Já que a Mary insiste... e batendo na trave num quase nc-17...
E também editando este capítulo, pelos mesmos motivos do anterior...
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Cap. 8 – Dúvidas e mistérios
Os três bruxos a alçaram de volta para o escritório e a acomodaram numa poltrona. Após devolver-lhe cuidadosamente as lembranças, Dumbledore guardou a penseira.
Minerva a reanimava, com carinho maternal. Regina abriu os olhos. Aceitou a xícara de chá que a bruxa lhe oferecia, ciente de que continha apenas isso: chá. Que lhe aqueceu por dentro.
Olhou para os três bruxos. Agora, eles sabiam bastante sobre ela. Até o que escondia de seus melhores amigos, até o que escondiam dela. Chorou silenciosamente, não se importando que a vissem tão fragilizada. Sentia-se leve, tranqüila. O chá ajudara bastante, mesmo.
- Eu... gostaria de... me deitar um pouco.
- Claro, vai fazer você se sentir melhor. Minerva, por favor. Pode acompanhá-la?
A bruxa assentiu com a cabeça e ajudou-a a caminhar até a porta. De lá, Regina acenou-lhes timidamente, sentindo-se como uma criança perdida. Já não sabia nem mesmo quem era com certeza. E sabia que eles só iam lhe dar uma pausa, pois a visita às suas lembranças havia gerado mais perguntas do que respostas.
Depois que ela saiu, Snape e Dumbledore permaneceram algum tempo em silêncio, imersos em suas próprias idéias e teorias a respeito. Tudo que o viram e ouviram era inacreditável, mas por motivos diferentes agora.
Snape não trouxera um veritaserum comum. Estava misturado com uma poção que fazia um efeito semelhante ao da maldição imperius. Mesmo que tentasse burlar os efeitos da poção da verdade, Regina não conseguiria deixar de fazer o que lhe mandassem, não conseguiria forjar lembranças.
Portanto, só podiam pensar em duas possibilidades: ou ela fora cercada por uma série de circunstâncias e fatos que a aproximaram do mundo deles, ou era uma bruxa exilada em um mundo estranho, onde supostamente estaria inacessível. Quem e porque fizera isso, não conseguiam imaginar com certeza, ou temiam descobri-lo.
Em seu quarto, Regina não conseguiu pensar em nada. Estava exausta, mentalmente. McGonagall lhe tirara as vestes, o tênis e a calça que usara na caminhada que parecia ter sido há séculos, e a fez se deitar, cobrindo-a com uma manta leve, cerrando as cortinas para que a claridade não a incomodasse. E saiu, recomendando que não se preocupasse, que tudo se resolveria.
Mas as horas passaram, sem que ela sequer cochilasse. Por mais cansada que estivesse, jamais conseguia dormir de dia. E uma pergunta insistente martelava em sua cabeça: se não era filha de Silas e Marta, de quem era, então?
Lembrou-se da mãe contando que a sua gravidez fora de risco, que sua pressão arterial subira às alturas, mas na época contavam com poucos recursos. Ela nascera em casa, pelas mãos experientes de uma parteira, e sua mãe quase morrera. O pai nunca gostara de falar sobre o assunto e, pela primeira vez, Regina imaginou se ele não estivera escondendo alguma coisa delas. Alguma coisa muito grave, que só revelara ao Paulo, seu melhor amigo, que se transformara num verdadeiro guardião para ela, esses anos todos... Teria que falar com ele, assim que voltasse para casa.
Voltar para casa! Será que poderia continuar a reconhecer o lugar em que vivera sua vida inteira, como sua casa? Qual seria sua verdadeira origem? Porque nem passava pela sua cabeça a idéia que os dois bruxos discutiam, neste exato momento.
- Então? – Snape perguntou – Será que agora entende os meus temores?
- Em parte, meu caro. Em parte. – Dumbledore suspirou, pensativo.
- Teremos que investigar essa história. Descobrir se houve alguma criança recém-nascida que desapareceu em nosso mundo. Descobrir qual comensal foi esse, pois não há dúvidas de que foi um comensal que ela diz ter matado.
- O mais importante é descobrir porque. Por que ele foi até lá? Entendemos que confundiu o rapaz com Sirius Black, tanto quanto nós mesmos, mas estava atrás dela, não dele, se ela se lembra com exatidão do fato...
