que seu plano daria certo. – Felícia arregalou os olhos – Ah, sim, eu notei. Tem que melhorar a sua performance, sabe? Sua expressão de surpresa não é muito convincente.
Saboreou sua vitória por alguns momentos antes de completar:
- O velho plano do “falso flagrante”. Você achava mesmo que eu iria cair nessa? Ou é incapaz que criar algo mais inteligente?
- Ora, sua... – Recuperada e com a expressão carregada de ódio, Felícia pegou a varinha, ameaçando Ana.
Por um átimo de segundo, pensou em pegar a sua varinha para se defender. Mas a intuição a fez ficar parada, esperando que a outra fizesse o primeiro movimento. Como este não veio, sorriu e cruzou os braços:
- Imagino que também espere que eu te lance uma azaração, para que todos a vejam como vítima. – Balançou a cabeça em desdém: - Cresça, Felícia Althorp!
Ana abriu a porta e se dirigiu para a saída do prédio, onde Carlinhos já a esperava. Ele fez menção de dizer algo, mas Ana o cortou:
- Por favor, em casa – pediu, cansada – Aqui não é o lugar.
Em instantes, estavam no apartamento deles. A escuridão e o silêncio nos quais o lugar estava mergulhado adiavam o momento em que teriam que conversar, e Ana se sentia feliz com isso, pois não tinha certeza que poderia pôr em palavras o que estava pensando ou sentindo. Na realidade, nem mesmo sabia se o que estava se passando em sua mente fazia algum sentido, e desconfiava que toda e qualquer argumentação que pudesse chamar em sua defesa estava presa por um fio de racionalidade que poderia se romper a qualquer momento.
Carlinhos não se sentia do mesmo modo, pois se apressou a acender a luz, ansioso para colocar tudo em pratos limpos, ter certeza de que nada mais estaria entre eles, afastando-a dele. Estava aflito por ver o rosto da esposa, tentar de alguma forma captar o que ela estaria pensando.
Quando ele se aproximou buscando seu olhar, Ana o fitou hesitante, um misto de dor e tristeza no rosto. Aquilo foi o suficiente para que Carlinhos experimentasse um peso em seu peito que o impulsionou a dizer:
- Ana, eu não a beijei, estávamos só conversando quando...
- Eu sei. – Ela respondeu tranquilamente, mas Carlinhos não percebeu:
-... Ela me beijou, mas eu jamais pensaria...
- Eu sei. – Concordou mais uma vez, sendo novamente ignorada.
-... Não depois de ter te esperado por oito anos...
- Carlinhos – ela pegou o rosto dele entre as mãos, fazendo-o finalmente fixar a atenção no que ela dizia: - Eu sei. Sei que foi ela que te beijou, e que você não correspondeu.
- Sabe? – Ele piscou várias vezes, confuso. – Então, por que parece tão... Triste? Não há razão para se preocupar, juro que depois que você saiu deixei bem claro para Felícia que não sinto nada por ela, que te amo e que não alimentasse nenhuma esperança.
Ele chegara ao ponto crucial, pensou Ana. Era exatamente aquilo que a estava destruindo por dentro, algo que pressentira estar errado durante todos aqueles meses, mas que não identificara de pronto.
- Você fez isso agora, Carlinhos. – Declarou pesarosa. – Só agora.
- O que quer dizer? – Ele franziu o cenho, a preocupação mesclando-se à incompreensão anterior – Não aconteceu nada antes. Foi a primeira vez...
- Que ela tentou algo mais... “Direto”. Mas não foi a primeira vez que deu sinais do que queria, não é? – Carlinhos permaneceu mudo e desviou o olhar, demonstrando que entendia – Há muito tempo ela vem deixando claro suas intenções de formas diferentes, mas não menos sutis. E você não fez nada.
- Ana, não havia o que fazer...
- Havia sim! – A angústia que estava dentro dela finalmente conseguiu sair – Exatamente o que você fez hoje, deixar as coisas claras, sem perder tempo. E não... Esperar até a situação chegasse a este ponto. – Ela fez uma pausa, respirou fundo, e, mais calma, continuou: - Eu sabia que algo estava errado, mas pensei que era comigo. – Ela balançou a cabeça tristemente: - Não era.
- Pode ser que eu tenha errado por não ter prestado atenção no que estava acontecendo. Mas não fiz nada intencionalmente. Eu te amo, Ana. Isso nunca mudará.
