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Grimmauld Place • Exibir tópico - Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 23/03/11)

Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 23/03/11)

Publiquem suas fics aqui para os outros opinarem.
Não se esqueçam de também postarem no Floreioseborroes.net.

Moderadores: O Ministério, Equipe - Godric's Hollow

Mensagempor Krys Granger Weasley » 16/07/07, 18:10

Maravilhoso!!!!!!!!!!

Adorei o capítulo
Agora as coisas comerçam há fazer sentido...

Por favor não demora pra postar o capítulo 19!!!!

Please!!!!!

Beijos :wink:
R/H forever!!!

*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*

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Mensagempor Regina McGonagall » 17/07/07, 10:48

post nº 101... hihi... só porque esqueci de passar aqui ontem... :cry:

a Lizzy chegou!

(ainda bem, né? titia aqui já pode despachar os sapatinhos cor de rosa, sem estar fazendo spoiler... hihi... :mrgreen: embora leitores atentos já soubessem que o carlinhos estava certo, oras! :shock: )

e... na pequena conversa Ana/Serenna... só falotu uma delas comentar que, se juntar pipoca, vira festa, hihi :D

editando:

passei pra dar um beijinho na Lizzy (que foto mais fofa!)

e também pra dizer que o conjunto "The Archies" era também personagem do desenho animado "Sabrina" (aquela bruxa loirinha, sabem? tem um seriado dela e alguns filmes que passam na seção da tarde de vez em quando...) e que a música "Sugar" era tema do desenho também.

quer dizer... é bruxa também, né? hihi...
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Mensagempor Belzinha » 09/12/07, 20:18

[center]-19-
Black Returns
[/center]

Não tinham muito tempo. O verão no hemisfério norte terminaria dali a menos de três semanas. E, conforme o que se extraiu do medalhão, a chave de tudo girava em torno das estações do ano. “O verão abre os portais para o outro extremo.”.

Agora, com a pista da origem da madeira, poderiam determinar onde um possível portal se abriria. O problema é que poderiam até saber o quê estavam procurando, mas não por que. Levando em consideração a experiência anterior do bracelete de Hufflepuff, poderiam dizer que talvez – e somente talvez – Rowena Ravenclaw os estava avisando sobre algo que iria acontecer e que deveriam impedir.

- Olhe por esse lado. – Disse Rony, enquanto se preparavam para partir. – Quando foi que a gente não trabalhou com informações incompletas e sob perigo mortal?

- Sempre se pode contar com você para acalmar as pessoas, não é, Rony? – Harry não pode deixar de sorrir.

- Às suas ordens. – O ruivo respondeu matreiramente.

Só havia um lugar no mundo onde poderiam encontrar o “Carvalho-Guardião”, árvore da qual a flecha encontrada em Avalon era feita. E este lugar era o Centro de Excelência em Educação e Pesquisas Mágicas do Rio Negro, a escola brasileira de bruxaria.

- Acho que estes serão suficientes. – Hermione entrou apressadamente na sala, com uma pilha de livros nos braços, em cujo topo descansava uma pequena bolsa de mão.

- Hermione, sei que os trouxas têm muitos recursos hoje em dia, mas... – Rony comentou da maneira mais sutil que “Rony Weasley” podia fazer. - Acho que naqueles trecos que eles usam para viajar não tem espaço para isso tudo não...

Em resposta, a esposa simplesmente tirou a velha bolsa de cima da pilha de livros – bolsa que Rony estava reconhecendo, agora – E, surpreendentemente, colocou tudo lá dentro. A bolsa sequer se estufou com os quilos e mais quilos de livros.

Devido à condição de Hermione, não podiam viajar por meios mágicos, e por isso teriam que ir de avião, ou, como Rony diria “naqueles trecos voadores”. (1) Tinham passado na Toca e deixado Sirius, enquanto Harry ia para casa se despedir de Gina e dos gêmeos.

A viagem transcorreu relativamente calma – apesar dos vexames que Rony, desacostumado ao mundo trouxa, vivia aprontando -, e quando se deram conta, estavam em um pequeno aeroporto no Brasil, ainda que exaustos da longa viagem e das inúmeras escalas.

Os três se olharam, um tanto perdidos. Tinham lançado sobre si mesmos um feitiço de tradução, de forma que podiam entender o que as pessoas falavam, mas não podiam se comunicar.

Conforme as instruções de Neville, que não pudera vir com eles, deveriam se dirigir para a lateral daquela pista de pouso deserta, e bater com a varinha sete vezes no sétimo pneu de carro. Como não sabiam por onde começar a contagem, bateram sete vezes em todos os pneus que encontraram por lá.

A ajuda de Neville, que já estivera no Centro Rio Negro diversas vezes; bem como de “nativas” como Ana ou Serenna teriam sido bem vindas, mas nenhuma das duas poderia acompanhá-los também. Ana tinha a pequena Lizzy para cuidar, Serenna não poderia se afastar do Lar de Elizabeth, especialmente agora que Snape estava dando aulas em Hogwarts. Nem mesmo Lupin poderia acompanhá-los, uma vez que tinha tomado para si a tarefa de “monitorar” possíveis alterações na região de Avalon.

Assim, estavam só os três naquela missão – o famoso “Trio Maravilha”.

Quando finalmente acharam o pneu que abria a passagem para uma pequena ruazinha comercial bruxa, procuraram pelo homem que Neville lhes disse que alugava Pégasos para levá-los até as margens do Rio Negro (o rio que dava o nome à escola brasileira de magia). Segundo ele, esta era a única forma mágica, além das chaves de portais, de se chegar até lá.

Os pégasos eram criaturas magníficas. Tinham o pêlo branco como os unicórnios que Harry conhecera em Hogwarts, só que pareciam mais impacientes do que os últimos. Os unicórnios transmitiam inocência e tranqüilidade; já os pégasos, força e aventura. Identificou-se imediatamente com aqueles cavalos alados, e seu coração se confrangeu quando os viu domesticados: criaturas como aquela deveriam viver livres em alguma floresta, ou, melhor ainda, em um descampado onde pudessem correr também.

Hermione foi quem não gostou muito da idéia de ter que voar. Ela nunca se entendera muito bem com altura, fosse montada em vassouras, hipogrifos ou trestálios. Ainda assim, como uma autêntica grifinória, enfrentou o medo e montou o seu pégasos obstinadamente.

- Não se preocupem com o caminho, os animais o conhecem de cor, irão sozinhos. E, caso aconteça algo, eles sabem voltar sozinhos também.

- Como assim acontecer algo? – Rony voltou-se para o comerciante e franziu o cenho. - O que pode acontecer?

- Nada... – O outro sorriu. – Só falei por falar. Apenas... Não passem muito perto das árvores.

Os três se olharam, mas o comerciante não lhes deu tempo para mais nada. Deu o sinal que os animais entendiam como “avante”, e eles bateram as poderosas asas, rumando ao céu mais azul que Harry jamais havia visto.

Sobrevoaram uma imensidão verde, tão compacta que mais parecia um tapete, interrompido aqui e ali por uma linha brilhante formada pelas águas de um rio. Depois do que havia parecido uma eternidade, chegaram às margens do que parecia ser um mundo em forma de um rio escuro e sem fim.

Conforme a explicação de Neville, aquela era a margem onde começava o “reduto bruxo” da Amazônia. Havia feitiços antitrouxas em um raio de quilômetros ao redor do Centro Rio Negro, como aqueles que existiam em Hogwarts. Desmontaram, pois os pégasos se recusaram a chegar perto da água.

– Caramba! Como é que a gente vai atravessar isso? – Rony balançou a varinha em direção ao turbilhão de águas escuras do Rio Negro.

Nem bem o ruivo tinha terminado a frase, algo começou a emergir das águas, formando primeiro um redemoinho. Eles deram alguns passos para trás bem no momento em que um mastro surgia, seguido da polpa e da proa de uma embarcação de tamanho médio.

- Isso me traz más recordações que têm nome e endereço: Victor Krum, Durmstrang. – Rony comentou amuado, lembrando-se da chegada do navio da delegação da escola búlgara de magia, no quarto ano deles em Hogwarts.

- Rony, eu não acredito que você ainda pensa nisso... – Hermione revirou os olhos.

Mas não era o navio dos bruxos búlgaros. Esse era menor, e trazia a bandeira brasileira no mastro, pintado de verde e amarelo, com o nome “Iberaba”. Uma moça surgiu de dentro da cabine, vestida com uma puída calça corsário, lenço na cabeça, e camisa trabalhada com rendas:

- Olá, gringos! – Ela os saudou efusivamente, e com um inglês com muito bom, ainda que com forte sotaque: - Meu nome é Janaína, e sou sua capitã.


Estavam navegando por meia hora, rio acima – “acima” é modo de dizer, já que eles estavam abaixo da superfície, como um submarino – quando criaturas com longas caudas passaram rente às janelas do barco, do lado de fora. Não demorou muito para que percebessem que, além de caudas de peixe, elas tinham longos cabelos verdes, com o tronco e o rosto de mulher.

- Iaras. – Janaína falou. – O povo sereiano daqui.

- Porque estão cercando o barco? – Hermione perguntou.

Janaína sorriu estranhamente, um sorriso malicioso e divertido de quem sabe que irá chocar os outros:

- Por causa de algo que nós temos e elas não têm.

- Pulmões? – Rony arriscou, vigiando pelo canto dos olhos três das criaturas que pareciam ter especial interesse por eles.

- Não. – Janaína fez uma pausa, aumentando o suspense. – Homens. As sereias dessa raça não possuem machos, como os centauros não têm fêmeas. – Ela alargou o sorriso quando acrescentou a chocante revelação: - De vez em quando algum bruxo descuidado acaba se perdendo por estas águas, e...

O grito de indignação de Hermione a interrompeu, assim que a inglesa entendeu em que direção ia os pensamentos das sereias em relação ao marido e ao amigo, e Janaína soltou uma gargalhada. Era muito divertido ver os três reservados britânicos se chocarem com coisas com que os bruxos da região já estavam acostumados.

Harry e Rony ficaram rubros no mesmo instante. Se antes as observavam devolvendo a curiosidade, agora evitavam o mínimo olhar a todo custo, como se fossem pegar fogo se o fizessem.

- Por isso é mais seguro para uma mulher ser capitã? – Harry perguntou.

- Isso mesmo. – Janaína assentiu com a cabeça. – Mas é muito difícil elas se aproximarem de grandes embarcações. A menos que...

- A menos que? – Ainda carrancuda, mas tentando a todo custo entender o ponto de vista das iaras, Hermione encorajou a brasileira a continuar.

- Que elas tenham sentido que há um prêmio especialmente valioso aqui. Posso entender porque te encaram, “Eleito” – falou para Harry, referindo-se ao fato de todos os bruxos saberem, ou pelo menos intuírem, que deveria haver uma força muito poderosa em Harry Potter para que ele pudesse derrotar Você-Sabe-Quem. – No entanto – continuou Janaína – parece que consideram igualmente o senhor Weasley como um alvo em potencial.

Se isso fosse possível, Rony ficaria ainda mais vermelho do que já estava. Agora, além de evitar olhar para as sereias, também fugia do rosto contraído de irritação de Hermione, e tentava aparentar uma fria indiferença quanto a tudo aquilo.

- Maldito sangue de dragão! – Pôde ouvir a amiga resmungar.

- Sangue de dragão? – Janaína perguntou, subitamente curiosa, fitando de um para o outro. (2)

- Só um tratamento alternativo... – Rony fez um gesto nervoso de “não importa” e parou por aí, dando o assunto por encerrado.

- Isso está ficando cada vez mais divertido! – Exclamou Janaína, jogando a cabeça para trás e rindo, o leme da embarcação bruxa bem seguro em suas mãos.

****

[Enquanto isso, na Inglaterra...].

O rumor sobre o noivado de Zacharias Smith havia se espalhado com muita facilidade, mas isso não era de se surpreender com a ajuda duvidosa dos artigos de Rita Skeeter. E, é claro, chegou rapidamente ao conhecimento de Jeremiah Smith, o pai do “noivo”.

Havia certo choque no semblante do empresário bruxo quando um de seus empregados cumprimentou-o pelo noivado do filho. Confuso, não entendeu sobre o quê o homem estava falando, mas não gastou mais do que três ou quatro segundos com a questão, logo conjeturando que deveria ter havido um engano. No entanto, quando mais uma, e mais duas, quatro e um número cada vez maior de pessoas continuou a felicitá-lo pelo iminente enlace de seu herdeiro, não perdeu tempo em mandar sua secretária buscar um exemplar do Profeta Diário.

Zacharias ainda podia ver os olhos faiscantes de fúria do pai, bem como o tom de indignação em sua voz, quando o chamou em sua sala:

- Noivado? E eu sou o último a saber! Como ousou me esconder isso? E... Uma trouxa? Quem é essa mulher, afinal de contas?

Naquele momento, não deu ao pai nenhum sinal do frio que sentiu na barriga diante das perguntas à queima roupa. Longe disso, foi polido e distante, levemente sarcástico nas respostas, e totalmente evasivo. Não foi algo fácil – uma vez que fora Jeremiah Smith quem lhe ensinara a ser o “cínico perfeito” – mas, no final, conseguiu postergar o verdadeiro momento em que teria que enfrentar o pai.

Sabia o que desesperava o pai: as conseqüências que um noivado misto – entre um bruxo e uma trouxa – se desmanchado, traria. Havia leis e... Penalidades. No entanto, havia assumido resultado de seus atos quando contara aquela mentira sobre o noivado, visando proteger sua tia-avó Agatha, Ana e a própria Luíza. Nessa ordem de prioridade, é claro.

Zacharias ergueu o olhar até o sofá onde sua suposta noiva estava sentada, lendo atentamente um livro. Ambos precisavam aparecer em locais públicos juntos para manter as aparências e, além de tudo, seu pai havia pedido, ou melhor, exigido conhecê-la. Graças a Merlim, a encontro não durou muito, já que a garota parecia “travar” cada vez que precisava contar uma mentira. Enquanto a moça esperava que o horário combinado com tia Agatha para vir buscá-la chegasse, fora necessário “escondê-la” dos olhares curiosos de seus funcionários. A mulher era um desastre ambulante – não como Tonks, mas, ainda assim, ingênua demais para ficar à solta.

Ela movia as páginas do livro rapidamente, e Zacharias já havia tido provas o suficiente das habilidades da moça para não duvidar que cada palavra estava sendo decorada. Teve que reter um suspiro de exasperação quando viu o título do livro: “Trouxas Sensitivos”. (3) Um livro sobre trouxas que não sofriam com os feitiços obliviate. Só faltava agora ela sair por aí dizendo: “Ah, olá, meu nome é Luíza, e eu não posso ter minha memória apagada por feitiços”.

- Escute isso: - Ela disse de repente – “Alguns habitantes de Ilfracombe não foram afetados pelo Feitiço de Memória em Massa de 1932, quando um dragão verde-galês mergulhou sobre uma praia apinhada de trouxas que se banhava ao sol. Até hoje, um trouxa apelidado de “Esquisitão” continua falando nos bares ao longo da costa sulina de um “baita lagarto voador” que perfurou seu colchão de ar”.

- E...?

- E... – Foi a vez dela de ficar amuada. – EU posso ser uma “trouxa sensitiva”. Por isso que os feitiços de memória não funcionam em mim!

- Pode falar um pouco mais alto? – Ele fechou uma pasta com rispidez. Então completou com ironia: - Acho que o pessoal do primeiro andar do prédio não conseguiu ouvir.

Luíza concordava - ainda que fosse vexaminoso – que não era tão boa em esconder coisas, como o era em descobri-las. Nunca precisou mentir tanto, e realmente não tinha jeito para isso, mesmo que fosse para salvar a sua vida. Mas, não achava que todos ao seu redor fossem inimigos em potencial, como Zacharias parecia pensar. No entanto, resolveu não dizer isso em voz alta, porque sabia que ele iria começar com mais um de seus discursos sobre como ela era ingênua e tudo mais.

Foi quando um bruxo jovem, porém com o início de uma precoce calvície apontando em suas têmporas, bateu na porta, hesitante. Tinha as feições bondosas, mas o rosto pálido, olheiras e roupas desalinhadas.

- O senhor me chamou, senhor Smith?

- Sim, Carter. Quero que contate os duendes do Gringotes e faça um relatório das últimas movimentações financeiras. Para o fim do dia. Entendeu?

- Sim, senhor. – Um misto de desespero e resignação apareceu na face do moço, mas Zacharias não notou, pois mal o olhara.

Depois que o rapaz saiu, Luíza fechou o volume de “Trouxas Sensitivos”, e encarou com seriedade o “noivo”:

- Há quanto tempo a mulher dele está doente?

- A mulher dele não... – A expressão ausente de Zacharias sumiu, e uma confusa apareceu em seu lugar. – Como sabe que ele é casado?

- A marca da aliança no dedo anelar esquerdo. Está bem forte, recente. – Ela responder com simplicidade, sem deixar o tom de ansiedade contido na voz. – Além disso, ele tem olheiras, está pálido e tem rugas de preocupação no rosto. Deve ter emagrecido, por isso a aliança não coube mais.

- Pode haver um milhão de outros motivos que não uma esposa doente. – Zacharias rebateu, não querendo dar mostras de que realmente não sabia o que acontecia na vida de seus empregados.

- É, mas se fosse o caso, a mulher dele não o deixaria andar por aí com as roupas amassadas, e muito menos sem a aliança. Cheguei também a pensar que ele poderia estar se separando da esposa, mas foi então que vi o crachá do St. Mungus no bolso do paletó dele...

- Ele pode ter ido visitar alguém a noite passada no hospital, e em seguida foi a uma noitada, tirando a aliança.

Luíza quase engasgou com cinismo dele, mas passou por cima de sua própria reação. Sim, todas as possibilidades tinham que ser consideradas, como bem estava acostumada a fazer em seu trabalho na Agência de Inteligência. Na realidade, havia percebido que algo estava errado com o funcionário de Zacharias quase por hábito, sem se dar conta que estava analisando tudo a seu redor, como sempre fazia. Por isso, não foi difícil rebater:

- Não, ele não tem jeito de um homem mulherengo, pelo contrário, parece tímido. Nem olhou para mim quando entrou...

- Ah, e deve ser realmente chocante que um homem não olhe para você. – Ele a cortou, irônico, sem desviar os olhos dos papéis que estava analisando.

Luíza levantou o rosto lívido de choque e humilhação. Sabia que não era do tipo que atraía os homens. Cada vez que se comparava com a maioria das mulheres, só uma expressão lhe vinha à mente para se autodefinir: “sem sal”.

- Não precisa ser grosseiro. – Conseguiu firmar a voz e responder com toda a dignidade que lhe restara. – Todos os dias olho-me no espelho, não sou cega... Ao contrário de você, Zacharias Smith, que não consegue prestar atenção nem no quê está acontecendo ao seu redor!

Zacharias ergueu os olhos dos papéis que estava lendo, surpreso e confuso. Observou-a se levantar bruscamente da cadeira sem entender o quê a tinha ofendido tanto. Afinal, tudo o que tinha dito, ainda que sarcasticamente, era que ela devia estar acostumada a ver os homens se encantarem por seu rosto inocente. O que havia de errado com aquela mulher?

“Inferno!”, pensou, quando se deu conta que ela estava saindo de sua sala pisando duro e com a expressão mais indignada que já tinha visto na vida. Certamente os outros perceberiam também.

Luíza quase tinha atravessado o vão da porta quando Zacharias a deteve, segurando-a pelo braço. Com um puxão, girou-a para si e a beijou.

- Até logo, querida. – Ele disse em voz alta, de forma que todos pudessem ouvir. E, depois, sussurrou em seu ouvido: - Por Merlim, desfaça essa cara de zangada, ou amanhã seremos novamente o assunto da coluna de Rita Skeeter!

Claro. Todos estavam olhando. Controlando o impulso de levar as mãos aos lábios beijados, e com os pensamentos em um turbilhão, Luíza reuniu forças para abrir um pequeno sorriso e sair dali.

Enquanto caminhava, as idéias iam pouco a pouco voltando a seu lugar, até que o verdadeiro significado do beijo de Zacharias caiu de pára-quedas bem na sua frente – e uma bofetada não a teria insultado mais do que a compreensão do que tinha acontecido.

Aparências. Fez pelas aparências. Ele a beijou, e em seguida fez a coisa mais rude que um homem poderia fazer a uma mulher depois de tê-la beijado: lembrá-la, ainda que indiretamente, que não o teria feito se tivesse tido escolha.

Ela sabia disso. Não precisava ser lembrada, até mesmo porque não gostava do “noivado” mais do que ele. Como ele ousava faze-la sentir que era a culpada por terem que sustentar um compromisso de mentira com ela? Seu orgulho estava ferido, e Luíza decidiu, naquele momento, que odiava Zacharias Smith.



As palavras de Luíza ainda estavam ressoando em seu ouvido. “Não consegue prestar atenção nem no quê está acontecendo ao seu redor”. Se as suposições malucas dela estivessem corretas, então estava agindo há muito tempo como um crápula com os seus funcionários...

Não. Ele sempre agiu com cautela, nunca misturando negócios e assuntos pessoais. Esta era a maneira correta, assim não havia como ser envolvido e enganado. Era um bom patrão, pagava bons salários, dava bônus aos mais aplicados, promovia quem era mais eficiente e qualificado, nunca deixando que quaisquer outras razões que não o merecimento interviesse em seu julgamento.