- O senhor acha que teremos que fazer outra incursão às suas lembranças? – Snape parecia aflito.
- Talvez... mas precisamos deixá-la descansar, primeiro. E não poderemos usar mais uma poção tão forte. Você se arriscou muito, meu amigo.
- Eu reconheço que sim, me desculpe. Mas pensei que seria melhor reforçá-la, talvez não funcionasse com alguém como ela. O senhor mesmo disse que nunca a usou em trouxas...
- Não é a mim que deve pedir desculpas. Ela tinha o direito de saber o que estava tomando. Que ficaria à nossa mercê, não apenas obrigada a nos dizer a verdade.
- Mas ela resistiu à poção e decidiu por si mesma, ainda assim. Visitamos as lembranças que ela escolheu, não porque pedimos.
- Não exatamente. Nem mesmo eu ou você poderíamos resistir a uma poção como essa, você sabe muito bem disso. Ela entendeu a minha “ordem”, não fugiu dela Vimos o que precisávamos, e até além disso. Ela não sabia que não conheceu seus pais verdadeiros. E não inventou aquilo, vi em sua mente.
- Mas isso nos abre uma possibilidade espantosa. E se ela for bruxa, ao contrário do que pensamos? Pode não ter sido por acaso que veio parar aqui.
- Disso eu tenho certeza, seja ela bruxa ou não. Acasos não existem, Severus. Não foi por acaso que aquela garota gritou seu nome, ou me viu em seu sonho...Se é que você notou.
- Notei, sim. – Será que... ela via algum fato futuro? Ainda era jovem, não tinha como se “lembrar” de nós...
- Pensei nesta possibilidade. Isso pode acontecer, o futuro ser revelado em sonhos é mais comum do que se imagina.
Os dois permaneceram mais um tempo em silêncio. Então, Dumbledore falou em um tom suave, quase se desculpando:
- Sei que já lhe devo muito, meu amigo. Que tenho lhe imputado sacrifícios imensos na execução das tarefas que lhe peço. Mas vou lhe pedir mais um favor. Tome conta dela, mas não a assuste, tentando descobrir alguma coisa. Temos pouco tempo, mas descobrirei uma forma de resolver tudo isso e desvendar mais este mistério.
Snape respirou fundo. Mas concordou. Não tinha certeza dos motivos para isso, mas não permitiria que Dumbledore passasse essa tarefa para ninguém mais.
Pediu licença ao diretor e se retirou. Não chegou a notar o olhar estranho que Dumbledore lhe dirigiu.
Incapaz de se controlar ou acalmar, foi direto para sua sala. Lá, andou de um lado para outro, mexeu em seus frascos, reviu anotações, programações para as turmas que chegariam, notas das turmas anteriores, mas nada foi capaz de distraí-lo. Só uma coisa o acalmaria... Mas não faria isso! E entregou-se ao trabalho, como se quisesse esquecer que existia alguma coisa além do seu trabalho.
Os dias que se seguiram foram estranhos para Regina. Ela continuou em sua rotina, quase como se nada tivesse acontecido.
No período de uma hora que passara a ficar do lado de fora, parte caminhando, parte sentada à beira do lago, ficava o tempo todo ciente de que Snape a vigiava, sem se aproximar nunca. Sabia que eram ordens de Dumbledore, ainda mais depois de tudo o que haviam descoberto sobre ela.
Quando entrava de volta para o castelo, sempre tinha alguma tarefa, pois os professores continuavam convencidos de que precisava apenas se “ambientar” para recuperar os seus poderes. Foi assim que ajudou Madame Sprout a preparar fertilizantes à base de escremento de dragão e se viu forçada a usar abafadores nos ouvidos para não ficar surda ao cuidar de novos nenéns mandrágoras, auxiliou Madame Pince na atualização dos catálogos da biblioteca, aprendeu com Madame Hoock a fazer a manutenção das vassouras, ajudou o Prof. Flitwick a listar os materiais que precisavam ser substituídos, devido aos feitiços realizados incorretamente pelos alunos inexperientes do primeiro e segundo ano.