- Eu sei que me ama. Tenho certeza disso, nem por um momento duvidei. No entanto, acho que não será suficiente me amar se tem medo de deixar isso bem claro para as outras pessoas também.
- Como assim deixar claro para outras pessoas? – Carlinhos começava a impacientar-se – Eu esperei por você por oito anos, se isso não é deixar bem claro que...
- Quer parar de ficar repetindo que me esperou por oito anos? Eu sei disso, sua família sabe disso... Mas ter me esperado ou me amar não altera o fato de que você fingiu que nada estava acontecendo.
- Não entendo...
“É claro que não”, pensou Ana. “Como fazer um homem entender orgulho feminino ferido? Que não só a traição com uma mulher pode perturbar este nosso mundinho cheio de inseguranças?”.
- Talvez pudesse ajudar se perguntasse a si mesmo “por que” agiu assim, Carlinhos. – Ela sugeriu com suavidade, olhando-o com um misto de ternura e ansiedade.
Ana prendeu a respiração esperando que ele desse a resposta, temendo-a, ao mesmo tempo. Sabia que o marido não havia sido ele mesmo quando não foi direto com Felícia. Então devia haver um motivo. Medo de prejudicar sua carreira? De que, se Felícia tivesse seu orgulho ferido, e resolvesse descontar em Ana, ela não fosse páreo para a loira? Qualquer destas respostas a feria profundamente e tinha consciência que não poderia viver com elas.
Como ele não respondeu, respirou fundo mais uma vez e continuou em um tom decepcionado, mas decido:
- Talvez ambos precisemos de tempo para pensar... Sozinhos.
- O que quer dizer? – Carlinhos levantou rápido o olhar, buscando o dela, aflito.
- Combinamos de passar o Ano Novo com a minha família, no Brasil. Eu vou mais cedo. Na verdade, vou hoje. – Ela fitou o chão, fugindo dos olhos dele, enquanto tentava organizava as idéias. - Você vai depois, no dia combinado.
- Ana, não! – Ele negou terminantemente. – Isso é absurdo! Sua reação está sendo desproporcional.
- Carlinhos... – Ela suspirou, cansada, perdendo as forças. Não tinha certeza do que estava fazendo, e parte dela se perguntava se ele não tinha razão ao afirmar que ela estava agindo exageradamente. Mas precisava ficar longe de tudo, ficar sozinha para poder pensar. – Eu TENHO que ir. – Ana sentiu a voz tremer.
Subiu as escadas rapidamente, tendo consciência de que era seguida por Carlinhos. Com um movimento de varinha, a mala que estava em cima do guarda-roupas flutuou até a cama e abriu-se. Mais um movimento, e as roupas que escolhia faziam o mesmo caminho, parando bem em cima da mala, dobrando-se sozinhas e logo em seguida se encaixando da melhor forma possível no objeto.
- Não pode utilizar uma chave de portal para tão longe à noite. – Carlinhos usou sua varinha para fechar a mala, interrompendo o que ela estava fazendo - É perigoso, não vai ver um palmo diante do nariz.
Ela considerou a questão por alguns segundos e então concluiu:
- Vou de avião, então.
- A esta hora? O aeroporto deve estar fechado, não vai conseguir passar da porta. E mesmo que esteja aberto, é fim de ano, todos os trouxas devem estar indo para lá e para cá nessas coisas voadoras, não vai conseguir um lugar.
- Pois eu vou ficar plantada lá até conseguir, oras! – Ana não sabia se estava com raiva por ele insistir tanto ou por conseguir, mais uma vez, estar com a razão.
- Amor... – A voz dele soou persuasiva, suave. O tom foi o suficiente para baixar suas defesas e fazer com que visse o quanto suas palavras tinham sido infantis. Carlinhos percebeu isso imediatamente: - Não me deixe – ele sussurrou, aproximando-se.
O pedido definitivamente foi como um trator passando por cima de sua já enfraquecida perseverança. Não resistiu a se aproximar também, enlaçando-o pelo pescoço:
- Não estou te deixando – e para reforçar a afirmação, beijou-o ternamente nos lábios.
Carlinhos aprofundou o beijo, puxando-a para mais perto. Um tremor percorreu-a da cabeça aos pés. Soube imediatamente como aquilo iria terminar, e também entendeu o que o marido pretendia. Sabia exatamente o que ele estava pensando em fazer, porque geralmente era ela quem usava esta tática de persuasão para apaziguar “O Senhor dos Dragões”. Ah, não! Não se deixaria levar...