Não era assim que aprendera com o pai?

Irrequieto, caminhou até a janela que dava vista para o Beco Diagonal, como se a visão da rua pudesse aclarar seus pensamentos. Viu Luíza, que agora atravessava o portão de entrada do prédio, sendo saudada pelo porteiro, um senhor de idade avançada, que sorriu para ela. Aquele porteiro nunca sorrira para ele. Nunca, em todos aqueles anos.

Em um impulso, Zacharias chamou o funcionário com quem conversara antes, e que tinha sido o pivô daquela controvérsia.

- Carter, eu... – Hesitou, não acreditando que iria mesmo fazer isso. Respirou fundo, apertando fortemente os maxilares, com raiva de si mesmo por seu impulso. – É verdade que anda distraído no trabalho por causa de sua esposa, que está doente?

- S-sim, senhor... M-mas juro que isso não vai mais acontecer...

- O que não vai mais acontecer? Sua esposa ficar doente? – Zach perguntou asperamente, deixando o outro sem fala. – Carter, tire uma licença para cuidar dela. – Resmungou em seguida: - Não acredito que ela tinha razão... – E para o empregado de novo: - Por Merlim, Carter, conte-me quando algo assim estiver acontecendo!

O homem queria dizer que ninguém tinha coragem de contar seus problemas pessoais ao chefe, uma vez que ele nunca pareceu inclinado a querer saber. Mas estava contente demais por sua sorte, de forma que não perdeu tempo em agradecer e ir providenciar o mais rápido possível a sua licença. Quando os colegas lhe perguntaram como conseguiu falar com Sr. Smith, ele simplesmente respondeu que não tinha feito nada: e desconfiava que a moça simpática que era noiva do chefe era responsável por isso.

Zacharias se sentiu muito bem depois de ter feito esta “concessão”. Não estava acostumado a deixar as pessoas se aproximarem muito. A vida tinha lhe ensinado que os outros costumavam se aproveitar quando isso acontecia. Desconfiava de todos, mas, quando tinha a lealdade conquistada, era para sempre.

Talvez – somente talvez – Luíza estivesse certa.

****

[De volta à Amazônia...].

Da mesma forma que surgira, o “Iberaba” emergiu do outro lado do rio, explodindo água em sua margem e brilhando à luz do sol.

Janaína os ajudou a desembarcar os valorosos cavalos alados, que tinham ficado em um compartimento de carga magicamente à prova de som. A capitã do barco lhes havia contado que o canto das iaras os deixavam nervosos, e à simples visão do rio, afastavam-se. O máximo que se conseguia chegar com um pégaso era até o ponto de embarque dos navios e dali por diante, eles precisavam ser transportados até a outra margem.

- Se tivessem chegado na época do início ou fim do ano, ou ainda nos feriados, quando os alunos do Centro estão voltando ou indo embora, vocês conseguiriam ir até bem perto com barcos bem maiores, que são especialmente mandados para estas épocas. Mas este aqui... – Ela olhou carinhosamente para a própria embarcação e sorriu. – Apesar de não ser pequeno, não chega tão longe.

- Não tem importância. – Harry respondeu. – Acho que a viagem com os pégasos vai ser mais interessante. – Sorriu.

- Ô, se vai... – Janaína murmurou para si mesma.

- O quê?

- Nada... – Ela respondeu, já entrando na cabine e acenando. – Apenas... Não confiem nas árvores. Não até estarem dentro do Centro Rio Negro, pelo menos. Afinal, não queremos que nada aconteça ao Eleito por aqui. Não seria bom para o turismo. – Com esta declaração bem-humorada, ela desapareceu junto com o “Iberaba”, nas profundezas do rio.

O trio se olhou, desconfiado.

- Que tipo de aviso é esse, afinal? – Rony resmungou. – “Não confiem nas árvores”, “Não se aproximem muito das árvores”. Ninguém pode ser mais específico?

- Não se preocupem, acho que sei. – Hermione declarou, mas não deu mais esclarecimentos.

- Não pode ser pior do que “Sigam as aranhas”. – Harry deu um tapinha no ombro do amigo, e em seguida fez um sinal para que montassem novamente nos cavalos alados.

Mais um tempo se passou enquanto voavam nos pégasos, desta vez montanha acima. Muito, muito alto. Em determinado momento, conforme o homem que lhes alugara os animais avisara, encontraram a barreira mágica que impedia a aproximação via aérea, e os próprios cavalos começaram a voar em círculo, sinal que teriam que descer e cavalgar.

A terra era extremamente escura, e a mata fechada deixava pouca luz do sol passar. As roupas estavam molhadas e grudando na pele, mas não era de suor, e sim da umidade reinante no ar. Até Hermione ter a idéia de lançar um feitiço impermeável nas roupas, já tinham parado várias vezes para secar as roupas também com feitiços, na tentativa de diminuir o desconforto.

Ao contrário do que esperavam, à medida que subiam, a umidade não diminuía. Parecia que as nuvens eram retidas pela formação rochosa, o que mantinha um constante nevoeiro.

Finalmente, quando pesaram que tinham se perdido (apesar de confiarem totalmente nos feitiços de orientação de Hermione, claro), depararam-se com um beco sem saída. Aparentemente, tudo o que havia adiante eram árvores, folhas e rocha.

- Não pode ser! – Hermione exclamara. – O mapa está dizendo que estamos em frente à entrada do Centro Rio Negro! – Ela olhava para as árvores e o mapa, como se a qualquer momento uma porta fosse surgir em algum ponto da vegetação.

- Tem certeza, Mione? – Harry apontou para uma trilha que parecia levar ao outro lado da montanha. – Pode ser que não seja a entrada, mas uma parte da escola, como as escarpas rochosas abaixo de Hogwarts.

- Uau, isso que eu chamo de bases sólidas. – Rony bateu com os nós dos dedos em uma das árvores.

- Rony, não! – Hermione gritou advertindo-o, mas era tarde demais.

Tomando vida, um galho enorme da árvore que Rony tocara se moveu, como braço humano, e as ramificações se sua copa se transformando em “dedos” que se fecharam em torno da cintura do rapaz, erguendo-o vários metros do solo.

- Arreeeeeeeeeeeeee!

Outro ramo levantou o pégaso onde ele estava montado, fazendo o animal relinchar, assustado.

Harry já estava correndo em sua direção antes mesmo que os galhos tocassem no amigo, lançando todos os feitiços que lhe vinham à cabeça – tanto de defesa quanto de ataque – na tentativa de fazer a árvore largar a sua presa. Desceu de seu pégaso, consciente que poderia ferir a criatura se o forçasse a galopar perto demais.

No entanto, outra árvore bloqueou seu caminho com um inesperado galho vindo do nada. Lembrando-se das noções de capoeira que André, irmão adotivo de Serenna, (5) havia dado aos Aurores, poderia dizer que tinha acabado de sofrer um “rabo de arraia”, com uma rasteira em seus pés que o fez tropeçar no ar. O mesmo galho que o atacou se fechou em seus pés como um terrível punho, levando-o em uma imitação de um feitiço “levicorpus”.

Agora ele e Rony estavam mais ou menos na mesma altura, ambos se debatendo e lutando com todas as suas forças. Com um poderoso coice, o pégaso de Rony conseguiu se libertar e, ao cair no chão, feriu uma das patas.

- Parem de se debater! – Ouviram Hermione gritar.

Os óculos de Harry já estavam quase caindo, pois ele ainda estava preso de cabeça para baixo. Ainda assim, conseguiu ver a amiga ainda montada em seu cavalo, olhando penalizada para o outro animal ferido, mas não moveu um músculo.

- Mione, saia daqui! – Rony gritou de volta, sem conseguir enxergar direito onde a esposa estava, entre as montanhas de folhas e galhos em sua volta. – Vá para o mais longe que conseguir!

- Não! – Ela exclamou. – Não se movam! Não ataquem as árvores! É como o visgo do diabo!

“Como o visgo...”, pensou Harry. O visgo do diabo! Era isso que Hermione queria dizer. Tinham que ficar quietos imóveis.

- Rony, pare! – Ele gritou para o amigo. – Não se mexa, não lance feitiços!

- O quê? – O ruivo o encarou confuso e ofegante por alguns segundos, mas parou de se debater.

A mudança foi imediata. Como se as plantas estivessem esperando por isso, os topos pararam de se agitar, apenas conservando o aperto em volta dos dois rapazes, mantendo-os presos.

Silêncio. Nem mesmo os pássaros, que haviam saído em revoada com a agitação das árvores, ousavam emitir seus cantos e gorjeios. A Floresta esperava.

Os troncos das árvores à sua direita se moveram, abrindo caminho. Para quem ou o quê, Harry não conseguia ver, de onde estava. Tudo naquele lugar parecia denso, fechado e compacto, e nem mesmo a altura auxiliava a visão do que estava acontecendo a poucos metros do solo.

Apesar de não conseguir ver, podia ouvir. Eram sons de passos apressados, que faziam barulhos cricantes enquanto pisavam no tapete de folhas secas depositadas no solo. Olhou para Rony e viu refletido no amigo a apreensão que ele mesmo sentia. Uma parte dele dizia que era loucura ficar ali parado enquanto aguardava pacientemente pelo desconhecido. Mesmo assim, Hermione continuava imóvel e silenciosa, e os dois rapazes confiavam no julgamento dela.

Prendeu a respiração quando percebeu que finalmente iria ver quem – ou o quê – os encontraria, mas a soltou toda de uma vez, piscando várias vezes, ao se deparar com uma bruxa de meia-idade, baixinha, em um vestido marrom adornado com ramos de plantas e flores que percorriam e se cruzavam ao longo de toda a peça.

Ela chegou com passos rápidos e decididos, e apesar do olhar assustado, mantinha a varinha erguida, pronta para ser usada. Quando viu Hermione, pareceu hesitar, e antes de chegar a uma conclusão sobre a garota, ergueu a cabeça, vendo Harry e Rony erguidos e imobilizados pelos ramos-punhos das árvores.

Apressadamente, ela tirou o que parecia ser um bisbilhoscópio e espiou os dois rapazes através dele. Nesse mesmo instante mais pessoas, todas vestidas em verde e marrom, chegaram. Aproximaram-se da mulher, com a mesma expressão de quem está pronto para lutar e fica confuso ao se deparar com uma cena não compatível com suas pré-disposições.

- Er... – A mulher limpou a garganta, depois de ter visualizado Harry pelo bisbilhoscópio. – Lembra quando dissemos que queríamos “arrebatar” o senhor Potter em sua visita, Xoloni? – Ela falou para um senhor negro em vestes marrons ricamente bordadas em um verde escuro e brilhante. – Pois é... Acho que conseguimos!

****

Sim. Haviam encontrado o Centro de Excelência em Educação e Pesquisas Mágicas do Rio Negro. Ou melhor: o Centro os havia encontrado. O pégaso ferido já tinha sido tratado, e agora testava se firmar nas pastas dianteiras, novas em folha.

- Claro, esperávamos que usassem umas das passagens de Pó-de-Flu, que sempre deixamos aberta para as visitas... – Xoloni Cerqueira, o Direitor do Centro Rio Negro disse, enquanto os guiava pela passagem que se abrira quando eles chegaram. - Vocês sabem, há proteção anti-aparatação em um raio de quilômetros da escola.

- Não pudemos usar meios mágicos de transporte porque... – Harry começou a responder, mas parou quando levantou o olhar para a visão que se descortinava a sua frente.

As árvores se moveram, revelando pilares de madeira. Depois, degraus de madeira. Muros, não, muralhas de madeira. Cuidadosamente trabalhados, com lindas linhas retas e curvas, lembrando o vento ou o tortuoso caminho de uma trepadeira.

Então, Harry o viu. A escadaria e os pilares, como em um antigo fórum romano, levavam até a entrada daquela fortaleza de madeira na floresta: um enorme portão, com um escudo trabalhado em seu centro. Dentro dele, entalhada a figura de uma árvore frondosa. Uma frase brilhava em verde escuro ao seu redor:


“Arbor per primum quaevis non corruit ictum”


- “Nenhuma árvore cai ao primeiro golpe”. – Hermione traduziu a frase em latim constante no escudo. Li isso em “Centro Rio Negro: 300 anos”.

- Uma boa frase sobre a qual se pensar. – Xoloni comentou, orgulhoso, enquanto fazia um movimento de varinha. Com um rangido alto, o enorme portão se abriu.

Uma vez dentro dos imensos portões, depararam-se com um pátio consideravelmente grande, com vários quiosques e bancos. No centro, no chão, um piso de mármore branco tinha uma árvore - a mesma do portão - em mármore preto e branco, como em um afresco.

A princípio, não haviam visto o desenho, pois estava coberto com a terra escura que cobria toda a floresta. No entanto, no mesmo momento e no mesmo ritmo que as árvores pareciam recuar em suas flores e galhos, em um crescimento invertido, os grãos de areia moviam-se para fora do desenho, como que varridos pelo vento.

- Medida de proteção. – Explicou Xoloni. – As árvores se fecham e nos escondem sempre que detectam perigo ao nosso redor. – Ele apontou para cima, chamando a atenção deles para o que havia montanha acima.

- Minha... Nossa! – As palavras saíram muito lentamente da boca de Rony, e acompanhavam o seu olhar à medida que este erguia a cabeça, descobrindo mais e mais camadas de corredores e construções, em níveis diferentes, lembrando uma escadaria. – Isto é uma cidade! – O queixo dele caíra, impressionado com a grandiosidade do lugar.

As árvores sustentavam todos os níveis, de todas as fileiras, de uma ponta a outra. As copas das árvores se fechavam em baixo e em cima desses corredores, como duas mãos cujos dedos eram os galhos.

- Cada nível é mais ou menos dividido por ano escolar ou área do conhecimento mágico, de forma a facilitar tanto a estadia dos alunos quanto o andamento das aulas. – Xoloni continuou, sorrindo com o estupefato dos estrangeiros. – E, não vamos esquecer, é claro, dos centros de pesquisa e as instalações daqueles que estão se especializando em uma aérea, depois de terminarem os estudos básicos. Eles estão nos níveis mais altos.

- Aquelas construções – Florinda apontou para edifícios postos em intervalos regulares, no meio das fileiras de corredores em níveis, mais altas, porém das mais variadas formas, ligando uma ponta das fileiras à outra, ou um nível a outro. – São salas de aulas especiais, como as de Astrologia; refeitórios ou dormitórios. Os quiosques perto deles são bem agradáveis.

Nenhum os três conseguia tirar os olhos das estruturas gigantescas.

- Aqui é bem maior que Hogwarts! – Harry estava olhando para o nível mais alto que seus olhos podiam alcançar.

- Tá brincando! – Rony comentou, dando uma risadinha assombrada. – Hogwarts vira um jardim dos fundos perto disso aqui.

- Ora, senhor Weasley, o Reino Unido tem cerca de quarenta e nove milhões de habitantes, e o Brasil, cento e noventa milhões... – Florinda deu de ombros. - Nossa população bruxa, naturalmente, tem que ser maior.

Quando Harry voltou o rosto para os primeiros níveis novamente, descobriu que aqueles corredores não estavam mais vazios. Lado a lado, espiando sobre os ombros dos uns dos outros e esticando os pescoços para ter uma melhor visão do que estava acontecendo lá em baixo, os alunos do Centro aviam corrido para os parapeitos. As vestes eram marrons e verdes, e as capas, de um verde escuro, traziam um desenho bordado no lado esquerdo do peito, que ele não conseguia identificar.

Mesmo que o feitiço de tradução ainda não estivesse fazendo efeito, Harry poderia facilmente adivinhar o que as crianças e adolescentes sussurravam: “É Harry Potter! É, é ele mesmo!”.

A Professora Silva balançou a cabeça, em um gesto de desgosto com a atitude dos alunos. Caminhou até uma das árvores próximas e pegou uma das flores em forma de cálice que cresciam ao redor de todo o tronco, como uma trepadeira. Com a flor perto da boca, ela começou a falar, sua voz ressoando por todos os recantos, alta e clara:

- Voltem todos para suas salas, não tem nenhum espetáculo acontecendo aqui em baixo para tanto rebuliço. As aulas continuam normalmente e vocês não foram dispensados. – Como a declaração não pareceu exercer grande impacto nos alunos, acrescentou, um pouco mais rígida: - O próximo que for pego nos corredores, vai ter que limpar as raízes das árvores, com os sapos-cururus!

O efeito foi imediato. Com uma exclamação de susto uníssona e os olhos arregalados, os estudantes se afastaram dos parapeitos.

- Vamos até o escritório central. – Sugeriu o Diretor Xoloni. – É lá que fica a minha sala, e poderemos conversar mais à vontade.

O trio seguiu a comitiva de docentes até uma espécie de cabine de madeira ricamente trabalhada. Aliás, tudo ali era uma mistura do rústico com o refinamento dos desenhos árabes, ainda que com a simplicidade oriental.

A cabine começou a flutuar e subir a montanha, nível por nível, como se fosse um elevador panorâmico (só que não havia cabo nenhum o sustentando). Agora que passavam mais perto das construções que serviam de salas (tanto as comuns, dos corredores, quanto as maiores), Harry pôde observar melhor os vários detalhes que lhe escaparam quando estavam lá em baixo.

Havia os corredores com os parapeitos e corrimãos, feitos de madeira trabalhada com o mesmo esmero daquela cabine. O chão do corredor era tão brilhante que parecia ser novo, recém-colocado. Além do que o que Harry agora chamava de corredores-sacadas, existiam as salas de aula comuns, com portas corrediças com vitrais das mais variadas cenas e cores que, a exemplo de alguns vitrais de Hogwarts, moviam-se.

- Não temem que alguém caia desses níveis? – Hermione perguntou, olhando, preocupada, os precipícios que se avistavam a todo o canto. Dependendo do lugar, a queda poderia ser de meio metro ou de centenas deles.

Tinham chegado na metade da montanha, e a Professora Silva respondeu serenamente e com um sorriso de compreensão, enquanto eles saíam da cabine:

- Não porque... – Olhou ao redor, como que procurando algo. – Ah! – Lembrou do próprio chapéu e, tirando-o da cabeça, lançou-o montanha abaixo.

Florinda ficou esperando calmamente alguns segundos, até que seu chapéu ressurgiu, sendo alçado por um cipó que parecia ter vida própria. A planta a depositou no chão, bem em frente aos pés da professora de Herbologia.

- Cipós pega-tudo. – Ela explicou. – Crescem em todo o Centro. Os Carvalhos-Guardiões e eles têm uma proveitosa simbiose. Qualquer coisa – ou pessoa – que despenque desses níveis é imediatamente pego e trazido de volta ao local de onde caiu.

O trio expressou seu assombro (claro, Hermione já tinha lido algo sobre isso em algum lugar), e Harry podia jurar que ouviu Rony resmungar alguma coisa sobre Dumbledore poder ter plantado uns destes ao redor do Salgueiro Lutador, em Hogwarts.

- Se estão surpresos com isso – Comentou um dos outros professores, cujo nome não se lembrava. – Esperem até ouvirem sobre Hideki Yanamoto, nosso aluno do primeiro ano. Ele já pulou treze vezes, só por diversão.

O grupo continuou andando pelos corredores daquele nível, e Harry pôde ver de perto alguns dos alunos que se dirigiam para as salas. As capas não eram grossas como as vestes utilizadas em Hogwarts, mas finas e leves. O desenho que estava bordado no canto superior do peito, em linha branca que contrastava com o verde escuro da capa, era o da árvore que se via no escudo do portão de entrada.

- Não há Casas por aqui? – Rony perguntou.

- Casas... – Xoloni por uns instantes pareceu não entender. – Ah, sim, Casas, fraternidades, esse tipo de coisa? Não, nossos alunos só são divididos por ano escolar. Claro, alguns criam e participam de clubes e agremiações, mas não é obrigatório.

“Como seria Hogwarts sem as Casas?”, perguntou-se Harry. A idéia era tão chocante para ele como se lhe perguntassem o como seria o Mundo sem os sete mares.

- Não se esqueça dos times de quadribol. – Lembrou-o Florinda.

- Ah, é claro. – Xoloni riu. – Se querem mesmo saber o que divide nossos alunos e professores, perguntem a eles para que time torcem. Não só os times nacionais, mas os times do próprio Centro.

- Onde está o campo de quadribol? – Rony olhou para todos os cantos dos níveis, sem visualizar onde um campo poderia existir.

- Lá em cima – O Diretor apontou para o que parecia o céu. – No topo do pico. Tem uma área plana, justo com o tamanho de um campo de quadribol.

- Mas... Só dá para ver nuvens lá em cima. – O ruivo comentou.

- Filho, há árvores, nuvens e serração para todos os lados por aqui. É por isso que chamam esse local de “Pico da Neblina”. – Xoloni respondeu, bem-humorado, piscando um olho para Rony.

- A neblina lá de cima é só camuflagem. – A Professora Florinda explicou. – Os trouxas que olham para Hogwarts só vêem as ruínas de um velho castelo. Aqui, só vêem nuvens e um pico altíssimo e isolado... Ah! Aí está nosso professor de Alquimia.

Eles olharam para a direção que a professora indicara, vendo um bruxo de meia-idade, cabelos e cavanhaque brancos, aproximar-se a passos largos do grupo.

- Ei! Aquele não é o... – Hermione arregalou os olhos quando visualizou o tal Professor de Alquimia, reconhecendo um famoso escritor de romances místicos, aclamado nos círculo literários trouxas.