Assim, quase completou um mês de sua estada em Hogwarts, sem que se desse conta disso. Tinha um sortimento de roupas e vestes, além de outros artigos de “uso pessoal” que Sprout e McGonagall a ajudaram a adquirir em Hogsmeade (Dumbledore lhe passara uma certa quantia, alegando que estava trabalhando como todos e, portanto, merecia um salário). A visita ao vilarejo fora cercada de cuidados e prevenções, mas divertida. As duas velhas bruxas acabaram por se soltar um pouco, tomando cerveja amanteigada com ela e comprando doces na Dedosdemel como se fossem estudantes. Mas a visita fora breve, conscientes de que não poderiam chamar muito a atenção sobre a visitante, que era sempre apresentada como sobrinha de McGonagall, se fosse necessário. Mas sem detalhes.
Naquela tarde, porém, logo após o jantar, Dumbledore pediu que o acompanhasse até sua sala. Snape também foi, o que a deixou ainda mais apreensiva sobre os motivos da conversa.
Dumbledore não fez rodeios. Foi direto ao assunto, após vê-los acomodados nas cadeiras à sua frente, percebendo claramente que ela não se sentia à vontade.
- Bem, minha cara. Preciso lhe pedir um favor. Só existe uma maneira de descobrir quem foi o comensal que... atacou você, naquela ocasião. E é através de suas lembranças.
Ela o fitou, nervosa, mas não surpresa. Já esperava por isso.
- Veja bem, não será preciso que você tome nenhuma poção. Snape só está aqui, pelos motivos que deve imaginar.
- Claro. – ela respondeu, sem olhar para o professor de poções. Só ele poderia identificar com certeza um dos asseclas de Voldemort.
Dumbledore a examinou por alguns instantes. Uma coisa eles não podiam negar: era uma mulher de coragem. Se tivesse estudado ali, seria com certeza de Grifinória. Comentou isso com ela, que corou violentamente. Mas, em seguida, lhe explicou:
- Fizemos algumas pesquisas, mas que não deram em nada.Como parece haver uma distorção entre o que você chama de “tempo real” e “nosso tempo”, estendemos 5 anos para trás e para frente da data que você nos informou ser a do seu nascimento. Apenas uma criança nascida naqueles anos não veio para cá onze anos depois, ou para qualquer escola bruxa, porque não sobreviveu. O parto foi complicado, ao que parece a família não chegou a tempo no St Mungus. Mãe e filha morreram. O pai pelo que consta, desapareceu, ninguém sabe dele há muitos anos, mas julgamos que também esteja morto. Não há nenhum registro de uma criança desaparecida, ou raptada, ou entregue para adoção. Então, estamos descartando a possibilidade de você ser uma bruxa. Mesmo que fosse mestiça, teríamos algum registro. Mas existem alguns detalhes estranhos. A sua teoria pode ser a correta, mas, ainda assim, a dúvida sobre a morte de seu namorado... e daquele comensal permanece. Teremos que “voltar” lá.
Regina estremeceu. Então, eles haviam realmente pensado que ela poderia ser uma bruxa? Olhou para cada um deles, a descrença visível em seu rosto, claramente perceptível em seus pensamentos, que ambos penetravam sem dificuldade, desta vez com a firme intenção de verificar a verdade. Nem pensara nisso, embora em seus antigos devaneios, essa idéia fosse agradável, tanto quanto a qualquer “pottermaníaco” que conhecia. Ela, uma bruxa... isso era uma piada!
- Está bem – ela disse, após um tempo – O que tenho que fazer?
Dumbledore tirou novamente a penseira do armário. Depois, pediu-lhe que se concentrasse naquele evento. Então, tocou sua têmpora com a varinha, retirou dela um tênue fio prateado e o depositou na penseira. Esperou que a superfície se alterasse e depois normalizasse, para indagar se estava pronta.
Ela fez que sim, incapaz de falar. Eles a seguraram pela mão, um de cada lado. Automaticamente, ela apertou mais a mão de Snape, que estava mais fria que a sua própria, enquanto mergulhavam suavemente de encontro à noite lá embaixo.
Regina viu-se nas imediações da rua em que morava. Eles voltavam de uma visita a um casal de amigos, e estavam felizes e tranqüilos. Já quase chegavam em casa, quando um homem apareceu do nada, bem à frente deles, num forte estalo de luz azul. O rapaz se assustou, a moto virou. Eles caíram. Ele se ergueu, tirando o capacete e encarando o estranho:
- O que pensa que está fazendo? De onde, diabos, você surgiu?
- Quieto, Black. Eu vim aqui por causa dela, não tenho nada a ver com você.