Afastou-o delicada, porém firmemente, tendo consciência de que ele precisaria de muito pouco naquele momento para fazê-la mudar de idéia:
- Só estou pedindo um tempo a sós com os meus próprios pensamentos, Carlinhos – e se virou para a mala, continuando o que estava fazendo.
Ana soube que o marido novamente se impacientara, porque o suspiro audível que ele dera fora claramente uma tentativa de acalmar a fúria e a frustração. Sentiu uma pontinha de arrependimento e quase desistiu. Quase.
- Tudo bem, se você quer isso... – Ana imediatamente desconfiou do tom conformado dele. - Mas você não precisa ir hoje. – Ele argumentou.
- Preciso. – Olhou-o rapidamente, antes de explicar: - Não vou dormir com você hoje, Carlinhos – Assim, pretendia deixar bem claro que não daria oportunidade para o plano dele ser posto em prática.
Pôde sentir o olhar chocado do marido cravado em suas costas. Até mesmo conseguia imaginar a expressão dele, certamente uma que traduziria o quanto tinha achado aquela declaração louca e ofensiva. Bem, uma parte dela também protestou veementemente quando disse aquilo, mas... Precisava ser forte!
- Bem... – Ele finalmente disse, devagar. – Está bem. Como eu disse, se é o que você quer... – uma pausa – Mas você concorda que não pode usar uma chave de portal agora, nem pegar um avião, não é?
Ainda que relutante, ela teve que concordar, acenando afirmativamente.
- Então está resolvido. Eu vou dormir no sofá lá de baixo, e, amanhã, assim que puder, você vai. – Carlinhos disse tudo rápido, como que para não dar chance a ela de retrucar. Foi separando um travesseiro e um cobertor, para reforçar as próprias palavras, colocando-os sobre o baú aos pés da cama. Olhou para Ana por alguns instantes, indeciso.
- Carlinhos... – Ela tentou argumentar, sendo interrompida por ele.
– Hã.... Vou só trocar de roupa...
Enquanto ele se voltava para o roupeiro, Ana pensou, em questão de segundos, que aquele ruivo teimoso era impossível. Sabia exatamente qual era a tática dele, e não se espantaria se, no meio da noite, ele aparecesse no quarto com a desculpa de pegar mais um cobertor ou travesseiro... Daí, estaria perdida.
A mala estava pronta. Apontou a varinha para um bloco de notas que estava sobre o criado mudo, ao lado da cama. Depois, pegou a mala e desapareceu.
Carlinhos só teve tempo de ouvir um “Crack” atrás de si, e se virou, mal acreditando que ela fizera aquilo... Embora algo dentro dele sempre soubera que ela poderia. Mulher impossível! Mais frustrado ainda, deu um soco na parede, querendo descontar a raiva que sentia de si mesmo.
Foi quando viu o bilhete, no bloco sobre o criado mudo:
“Não se preocupe, não vou usar uma chave de portal, nem pegar um avião. Estou em Smith House. Agatha e Moody já estão no Brasil, mas tenho certeza de que não irão se importar. Por favor, querido, não me siga. Preciso de tempo. Sei que vai entender. E... Antes de sentir raiva por eu ter saído desse jeito... Leve em consideração que eu te amo, e muito. Ana”.
Controlando o impulso de ir até Hogsmeade e fazer justamente o que ela tinha lhe pedido para não fazer, caiu sobre a cama, exasperado. Tinha vontade de aparecer em Smith House, fazer um longo sermão e enchê-la de beijos... Bem, talvez só enchê-la de beijos. Beijá-la até que ambos se esquecessem de qualquer outra coisa que não fosse o amor que sentiam um pelo outro. Era isso que importava, será que ela não via?
Mas ele sabia que Ana jamais o perdoaria se fosse atrás dela quando pediu para ficar sozinha. Além disso, queria amá-la, não sufocá-la com a necessidade que sentia dela.
Dera-se conta que, realmente, não havia sido ele mesmo. Só percebera quando Ana o pressionara contra a parede. Mas... Por quê? Por que fugira de enfrentar o problema? E agora a tinha magoado, mesmo que não entendesse por quê.
Pressionou o travesseiro contra o rosto, sabendo de antemão que não conseguiria dormir naquela noite ou em qualquer outra em que a esposa estivesse longe dele.
*****
Notas
*****
(1) Ler “Harry Potter e o Retorno das Trevas”, da Sally Owens.
(2) Ler “O Paciente Inglês”, da Regina McGonagall. Vários dos diálogos deste trecho foram tirados do Capítulo 20 desta fic.