O homem caminhava sorridente e despreocupado, sendo saudado de tanto e tanto por alguns alunos que encontrava no caminho, parecendo ser apreciado por eles. Rony fez uma careta de confusão, pois não tinha idéia a quem se referiam. Como filho de bruxos, cresceu em um mundo alheio às celebridades aplaudidas entre aqueles que não tinham poderes mágicos.

- Desculpem o atraso. – Disse para os colegas professores. - Acabei me entretendo com um novo elixir que... Merlim, o que importa isso? - Ele sorriu mais amplamente e se voltou para eles. - Finalmente estou conhecendo o Trio Maravilha! É uma honra. – Apertou cordialmente as mãos dos recém-chegados, sendo apresentados a ele.

- Paulo, melhor não alugarmos os senhor Potter, e o senhor e a senhora Weasley com a nossa tietagem. – Xoloni ponderou. - Eles devem estar cansados da viagem e ansiosos para resolver a questão que os trouxe até aqui.

- Tem toda a razão. Vamos indo.

A sala do Diretor não tinha uma passagem secreta, nem gárgulas ou senhas mágicas; mas evidentemente se destacava do resto daquele nível por estar construída sobre as árvores mais altas dali. A construção era arredondada, com janelas que circundavam toda a parede, como em um farol. O telhado era cônico, mas de madeira, como tudo o que havia ali. Uma rampa dava acesso do chão ao topo, e ao longo do corrimão, flores cresciam. A flor de guaraná.

Lá dentro, havia outra diferença gritante entre Hogwarts e o Centro Rio Negro: a luminosidade. No castelo, mesmo durante o dia, a maioria dos cômodos precisava ser iluminada por tochas, velas ou um meio mágico. Ali, o sol e as amplas janelas garantiam luz a todos os cantos, como se dissessem que a magia não era algo que devesse ser escondido ou sobre o qual se ter vergonha.

- Então, os senhores querem saber a relação entre o Carvalho-Guardião e... A flor do guaraná? – Xoloni perguntou tão logo todos estavam acomodados.

- Sim, por favor. – Harry, apesar do cansaço, pôs-se imediatamente em alerta. – Além do fato de ambos serem plantas amazônicas e crescerem por todo o Centro Rio Negro, é claro.

Na correspondência que havia trocado com o diretor da escola brasileira anteriormente, ele pôde perceber a relutância em se falar sobre o assunto. Finalmente, depois de muito insistir, Xoloni lhe disse que, se viesse até o Centro, talvez pudesse saber mais.

- Sr. Potter... Realmente existe uma ligação entre estas duas plantas, mas não podemos lhes esclarecer sobre elas, porque não somos as pessoas a quem o segredo foi confiado. No entanto, pesquisamos muito para tentar encontrar uma outra conexão, qualquer uma...

- Espere! – Rony o interrompeu. – Desculpe, mas, o senhor disse “segredo confiado”?

- É uma longa história senhor Weasley. – A professora Florinda sorriu suavemente. – Mas se puderem nos dar mais informações sobre o que procuram...

- Não, não é possível. – Harry respondeu rapidamente, já desconfiando das razões do corpo docente do Centro ter insistido tanto para que viesse até ali. Voltou-se para o Diretor Xoloni, o tom de voz quase acusatório: – O senhor disse que vir até aqui poderia fazer a diferença.

- Sim... – O professor suspirou, resignado. – Se é assim como dizem, só nos resta uma alternativa, e não creio que irão obter êxito através dela.

Xoloni se levantou e estalou os dedos. Segundos depois, os ventos lá fora começaram a se agitar. Um redemoinho medindo não mais que um metro e meio de altura surgiu do nada e entrou. Como que esperando por isso e com expressão de uma tediosa impaciência, cada um dos professores segurou ou amparou um objeto (vasos, livros na estante) impedindo-o de cair.

Harry e Rony levantaram-se de um salto, as varinhas em punho, prontos para a briga. Quase que no mesmo instante, Hermione segurou-os pelo braço, sem nem mesmo erguer-se da cadeira:

- Calma, gente. É um saci. Li sobre isso em “Centro Rio Negro: 300 anos”.

- “Saci”? – Rony pronunciou a palavra com dificuldade, enquanto erguia uma sobrancelha, confuso.

Ambos não desgrudaram em nenhum momento o olhar do redemoinho, até que, em segundos, ele se desfez, revelando uma criaturinha diminuta, muito parecida com uma criança negra, com um gorro vermelho, dorso desnudo, calção também vermelho e uma perna só. Ele pulava naquela única perna, matreiro, parecendo muito satisfeito com o pequeno rebuliço causado. Pendendo de um dos cantos de sua boca, um cachimbo.

- São como os elfos-domésticos, senhor Weasley. – Xoloni esclareceu. – Quer dizer... – Ele franziu o cenho, desgostoso. – Não exatamente como os elfos, já que estes aqui evidentemente não gostam de ser mandados. Só o fazem porque alguém os prendeu em uma garrafa antes.

- Isso é escravidão. – Hermione declarou secamente. Harry não duvidava, pela fria indignação na voz da amiga, que ela sabia disso há muito tempo. – Aboliram a escravidão dos elfos-domésticos, mas mantêm a dos sacis.

- Pode estar certa quanto a isso, Sra. Weasley... – Xoloni assentiu. – Mas duvido que vá durar muito tempo mais, de qualquer forma. O Ministério brasileiro está pensando em parar de usá-los. Esses danadinhos causam mais confusão do que ajudam, como podem ver. – Ele indicou os professores, já retornando a suas antigas posições na sala. – Por enquanto, são usados apenas como mensageiros.

Xoloni falou alguma coisa para o saci, em uma língua que não era português, porque senão Harry teria entendido através do feitiço de tradução. Então, a criatura exibiu uma careta que evidentemente indicava o quanto receber ordens o irritava, sumindo em um novo redemoinho, quase não dando tempo para os professores brasileiros impedirem as coisas de caírem.

- Então, como eu ia dizendo, senhores... – O Diretor retomou a conversa, indicando as cadeiras que Rony e Harry haviam deixado, em um pedido mudo para que se sentassem novamente, ele mesmo voltando a sua cadeira. – A ligação entre o guaraná e o Carvalho-Guardião passa, necessariamente, por um segredo que não nos foi dado conhecer.

- Poderia ser um pouco mais um pouco mais específico? – Rony, já impaciente com tantas voltas, interrompeu-o.

- Não estaria se referindo ao fato de que a madeira do Carvalho-Guardião se regenera sempre, e por isso é impossível trabalhá-la... Exceto que se saiba o método? – Hemione, depois de dar uma cotovelada de repreensão no marido, chegou a inclinar-se para frente, impressionada com a possibilidade de vir a saber mais sobre o assunto. – Dizem que é um dos segredos mais bem guardados do Mundo Mágico.

- Exato. – A professora Florinda Silva concordou. – Nem eu mesma, que ministro Herbologia, desconheço esse método.

- Mas então quem...? – Harry não teve tempo de terminar a frase. Trazido pelo redemoinho do saci, um senhor muito idoso entrou na sala. Tinha os cabelos brancos e lisos cortados na altura da nuca. Na cabeça, um longo e alto ornamento feito de palha e penas. Não havia dúvidas: era um índio.

- Senhores... – Xoloni se levantou, respeitoso com a chegada do outro. – Quero que conheçam Antônio Sateré-Mawé, tuxaua (7) dos Saterá-Mawe que estão aqui. Os Saterá-Mawe... São os inventores da cultura do guaraná e... Artesões do carvalho-guardião.



Com certeza, aquele dia entraria para os mais frustrantes da vida de Harry.

Depois de várias horas tentando negociar com o líder indígena, os Sateré-Mawe tinham se recusado até mesmo a comentar se o desenho contido no medalhão de Ravenclaw (transposto para um pedaço de pergaminho) tinha algum significado especial. Tão-pouco obtiveram mais sucesso com a flecha encontrada em Avalon, exceto que reconheceram que era uma manufaturada por seu povo.

A idade do objeto? Quem poderia saber, já que a madeira se auto-regenerava?

Enquanto faziam o caminho de volta pelos corredores, o Diretor Xoloni pedia mil desculpas ao trio, mas não podia fazer nada a respeito da resistência dos Sateré-Mawe em revelar o segredo em torno da madeira da qual o Centro era feito. Havia séculos, quanto os bruxos do Brasil haviam se reunido para construir aquele lugar, os índios haviam concordado em ajudar, fazendo do Carvalho-Guardião o pilar que transformava a escola quase em uma verdadeira fortaleza.

A decisão acabara por se mostrar acertada, pois, ao tentar desvendar o segredo guardado pelos Saterá-Mawe, muitos bruxos arrasaram extensos campos onde originalmente cresciam estas árvores, e, infelizmente, as extinguiram nessas tentativas. O Centro Rio Negro era o único lugar que mantivera as árvores a salvo.

Se os professores brasileiros se mostravam ansiosos para ajudar o famoso trio de bruxos ingleses, os sateré-mawes não pareceram nem um pouco impressionados com o fato deles terem derrotado Voldemort, ou com a presença do “Eleito”. Essa foi a única ocasião, pelo que Harry se lembrava, de que não se importaria que o uso de seu nome influenciasse as decisões das pessoas.

Rony e Hermione ouviam o que seus anfitriões lhes falavam, ainda que de cabeça baixa e tão frustrados quanto ele. Harry, no entanto, caminhava distraído em seus pensamentos, imaginando o que poderia fazer que ainda não tivesse feito, quem sabe uma pequena pista... Se os índios não queriam falar, quem sabe os amigos e ele poderiam achar por si mesmos...

Ruídos altos como o farfalhar de tecidos despertaram Harry de seus pensamentos. O barulho era tão alto que pensou que as estruturas do Centro Rio Negro estavam se desfazendo. Pôs-se imediatamente pronto para pegar o maior número de pessoas que podia e escapar, quando a voz da professora Florinda ressoou, vinda daquelas flores que cresciam por toda a escola:

- Chuva da tarde chegando. Por favor, afastem-se dos corrimãos e parapeitos, e se preparem.

Harry, Rony e Hermione, confusos, voltaram-se para a professora, que acabara de colocar de volta a flor-microfone na respectiva árvore. Ela sorriu e abriu a boca para explicar o que estava acontecendo, mas os ramos e galhos das árvores começaram a crescer e se fechar em torno da estrutura do corredor, cobrindo-o e envolvendo-o. Antes que a folhagem se fechasse por completo e a escuridão os envolvesse, vários globos luminosos foram liberados de um ponto que Harry não conseguiu identificar, e deslizaram pelo teto do comprido corredor, cada um parando em um dos pequenos ocos esféricos que existiam a cada dois os três metros, no teto, e ali pararam.

- As árvores se fecham ao mínimo sinal de perigo ou... Chuva. – A professora brasileira finalmente falou. – O que ocorre todos os dias, ao final da tarde, com uma pontualidade de dar inveja aos britânicos. – Sorriu.

- Ah, me lembro de ter lido isso em... – Hermione começou a dizer,

- “Centro Rio Negro: 300 anos”, nós sabemos. – Rony e Harry disseram ao mesmo tempo.

A chuva não durou muito tempo. Tão rápido como começou, parou, e as árvores retrocederam, como se estivessem encolhendo – exatamente em um movimento contrário do crescimento que vira anteriormente. A luz natural voltou a penetrar nos corredores, e os globos de luz se recolheram novamente. Algo dizia a Harry que eles iriam voltar tão logo a escuridão da noite caísse sobre o Pico da Neblina.

- Incrível... – Ele murmurou.

- Senhor Potter... – O Professor de Alquimia se aproximou, com um envelope na mão. – Ouvi dizer que o senhor mantém contato com Severo Snape. Bem... Se não for muito incômodo, gostaria que entregasse esse convite para vir visitar nossa escola, assim que seja conveniente para ele.

- Snape? – Harry se surpreendeu. – Tem certeza que quer Severo Snape aqui?

- Claro! Os avanços dele no preparo da Poção Mata-Cão são muito conhecidos por aqui. Sentiríamos-nos honrados se ele nos visitasse.

- Puxa! – Foi o máximo que Harry conseguiu murmurar, enquanto o Professor de Alquimia se afastava.

O trio pernoitaria ali, de forma que resolveram conhecer melhor a escola brasileira. Enquanto Rony tentava dissuadir Hermione de assistir a duas palestras intituladas “Boto Rosa: Transfiguração Humana ou uma Nova Espécie de Criatura Mágica?” e “Porque os Pégasos Temem as Iaras: A Derrocada do Simbolismo Machista Frente à Força Feminina”; ele caminhou até um dos quiosques próximos e sentou-se, pensando no que iria fazer agora. Parecia que haviam chegado em outro beco sem saída, e a viagem não serviria para nada, afinal.

- Ssssssssss... Harry... Poterrrrr... – Ouviu um sibilar conhecido, algo que reconheceu imediatamente como a língua das cobras. – É uma honra rever meu ssssalvadorrrr... Ssssss.

Deslizando sobre o assoalho de madeira, Harry viu uma cobra enorme, mais ou menos cinco metros, de cor amarelada. Ficou imóvel, fitando perplexo o ser viperino, até que finalmente disse, hesitante e incrédulo:

- Você... É a cobra que vi no zoológico quando era criança?!? (8)

O animal assentiu com um movimento de cabeça. Então, a cobra havia conseguido voltar para casa!

Depois de alguns momentos, Harry percebeu a aproximação de alguém. Ergueu os olhos e viu um dos jovens aprendizes do ancião sateré-mawe.

- Meu tuxaua viu você falar com a cobra.

A declaração simples gelou-o. Olhou para a direção que o jovem índio indicava com a mão, e viu o líder indígena observando-o do nível imediatamente mais alto do que aquele em que estava. A situação não poderia ser pior. Sua capacidade de ofídioglota nunca tinha sido bem-vista, pois o ligava a Slytherin, Voldermort, e, de uma maneira geral, à Arte das Trevas. Desanimado, Harry viu suas últimas esperanças com o velho índio escoarem-se.

- Não é o que está pensando, eu... – Começou a explicar.

- Isso é bom. – O jovem o interrompeu. – Você é poderoso como um ywania-moi. Ele vai consultar o porantim para saber se é aquele a quem devemos compartilhar o segredo. Venha comigo.

Não havia ninguém com quem dividir o seu assombro além da jibóia, que fixara seu olhar vítreo nele. O animal fez um leve sinal de assentimento com a cabeça, indicando em seguida o jovem índio que saíra, incentivando a ir atrás dele.

Já estava seguindo o rapaz, quando encontrou Rony e Hermione no caminho.

- O que houve? – Hermione perguntou, preocupada, ela e Rony andando ao lado de Harry.

- Não sei. O que é um ywania-moi e um parantim?

Hermione o olhou, confusa, mas simplesmente disse, antes de sair:

- Vou descobrir.

Ele e Rony continuaram a seguir o rapaz índio até o nível superior, onde se encontrava o ancião. Chegando na entrada de uma das construções, o jovem fez um sinal para que esperassem lá fora, enquanto ele entrava. Não muito tempo depois, Hermione voltava, ofegante, com a Professora Florinda.

- Sr. Potter... – A brasileira também tinha dificuldades para respirar por causa da corrida até ali. – Ywania-moi é uma derivação de Moei significa “cobra” na língua deles, e é também uma designação de clã. O “clã das cobras” é de onde vêm os pajés dos Mawes... Ou melhor, Sateré-Mawes... “Sateré” é a designação para o clã dos líderes da tribo.

- Os ywania-moi são ofídioglotas? – Rony perguntou, mais olhando cautelosamente para Harry.

- Sim, é uma característica do clã.

O trio se fitou, comunicando-se silenciosamente.

- E o que é um parantim?

- É um objeto sagrado, uma peça de madeira com aproximadamente um metro e meio de altura, com desenhos geométricos em baixo relevo, recobertos com tinta branca. Lembra uma clava de guerra ou um remo trabalhado. Tem várias funções, entre elas a de servir como uma bola de cristal.

Harry engoliu em seco, sabendo que tinha que refazer rapidamente dois de seus conceitos que mais tinham sido arraigados em Hogwarts: que falar língua de cobra era ruim, e que consultar bolas de cristal era bobagem.

- Você pode entrar. – O rapaz índio tinha retornado. – Só você. – Acrescentou quando viu que Rony e Hermione o seguiam.

- Não tenho nada a esconder deles.

- Nós temos. – O índio disse sem qualquer traço de grosseria na voz, apenas dando a entender que eram cuidadosos com quem revelavam seus segredos.

Harry ouviu a voz do velho índio ressoando lá de dentro, dizendo algo a seu aprendiz. Após escutar atentamente, ele assentiu, deixando-os entrar. A professora Florinda disse que esperaria ali fora.

A primeira coisa que Harry sentiu quando entrou na habitação do velho líder, foi um cheiro marcantemente adocicado. Viu várias cuias onde uma pasta tinha sido amassada, e cujo suco era tomado pelos índios ali presentes.

- Guaraná. – Hermione sussurrou em seu ouvido.

O velho não olhou para eles. Estava extremamente concentrado no objeto que reconheceu como sendo o parantim descrito pela Professora Florinda. O tuxaua fixava o olhar nos símbolos entalhados no objeto de madeira, como se estivesse hipnotizado. Depois do que pareceu uma eternidade para Harry, ele levantou a cabeça, olhou-o no fundo de seus olhos, e disse:

- Algo lhe foi tirado, muito tempo atrás. Se conseguir recuperá-lo, terá provado que os espíritos o consideram dignos de conhecer nossos segredos.

- Senhor... Tantas coisas me foram tiradas! E meu tempo... Nosso tempo – acrescentou olhando para os amigos – Está se esgotando.

- Não, jovem. Ele só começou. Não se afobe, nada poderá ser feito sem recuperar o que perdeu, e então, quando os Tempos Novos chegarem novamente, terá outra chance. – O ancião se levantou, caminhando para os aposentos mais afastados, uma clara indicação que tinha dado a conversa por encerrada. – Então, voltaremos a conversar.

Harry achou melhor não discutir, apesar de seu interior se inquietar, protestando por mais respostas. Afinal, para quem achava que tudo estava perdido, tinha recebido muito. De qualquer forma, tinha que descobrir o que, diabos, era “Tempos Novos”...

------------------

[Um mês depois. Outubro de 2007].


- Carlinhos, ele vai voltar! Lupin descobriu como!

Ana atravessara a sala de casa com a filha nos braços, radiante. Para variar, Carlinhos estava passando poção restauradora para queimaduras - desta vez as chamas de um dragão o tinham atingido no ombro. A esposa estava tão absorvida pela excitação, que desta vez não lhe lançou aquele olhar de “um dia estes dragões vão te matar”, que sempre fazia quando ele chegava em casa com algum ferimento provocado por seus “bichinhos”.

- O quê? Quem vai voltar?

- SIRIUS BLACK! – Ana exclamou como se estivesse falando de um famoso astro do rock. Abaixou a voz em seguida, porque Lizzy começou a fazer os costumeiros resmungos de bebê recém-nascido que não está gostando de tanta agitação. - Isso não é maravilhoso?

- Querida... – Carlinhos se aproximou e, depois que Ana ninou a filha até que ela voltasse a dormir, colocando-a na cestinha acolchoada, tocou a esposa nos ombros e falou como se estivesse diante de uma criança: - Nós já conversamos sobre isso, lembra? Black caiu no Véu da Morte, não há como ele retornar de lá. Sinto muito.

- Você nunca escuta o que eu digo? – Ana pôs as mãos na cintura, e despejou as informações de um fôlego só: – Eu disse que LUPIN achou um meio. Naquele livro pavoroso que ele, Hermione e Snape foram obrigados a traduzir e decifrar, o Livro de Fausto (3). – Ana arrepiou-se só de lembrar daqueles textos horríveis. – Pelo menos alguma coisa boa saiu de lá...

- Espere, espere! – Carlinhos a interrompeu, cada vez mais confuso. – Você sai de casa para se encontrar com minha mãe e outras mulheres, e volta dizendo que vão ressuscitar o Black? – Dava para notar o tom de “absurdo” na voz dele.

Ana respirou fundo e contou tudo do começo. (4) Como Lupin havia chamado sete mulheres, incluindo ela, para fazer parte de uma tentativa de resgate de Sirius Black, usando um dos rituais do Livro de Fausto.

- Mas Ana... Ele está morto! – O queixo de Carlinhos caiu. – Não dá para se “resgatar” alguém da morte.

- Aí é que está: ele não está realmente morto. Quando Sirius caiu por trás do Véu, ele estava bem vivo. Na realidade, ele está é preso lá dentro.

- O próprio Lupin afirmou que não havia como trazê-lo de volta. Ele disse com todas as letras que Sirius estava morto!

- Isso porque até então ninguém sabia desse ritual do livro, e... Bem, parece que tem algo relacionado com Serenna também.

- O que quer dizer?

- Não sei. Acho que Lupin não entrou em detalhes porque Serenna parece se sentir... “Desconfortável” com o assunto.

Carlinhos foi se recuperando da notícia e, quando pareceu que tinha pesado as informações, franziu o cenho e disse:

- Não acho uma boa idéia. Como você mesma disse, aquele livro era pavoroso. Como Lupin pode ter certeza que vai poder dominar corretamente os poderes envolvidos nesta... Neste... Ritual? É magia maligna, Ana, você sabe disso tão bem como eu. Não se pode confiar.