- Do que me chamou? – Tiago parou, surpreso – Está nos confundindo com alguém, amigo!
- Não sou seu amigo, e não estou confundindo ninguém. Não me interessa quem você é. Vim aqui para buscá-la, e ela vai comigo! Aquele velho idiota pensou que a esconderia sendo o fiel do segredo. Mas “ele” descobriu, assim mesmo. Obrigou-o a contar, antes de matá-lo. Nunca me diverti tanto! – ele dava gargalhadas, como um louco.
Os “visitantes” observavam a cena com atenção. Não havia mais ninguém na rua, naquele final de domingo. O bruxo encapuzado se aproximou da jovem, que se levantara, confusa, a roupa rasgada deixando ver a perna ferida. Mas não chegou perto. Tiago se jogou contra ele, e os dois homens rolaram pelo chão, até que o bruxo se desvencilhou e, pondo-se de pé, apontou a varinha e gritou o feitiço fatal. Uma luz verde explodiu no peito de Tiago, que caiu. Regina correu para ele, gritando apavorada, mas o homem agarrou-a pelo braço. A luta que se seguiu foi exatamente como a descrevera, mas rever tudo assim de fora estava sendo doloroso para ela. Sem perceber, apoiou-se em Snape, que se aproximara para tentar ver o rosto do comensal.
Quando ele caiu sobre a jovem, a luz verde estourando em seu corpo, seu rosto se contorceu de surpresa e pavor, antes de morrer. A garota permaneceu sob seu peso, meio inconsciente, mas não chegou a perceber o que ocorreu em seguida: Dois bruxos aparataram, olhando ao redor. Um deles viu o corpo de Tiago e correu até ele.
- Chegamos tarde! – exclamou com tristeza – Está morto... Deus, como parece com o Sirius! O “velho” tinha razão.
Mas o outro caminhara direto para o corpo do comensal. Só ao virá-lo, é que viu Regina caída, e exclamou:
- Por Merlim! – ele viu que a moça ainda segurava a varinha, enterrada no corpo do bruxo – Ela o matou com a própria varinha! – balançou a cabeça, quase sorrindo.
- Vamos, temos que levá-lo. Os trouxas vão chegar logo! – o outro se aproximou, avaliando toda a situação. Com um toque de varinha, fez desaparecer seus capacetes. No chão, criou uma mancha de óleo, demonstrando um certo conhecimento do mundo trouxa.
- Pronto – exclamou – Quem chegar vai achar que ele perdeu o controle por causa do óleo e bateu com a cabeça.
- Temos que alterar a memória dela. Ainda não podemos levá-la. É perigoso demais. Há comensais por toda a parte, agora.
- Acho que não será preciso... – ele a examinou – está desmaiada e vamos levar o corpo conosco. Se contar alguma coisa, vão pensar que está em choque... delirando.
- Mas, e se outros tentarem encontrá-la? – o segundo bruxo estava apreensivo.O outro revistou os bolsos do comensal morto, enquanto Snape,invisível a eles, examinava seu rosto atentamente, com expressão de reconhecimento, afinal. O bruxo retirou do bolso das vestes o que estivera procurando: a chave de portal, um pequeno camafeu de prata.
- Levaremos conosco. Já sei exatamente onde escondê-lo. Nenhum deles conseguirá chegar até ela de novo.
Concordando com um gesto, eles pegaram o corpo do comensal morto, limparam qualquer vestígio de sua presença, e desaparataram.
A jovem permaneceu caída no chão, gemendo baixinho, até que alguém abriu uma janela, e deu um grito. Logo, a rua se encheu de gente, e uma sirene não tardou a se fazer ouvir. Alguém reconhecera os jovens e correra atrás das famílias, a poucas quadras dali.
- Já é o bastante. Dumbledore disse, e os três saíram da penseira.
Regina tremia dos pés à cabeça, como se tivesse febre. Mas ainda encontrou forças para perguntar:
- Conseguiu... descobrir quem era ele?
- Sim – Snape respondeu, mas não pareceu satisfeito – Era um dos comensais mais próximos e mais antigos do Lord das Trevas, que fazia o serviço sujo que ele não queria fazer pessoalmente, mas não mandava qualquer um. Julgávamos que tivesse sido morto em um confronto qualquer. Apareceu morto, jogado na Travessa do Tranco. Não era grande coisa, mesmo antes de se tornar um comensal, por isso ninguém fez muitas perguntas a respeito.