- Eu sei. Mas há uma força da qual não há magia das trevas que dê conta. Algo fundamental, que transforma a natureza das coisas. Lembra quando Voldemort não conseguiu possuir o corpo de Harry por muito tempo? Harry tinha um poder que ele desconhecia, e que não podia vencer. E pelo que entendi... Acho que é nesta parte que Serenna entra.

- Mas isso significaria que ela... Meu Deus, Ana, como poderia ser? Ela não o conheceu...

- Eu não sei. – Ana sorriu, também atordoada com a idéia, mas sabia que não se podia esperar muita racionalidade quando magia estava envolvida. – Só sei que há um caminho, e devemos tentar.

- Vocês vão ter que entrar no véu?

- Não, só a Serenna. Quer dizer... Ao menos fisicamente.

- Ana...

- Espere, deixe-me explicar. Segundo os estudiosos mágicos, existem quatro Universos, ou realidades paralelas. O primeiro deles, no qual nós passamos a maior parte do tempo, é este aqui, e que por isso mesmo costumamos chamá-lo de “Realidade”. Quando estamos despertos e conscientes, estamos nele. Os outros três, apesar de diferentes por diversos pontos, têm em comum uma coisa: se chega até eles através da inconsciência ou ainda do “não-existir”. O Mundo dos Sonhos, o Mundo da Vidência ou da Mente, e... o Mundo dos Mortos. Gina, com o Poder de Arádia, terá que nos separar de nossa própria consciência. O dia 31 de outubro é o mais adequado... Digo, “o único adequado”, porque “a Realidade”, e “O Outro Mundo” se aproximam mais. No entanto, o Mundo da Vidência pode nos desconectar, mas não ligar ao Mundo dos Mortos. É aí que eu entro – o poder dos sonhos é o canal que vai me permitir guiar Serenna e a manter ligada com o “lado de cá”. Na realidade, como pode ver, é até simples.

- Não sei, Ana. Você e minha irmã descobriram seus poderes muito recentemente, não tiveram tempo de aprender a dominá-los.

- Carlinhos... – Ela o tocou suavemente no braço, e em seguida olhou amorosamente para a filha, que dormia tranquilamente. – Se eu não tivesse segurança nos meus poderes, ou no das outras seis mulheres, não me arriscaria, pode ter certeza. Tenho muito que me prende aqui, para perder tudo com um ato impensado.

Ele abaixou os olhos enquanto uma luta interna parecia ser travada. Sabia o quanto Sirius Black significava para os membros da Ordem, especialmente para Harry. Também sabia a importância que dominar o seu dom de Mestra dos Sonhos tinha tido para Ana nos últimos meses, e o quanto o seu voto de confiança nos poderes dela significava. Ainda assim, como dominar o temor que algo lhe acontecesse, que viesse a perder a mulher que amava para sempre?

Na realidade, não havia o que escolher, Carlinhos bem o sabia. Era um Weasley, e em sua família nunca se colocava os próprios desejos na frente do bem estar dos outros, especialmente daqueles a quem se queria bem.

Que fosse. Iriam tentar salvar Sirius Black.



Serenna tinha sumido por trás do Véu pouco depois que as outras seis bruxas terminaram de entoar o feitiço: Ana, Tonks, Gina, Hermione, Molly e Minerva. E então, só restou o silêncio enorme sala do sombrio Véu da Morte.

As bruxas mantinham o círculo unido e aberto, enquanto os demais esperavam o tempo passar, também em um silêncio angustiado. Harry tinha até medo ter esperanças e que no final perdesse não só o padrinho naquele maldito Véu, mas também Serenna.

E, se seu padrinho retornasse, como ele estaria? Teria envelhecido? Estaria bem? Sua consciência estaria intacta? Queria reencontrar Sirius, apresentá-lo aos filhos, todo orgulhoso. Mas, acima de tudo, queria que ele ficasse bem. Há muito tempo que a imagem terrível de Sirius caindo lentamente em direção ao Véu o atormentava, ainda que o sentimento de culpa o tivesse abandonado muito antes que a guerra terminasse. Agora só queria... Só queria ele de volta. Ora bolas, iria cuidar dele, não importava como saísse de lá.

Se saísse.

- Eles estão saindo. Já consigo vê-los – Moody informou, chamando a atenção dos homens para o círculo logo abaixo.

Sentindo como se voltasse àquele instante terrível no seu quinto ano de escola, Harry viu o véu balançar, como se tocado por leve brisa. Desceu até o tablado onde ele estava colocado, aguardando, respiração suspensa, até que o inusitado aconteceu.
Como se tivesse acabado de entrar pelo outro lado, naquele exato momento e não há quase doze anos atrás, Sirius surgiu do meio do véu, terminando a queda que iniciara quando o feitiço de Bellatrix o atingiu.
Seu corpo foi atirado longe, fora do estrado, batendo ruidosamente no chão. Lupin juntou-se a Harry para acudi-lo e foi rápido em usar feitiços curativos e revitalizantes
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Re: Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 09/12/07)

Mensagempor Belzinha » 01/07/08, 10:12

Atenção, gente – A partir do Capítulo 19 pode haver spoilers do LIVRO 7. Por isso, quem ainda não leu e não quer saber, cuidado.

- Capítulo 20 –
O Batizado



[Reino Unido, Novembro de 2007].

A sala da antiga mansão londrina era o palco de uma ocasião sigilosa. A lareira crepitava baixinho, o relógio de parede mal soava o tique-taque das horas e até mesmo o ranger das dobradiças das portas parecia mais suave, como que comungando com o momento secreto.

Aproveitando a semi-escuridão que o término do dia proporcionava, uma sombra deslizou pelo aposento, pé-ante-pé, chegando até uma mesinha de canto. Na parede, a projeção desta sombra revelou o movimento de um rápido escrutínio ao redor, fazendo cabelos compridos balançar sob ombros femininos. Depois, a sombra projetou o esticar de seu braço, até que a mão alcançou um objeto que descansava sob a mesinha: um telefone.

- Alô? – Ana disse em um sussurro, após um curto período de espera, enquanto a ligação era completada. – É da casa da Regina? Aqui é a Ana Weas...

Um grito estridente ressoou pelo fone, obrigando Ana a afastá-lo de seu ouvido com uma careta assustada e dolorida, os tímpanos já bastante sensibilizados.

- Er... Alô? Está tudo bem aí? – Voltou a perguntar quando tudo silenciou do outro lado da linha, e, em seguida, respirou aliviada ao ouvir a voz conhecida que lhe respondia. – Ah, Bruninha, é você! Por um momento pensei que...

Novos barulhos, desta vez indicando que o fone passava desajeitadamente para outras mãos. Ana aguardou, até que outra voz começou a falar rapidamente.

- Oi, Morgana! Sim, é verdade! – Sorriu, pondo-se a tagarelar. – O nome dela é Elizabeth, mas nós a chamamos de Lizzy. Ela tem uns cachinhos negros e olhos azuis brilhantes, e parece um anjinho quando sorri. Pessoalmente, acho que se parece comigo, mas as covinhas são do Carlinhos, e...

Um novo repasse do fone, seguido de um pequeno bufo feminino, indignado. Depois, Ana foi escutando o que lhe dizia uma voz masculina, o semblante da brasileira ficando cada vez mais espantado à medida que ouvia, e depois vermelho como um pimentão:

- Bernardo, seu indecente! – A reprimenda sibilou entre seus lábios como se estivesse dando um puxão de orelha em Rony, seu cunhado. – Eu não vou perguntar para o Harry se ele já comeu queijo com goiabada (1), de jeito nenhum! – A gargalhada de seu interlocutor explodiu do outro lado da linha, fazendo Ana fechar os olhos, impaciente. – Ai, eu não sei por que ainda te levo a sério!

Do outro lado, o fone trocou de mãos novamente, enquanto o seu antigo possuidor ainda estourava de tanto rir.

- Oi, Sô! – A careta foi desaparecendo quando ouviu a voz da próxima amiga, Sô Prates. – Ah, obrigada. Também estou muito feliz. - Novo silêncio, enquanto escutava a pergunta da outra brasileira. – Ah, bem, todos os outros irmãos Weasleys já estão casados, mas acredito que tem tudo para o Percy se divorciar de sua intragável esposa... E aí, vai encarar? – Foi a vez de Ana ter que reprimir a gargalhada, quando ouviu a outra recuar em suas intenções.

- Regina, finalmente! – Exclamou quando a dona da casa enfim conseguira se apoderar do telefone. – Estou ótima, querida, e você? – “Bem, exceto por um certo medalhão misterioso e um prenúncio de morte”, pensou Ana, mas não iria preocupar a amiga com isso. – Por que estou sussurrando? Ah, é que estou na casa do Snape e... Bem, é o “Lar de Elizabeth”, você sabe, o único lugar que consegue fazer aparelhos trouxas funcionarem, em meio a tanta magia... (2) Além do quê, inexplicavelmente o Morcegão conseguiu bloquear o feitiço de inibição do Ministério para aqueles que conhecem os livros. Assim, posso falar livremente aqui, mas não quero chamar a atenção dos pequenos, que agora estão lá em cima, ou jogando quadribol no quintal.

Com um suspiro pesaroso, Ana escutou o que a amiga ia lhe dizendo.

- Ah, eu também estou morrendo de pena que vocês não possam vir para o batizado da Lizzy. Mas juro que mando um montão daquelas fotos bruxas que se mexem! - Ana parou para escutar. – Sim, sim! Isso mesmo! O batizado é amanhã e preciso saber se a madrinha vai chegar a tempo. Não consegui entrar em contato com ela pelos meios bruxos. – Parou novamente, escutando. – Ah, já está a caminho? Que bom! Por um momento, pensei que as férias no Brasil estavam tão boas que a tinham feito esquecer da afilhada!- Riu. – Ok, então a gente se fala outra hora. Sim, pode deixar que escrevo. Manda um abração para todo mundo aí. Beijos!

Ana tinha um monte de coisas para contar, mas resolveu deixar para fazer isso através de uma carta. Principalmente por causa de uma informação, que sabia que iria fazer Bruninha gritar até perder a voz: Sirius Black retornara.

***

A Toca estava em um rebuliço. Mais do que o normal, quero dizer. Os rapazes haviam conjurado mesinhas e cadeiras, que agora estavam espalhadas pelo quintal. No centro de cada mesa, arranjos com pequenas flores brancas e amarelas foram colocadas, sob as toalhas brancas.

Tiveram um pouco de trabalho com os gnomos, que pareciam não entender que não estavam convidados para o batizado... Felizmente, depois Rony e Harry os relembraram como os bruxos “desgnomizavam” seus jardins, as criaturinhas se mantiveram para fora dos limites do cercado da casa dos Weasleys.

Tia Agatha fora outra que tivera que ser convencida de que A Toca era o melhor local para a comemoração acontecer, uma vez que Smith House ficava um tanto deslocada para os convidados trouxas, como Tio Antônio e Tia Bianca, e Marcos e Patrícia, pais de Mel e Felipe. Agatha achava que o bem-estar de todos os seus afetos dependia dela, mas os sentimentos da boa senhora foram salvos quando a sra. Weasley requereu a sua ajuda na preparação de tudo.

- Parece que não sobrou muito para a MÃE da batizada fazer... – Ana resmungou.

O dia estava gloriosamente ensolarado para o mês de novembro, e tudo estava correndo bem. Havia tanta gente para o batizado de Lizzy – afinal, somados, os Weasleys e os Smiths já seriam considerados uma multidão – que o quintal da Toca havia se transformado em um mar de branco brilhante das toalhas das mesas, e apinhado de gente. Até mesmo tia Muriel havia aparecido (sim, ela ainda está viva).

- Aqui estou, para o batizado do primeiro filho. – Ia dizendo a anciã, enquanto arrastava os pés até o quintal, para onde Carlinhos a estava conduzindo com toda a paciência que conseguira reunir. - Não pude ir ao casamento, mas ninguém esperava que com a minha idade eu fosse até o Brasil, era só o que me faltava! Minha saúde, como sabe, não anda nada boa...

- Ah, todos nós acompanhamos com ansiedade seu estado de saúde, tia Muriel. - Ana disse, a frase soando claramente em duplo sentido. - Deus sabe que, se a senhora passar por mais um século, todos nós gritaremos!

Muriel voltou o pescoço, olhando Ana com um misto de surpresa e desgosto. Não poderia retrucar, porque seria dar certeza a uma ofensa incerta. Por isso, limitou-se a bufar e se sentar na cadeira puxada por Carlinhos, e descontar a frustração na primeira pessoa que viu: Hermione.

- Continua magra demais. – Foi o único comentário, após pousar os olhos na ex-grifinória por apenas alguns segundos.

- Mas... Eu estou grávida! – Hermione disse, confusa, para Ana.

De fato, Hermione apresentava o ventre avolumado de uma mulher em estado adiantado de gravidez. Ela e Rony esperavam o irmãozinho ou a irmãzinha do pequeno Sirius. (3)

- Até parece que você não conhece tia Muriel, Hermione. – Gina se aproximou trazendo consigo Serenna e Luíza. – Ué... – Olhou ao redor, procurando alguém. – Cadê a madrinha?

- Ela está lá dentro, curtindo a afilhada. – Ana respondeu, fazendo um movimento de mão despreocupado.

Saindo pela porta dos fundos da Toca que dava para o quintal, justamente onde elas estavam, uma mulher jovem e com a expressão risonha apareceu trazendo nos braços um bebê. Tendo ouvido o comentário de Ana, acrescentou:

- Na realidade, a Lizzy precisou trocar de frauda e a Ana me disse: “Sally Owens, está na hora de assumir seu papel de madrinha”.

***

Em uma mesa próxima, Harry discutia com Rony, Tonks, Lupin, Snape e Sirius os acontecimentos dos últimos meses. Relembraram o que tinham de informação e tentavam esclarecer os pontos obscuros.

- O que o velho índio quis dizer com Tempos Novos? – Sirius, agora inteirado do que havia acontecido nos doze anos que esteve ausente, quis saber.

- Isto é o mais engraçado. Ana me disse que é um termo utilizado pelos índios do sul, não daqueles com os quais falamos no Centro Rio Negro. Ela achou estranho o ancião ter usado esta expressão. Mas, de qualquer forma, “Tempos Novos” é um período que corresponde à época das chuvas, no verão do Hemisfério Sul.

- Que começa em dezembro. – Lupin completou, fazendo Harry assentir.

- Tanto tempo assim? E se o ancião estiver errado? – Sirius interveio. – Ou ainda, se o que estão procurando se mostrar no final uma pista falsa? Vão esperar que o pior aconteça? – Ele praticamente estava exortando os outros a agir.

- O chefe indígena apontou um sinal: algo que eu havia perdido há muito tempo retornaria para mim.

- E, realmente, voltou. – Lupin pôs a mão no ombro de Sirius, sorrindo para o amigo.

- Eu? – Sirius estava surpreso. – Mas como isto teria alguma ligação com a minha volta? Afinal, vocês acharam o Livro de Fausto, onde estava o ritual para me trazer de volta, por outro motivo. E Serenna...

Snape fez uma cara feia.

- Quero dizer, a senhorita Snape... – Sirius corrigiu-se, mas era evidente que se divertia com a irritação de seu antigo inimigo.

- Parece que minha irmã e eu já temos nosso lugar nesse mistério explicado. – Snape o interrompeu novamente. – Quando o tirou do véu, é provável que Serenna estivesse cumprindo um dever há muito tempo determinado... Ainda que admitir isso me desgoste profundamente.

Sirius limitou-se a erguer uma sobrancelha, intrigado. O Morcegão - o padrinho de Harry adorou o apelido que os trouxas haviam dado ao “personagem” - conseguia tirá-lo do sério com aquela mania de falar sem explicar nada, só para fazer os outros terem de admitir a própria ignorância. Mas Harry não estava disposto a perder a paciência com o ex-professor no dia do batizado da sobrinha.

- Ao saber que o chefe índio havia mencionado uma época em específico – Ele retomou as explicações -, Lupin desconfiou que tivesse alguma relação com um fenômeno que se repete em intervalos regulares...

- Sim. – Lupin continuou, empolgado. – Estações, marés, luas, florescimento de plantas... Mas, no final, tudo se resume a uma coisa: o movimento dos planetas. E, se voltarmos a observar a outra ponta do nosso mistério, ou seja, Avalon...

- O Zodíaco de Glastonbury! – Rony balançou a cabeça, vendo que tudo se encaixava.

- Certo, Harry já me contou sobre isso. – Sirius falou depois de alguns segundos. – Mas o quê Serenna... – Ele se interrompeu quando Snape pigarreou. – Por Merlim, Seboso, você sabe tão bem quanto eu que sua irmã está ligada a mim de uma forma bem... Íntima, desde que me tirou daquela quase-morte do véu! Então pare de exigir que eu a trate de maneira formal, porque isto não se encaixa na situação.

- Está ligada mesmo, Black? – O outro questionou, um brilho raivoso desperto no olhar, diante do apelido ofensivo que Sirius e os outros Marotos lhe deram quando eram adolescentes. – Que eu saiba o ritual não se completou, e somente se... SE minha irmã assim o consentir se completará.

- Merlim, vocês dois querem estragar o batizado da Lizzy? – Tonks se pronunciou pela primeira vez, fazendo os dois homens se calarem, constrangidos. – Tratem de falar mais baixo! O que Lupin quer dizer, Sirius, é que Serenna pode ser um dos gêmeos do Zodíaco.

Sirius piscou várias vezes, aturdido e confuso com a revelação.

- Tá... Agora mesmo que não entendi nada.

- A amiga de Ana, Luíza, a que ativou o feitiço que estava no medalhão de Ravenclaw quando o tocou, nos mostrou o trabalho de reconstituição dos símbolos que ela está fazendo. Não é muito, mas foi o suficiente para perceber que se trata de um manual de instruções.

- Um manual para quê?

- Para abrir um portal. - Harry respondeu. – E acreditamos que são necessárias doze pessoas para abri-lo.

- Ou melhor, treze. – Snape o corrigiu.

- Serenna é uma delas. – Sirius fez uma afirmativa, mas mesmo assim o afilhado assentiu com a cabeça. Então, Sirius se voltou para Snape, cínico: – Sendo ela um dos gêmeos, você seria o outro. Espera aí... Vocês disseram treze? Mas há só doze signos. Ah, claro, treze, pois para Gêmeos seriam necessárias duas pessoas para um signo só.

Lupin balançou a cabeça negativamente:

- Bem, pensando bem, talvez seja melhor dizermos que são necessárias <i>catorze</i> pessoas. No Zodíaco de Glastonbury há doze signos e um “Décimo Terceiro Gigante”. O Cão de Langport, localizado fora do círculo, próximo a Gêmeos, cujo focinho corresponde à estrela de... Sirius.

- Merlim... – Sirius estava estarrecido. – Serenna... Ela já...

- Não, e gostaria que não contasse, Black. Minha irmã não está preparada. Precisa de tempo até mesmo para entender a natureza do vínculo que se formou entre vocês naquele véu antes de ouvir falar sobre o Zodíaco.

- Escute aqui, Seb...

- Sirius, Sirius! – Tonks interveio. – Foi Ana quem pediu isso. Foi ela quem fez a ligação de vocês três com o Zodíaco pela primeira vez, depois que Lupin expôs suas teorias para a Ordem. Ela pediu para deixarmos que ela conte, aos poucos, tudo para Serenna.

- Bem, se é assim... Vou fingir que nada sei. – Sirius aquiesceu, ainda que a contragosto. Em seguida, mudou de assunto: - Então, teremos que esperar até dezembro, ou mais ainda. Como saberemos o momento certo e quem são os outros dos signos?

- Não sabemos. – Harry respondeu após um silêncio pesado que se fez na mesa. – Nossa única esperança é que Luíza termine de transcrever os símbolos a tempo.

As pessoas da mesa se voltaram para a moça, sentada entre as amigas no outro lado do quintal. Era estranho, mas a solução para um mistério do Mundo Mágico estava nas mãos de uma única trouxa.

Rony se remexeu em sua cadeira, daquele jeito que Harry conhecia como sinal de que algo o estava incomodando. Olhou para o amigo e ele estava com o olhar distante, enquanto coçava distraidamente o pulso onde um dia o bracelete que receberam para enfrentar Voldemort estivera. (3)

- Rony, você está coçando o braço de novo. – Ele sussurrou para o ruivo. – Você tem feito isso toda vez que mencionamos Avalon.

- Mesmo? – Rony parecia surpreso. – Não tinha me dado conta... – Então, ele sussurrou de volta: – Harry, tenho maus pressentimentos sobre isso tudo. Eu não sei o que é. Algo instintivo, sabe? Como quando me deparo com uma aranha, como se algo irracional dentro de mim dissesse que há perigo.

- Desde quando sente isso? – Harry estava preocupado.

Rony avermelhou, pois tinha entendido a mensagem oculta na pergunta: ele tinha escondido isto por quanto tempo dele, o seu melhor amigo?

- Desde que Hermione teve aquele sonho.

***

Aquele refúgio a poucos quilômetros de Londres era providencial para quem queria que sua estada no país passasse despercebida. O <i>château</i> tinha proporções modestas para aquele tipo de construção, sem deixar de ser confortável e elegante.

Renzo Leone estava agora sentado na biblioteca, enquanto aguardava seu homem de confiança retornar com as últimas informações sobre o medalhão. Marcella estava com ele, embora sua companhia fosse extremamente desagradável, em virtude do mau humor da mulher. No entanto, precisava dos conhecimentos dela sobre o objeto e não podia se dar ao luxo de dispensá-la.

Finalmente, a porta se abriu e o criado, muito formalmente – Dio, como os criados ingleses o aborreciam! -, anunciou a chegada do inglês que esperavam. Como previu, Marcella continuava desaprovando o britânico tanto quanto antes, e fez questão de demonstrar isso com um torcer de lábios de desprezo, embora fosse evidente que a morena estava ansiosa pelas notícias que ele trazia.

- E então? – Renzo intimou o outro assim que foram deixados a sós.

- Nosso informante disse que a moça, que é sempre vista com os membros da Ordem da Fênix, é amiga de uma das esposas dos filhos dos Weasleys. – O inglês respondeu. – O nome dela é Luíza Esteves.

- Não é bruxa? – Marcella interrompeu-o.

- Não. – O inglês franziu o cenho, aborrecido com a interrupção. – Mas nós já desconfiávamos disso, não é mesmo?

Marcella remexeu-se desconfortavelmente em sua cadeira. Saber daquelas coisas era responsabilidade dela.

- Não, não esperávamos. – Foi tudo o que ela disse.

- O nome dela não é inglês. – Constatou Renzo. – É estrangeira?

- Sim. Tomei a liberdade de solicitar um dossiê assim que tive a confirmação da identidade da moça. – O inglês respondeu, entregando uma pasta ao outro homem.

O italiano a abriu e, à medida que ia desvendando seu conteúdo, resumia em voz alta as informações e passava a documentação para Marcella:

- Brasileira... Nascida em 12 de julho de 1983, em Salvador, Bahia. Até os três anos não falava... e chegou a ser diagnosticada como <i>deficiente mental</i>! O pai abandonou a família quando tinha quatro anos. Ahá! – Sorriu, triunfante, para Marcella. – Pouco depois finalmente foi identificada como uma criança com o QI acima da média e... Possuidora de uma impressionante memória fotográfica.

- E não temos todos nós? – Marcela franziu o nariz, com desprezo.

- Cara... – Renzo trocou um olhar divertido com o jovem inglês, antes de continuar. – Não precisa ficar tão enciumada por esta brasileira ter acionado o medalhão em vez de você!

- Eu é que devia tê-lo encontrado primeiro! - Ela exclamou, levantando o queixo, os olhos brilhando de indignação e raiva. – Não uma qualquer que nem tem a capacidade de reconhecer a honra de ter tocado naquele medalhão!

- Mas não foi você, cara. Aceite isso de uma vez, e também aceite que precisamos da moça.

Marcella bufou e voltou a atenção para os documentos. Renzo continuou a ler o relatório:

- Depois que o pai as abandonou, ela e a mãe se mudaram para São Paulo, onde a mãe a criou sozinha até que morreu, de câncer, quando Luíza tinha 17 anos...

- Ah, por favor, quanto drama! – Marcella ironizou. – Mais um pouco vai me fazer chorar!

- Duvido que alguma vez tenha chorado em sua vida, Marcella. – Renzo comentou. – Bem, mas nessa época a moça tinha avançado vários anos de estudo, graças a sua inteligência incomum, e concluído a primeira faculdade. Formada em Física, Matemática e Ciências da Computação, com especialização em Linguagem em Código... Ah!

- O que foi? – O homem inglês quis saber.

- Entrou, aos vinte e um anos, na Agência Brasileira de Inteligência. – Renzo leu um trecho em particular do relatório. – A amiga de que falou, a que tem ligação com os Weasleys... É a esposa de Carlos Weasley, Ana, não é?

- Exatamente. – O mais jovem respondeu.

- Nossos informantes dizem que ela esteve intervindo no Ministério da Magia, em 1997, um ano antes do fim da Guerra Bruxa.

- E daí? – Marcela deu de ombros.

- Daí que há registros de atividades dela na mesma época no Brasil. No <i>mesmo</i> momento.

- Ora, um viratempo...

- Não existem mais, cara mia. O último foi possuído por Hermione Granger, e foi destruído antes de Ana Weasley aparecer. Os bruxos mexeram com o tempo de alguma outra forma. Isso me intrigou na época em que soube, mas não é essa a questão. O fato é que, como fiquei interessado nessa peça do quebra-cabeças, acabei descobrindo algo interessante sobre a jovem senhora Weasley... Ela é uma Mestra dos Sonhos.

- É claro! – Marcella fechou os olhos, como se algo finalmente fizesse sentido.

- Não entendo. – Disse o inglês. – O que é um Mestre dos Sonhos?

- Uma habilidade comum entre bruxos ameríndios. – Marcella respondeu. - Alguém que tem a capacidade de não só transitar no Mundo dos Sonhos, como de... Manejá-lo, de certa forma. E é um poder muito similar à natureza daquele que as sacerdotisas de Avalon tinham. Provavelmente foi isso que reabasteceu o Medalhão antes que a outra moça o tocasse. Nos meus estudos, eu desconfiei que Rowena Ravenclaw não se arriscaria a manter um objeto mágico com uma grande carga de magia dentro dele... Seria arriscado, outros bruxos o pressentiriam. Então, a alternativa seria um objeto capaz de conseguir energia por si mesmo, quando fosse necessário.

- E o quê teria feito...?

- Não sei. – Marcella se antecipou à pergunta. – É possível que nunca saibamos. Mas... Isso é tudo sobre essa garota, a que acionou o medalhão?

– Não... Quando ouvi o nome me lembrei imediatamente de ter lido o nome dela nos jornais bruxos. A moça ficou subitamente noiva de Zacharias Smith.

- Uma artimanha para manter uma não-bruxa no Mundo Mágico, sem dúvida. – O italiano concluiu. – Muito esperto. E, é claro, deve ter dedo de Ana Weasley aqui também. Ela e Smith são parentes, descendentes diretos de Helga Hufflepuff. – E riu em seguida: – Pobre moça, logo com Zacharias Smith.

Marcella pegou um recorte do “Profeta Diário” e observou atentamente a foto bruxa do rapaz, estampada na manchete que anunciava o noivado. Um sorriso malicioso brincou em seus lábios:

- Não a chamaria de “pobre moça” com tanta convicção, Renzo. – Tocou com o dedo indicador nas ondas do cabelo loiro que se via na foto, deslizando para a covinha do queixo quadrado. – Apesar do que se diz do rapaz nos livros de Rowling, até que ele é muito atraente.

- Cara, sei que está frustrada pela brasileira ter chegado primeiro no medalhão. – Renzo franziu o cenho. - Mas não vou permitir que estrague tudo descontando sua raiva em uma disputa de sedução com o suposto noivo dela.

- Por que não? – Pela primeira vez a voz de Marcella continha júbilo. – Seria unir o útil ao agradável...

- Talvez. – Renzo cedeu, depois de pensar alguns segundos. – Discutiremos isso mais tarde. – E, voltando-se para o homem mais jovem: - Seu informante disse onde está o medalhão?

- Estava com Remo Lupin até bem pouco tempo. Então, algo os fez deixá-lo na posse da senhorita Esteves. Provavelmente porque ela está decifrando a informação que o medalhão revelou.

- A informação que eu devia estar estudando! – Marcella voltou a se inconformar.

- Onde ela está? – Renzo não deu importância para as lamúrias da italiana.

- Com a tia de Smith, Agatha, em Hogsmeade. – Ele balançou a cabeça negativamente. – Sei em que está pensando, Renzo, e já pensei nisso também. Não há como chegar até ela enquanto estiver em território bruxo. E, também, tirar o medalhão deles muito cedo pode lhes dar a vantagem de ter tempo. Tempo para nos seguir e impedir.

- E o que sugere? – O italiano ergueu uma sobrancelha.

- Meu informante diz que Smith e a noiva comparecerão a um jantar de confraternização no Ministério da Magia, em dezembro, perto do Natal. Como medida de segurança, as lareiras mágicas estarão bloqueadas, e a entrada de visitantes será obrigatória...

- E eles terão que transitar pela Londres Trouxa. – Renzo concluiu.

- Exatamente. Em uma época bem próxima da mudança de estação.

- Como podem ter certeza que o medalhão estará com ela? – Marcella perguntou.

- Ora, você não o teria sempre consigo, se tivesse a posse dele? – Vendo que a italiana não tinha argumentos contra isso, ele continuou: - Sabemos que ela não se separa do medalhão. Está ansiosa para decifrá-lo, teme que algo ruim aconteça a seus amigos se não o fizer a tempo.

- Não conseguirá ter o conhecimento total antes da hora, a tola. – Marcella desdenhou. – Não é o tempo que é importante, mas a oportunidade.

Renzo deu ordens para que o inglês reunisse seu pessoal do Reino Unido e planejassem a execução do plano. Enquanto isso, esperariam... E observariam.

***

Tinham obtido a permissão da Diretora McGonagall para deixar Hogwarts e comparecer ao batizado de Lizzy, na Toca. Na verdade, o fato da própria Diretora ter comparecido (Ana enfatizou muito bem que fazia questão que Minerva comparecesse) facilitou bastante.

- E então, Josh? – Hector perguntou assim que o amigo apareceu na porta da despensa onde tinham se escondido para “confabular”. – Conseguiu ouvir alguma coisa?

Joshua tinha sido escolhido, “via palitinho”, para se esgueirar entre as mesas e, escondido, tentar ouvir a conversa dos adultos.

No entanto, nesse momento, o som de passos pelo corredor foi ouvido, e Danna, que estava mais próxima da porta, puxou o amigo para dentro da despensa antes que alguém os visse.

- Então, assim que a turnê das Esquisitonas voltar para a Inglaterra, Myra me disse que vai me apresentar a todo o pessoal da banda...

- Seu tio namora mesmo a irmã de Myron Wagtail? O vocalista?

Felipe parou e voltou-se para um dos garotos Smiths que havia feito a pergunta. Havia um grupo com quem ele rapidamente fizera amizade.

- É, mas eu gostei muito mais de conhecer a Myra. – Ele continuou andando, sendo seguido pelos demais. – Foi muito legal. Principalmente a parte de ser sugado por um chiclete...

As vozes foram sumindo, e Mel fez um muxoxo desgostoso. O irmão deveria os estar ajudando, mas tudo indicava que tinha outros planos em mente.

- E então, Josh? – A voz da menina saiu um tanto impaciente.

O menino sentou-se no chão, tentando não esbarrar em ninguém na semi-escuridão da pequena despensa.

- É um portal. Avalon é um portal.

- Um portal para onde? – Andy questionou.

- Não sei... Ninguém falou nada sobre isso. – A voz do lufa-lufa saiu envergonhada. Mas vocês vão cair para trás quando eu contar o resto...

***

Harry observava Zacharias Smith despistar o terceiro Smith a tentar importuná-lo com o assunto de seu casamento. Eles o haviam interpelado no caminho que ambos faziam até a cozinha da Toca, onde o primeiro “pelotão” da família estava amontoado, aguardando para tirar fotos com os pais e a batizada.

Aos poucos, as fotos foram tiradas, e o local, se esvaziando. Colin Creevey tinha se prontificado e, claro, Luna aproveitou para pegar Rony e Harry para uma entrevista. Rony havia dado um jeito de escapar há uns dez minutos. Harry, que tinha grande dificuldade em ser grosseiro com Luna, não teve tanta sorte.

Quanto finalmente a última foto foi tirada (e Zacharias e Luíza estavam nela), Colin teve a infeliz idéia de chamar o ex-lufa-lufa para perguntar a mesma coisa que os outros jornalistas, restaram na sala apenas Luna, Zacharias, Colin e ele.

- Não, Creevey.

- Ok, vou entrevistar sua noiva. – Ele parou subitamente ao ver o semblante carregado de Zacharias. – Er... A Luna entrevista, então?

- Creevey!

- Ok, ok. Sem entrevistas, entendi.

Em vez de ficar chateada, Luna sorriu e soltou um risinho divertido. Passou por Zacharias com um olhar que só podia significar “eu sei de tudo”, e saiu da sala com o marido.

- Não pode fugir para sempre, Smith. – Harry disse, brincalhão.

- Não estou fugindo, Potter, estou sendo cauteloso, e poupando Luíza... Dela mesma, quem sabe! – O loiro fez um gesto largo para cima, indicando impaciência.

Apesar de tudo, Harry teve que concordar. Zacharias Smith estava assumindo, pela primeira vez em doze anos, um papel de cooperação na Ordem da Fênix. Tinha concordado em fingir um noivado com Luíza para que ela ficasse no Mundo Mágico. Agüentara o bombardeio da imprensa e da própria família por causa disso, e ainda era ele quem praticamente montava guarda ao lado da brasileira.

Não agüentava mais. Tinha que perguntar.

- Posso te perguntar uma coisa, Zacharias? – O outro parou e se voltou para Harry. – Fugir nunca foi seu estilo. O medo de ser impopular não te deteve de questionar meus motivos quando começamos a AD. Também foi capaz de fazer comentários bem ofensivos diante de um estádio de quadribol repleto de grifinórios...

- E daí?

- Daí que isso não se encaixa com alguém é o primeiro a fugir de um combate, enquanto seus colegas de Casa e ano ficam para lutar.

Harry fez uma pausa, analisando as reações do homem à sua frente. Zacharias pareceu bem mais tenso do que embaraçado, como se estivesse lutando para manter as palavras dentro de si.

- Só não achei que você valesse a pena. – Zacharias finalmente respondeu, com o desdém de quem pretendia declarar o assunto encerrado.

Harry insistiu, não se deixando enganar:

- Pode ser que eu não valesse a pena, mas seus amigos sim.

- É, esse sou eu, Potter: o insuportável, covarde e egoísta Zacharias Smith. Capaz de abandonar amigos, mulheres e crianças. – O sarcasmo foi deliberadamente atirado na frase como facas afiadas. - Fico surpreso que ainda não saiba, principalmente quando minha personalidade até virou parte da literatura trouxa.

Qualquer outro teria concordado com a veracidade daquelas palavras e recuado. Mas não Harry. Durante anos havia suportado ser o alvo desse mesmo tipo cortante de defesa, e de alguém bem mais temível do que Zacharias.

- Não sabia que tinha observado tão bem o Snape todos esses anos a ponto de imitá-lo com perfeição, Smith. – Cruzou os braços, mantendo o olhar firme sobre o loiro. O leve sorriso em seus lábios indicava que pretendia levar aquela conversa até o fim. – Vou ter que discordar, já que ter entrado na AD não foi a atitude de alguém covarde e egoísta.

- Já que mencionou Snape, talvez ele esteja certo sobre uma coisa, no das contas. Tem uma tendência a pensar que tudo gira em torno de você, Potter. Já imaginou que algumas pessoas tenham entrado na AD não para seguir o fabuloso Harry Potter em sua luta contra o mal, mas simplesmente por curiosidade?

- Se fosse assim, Zacharias, você teria saído dela no dia seguinte, quando Umbridge declarou que as associações de alunos estavam proibidas. Ou então nos dias seguintes, quando Umbridge e a Brigada Inquisitorial fechavam cada vez mais o cerco contra nós. Quem é egoísta e covarde já teria nos entregado para salvar a própria pele.

- Eu sou um lufa-lufa! – Ele exclamou, indignado. – Não seria desleal!

- Exatamente. – Harry sorriu, triunfante.

- Não me sentia leal a você, Potter.

- Mas sim aos seus amigos, os mesmos que iriam arriscar as vidas naquela batalha! Por que não acaba com isso de uma vez, Zacharias, e me diz a verdadeira razão de ter saído correndo do Salão Principal na noite da Batalha de Hogwarts?

Zach passou as mãos pelos cabelos, a pose arrogante sendo substituída por um cansaço incrédulo:

- Por que insiste em arranjar desculpas para o meu comportamento?

Aí estava uma boa pergunta, Harry pensou. Observando reflexivamente o rosto do homem à sua frente, buscou a razão para tanto empenho agora, depois de tantos anos. E, quando finalmente a encontrou, olhou Zacharias no fundo dos olhos para ter certeza de que o outro veria a sinceridade em suas palavras:

- Por que ninguém mais o fez, nem mesmo você.

Zacharias se deu por vencido.

- O túnel que a Armada usava para entrar e sair de Hogwarts. Eu coloquei uma maldição mortal nele.

Os olhos de Harry se alargaram. A declaração era terrível demais, nunca imaginou que...

- Você tentou matar as pessoas da Armada?!? – Ele sentia, ele sabia que a qualquer momento iria para cima de Zacharias. Imagens dos corpos ainda adolescentes de seus colegas, mutilados, assombravam sua mente, enfurecendo-o.

- Não! – Zacharias apressou-se a explicar, pressentindo a fúria de Harry. – Não, jamais! A maldição não era para eles, mas para os Carrows!

Foi neste momento que se deu conta que já estava com as mãos no colarinho de Zacharias, sacudindo-o. Afrouxou lentamente o aperto, afastando-se com a mesma lentidão, o olhar confuso e desconfiado nunca deixando o seu rosto.

- Os Carrows haviam descoberto que era através do Verruga de Javali que os revoltosos eram abastecidos. – Zacharias continuou, parecendo miserável. – Não podiam encontrar a entrada para o esconderijo, mas em determinado momento desconfiaram que em algum lugar havia uma saída para fora de Hogwarts.

Zacharias relatou como estava escondido atrás de uma tapeçaria quando os irmãos Carrow haviam discutido seus planos de invadir o Verruga do Javali, prender e torturar Alberforth Dumbledore, e o mandar para a prisão secreta dos Comensais. De como riram quando disseram que, quanto aos “pirralhos” não deixariam nem mesmo um para contar a história.

Ele não era parte dos que se escondiam na Sala Precisa, mas tinha as pessoas não deixavam de contar as últimas notícias que tinham da resistência dentro do castelo perto dele, e ele sabia que ninguém passaria pelo túnel por mais uns dias, embora estivessem esperando por mais refugiados.

- Eu estava cansado de ouvir gritos de alunos sendo torturados. – A narrativa saía em um ritmo contínuo, angustiado, uma torrente de palavras que, depois de anos escondidas, não podia ser contido. - Às vezes, à noite, eles duravam horas e horas...

E ele também tinha pesadelos, à noite. Sonhava que o estavam obrigando a torturar seus amigos. Em seus pesadelos, quanto mais gritava para o usarem no lugar deles, mais e mais os Comensais machucavam aos outros. E, então, ele acordava para descobrir que a realidade era pior do que os sonhos.

- Eu os odiava. – Disse fervorosamente. - De todo o meu coração, eu os queria mortos. Então, quando ouvi o que pretendiam fazer, decidi que eles morreriam lá, naquele túnel. Durante todos aqueles meses tudo o que eles nos ensinaram era a fazer sofrer e matar, então, eu lhes mostraria o <i>bom aluno</i> que eu tinha sido... Agora vejo que eu devia estar louco, atordoado com todo aquele horror, mas naquela época o mundo me parecia insano, era como se o fim do mundo realmente estivesse próximo e nada mais importava.

- Como... Como conseguiu colocar o feitiço? Você teria que passar pelo lado de Alberforth ou pelo dos refugiados. Além disso... Nós, Hermione, Rony e eu usamos o túnel naquele mesmo dia, e nada nos aconteceu.

- É... – Zacharias riu um riso desprovido de humor. – Vocês estragaram tudo, não é irônico? Eu tinha me escondido em uma das carruagens que levavam comida para Hogwarts, foi assim que cheguei a Hogsmeade despercebido. Quando deram o alarme na vila, todos os Comensais ficaram tão alvoroçados que não acharam importante verificar uma carroça de alimentos que estava saindo de Hogwarts, e não entrando – afinal, todos queriam pegar o Potter, a possibilidade de um aluno fugir ficou esquecida por um momento.

Um bom tempo passou até que pudesse sair de seu esconderijo. As coisas na vila tinham se acalmado e, então, viu o movimento no Verruga de Javali. Os Weasleys, os Lupin... A movimentação lá era grande e o pobre Alberforth estava tão descontente e desorientado ao ter que dar passagem a todos eles que Zacharias pôde entrar na estalagem sem ser visto. Ouviu quando disseram para Alberforth não deixar mais ninguém entrar.

Não confiava em ninguém, e estava confuso demais para raciocinar que, se se revelasse e contasse para eles o que sabia... Tudo o que conseguia pensar era em se mandar escondido, colocar o feitiço e parar o Carrows, parar aquela loucura, a dor.

Jogou uma pedra do lado de fora, e, enquanto Alberforth corria para verificar o que era, entrou atrás da pintura da menina, lançou o feitiço mortal que exigia sangue para ser quebrado (Harry lembrava bem qual era) e seguiu túnel adentro, até a Sala Precisa – agora vazia.

- Eu não tinha idéia que você estava no castelo – Zacharias disse -, muito menos que tinham dado o alerta. Os Carrows, em vez de seguirem para Hogsmeade e te procurar no Verruga de Javali, como eu pensei que fariam, permaneceram no castelo, a sua caça e...

- Quando o túnel foi mencionado como rota de fuga, você percebeu que iria matar a todos. – Harry concluiu, finalmente entendo a gravidade do que quase ocorrera. – Então, por que você não disse, simplesmente, o que tinha feito?

- Bem que eu gostaria de ter voltado a mim a tempo, mas quando os burburinhos e a confusão ao meu redor voltaram a ter significado, e o horror do que eu tinha feito passou, as pessoas já estavam se organizando entre as que ficariam lutando com você, e as que deixariam o castelo em segurança. Merlim! Como acha que me senti quando vi os primeiroanistas encabeçando a fila dos que passariam pelo túnel? Eu corri o mais rápido que pude, quase passei por cima dos calouros. Tinha que chegar primeiro ao outro lado do túnel e desfazer a maldição. – Zacharias emitiu uma risada curta e desdenhosa, enquanto mostrava a cicatriz esbranquiçada no pulso: - Dei o meu próprio sangue. Não foi exatamente um corte cirúrgico, mas não tinha muito tempo.