- E ... os outros dois?
- Eram os Prewet. Irmãos de Molly Weasley. Eram da Ordem, mas não me lembro de tê-los mandado em alguma missão de resgate – Dumbledore esclareceu – O “velho” a quem se referiram não sou eu.
Então, mais um mistério se apresentava. Os Prewet estavam mortos, e se o velho era o mesmo de que o comensal falara, também estava morto.
- Continuamos na estaca zero – Regina retrucou, cansada.
- Não exatamente. – Dumbledore sorriu estranhamente – Sabemos agora com certeza que a chave de portal que levou até você foi parar na casa de Molly Weasley. Era uma jóia, um camafeu. Seus irmãos podem ter dado a ela de presente, um disfarce quase perfeito. E Rony pode ter pego por engano, com outras intenções – ele piscou – sem saber que era uma chave de portal.
- Mas por que? – ela indagou.
- Voldemort a queria, por algum motivo. – Dumbledore suspirou – Isso ficou muito claro. E pode tentar de novo, agora que retornou. Por isso, teremos que mandá-la de volta em segurança, e tratar de escondê-la com mais cuidado do que foi feito antes. Não interessa mais quem o tenha feito.
- Acho que o senhor tem razão – ela suspirou – Posso ir, agora?
- Você está bem? – Snape perguntou, e ela constatou surpresa, a preocupação em sua voz.
- Estou, obrigada. – ela sorriu o mais tranqüilamente que conseguiu e, pedindo licença, se levantou. Da porta, pareceu se lembrar de algo, e perguntou, hesitante:
- Professor, a menina... que o senhor disse antes, o senhor sabe qual era seu nome?
- Ariadne...
- Nome de constelação... – ela comentou.
- Sim. Era uma Black.
Esta informação caiu como uma bomba sobre ela. Fitou-os sem saber o que pensar. Depois olhou para o retrato de Fineus Nigelus, que agora a fitava sem disfarces, e exclamou num sussurro:
- Que pena que não sou eu, realmente! Gostaria muito de ter ganhado um tataravô. – e saiu, fechando a porta de mansinho.
Os dois bruxos permaneceram em silêncio, e nenhum deles notou que o ocupante do retrato se ausentara.
Depois de trocar mais algumas impressões sobre o que viram, Snape e Dumbledore deram o assunto por encerrado, mais uma vez sem uma decisão clara a respeito.
Snape desceu para seus aposentos, também estava cansado. Mas, no meio do caminho, parou. Não estava inteiramente tranqüilo, sentia-se inquieto. Foi para a sua sala. Lá, reviu as anotações que fizera de tudo que investigara. Mas sabia que não era aquele tipo de dúvida que o incomodava...
Decidido, deixou a sala e rumou direto para o quarto de Regina. Parado à porta, escutou. O silêncio era absoluto. Não... podia ouvir alguma coisa. Seriam soluços? Sem pensar em regras de educação, abriu a porta e entrou. Mas ela pareceu não ouvi-lo. Chorava, sim, a face enterrada nos travesseiros. Estava descoberta, e como vestia apenas um roupão, como se tivesse tomado banho e desistido de se trocar para dormir a meio caminho disso, suas pernas estavam totalmente à mostra. Snape tentou não pensar nisso. Já se sentira abalado demais ao vê-la à vontade em sua casa, ombros e pernas bronzeadas de foraou dançando daquela maneira, na primeira vez que visitara suas lembranças. E, nessa noite, quando ela se apoiara nele, buscando forças para assistir de novo a tudo aquilo, ele quase não conseguira se concentrar no que tinha que fazer. Mas não! Não podia deixar sua mente se perder, imaginando que ela não usava nada além daquele roupão. Não podia se envolver desse jeito! Não, enquanto não tivesse todas as respostas.
Mas se enterneceu ao ver que ela sofria. Aproximou-se devagar, tentando não assustá-la, o que foi inútil. Ao perceber sua presença, ela quase deu um pulo e fitou-o, confusa e amedrontada, o rosto banhado em lágrimas. Ele não pôde deixar de sorrir, embora tristemente.
Mas Regina interpretou mal seu sorriso, fragilizada como estava, e recuou ainda mais, encolhendo-se como uma criança, abraçando os joelhos.