- Por que, Zacharias, por que não contou isso depois? – Harry não conseguia entender.

- Eu tinha dezessete anos, Potter, e tinha lançado uma maldição mortal, magia negra das mais sórdidas, é claro. A guerra tinha sido vencida pelos bonzinhos, afinal, e, na minha cabeça, tinha me rebaixado aos métodos dos nossos inimigos, enquanto meus amigos mantiveram-se imaculados, honrados – até mesmo lutaram ao seu lado. Ah, e é claro, não vamos esquecer que eu não tinha dúvidas que iria para Azkaban. Viagem sem volta, lembra? Por ter usado a Arte das Trevas. Depois de tudo, achei que preferia ser considerado covarde que assassino.

Os anos foram passando, e Zacharias não viu motivo para dizer a verdade. Na realidade, ficava cada vez mais difícil dizê-la. Quem acreditaria nele? A história parecia mirabolante demais até para ele! Não, definitivamente não queria adicionar “mentiroso” à sua lista pública de defeitos.

Após alguns segundos de silêncio, Harry finalmente se pronunciou:

- Eu achei que você me odiava por achar que eu bancava o herói.

- Não, Harry. – Zacharias sorriu, sem-graça. – Eu te odiava porque estava meio apaixonado pela Gina.

- Eu pensei que você e a Alicia... – Harry pestanejou, surpreso, e não sabendo se tinha recebido bem a “notícia”.

Zacharias fez que não com a cabeça e, alguém que estava escondido sob as sobras da escada se moveu silenciosamente para fora do recinto, sem que os dois homens notassem.

- Eu era adolescente, Potter. Apaixonava-me por todas as garotas em que punha os olhos. Fique tranqüilo.

- E quem disse que estava preocupado? Sabe, é uma mentira deslavada, essa dos lufas serem honestos. Porque do contrário, ou você não seria da Lufa-Lufa, ou então não seria o cretino miserável que é.

Zacharias soltou uma gargalhada sincera pela primeira vez desde que iniciaram a conversa, e Harry o acompanhou – um riso aliviado, exorcizando os fantasmas do passado.

- Venha, Zach. – Harry o convidou. – Ouvi dizer que Carlinhos comprou uma boa quantidade de cerveja amanteigada. Não vamos fazer a desfeita de não aproveitar.

****

- Uau, quem é aquele ali parecido com o Orlando Bloom?

Ana voltou-se para a direção em que Sônia Sag apontava e percebeu que se referia às mesas ocupadas pelos Smiths. Sônia era outra de suas amigas que havia acabado de chegar.

- Sô, ali só tem loiros... E o Orlando Bloom é moreno!

- Bom, me refiro ao Orlando Bloom na versão “Legolas” do Senhor dos Anéis. – Ela explicou.

- Caramba, eu tenho um primo parecido com o Orlando Bloom e não me dei conta? Meu amor pelo Carlinhos deve ter me cegado para outros homens.

- Não olhe para mim, também sou casada. – Sally comentou, pois também não tinha percebido o tal sósia do Orlando Bloom.

- Pode deixar meninas, que “eu” me mantenho atenta a estas questões por todas nós. – Sônia declarou com um sorriso travesso. – Aliás, nossa pequena Lizzy não quer ir falar com o vovô e a vovó? Tia Sônia vai te levar até lá, querida, vem com a tia, vem... – Ela estendeu as mãos, chamando a bebê.

Lizzy estendeu os bracinhos e sorriu, contente com a festa que a moça lhe fazia.

- Sô, você está usando minha filha para flertar? – Ana pôs a mão na cintura, fingindo estar indignada.

- Eu? Por que acha isso?

- Ah, sei lá, quem sabe porque “coincidentemente” o senhor e a senhora Weasley estão sentados perto do... “Orlando Bloom”.

- Mesmo? Nem tinha percebido... – Ela piscou marotamente e saiu com Lizzy.

Ana observou a amiga se afastar um pouco, antes de dizer:

- Desembucha, Sally Owens. Você está querendo me dizer algo desde que chegou.

- Ah, ok. – A outra suspirou, aliviada. – Estive pensando no que me contou, sobre o medalhão, e tudo mais. – Sally era membro honorário da Ordem, por isso Ana não teve dúvidas em procurá-la. – E acho que seu amuleto funcionou como um catalisador.

Ana olhou para o “Olho-Que-Tudo-Vê” que havia ganhado de presente de Carlinhos, na lua-de-mel de ambos.

- Mas... É só um souvenir.

- Um souvenir do olho esquerdo de Horus – disse ela apontando para o objeto, preso como um pingente em uma corrente no pescoço de Ana. – O olho esquerdo é a representação do feminino, da emoção, da intuição.

- Pela Deusa! – Ana sussurrou.

- Exatamente: pela Deusa. – Sally balançou a cabeça, concordando. – Se o medalhão está ligado à Ravenclaw, e ela, por sua vez, à Avalon... Bem, uma certa doze de poder feminino está relacionado com a primeira manifestação do objeto. Além disso, Hermione e Gina tiveram sonhos. Mulheres e sonhos, o que me leva à segunda suposição: ele utilizou seu poder, Ana, para as manifestações seguintes.

- Mas por que eu?

- Provavelmente porque era o que estava disponível. – Sally riu.

- Ah, valeu, amiga, isso me alegra muito. – Ironizou e, em seguida, disse em um tom lamentoso e agonizado: - Com toda a sinceridade, Sally, estou cansada de ser usada por objetos enfeitiçados! Espere aí... E porque Hermione e Gina?

- Estive pensando nisso. Gina é uma sétima filha: mais poder feminino envolvido.

- Posso lhe garantir que tanto eu quanto Hermione somos filhas únicas. – Ana declarou, impaciente.

- Por isso descartei isso e optei por ser algo relacionado aos Weasley. – Sally disse muito calmamente.

- Então voltamos ao ponto inicial: minhas outras cunhadas não tiveram sonho algum.

- Eu quis dizer sangue Weasley.

- Sally, acho que você tem trabalhado demais. – Ana ergueu uma sobrancelha. - Isso está afetando seu raciocínio. Lembre-se que tanto eu quanto Hermione somos Weasleys por casamento. É possível que algum Weasley tenha se casado com um Smith há uns cem anos atrás, mas Hermione se orgulha muito de ser sangue trouxa puríssimo.

- Sim, Weasleys por casamento... E que, quando tiveram contato com os poderes do medalhão, carregavam Weasleys de sangue no ventre.

- Wow! – Ana arregalou muito os olhos.

- É. – Sally concordou com a amiga, solenemente: - Wow!

----

A festa do batizado estava quase no fim quando a coruja do Ministério apareceu. Pousou o envelope amarelado com o timbre oficial do Governo Bruxo no colo de Zacharias e desapareceu.

Enrugando a testa, ele abriu o envelope e o leu, o semblante cada vez mais fechado à medida que lia.

- O que é isso, querido? – Agatha finalmente perguntou pegando o papel das mãos do sobrinho, sem se importar de pedir permissão. – Oh, mas que... Ousadia deles! – Agatha exclamou, exacerbada. – Houve uma época em que um Ministro não teria peito de dizer uma coisa dessas a um Smith sem pensar muito antes, devo dizer... Oh! – Ela parou, envergonhada. – Isso soou tão esnobe quanto eu acho que soou?

- Não... – Tranqüilizou Hermione.

- Sim. – Disse Gina, ao mesmo tempo, rindo para Agatha.

Agatha sorriu para ambas, que considerava suas sobrinhas também.

- Na realidade, tia, acho que eles pensaram antes, sim. Ouvi dizer que eles costumam mandar berradores para dar este tipo de ultimato.

- O que é, afinal? – Ana perguntou.

- O Ministério está, muito humildemente informando, que meu prazo para me casar com a senhorita Luíza Esteves vai terminar neste mês.

Luíza enrubesceu imediatamente, e desviou o olhar da expressão acusadora de Zacharias.

- Devo me casar neste prazo ou enviá-la para que os obliviadores apaguem a sua memória do Mundo Bruxo. – “E para que eu receba as devidas penalidades”, Zacharias acrescentou mentalmente.

- Ah, mas eu não estou nem na metade do caminho para decifrar aqueles símbolos! – Luíza disse, angustiada. – Eu não posso ir embora. Não ainda.

- Não se preocupe, o Ministério não vai ter como mandá-la embora. – Zacharias declarou, enfático.

- Como assim? O que isso quer dizer?

- Isso quer dizer... Que teremos que nos casar.

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(1) Ler a fic “Quadribol” do Bernardo. (Na Floreios e Borrões).
(2) Ler “O Paciente Inglês” e “Close To You”, da Regina McGonagall (Floreios e Borrões e Grimmauld Place).
(3) Ler Harry Potter e o Retorno das Trevas, da Sally Owens. (Floreios e Borrões e Grimmauld Place).

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Re: Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 01/07/08)

Mensagempor julie granger » 09/08/08, 22:34

Oie belzinha!
estou acompanhando sua fic como vc diz.. em silencio.. comecei aler o segredo de sonserina e sérioooo não consgeui parar! foram vinte e um capitulos se não me engano lidos em uma madrugada!
dps lógico tive que começar o segredo de corvinal! percebi que vc ainda não acabou o que é muito triste para mim pois tenhop um sede enorme por terminar algo quando começo!
mas vou esperar pacientemente, alias estou ainda no capitulo 15 desta no fic mas estou certa que daki a pouco já irei devorar o resto!

Elogios? sim ENORMES! vc escreve muito bem eh bastante detalhista sim confesso que muita informação de uma vez deixa a leitura cansativa igual vc faz sempre que vai contar a história de alguem e fala que este eh filho deste que eh parente dakele! alias eh muito dificil trabalhar com muitos personagems pq as vezes vc acaba se confundindo!
e simm vou ler as fic o retorno das trevas! pq pela mor de deus vc fala tnata e logia tanto que não tem como nãon ter curiosidade!
estou no forum desde 2005 mas entre indas e vindas só agora me interessei pelas fic.
estou adorando as suas! então menina! não perca o ritmo hehehe!
nem a conheço mas o jeito como vc escreve e se expressa me encanta!
beijinhus e continuaa ai!
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Re: Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 01/07/08)

Mensagempor julie granger » 18/08/08, 23:02

acabei de ler o ultimo capitulo que vc escreveuu! e onde vc anda?????????? preciso de mais!!!
vou ler o da sally agora! pq do jeito que vc elogia ela deve ser mto boa!

beijosss e volta logo!
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Re: Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 01/07/08)

Mensagempor Nany*Potter » 30/09/08, 12:47

Belzinha que matar essa pobre leitora de angustia ?
menina eu particamente vigio sua fic para ver se você atualizou, pos ta logo por favor
to morrendo de curiosidade para saber o que acontece a seguir...
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Re: Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 01/07/08)

Mensagempor Belzinha » 11/10/08, 19:11

Olá!

Gente, pode ter spoilers do livro 7 depois do capítulo 19... então, cuidado (apesar de achar que todo mundo já leu mesmo, então...

Julie e Nany: muito, muito obrigada mesmo. Espero que ainda não tenham desistido da fic.

Um abraço!

Capítulo 21
Crime e Castigo


Talvez fosse castigo por ter sido tão intransigente durante a sua vida. Afinal, não poderia achar, nem que quisesse muito e procurasse em todo o planeta, alguém mais perdido, frágil e desprovido de senso de autopreservação. E justo esta pessoa se tornara a sua noiva.

Devia ser alguma espécie de piada moral. Logo ele, Zacharias Smith, que não perdoava um erro, um deslize - cuja língua ferina era capaz de fazer o mais confiante dos homens hesitar - agora era obrigado a ser uma espécie de guardião para essa mulher trouxa. Ele não queria ser o herói de nenhuma mulher, que droga! Ninguém tinha menos talento ou paciência para isso do que ele.

Mas não, ele tinha que salvar a “pobre donzela” naquele dia em Hogsmeade!

- Eles o quê? – Viu-se fazendo a pergunta retórica para a moça sentada a sua frente, em uma mesa na Dedosdemel.

Zacharias tinha ouvido e entendido perfeitamente o que Luíza havia dito. Apenas queria um canal para extravasar sua incredulidade e impaciência, ao mesmo tempo em que esperava que sua rispidez a fizesse cair em si.

- Elas simplesmente devem estar ocupadas... – Ela deu de ombros nervosamente. – O lugar está cheio mesmo.

- Você não acredita nisso. – Declarou secamente. – Chegou dez minutos antes que eu e ainda não foi atendida, apesar de tentar chamar a atenção das garçonetes, que a ignoraram ostensivamente.

Luíza engoliu em seco e seu olhar se turvou. As palavras continham uma verdade crua que a moça compreendeu de imediato. Era evidente que ela estava tentando ignorar esta mesma verdade, empurrando-a para o fundo de sua mente e enganando a si mesma para não se magoar. No entanto, ele havia dado um golpe certeiro com suas palavras, fazendo desmoronar o castelo de ilusões.

Zacharias tinha se acostumado a dizer o que pensava, sem se importar em magoar as pessoas – isso era apenas um detalhe desconfortável, um momento a ser suportado por um bem maior. Dizia o que achava que as pessoas deviam saber, o que era melhor para elas, e ponto final. E fazia tanto tempo que ele tinha aceitado essa forma de agir como sendo de sua natureza, que se surpreendeu quando a mágoa no olhar da brasileira o atingiu tão profundamente. Ele estava se sentindo mais do que culpado ou envergonhado. Ele sentia a dor junto com ela.

“Oh, droga!”, ele pensou, esforçando-se em manter a frieza.

- Vá até o gerente e exija ser atendida. – Comandou, evitando o seu olhar enquanto abria um exemplar do Profeta Diário e fingia interesse nele.

- Como é? Por quê? – Mais do que confusa, ela estava em pânico.

- Porque eu não ligo de estar noivo de uma trouxa – ele declarou friamente - mas ficaria profundamente irritado se dissessem por aí que minha noiva tem sangue de barata.

Alguns segundos de silêncio se passaram enquanto ele esperava que a moça estivesse furiosa o suficiente para suplantar a autopiedade.

- Você é a criatura mais detestável de todo o universo! – Ela declarou em um sussurro irritado. – Seria pedir demais que meu “noivo” resolvesse isso, poupando-me de um momento constrangedor, não é?

Em nenhum momento ele tirou os olhos do jornal:

- Sim, seria. Especialmente porque seu noivo sou eu. Mas pode trocar de noivo, se não estiver satisfeita.

- Eu deveria fazer isso mesmo. – Ela devolveu a ameaça.

- Vá. Até. O. Gerente. – Zacharias sibilou entre os dentes cerrados, finalmente olhando para ela, mas a moça já estava se levantando e indo até o encarregado do local.

Não sabia o que tinha dado nele, mas vira tudo vermelho quando ela disse que procuraria outro noivo. Possivelmente, porque percebera que vários bruxos que estavam sentados ali mesmo se candidatariam alegremente para o cargo. Lançou um olhar feroz para um deles, que imediatamente parou de admirar sua “noiva”.

Ele não se importava com ela, é claro! “De forma alguma”, apressou-se a repetir isso para si mesmo. Só que, uma vez obrigado a fingir, não lhe agradava que as pessoas pensassem que fosse um covarde que não defendia “seu território”. Então, um sujeito lançava olhares cobiçosos para sua noiva e ele não fazia nada? Oh, não mesmo!

Quanto às garçonetes, tinha certeza que estavam ignorando Luíza por dois motivos: inveja e preconceito. Preconceito porque Luíza era uma trouxa. No Mundo Bruxo ainda havia os que se ressentiam da presença de não-bruxos, especialmente os “sangues-puros” e os abortos, como sabia que a maioria daquelas garçonetes eram. E a inveja foi alimentada por Rita Skeeter e seus comentários venenosos no Profeta Diário. Duvidava que houvesse uma única pessoa no Mundo Bruxo que não soubesse quem Luíza era, tamanha a publicidade que a repórter tinha dado ao “romance” deles.

Observou a moça se aproximar do gerente. Viu quando ela ergueu os ombros, engoliu em seco e, parecendo estar enchendo-se de coragem, empinou o nariz e franziu o cenho em uma exata cópia da expressão de sua prima Ana quando se zangava. O tempo todo ele fingia estar lendo o jornal, com o exemplar aberto diante de si, mas mantendo-o estrategicamente em um ângulo de onde poderia “espiar” sem ser descoberto.

Estava apreensivo, por mais que tentasse não ficar, não dar importância. Com que diabos, não conseguia parar de pensar que se aquele gerente ferisse os sentimentos de Luíza... Apertaria o pescoço dele até que ficasse azul! Em reflexo de seus pensamentos, seus dedos apertaram com tanta força o jornal que o papel se rasgou debaixo de seus polegares.

Por fim, o gerente ficou muito vermelho e nervoso quando Luíza terminou de falar. Ficou ainda pior depois que seu olhar cruzou o de Zacharias, que não disfarçou o brilho perigoso em seus olhos, por cima do jornal. Mais alguns segundos de gestos obsequiosos e apologéticos, seguidos de sorrisos de toda a amabilidade, o homenzinho chamou uma das moças que minutos antes fingiam não ter visto Luíza. Zacharias quase sentiu pena da moça. Quase. Era evidente que ela e suas colegas estavam em apuros. Bem feito.

Luíza retornou, triunfante. Mais rápido do que ele poderia dizer “accio”, a garçonete apareceu atrás dela com o pedido. Zacharias tratou de dobrar e esconder o jornal antes que a moça percebesse o rasgo que a pressão de seus dedos tinha feito nele. Não queria que ela soubesse que estava observando-a e, pior ainda, preocupando-se com ela.

Assim que a garçonete se foi, ele perguntou:

- Como se sente agora?

Não foi preciso explicasse do que estava falando. Luíza entendeu-o perfeitamente, como demonstrou a forma como ela levantou lentamente o rosto e o encarou enquanto um sorriso tímido, mas satisfeito, ia crescendo em sua face:

- Ótima. – Ela respondeu simplesmente.

- Foi o que eu pensei. – Zacharias comentou, devolvendo o sorriso.

Então, ele limpou a garganta e fingiu estar muito interessado na comida à frente dele. Teria sido impressão ou ela o olhou com algo próximo à gratidão e respeito? De repente, havia um enorme vazio em seu estômago, como se um precipício estivesse justamente lá. Não sabia se era bom ou se era ruim, só que era... Desconhecido. E lhe dava medo.

***

Myra havia adiado o máximo possível o momento de ir até a Inglaterra com Fernando. Até que chegou um ponto em que não conseguiu mais conter a enérgica decisão do seu namorado em conhecer o irmão dela.

Myron Wagtail, o vocalista da banda bruxa “As Esquisitonas”. Que Morgana a protegesse! Nada de bom poderia sair disso, especialmente porque Nando era completamente alheio à existência de bruxos. Bruxos... Como ela mesma.

Nando nem mesmo se importou pelo fato de ser dezembro, mês em que sua própria banda – La Mancha e os Moinhos de Vento – mais tinha possibilidade de fechar contratos. Quando Myra adiou pela quarta vez a viagem deles, teve a brilhante idéia de dar uma desculpa em que só estaria livre no fim do ano, contando que ele não iria poder ir nessa época. Para sua surpresa, Nando desmarcou os próprios compromissos e anunciou que iria com ela! Myra ficou sem saída.

- Tenho certeza que deveríamos visitar primeiro sua prima Ana. – Ela argumentou, assim que saíram da casa que havia alugado aos arredores de Londres, fingindo que aquela era onde morava. A sua verdadeira casa era em uma vizinhança bruxa, mas não poderia nem sonhar levar Nando ali. – Faz muito tempo que não a vê e, além disso, não conheceu a filhinha dela ainda.

- Hum... É, acho que tem razão. – Nando concordou pensativamente. – Ainda assim...

- O quê? – Perguntou alarmada, pois via que ele estava coçando o queixo, e aprendera que isso não era bom sinal.

- Não sei, eu... – Suspirou. – Myra, às vezes eu tenho a impressão que está me escondendo alguma coisa. E também que não quer me apresentar seu irmão. Ou seria as duas coisas a mesma? Está escondendo seu irmão de mim?

- Não! – Ela apressou-se a negar enfaticamente, mas em seguida confessou: - Não, é que... Na verdade... Bem, meu irmão é um pouco excêntrico. – Ela mordeu os lábios, esperando que “excêntrico” fosse só o que o namorado achasse de estranho em Myron.

Ele riu:

- E isso vem de alguém que pinta os cabelos de cor lavanda!

Ora, ela não pintava o cabelo. Era uma metamorfomaga, mas não tinha como corrigi-lo sem ter que explicar o que era uma metamorfomaga; não tinha como explicar sem dizer que era uma bruxa e... Bem, estava fora de cogitação.

- Deve ter razão, eu suponho... – Ela engoliu em seco, tentando sorrir. – Se quiser, podemos pegar um... – Hesitou, pensando pela primeira vez em que meios trouxas deveria usar - ...trem. É. Um trem até a casa de campo de Myron. Tenho quase certeza que é lá que ele está com a quarta ou quinta senhora Myron Wagtail...

- Quarta ou quinta?

- É... – Myra ruborizou-se por ter que contar as trapalhadas do irmão mais velho. – Tenho quase certeza que na terceira vez que Myron se casou, ele estava bêbado e... Bem, no dia seguinte o casamento foi anulado. Não tenho bem certeza, então... Eu nunca sei qual é o “número” da esposa atual.

Myra suspirou. No fundo, tinha a impressão que o jeito maluco de seu irmão era a forma dele de procurar a felicidade. Acontece que ela duvidava que iria encontrá-la assim.

- Não, acho que você está certa. – Ele sorriu de uma forma muito bonita e Myra teve a impressão que cedia porque tinha entendido o seu desconforto em relação ao irmão. - Vamos visitar a minha prima. Podemos ir amanhã ou depois. Afinal, você já a avisou que estamos no país e... Aliás, como conseguiu? Contatar a Ana virou um dos mistérios da minha família!

- Er... Por carta. – Respondeu simplesmente.

Não que ir visitar a prima bruxa de Fernando não lhe fosse desconfortável. Afinal, ela havia levantado a suspeita de que Myra tivesse enfeitiçado o primo! Ainda sentia uma onda de indignação muito grande contra Ana Weasley, mas os meses com uma amiga em comum intercedendo – no caso, a amiga era Tonks – aplacaram-na o suficiente para ser “civilizada”. E, é claro, muito melhor ir com Fernando à casa de alguém que já estava acostumada a esconder o Mundo Bruxo dele do que... Bem, Myron era capaz de fazer um elfo doméstico trazer firewhisky para as visitas.

Enquanto caminhavam pelas calçadas repletas de trouxas, que já se agitavam no frenesi do Natal, Myra tentava imaginar o que poderia fazer para ganhar mais tempo, quando...

- Uma livraria! – Nando exclamou. – Vamos entrar? Estive torturando minha cabeça estes dias, tentando pensar em um presente para minha sobrinha, Mel, e... – Ele riu. – É tão óbvio! Acho que sei até mesmo que livro comprar.

Uma livraria. Sim, o que poderia ser mais inofensivo do que uma livraria trouxa? Assentiu para ele com um momento de cabeça.

Assim que ultrapassou a porta da loja, Myra podia jurar que sentiu um puxão. De fato, agora se lembrava que tinha um compromisso urgente a cumprir. Não se lembrava exatamente qual era, mas estava segura que era lá fora. Deu meia-volta, a cabeça vazia de tudo mais que não fosse a necessidade premente de sair da livraria.

- Querida! – Nando a puxou suavemente de volta para dentro. – Onde está indo?

- Eu... – Ela piscou várias vezes, aturdida. – Não sei.

Nando sorriu de forma condescendente e a guiou para o fundo da loja, onde estavam os livros infanto-juvenis. A necessidade inexplicável de sair dali assaltou-a novamente, mas a mão firme de Fernando a manteve caminhando através da loja.

- Deixe-me ver... Tem que estar por aqui em algum lugar... Afinal, isto é uma livraria inglesa, deve estar em algum lugar por aqui...

Myra não estava entendendo porque estava tendo aquela vontade de ir embora. Era mais forte do que ela. Se não fosse por Nando a estar segurando...

- Ah, aqui! – Nando exclamou quando seus olhos aparentemente localizaram o que estava procurando. Ele a soltou, a mão que antes estava em no braço dela foi capturar um volume da estante colorida.

Tão logo se viu livre, Myra fez um movimento de partida. Mas não antes de seus olhos verem de relance o título do livro.

- Que curioso! – Ela exclamou. De repente, foi como se as cordas que a puxavam para fora da loja se rompessem. Toda a sua atenção estava no livro que Nando segurava. – Eu conheço... – Ela ia dizer que conhecia alguém com o mesmo nome do livro, mas ele a interrompeu.

- É claro que conhece! – Ele riu. – Pelo que sei, Harry Potter foi o responsável por colocar a Inglaterra de volta no mapa. Ao menos, é o que minha sobrinha diz.

Myra ficou sem fala. Ainda que pudesse falar, não saberia ao certo se devia dizer algo. Certamente devia ser uma coincidência. Por isso olhou novamente para o livro e... Oh, Merlim, a capa! Havia o desenho de três crianças com varinhas e uma delas... Seguramente tinha uma cicatriz em forma de raio na testa!

- Vou ver se acho um vendedor. – Nando declarou pouco antes de sair da sessão de livros infanto-juvenis, que era praticamente isolada do resto da livraria.

Como... Isso não era possível! Os trouxas tinham livros sobre o “Eleito”? Sabiam sobre o “Menino-Que-Sobreviveu”? Myra sentiu-se mal e o mundo começou a girar ao redor dela.

De tão tonta, não percebeu o barulho de Aparatação ao seu lado.

- Senhorita Wagtail? – Um homem perguntou ao seu lado.

- Sim? – A sua voz soou distante para ela mesma.

- Sou Ernesto Macmillan, do Ministério da Magia. A senhora precisa vir comigo.

Antes que Myra pudesse protestar, outros dois homens com o uniforme de Aurores a seguraram pelos braços e desaparataram, levando-a com eles.

***

Smith House estava uma balbúrdia. Os convidados estavam chegando para o casamento e Luíza ainda estava se aprontando.

Ana não sabia como tinha conseguido passar pela prova dos “cem metros com barreira” que era ter que administrar um marido perdido com a roupa de gala, uma filha recém-nascida que resolvia vomitar na roupinha nova no último minuto (e ela estava uma graça de vestidinho de veludo!) e uma melhor amiga prestes a ter um ataque de nervos.

- Não posso, Ana, não posso! – Luíza sussurrou desesperadamente em seu ouvido quando Madame Malkins saiu do quarto.

Ana sentiu uma pontada de culpa. Luíza estava fazendo tudo isto por ela e por sua família. Mas não podia forçá-la a ir adiante com a farsa até o ponto de se casar com Zacharias. Se bem que ela poderia ter dito isso antes do bufê ser encomendado, dos convites serem enviados e de mais de seiscentas pessoas estarem em Smith House para assistir ao casamento!

Ia dizer justamente isso, mas tia Agatha e Madame Malkins entraram no quarto.

- Aqui está, minha querida! – Agatha dirigiu-se à Luíza. - O broche Hufflepuff. – Na palma da mão de Agatha, cintilava um broche oval dourado, com uma pedra de ônix ao centro. – E este é o cinturão nupcial do qual mais gosto. – Na outra mão, Agatha sustentava uma longa corrente de pequenos sóis de ouro, todos com pedras negras ao centro.

Como estava próxima da noiva, Ana pôde ouvir o arfar que ela emitiu, um misto de encantamento, horror e culpa.

- De fato, este cinturão é o mais adequado ao modelo do vestido. – Madame Malkins comentou. - E é o que mais se aproxima do original, também.

- Original? – Luíza perguntou.

Agatha assentiu e, com um movimento de varinha em direção ao corredor, fez com que um enorme quadro flutuasse até o quarto onde elas estavam.

- Esta – disse apontando para a pintura – é Helga Hufflepuff, no dia de seu casamento com sir Seamus Smith.

Era a imagem de uma jovem lady de cabelos loiros que lhe caíam até o quadril, como uma cascata. O vestido branco era bordado com fios dourados, sendo que o trabalhado era mais intenso na barra do vestido, e rareava à medida em que se aproximava do joelho. Nos braços, viam-se mangas duplas; a de baixo era justa e ia até o punho, trabalhado em dourado; e por cima desta outra manga se alargava a partir do cotovelo, pendendo dos braços como um sino até a altura do joelho. Do ombro até o cotovelo, o tecido era ligeiramente bufante, sendo demarcado também com um detalhe dourado no cotovelo. No peito, um desenho em “v” feito com a mesma fita dourada. Finalmente, entre o decote-princesa e o desenho em “v”, um broche; e a cintura era demarcada com um cinturão dourado com pedras preciosas.

E, sem dúvidas, era igual ao vestido que Luíza usava agora, faltando apenas o broche e o cinturão.

- Estes não são os verdadeiros, é claro. – Tia Agatha ia dizendo, referindo-se ao broche e o cinturão que já estava colocando em uma estarrecida Luíza, ajudada por Madame Malkins. – Os verdadeiros se perderam há séculos. Deste então, nós temos vários, diferentes entre si, para serem usados nos casamentos da família.

Assim que os adornos estavam postos, Agatha deu uns passos para trás para admirar o resultado:

- Ah, minha querida, você está uma perfeita noiva Smith!

- Eu... Obrigada. – Luíza disse com dificuldade. Para Ana, mais parecia que haviam colocado uma tonelada sobre os ombros da moça.

- Bem, agora que a noiva está pronta, eu vou dar uma última olhada nas coisas lá em baixo e já subo com a tiara... Oh, daí sim, você estará pronta! A tiara é tão linda! Venha, Madame, quero lhe mostrar... – A voz de tia Agatha foi sumindo à medida que Madame Malkins e ela iam se afastando no corredor.

Luíza voltou-se para Ana, continuando a frase desesperada que tinha sido interrompida pela chegada das senhoras (agora ainda mais desesperada que antes):

- Ana... Isso tudo está grande demais! Olha quanta gente! E essas jóias... Meu Deus, eu não tenho o direito de estar aqui as usando enquanto... Enquanto engano essas pessoas! E o vestido... – os olhos pousaram no retrato de Helga Hufflepuff.

- Você não está enganando ninguém, Lú. Quer dizer... Não as pessoas que importam. Zacharias sabe. Tia Agatha sabe. – Ana tentou sorrir. – E você está maravilhosa!

Luíza olhou-a, zangada:

- Eu pareço um ovo frito. – Falou referindo-se à combinação predominante de branco e amarelo. Com uma rápida olhada para baixo, acrescentou: - E com alguns pontos queimados. – Desta vez falava das pedras preciosas negras.

- Não parece não! – Ana contestou.

- Eu não me lembro de você ter sido obrigada a usar um vestido igual.

- Bem, seria um pouco difícil explicar todo esse aparato medieval para os meus parentes trouxas, não acha? – Ana pôs as mãos na cintura, impaciente. – E pelo amor de Deus, olhe-se no espelho, mulher!

Passando do discurso à ação, Ana girou o grande espelho que estava em frente à cama em direção da noiva, para que ela pudesse apreciar a própria imagem.

- Eu... Eu... – Ela piscou várias vezes, consternada. – Estou tão diferente! Não pareço comigo mesma. Quer dizer, não recordo alguma fez na minha vida ter parecido assim.

- Assim como? – Ana ergueu uma sobrancelha.

Mas a conversa foi novamente interrompida pela entrada de tia Agatha (a velhinha parecia mais entusiasmada com o casamento que a noiva).

- Aqui! A tiara! – Agatha carregava uma fina jóia em ouro forjada em um círculo. Era uma barra de metal sem grandes trabalhos elaborados que colocou cuidadosamente nos cabelos presos de Luíza. A simplicidade da tiara só fez ressaltar a beleza dos demais ornamentos e deu à noiva uma dignidade majestosa.

Madame Malkis aprumou os ombros, suspirou e disse, com um sorriso:

- Assim que a ver, seu noivo não terá dúvidas de que não há outra mulher mais bonita do que você.

Nenhuma das senhoras presentes percebeu quando Luíza, longe aparentar lisonjeio com o comentário, estremeceu. O choro de um bêbe foi ouvido e Ana pediu licença para atender a filha, que tinha estado dormindo no quarto da frente. Foi como que sincronizado, porque tia Agatha disse que, agora que a noiva estava pronta, iria avisar o funcionário do Ministério. Assim que se assegurasse que tudo estava pronto, voltaria para dizer à Luíza que poderia descer. Madame Malkins, tendo terminado seu trabalho, foi tomar seu lugar entre os convidados.

Vendo-se sozinha, Luíza deixou que um gemido baixo escapasse de seus lábios. “Nenhuma mulher mais bonita que você...”, as palavras de Madame Malkins ressoavam em sua cabeça torturantemente.

- Não posso, não posso...

Ela precisava sair dali.

***

Serenna Snape precisava tomar ar fresco urgentemente. Ainda que lá fora a temperatura pudesse ser traduzida como “um frio de doer”, já que estavam em dezembro e a neve cobria tudo. Felizmente, parara de nevar na noite anterior.

Smith House resplandecia com a decoração para o casamento. Seu lindo salão estava repleto de flores brancas como a neve que cobria o lado de fora. Queria poder ficar lá dentro, admirar as pessoas e o clima festivo que sempre a cativara nos casamentos, mas desta vez sentia-se sufocada. E o problema não era o ambiente fechado e a multidão que ele abrigava, mas a presença de uma pessoa em especial que a deixava confusa e irritada.

Sirius Black.

Desde que o resgatara no último Dia das Bruxas, tirando-o de sua prisão por trás do Véu da Morte, os dois tinham uma espécie de ligação que ela não sabia explicar. Oh, a quem queria enganar, essa ligação vinha de muito antes, quando ainda era uma menina e sonhava com lobos negros e florestas escuras... (1)

Quando não estavam brigando feito cão e gato, Sirius ficava cercando-a como um cachorrinho impaciente que não pudesse se conter. E ela bem que tentava manter a indiferença, mas aqueles olhos claros a desconcertavam, tão profundos e brilhantes!

Serenna balançou a cabeça, tentando desviar-se dos pensamentos perigosos. Precisa de tempo para entender o que estava acontecendo. Nunca fora do tipo que toma decisões precipitadas, ao contrário, sempre fora a mais sensata de seus irmãos. Mas vira e mexe, lá estava Sirius Black – e ele indiscutivelmente desestabilizava a sua paz de espírito – parecendo esperar que algo mudasse de uma hora para outra, que ela se desse conta de algo... Mas o quê? Aliás, parecia que todos sabiam de algo que ela não estava sabendo, o que piorava a situação.

Eram muitas coisas com as quais tinha que se acostumar. O fato de não ser somente a filha adotiva dos Laurents, mas a irmã-gêmea seqüestrada de um bruxo inglês. O fato de ela mesma ser uma bruxa. De seu irmão ser um “personagem” de livros de fantasia, e logo um dos que tinham o humor mais difícil: Severo Snape. Arrematando tudo, que agora vivia cercada de “personagens de fantasia”.

Encostou-se em uma das paredes, suspirando casadamente. Mas logo se forçou a manter uma expressão neutra, porque estava na entrada e ainda havia convidados chegando. De fato, duas mulheres, uma de meia-idade e outra idosa subiam as escadas naquele momento. Pararam subitamente no segundo degrau e olharam espantadas para cima. Intrigada, Serenna girou e ergueu a cabeça o máximo que pode, já que estava bem rente à parede, para enxergar as janelas dos andares superiores, que era para onde as mulheres pareciam estar olhando.

Assim que focalizou o que estava acontecendo, teve que sufocar um grito, tampando a boca com as duas mãos. Luíza, a noiva, estava do lado de fora da janela, com vestido branco e tudo, equilibrando-se precariamente entre as telhas da varanda que existia abaixo da janela de um dos quartos.

- Eu bem que deveria imaginar. – A voz da mulher idosa soou desaprovadora e fatídica, após a surpresa ter sumido de seu rosto. – Nem casou, e Zacharias já conseguiu fazer a própria noiva fugir!

A outra senhora concordou silenciosamente, a cabeça balançando em negativa desdenhosa. Serenna deixou o olhar chocado pairar sobre as duas senhoras por segundos, aos poucos tomando consciência de duas coisas urgentes: tinha que tirar Luíza de lá (o que ela estava fazendo, por Deus?), e precisava impedir que a notícia se espalhasse ou a moça iria se sentir ainda pior quando recuperasse o juízo.

- Não! É que... – Engoliu em seco, vasculhando uma desculpa desesperadamente. – É uma tradição brasileira. A noiva sobe em um lugar bem alto para... Para demonstrar que seu olhar está em novos horizontes!

“Nossa”, Serenna fechou os olhos. Se houvesse um prêmio para a “Pior Mentira do Século”, ela ganharia com certeza. Ela costumava ser boa no pensamento rápido, como precisava ser alguém que cresceu entre as traquinagens dos filhos dos Laurents. Poderia ter arranjado algo melhor, se as circunstâncias não a tivessem pegado tão desprevenida, filosofando a respeito de Sirius Black.

- Tradição? – O motivo de seu constante estado meditativo materializou-se à suas costas. – Que tradição?

- O que está fazendo aqui? – Ela levou um susto.

- Ora, fui convidado, como você.

- Quis dizer aqui fora. – Ela falou rapidamente, temendo não dar conta de tantos desdobramentos em uma situação já urgente.

- Estava sem graça lá dentro sem você. – Ele deu ombros e sorriu inocentemente, mas o efeito era sedutor demais para não ser percebido. – E que história é essa de tradição... – Ele olhou para cima. – Ai, Merlim! – Sirius chegou a dar um pulo com o susto de ver uma noiva no telhado.

- É uma tradição brasileira. – A velhinha disse, a boca torta de descrença.

- É mesmo? – Ele desviou o olhar vidrado do que estava acontecendo e olhou para Serenna: - Espero que não faça isso no nosso casamento. Nada contra tradições, só contra a idéia da minha noiva dependurada no telhado, é claro.

Serenna apertou os punhos e cerrou os dentes:

- Distraia-as. – Rosnou baixinho para ele, indicando imperceptivelmente as duas mulheres. Os olhos negros de Serenna brilhavam, dando ao ex-maroto um vislumbre de todas as emoções que ela sentia.

- Distrair...? – Serenna não sabia se o tom confuso da voz dele era verdadeiro ou se estava se divertindo às suas custas, face ao sorriso torto que não deixara de exibir nem um momento.

- Isso não pode se espalhar, seria um escândalo. – Explicou à contragosto.

Dizendo isso, murmurou qualquer desculpa sobre ser uma das madrinhas, e entrou apressada, praticamente voando em direção às escadas que levavam ao quarto onde a noiva estivera se aprontando. Mas antes, pôde visualizar um leve levantar de cabeça de Sirius, acompanhado de um sorriso cúmplice que indicava que sim, iria entrar na “brincadeira”. Quando ele voltou-se para as duas mulheres e lhes exibiu o famoso sorriso, Serenna não teve dúvidas que ele iria conseguir “distraí-las”.

O que Serenna não sabia era que, enquanto esbanjava charme a fim de impedir que aquilo virasse capa do Profeta Diário, o que realmente Almofadinhas estava pensando era: “Pelo menos, ela não disse que não se casaria comigo”.

***

Ana estava voltando, com Lizzy nos braços, ao quarto onde Luíza estava se arrumando, quando viu uma ponta do véu desaparecer pela janela. O ar saiu tão depressa de seus pulmões que chegou a doer. Sequer notou que tinha gritado até que sua filha começasse a chorar por causa do grito.

Rapidamente, acomodou a bebê na cama e correu até a janela:

- Lú, mas o quê... – Debruçou-se no parapeito. – Pela varinha de Circe! Volte pra cá, mulher!

Tremendo, Luíza fez um gesto mínimo de negativa. Por sua expressão era possível perceber que estava apavorada com o que tinha feito. Na realidade, Ana não duvidava que estivesse até mesmo se perguntando como havia parado ali.

- Lú, entra antes que volte a nevar! Você não está realmente querendo se matar em uma queda ou de frio, está?

- Matar? É claro que não! – Luíza respondeu, indignada. – Eu quero é fugir desse casamento... Não posso fazer isso, Ana, não posso!

- E não podia usar a escada?

- Como, com toda aquela gente lá embaixo? Queria passar despercebida...

- Ah, é, e sair pela janela é muito discreto... – Ana resmungou.

- Pára de tirar sarro da minha cara e me ajuda a sair daqui! – Luíza reclamou. – Eu estou paralisada de medo! Não me dei conta de como era alto até chegar aqui...

Ana não perdeu tempo em aceitar a sugestão. Desaparatou e aparatou perto de Luíza, e do mesmo jeito voltou para dentro do quarto, trazendo a amiga consigo.

- Não brigue comigo. – Luíza choramingou. – Já estou bastante envergonhada por mim mesma, então, não precisa ressaltar o meu ridículo.

- Não vou dizer nada. E, quanto ao ridículo... Qualquer dia desses eu te conto com que tipo de roupa os Weasleys me viram primeiro. (2)

Serenna chegou à porta do quarto, ofegante depois de subir as escadas o mais rápido que a discrição – e o vestido de madrinha – permitiram.

- Está tudo bem? – Perguntou.

- Está sim. – Foi Ana quem respondeu. – Entre e feche a porta antes que mais alguém chegue.

- Eu vi... – Serenna disse enquanto fechava a porta - Lá em baixo... Bem, não se preocupem, o Black está contornando a situação com duas convidadas que também viram.

- Ai, meu Deus... – Luíza choramingou de novo.

- Lú... Você sabe que nunca te forçaria a fazer isso, não é? Quer dizer... Nenhum de nós o faria, mesmo...

- Mesmo sabendo que suas vidas estão em perigo? – Luíza completou, mais calma. E depois, para Serenna: - Seu irmão... O Professor Snape, ainda acha que há uma maldição, não é? E pelo que eu li sobre Severo Snape, ele dificilmente erra.

- É, mas não diga isso a ele, ou vai ficar ainda mais convencido do que já é. – Serenna tentou brincar.

Luíza suspirou, desgostosa consigo mesma:

- Desculpem, não sei o que deu em mim... Por um momento esqueci o porquê de estar fazendo tudo isso. Meu Deus, os bebês são a principal preocupação, como pude esquecer-me disto?