- Você tem mesmo, medo de mim. – era uma constatação.
- Não é o que você queria? – a voz dela era um fiapo quase inaudível.
Ele se sentou na cama, ao seu lado.
- Mas não pareceu, agora há pouco...
Ela estremeceu, involuntariamente. Sabia a que ele se referia. Apoiara-se nele, ao ver Tiago morrendo mais uma vez à sua frente.
- Então, tenho ou não direito de ver os testrálios, agora? – ela tentou brincar, para desviar sua atenção, pois acabava de descobrir que a única coisa que não superara com relação ao ocorrido era a raiva por não entender os motivos. A ferida já cicatrizara, afinal, eram vinte anos! E seu coração reclamava por isso, por ter se forçado a ficar só.
Essa descoberta a incomodou. Queria continuar segura na saudade, ou do contrário só iria sofrer outra vez.
- Por que? – a voz de parecia vir de longe.
- Hein?
- Por que você acha que vai sofrer outra vez? – ele fizera de novo. Aqueles olhos negros haviam penetrado os seus, acessado seus sentimentos com a facilidade de quem lê um livro aberto sobre a mesa.
Regina suspirou. Não adiantava, concluiu. Tinha que reconhecer o que sentia, mesmo que já o tivesse feito abertamente, mas não fora levada a sério. Então, respirou fundo e falou:
- Porque terei que ir embora, agora mais do que nunca. Se tenho alguma importância para Voldemort, não posso ficar aqui e comprometer a todos, a Harry, a você em sua tarefa... E não adianta sonhar em ter alguém por um tempo tão pequeno, se vou ser privada de sua presença para sempre, de novo!
- Quem disse isso?
Ela deu de ombros, baixando os olhos. Será que ele não entendia? Estava no tempo errado. Estava ali numa variação de tempo e espaço que nem Einstein poderia explicar. Ao voltar para seu mundo, a porta teria que ser selada, para sua segurança e de todos ali. E ainda havia a guerra, da qual ainda não sabia o final. E se todos morressem? E se ele morresse? Lembrou-se do velho pesadelo. Uma luz pareceu clarear sua mente.
- O pesadelo... Era uma premonição... o fim da guerra. Voldemort derrotado, mas até lá, muitos terão perdido suas vidas. Talvez até você... Há esse boato nos fóruns, de que você arrisque novamente sua vida para ajudar o Harry a derrotar Voldemort, e não sobreviva...
- E isso... te incomodaria? – ele insistia, como se precisasse ouvir sua voz para confirmar o que já “lera” em sua mente.
Ela o fitou. Seus olhos brilhavam, mais uma vez contendo lágrimas teimosas.
- Você sabe que sim... Eu... amo você. – ela desistiu de tentar lhe negar isso.
Amava intensamente sua teimosia, sua arrogância, via um homem capaz de amar e ser amado atrás daquela máscara de intolerável. E talvez, se não o amasse tanto assim, nem estaria ali, continuaria em seu mundo normal e seguro, longe do seu olhar.
Ele tocou seu rosto com surpreendente suavidade. Gostaria de poder lhe dizer algo que a convencesse de que não era uma boa coisa amá-lo, mas não conseguiu. Estava só há muito tempo, também.
Por motivos diferentes de Lupin, sempre se negara a se envolver, por ter constantemente uma espada sobre sua cabeça. Já vira homens morrerem, famílias serem dizimadas, sem piedade, por um simples capricho do Lord das Trevas. E sabia que não escaparia dele por muito tempo, por mais que Dumbledore o protegesse. Por isso, não tinha ninguém, não queria ninguém sofrendo por ele.
Porém, os olhos que o fitavam agora, inundados de lágrimas, lhe falavam que ele podia ser um homem como qualquer outro, com sonhos e... desejos.
Tentou convencer a si mesmo que aquela paixão era apenas fruto das circunstâncias que tinham vivido, compartilhando lembranças tão fortes, enquanto segurava seu queixo trêmulo e aproximava o rosto do seu lentamente, e a beijava, a princípio docemente, mas depois com paixão crescente ao ver que ela correspondia, abraçando-o. E, pela primeira vez em décadas, enquanto se inclinava até se deitar sobre seu corpo morno e macio, se permitiu esquecer quem ou o que era, para ser apenas o que queria ser naquele momento: um homem apaixonado pela mulher em seus braços.