- Se fosse só por minha causa eu nunca pediria... – Ana tentou falar novamente, mas a amiga a interrompeu novamente.

- Mas você teme pela Lizzy. – Luíza sorriu. – E pelas crianças. Como por suas cunhadas. Não tem que se justificar, Ana, eu é que não poderia viver com a culpa de ter abandonado vocês. Acho que surtei com a pressão... Sei lá, de repente uma nova faceta do meu “já muito confuso cérebro”.

As três brasileiras ficaram em silêncio por alguns segundos constrangedores, até que Luíza comentou, irônica:

- Ao menos, Zacharias me agradeceria.

- Duvido muito, considerando-se a punição que receberia do Ministério. – Ana contestou. – Oh, meu Deus, Zach não te disse, não é? – Ela arregalou os olhos.

- Que punição é essa? O que é tão grave?

Ana hesitou por alguns segundos antes de revelar:

- A varinha de Zacharias seria confiscada e destruída. Sem varinha, ele não teria como fazer magia, o que corresponde para os bruxos a viver como um pária.

- Tudo isso porque foi largado no altar?

- Severo me disse que o ato de se confiar a um não-bruxo o segredo de nossa existência é muito... sério. – Foi Serenna quem respondeu dessa vez. - Quando Zacharias disse que você estava andando entre nós bruxos, plenamente consciente de que não somos histórias para crianças, porque estavam noivos... Bem, perante as regras bruxas foi como se ele assumisse a imutabilidade da decisão de se casar com você.

- Então ele sabia que teria que se casar comigo desde o começo?

- Provavelmente, ele não esperava que Rita Skeeter tornasse o falso noivado de conhecimento público. – Ana ponderou. – No entanto, a aparição dela em Hogsmeade naquele dia modificou tudo. Todos nós esperávamos que esta situação se resolvesse antes do Ministério dar por escoado o tempo de Zacharias, mas...

- Bruxos não podem fazer mágica sem varinha? Nenhumazinha?

- Os bruxos normais não. Ao menos, propositalmente. Crianças bruxas costumam fazer mágicas sem varinha quando a magia está despertando, mas sempre em situações de descontrole. Em adultos, isto raramente acontece e também é sob algum tipo de estresse. Fora estes casos, apenas bruxos muito, muito poderosos mesmo conseguem e, é claro, esses bruxos são raríssimos. Para falar a verdade, nos últimos cem anos só me lembro de Dumbledore. (3)

- Banimento! Isso torna tudo muito mais... Horrível. Como se não fosse suficiente que... – Luíza sussurrou, mas se interrompeu, balançando a cabeça.

As outras duas mulheres se aproximaram solidariamente de Luíza e a abraçaram, muito distantes de imaginar o que realmente se passava na cabeça dela quando interrompera a frase.

***

Harry estava sentado ao lado de Gina nos assentos que haviam sido colocados em frente ao tablado onde os noivos trocariam os votos. Joanne balbuciava algo no colo de Harry, enquanto Lyan parecia muito entretido ao desvendar as dobras de um dos enfeites em forma de flor da cadeira.

O burburinho era grande e as pessoas começavam a comentar a demora da noiva. Ele também sentia apreensão, mas pelo que Zacharias e Luíza seriam obrigados a fazer, ao extremo que haviam chegado para proteger seus segredos e, quem sabe, a vida das pessoas de sua família.

Não havia alternativa, é verdade. As discussões em torno do problema duraram dias, em reuniões inacabáveis, para que, no final, a Ordem chegasse à conclusão que a proposição de Zacharias estava correta: o casamento era a saída menos “danosa”.

As pessoas ao redor dele levantaram-se subitamente e com alguns segundos de atraso, Harry entendeu o porquê. A noiva acabara de cruzar a entrada, precedida das damas de honra, e agora se dirigia lentamente para onde Zacharias aguardava, de pé.

Harry ergueu-se com Joanne no colo e ao ver a noiva os olhos da menina arregalaram-se de contentamento e ela bateu palmas, como se a razão da indumentária nupcial fosse regalar-lhe os sentidos. Sorriu diante da reação da filha e teve que admitir que todos naquela sala pareciam estupefatos com a aparência de Luíza. Inclusive... O noivo!

Zacharias olhava boquiaberto enquanto Luíza avançava com timidez e agraciando os convidados com pequenos sorrisos nervosos. Não olhava para Smith e Harry tinha a impressão que era proposital.

- O que eles estão dizendo? – Ouviu Jorge, sentado uma fila atrás, perguntar aos sussurros.

Ao voltar-se para o cunhado, percebeu que Fred, sentado ao lado do irmão gêmeo, sustentava uma das extremidades de uma “orelha extensível” contra o ouvido direito. Incrédulo, Harry seguiu o fio do aparelho bruxo inventado pelos cunhados ainda na adolescência. Não demorou muito para perceber que eles estavam bisbilhotando a conversa de Zacharias com o tio dele, Caius, um senhor tão idoso quanto Dumbledore seria se estivesse vivo.

- O velho Caius disse: - Fred respondeu sussurrando também. – “Esqueça o que eu disse a pouco sobre os benefícios da solteirice, rapaz. Se eu fosse trinta anos mais jovem...” – Então, Fred interrompeu-se e riu.

- O que foi? – Jorge indagou, curioso.

- Zacharias o cortou: “Se fosse trinta anos mais jovem ainda seria um velho”.

- Hum... – Jorge coçou o queixo. – Isso está me soando a ciúmes. Acho que ganhei a aposta.

- Não mesmo! – Protestou o irmão. – Não quer dizer nada, afinal, Zacharias sempre foi azedo assim.

- Que aposta? – Harry não se conteve.

- Parem já com isso! – Sentada na fila atrás dos gêmeos, a senhora Weasley praticamente arrancou as orelhas extensíveis de Fred, o que o fez se encolher de dor quando o fio ricocheteou em sua nuca. – Parem de se comportar como se ainda tivesse dezessete anos!

Uma vez que Fred e Jorge se viram obrigados a manter a compostura – e o silêncio – diante da repreensão da mãe e do olhar de “não me faça passar vergonha” de suas respectivas esposas, estas sentadas cada uma ao lado de seu marido, Harry não teve sua curiosidade satisfeita.

Ainda bem que Hermione estava sentada a sua esquerda. E Hermione sabia de tudo.

A ex-grifinória ainda mantinha erguida uma sobrancelha em direção aos gêmeos, uma expressão tão familiar a Harry que nem precisava perguntar o que estava se passando na cabeça dela. Nem mesmo o barrigão de grávida estragava o efeito. E então, quando Hermione voltou a cabeça para frente novamente, comentou, como se soubesse que ele iria questioná-la:

- Jorge e Fred apostaram que esse casamento não será uma farsa por muito tempo. – Sorrindo, ela indicou com a cabeça os noivos. Então, sua expressão mudou de brejeira para alarmada: - Ah, não, Sirius! Sirius, filho, pare com isso! Sirius!

Escolhido como pajem, o ruivinho decidiu que a cerimônia estava aborrecida demais para valer a pena ficar quieto e começou a tentar enfiar uma das alianças pela cabeça de uma das fadinhas que enfeitavam os arranjos de flores. Indignada, a criaturinha protestava, mas o menino parecia achar isso ainda mais divertido. Hermione tentava dar o máximo de autoridade materna que sussurros podiam ter, mas de nada adiantava, especialmente com Rony tentando controlar e disfarçar as risadinhas que lhe sacudiam o corpo.

Harry ficou absorto no que a cunhada lhe disse. Manteve o olhar distraidamente nos noivos e se perguntou se eles estariam certos. Zacharias e Luíza se sentiam atraídos realmente? Se fosse verdade, toda essa loucura de casamento seria mais aceitável, afinal. Há pouco tempo, percebera que sacrifícios não deveriam ser considerados como primeira opção, e, tanto quanto sua família e amigos não gostavam que ele agisse como um mártir, também não queria que os outros agissem assim.

Os noivos repetiram os votos e, depois de conseguirem desentalar as alianças da cintura da fadinha, cada uma foi parar no dedo anular esquerdo de dos noivos.

E o que Harry se perguntava era: “E agora? O que o segredo de Corvinal nos reserva?”.

***

- - - NOTAS - - -

(1) Referência à trama de “O Paciente Inglês”, e sua continuação “Close To You”, de autoria de Regina McGonagall.

(2) Harry Potter e o Segredo de Sonserina, Capítulo 3.

(3) Ao se referir a bruxos que se lembra que podem fazer mágica sem varinha, Ana não cita Harry como sendo um deles porque ela não sabe que ele é capaz disto. Neste ponto, sigo a trama de “Harry Potter e o Retorno das Trevas”, da Sally Owens.

***

(N/A): Nem preciso dizer nada, né? Apologias nesta hora não adiantarão de nada... (Rá, aposto que neste momento tem um monte de gente correndo pro dicionário! Kkkkk!).

Quem quiser dar uma olhada no quadro de Lady Helga Hufflepuff:

Assim... Agora o negócio vai esquentar (em todos os sentidos). Menores de idade, por favor, o conteúdo de violência e sensualidade que vai ter do próximo capítulo em diante é inapropriado para vocês, por isso, parem de ler... BRINCADEIRINHA! Kkkkk.

Não, sério. Vai ter muita adrenalina neste Natal de 2007 (é, ainda estamos no natal de 2007), muito romance (ó, sério? E o que tinha antes, então?) e um personagem precisando de um advogado (quem acha que é a Myra, acertou, kkkkk!).

Os fãs de carteirinha das As Esquisitonas (The Weird Sisters), preparem seus bloquinhos de autógrafos (ouvi dizer que o Novos Marotos já estão fazendo isso).

E apertem os cintos, porque no próximo capítulo também vamos ter cenas em alta velocidade! Ah, e quem ainda não tem idade para tirar carteira de motorista vai ter que ficar em casa... BRINCADEIRINHA DE NOVO! Kkkkk!

Espero que tenham descansado com a calmaria até aqui, porque a coisa vai ficar agitada daqui em diante!

Um abraço bem apertado para todos vocês e... FELIZ DIA DA CRIANÇA! Para os “baixinhos” e para gente como eu que, apesar de já ter atingido a maioridade há muito tempo (hã... pensando bem, não “muito” tempo, tá?), ainda mantém a criança dentro de si viva, saltitante e sapeca!
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Re: Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 11/10/08)

Mensagempor Tina Granger » 12/10/08, 20:19

uau! Eu nao consigo pensar masi nada!

Ah proposito, acho que o casamento nem chega a ser uma conveniencia! beijos!
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Duas mulheres - A um passo - A irmã da Serpente

mais fics? olhe no fanfiction.net...

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Re: Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 11/10/08)

Mensagempor Regina McGonagall » 15/10/08, 08:06

Hehe... depois de uma relida básica em alguns pontos dos capítulos anteriores... um passeio por Rio Negro etc, etc...

Belzinha, você continua com esse toque mágico inconfundível: consegue misturar suspense e diversão como ninguém!

Hehee, que dó da Myra! Mas vamos ajudá-la, não é mesmo?

E você consegue deixar o casal Black tão fofo... que fico achando que tô esquecendo alguma coisa quando escrevo a história deles... esse tom do Sirius eu não consigo imitar, aidna mais com a Serenna perto, e rolo de rir do que você inventa pra eles (melhor que o sarongue com certeza :lol: )

Bem, só me resta fazer coro com o Harry e perguntar:

- O que o Segredo de Corvinal ainda nos reserva?

:palmas :palmas :palmas :palmas :palmas :palmas :palmas
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Re: Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 11/10/08)

Mensagempor julie granger » 31/10/08, 18:23

Meu deus assim meu coraçãooo vai sair pela boca quanta emoçãoo!!
belzinha vc eh incrivelll!
bjaumm
I find love with you s2


Uma nova fic está no ar ....
Spoiler
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Re: Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 11/10/08)

Mensagempor Krys Granger Weasley » 09/01/09, 12:13

Eu não aguento mais tanta espera!!!

Atualiza logo!!!!

por favor!!

Estou morrendo de curiosidade... hehehehe
R/H forever!!!

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Re: Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 22/10/09)

Mensagempor Belzinha » 22/10/09, 14:10

CAPÍTULO 22
“Face to Face”
- Parte I -


Apesar de ter as pernas praticamente duas vezes mais compridas do que as de Ana, Rony estava apanhando para acompanhar o passo dela. Se andasse um pouco mais rápido, Ana não estaria mais caminhando, mas sim correndo.

- Eles não tinham hora pior para deter um trouxa? – Rony disse entre bocejos. Haviam ficado até tarde na festa de casamento de Zacharias e Luíza.

- E o Ministério não tinha hora melhor para interrogar uma bruxa? – Ana rebateu, sem deixar o semblante apavorado e uma ruga de preocupação na testa.

Agitada, abriu a porta da Delegacia.

- Ana, ainda bem que você chegou! – Nando estava aliviado por ver a prima. – Os policiais não acreditam em mim!

Ao redor dele - que estava sentado em uma cadeira à frente de uma escrivaninha - um círculo de policiais se abriu para encarar os recém-chegados.

- Não acreditam? – A voz de Ana soou baixa e cautelosa.

- Olhe, moça – O policial mais velho suspirou profundamente e tomou a palavra, pois parecia que os demais estavam preocupados em conter o riso. – Ele chegou aqui falando de uns sujeitos esquisitos, com capas negras, chapéus pontudos e que desapareceram no ar com a namorada dele!

- Desapareceram, é? – Ana parecia um papagaio, repetindo tudo o que diziam com uma expressão mais preocupada do que a anterior.

- Ele estava segurando este livro. – Um dos policiais ergueu um volume e ela reconheceu imediatamente “Harry Potter e as Relíquias da Morte”. – Acho que isto explica tudo, não?

- Ana eu não estou maluco! – Nando ergueu-se da cadeira, sendo imediatamente contido pelos policiais, que pareciam acreditar que ele era um louco perigoso. – E eu nunca li este bendito Harry Potter na minha vida, como é que posso fantasiar sobre ele?

- Certo, gente, acho que todo mundo já entendeu a situação. – Rony, autoconfiante, aproximou-se dos policiais, dando oportunidade para Ana afastar-se um pouco com Fernando.

- Ei, porque Harry Potter não veio pessoalmente ajudá-lo, hem? – Um dos policiais gracejou.

- Achamos que ele seria mais útil no Ministério da Magia. – Rony respondeu, permitindo-se que uma centelha de indignação brilhasse em seus olhos. Os policiais riram, achando que era piada.

- Ana, ela sumiu! Su-miu. Entende? – Fernando estava terrificado. – Não sei quem eram aquelas pessoas, que poderiam feri-la...

- Ei, parceiro, será que pode ficar quieto uns instantes? – Rony pediu amigavelmente para Nando. – Preciso me concentrar aqui, faz tempo desde que fiz isto pela última vez.

- Isto o quê? – Um dos policiais perguntou.

Rony sacou a varinha e apontou-a para o grupo de policiais.

- Mas que diabos...? – A exclamação de outro policial foi interrompida pela luz que saiu da varinha de Ronald. Eles ficaram imóveis, apoplécticos, olhando para o nada.

- Jesus-Maria-José!!! – Nando gritou, assustadíssimo. – O que ele fez?

- Shiiiiiiiiiiii! Quieto, Nando! – Ana segurou o primo. – Ele apagou a memória deles. Agora... – Ela voltou-se para Rony: – Vamos logo, antes que apareça mais alguém.

- Certo. – Rony concordou.

Deixando um ruído de “ploc” ressoando atrás de si, os dois bruxos desaparataram, levando Fernando com eles. Reapareceram na casa de Ana.

- Como eu... Eu estava... – Fernando balançou a cabeça, refazendo-se da viagem por Aparatação. Olhou ao redor, estupefato. – Talvez aqueles policiais estivessem com a razão quando disseram que eu estava louco.

Outro “ploc” na sala de estar, e Rampell, o elfo doméstico apareceu.

- Menina Lizzy está dormindo como um anjo, jovem ama. Rampell vai... Ops! - O elfo interrompeu-se, envergonhado, quando percebeu que tinham visitas.

- Ó, meu Deus, agora eu tenho certeza de que estou louco! - Nando correu para a parede oposta ao lado em que Rampell estava e “grudou” nela.

- Rampell – Ana gemeu, desconsolada. – Você tem que perder esta mania de assustar meus conterrâneos...

- Elfo mau! Rampell vai se afogar no vaso sanitário, ama...

Ronald achou que aquilo era o cúmulo do ridículo e resolveu interferir:

- Auto lá, amiguinho! – Ele segurou o elfo pela gola dos trapos que vestia. – É melhor você ir preparar um chá para o camarada ali... De preferência de camomila. – Fez uma careta de nojo: – Se afogar no vaso sanitário? Eca, você costuma fazer isto sempre?

- Pelo amor de Deus, Nando, Rampell não vai te fazer mal. – Ana se dirigiu ao primo. – É só um elfo doméstico! Não que elfos domésticos sejam inferiores, mas são inofensivos. Também não é que não possam te machucar se quiserem... Mas a maioria não quer e...

- Ana, é assim que você tranqüiliza as pessoas? – Rony zombou. – Olá! – Calmamente, ele também se dirigiu ao Fernando. – Sou Ronald, o cunhado de Ana, lembra de mim?

- O q-que você fez àqueles policiais? Eles vão ficar bem?

- Como Ana já te explicou, eu apaguei a memória deles. Geralmente, são obliviadores treinados que fazem isto, especialmente nestes casos em que se apaga a memória coletivamente... Mas não dava tempo. Tínhamos que chegar a você antes do Ministério da Magia.

- Meu Deus! Quem são vocês e porque fizeram isto? Ana...?

- Ai, isto vai longe... – Rony revirou os olhos. – Ana, acho que você se vira daqui. Tenho que voltar pra casa. A Hermione está exausta e ficou sozinha com o Sirius.

- Ok, Rony. Pode ir. Carlinhos logo chegará aqui também. – Voltou-se então para o primo: - E, por Merlin, Fernando, cala a boca e escuta...

******

Harry não sabia por que todas as salas do Ministério da Magia eram tão escuras. Por outro lado, nenhum bruxo se incomodava por este fato em específico. Era só mais um recurso para inspirar temor naqueles que ali adentravam.

Por outro lado, o que mais se podia esperar de uma construção feita no subsolo de Londres?

Outra coisa que Harry não entendia era por que um simples caso de revelação dos livros para uma bruxa estava sendo tratado pelo Ministro em pessoa. Geralmente, Ernesto Macmillan cuidava de tudo sozinho. Foi exatamente isto que perguntou para Quim Shacklebolt enquanto ambos se encaminhavam para a sala do Ministro.

- Quer dizer que você não sabe? – Surpreendeu-se Quim.

- Saber o quê?

- Que ela é irmã de Myron Wagtail.

- “O” Myron Wagtail? O vocalista das Esquisitonas? – Harry estava impressionado.

- Este mesmo. – Confirmou Quim. – O quer dizer que o Ministro quer dar um tratamento VIP a ela.

Harry silenciou, remoendo as implicações do que Quim tinha lhe contado. Era um código entre os aurores dizer que o Ministro estava “dando um tratamento VIP” a alguém. Durante os últimos cinco anos, Harry travava uma batalha inglória nas investigações e julgamentos dos envolvidos na última guerra bruxa. No entanto, seus esforços eram frustrados pelos mais variados motivos, entre eles, o elitismo e a busca pela publicidade que era voga no Ministério.

- Não faz sentido. – Harry falou em voz alta, mais para si mesmo do que para o Chefe dos Aurores. – Se ela é tão importante assim, o Ministro deveria estar querendo aliviar o lado dela, não fazendo toda esta tempestade.

- Confie em mim, Harry. – Quim sorriu tristemente. – É um dos aurores mais capazes que eu já comandei, mas ainda assim, tenho muito mais anos de serviço para o Ministério. Você tem feito uma campanha contra as ações do pessoal do Ministro. Agora, ele quer provar que você está errado.

- Mas por que logo com Myra Wagtail?

- Por dois motivos. Primeiro, porque ele sabe que ela está ligada de alguma forma com a sua “rede de influências” – Quim riu da expressão mais usada pelo Ministro ao se referir aos amigos de Harry Potter.

- E pedir para pegar mais leve com ela seria dar um tiro no meu próprio pé. – Harry balançou a cabeça, concordando. – Mas qual é o outro motivo?

- A senhorita Wagtail é reincidente.

- Reincidente? Ela já teve contato com os livros?

- Não, não. Reincidente quanto à Lei do Sigilo e suas sub-leis. A senhorita Wagtail já teve um noivo trouxa que quase revelou o Mundo Bruxo. O sujeito estava prestes a publicar uma matéria no maior jornal trouxa, com direito a fotos e tudo. Os Aurores o pegaram bem tempo e apagaram a sua memória, mas ela foi punida com a perda da varinha por dois anos.

- Ela sabia, então?

- Ela jura que não, que foi usada enquanto ele conseguia provas da existência do Mundo Bruxo. Como ninguém tinha evidências definitivas para condená-la... ou absolvê-la, a punição foi temporária, e não uma expulsão perpétua do Mundo Bruxo.

- Que medonho... Espera aí. Como ele conseguiu tirar fotos? Máquinas trouxas não funcionam quando há muita magia ao redor.

- Com a própria câmera bruxa de Myra Wagtail. – Eles entram no elevador lotado e Quim esperou ambos saírem dele antes de acrescentar: - É isto mesmo o que está pensando. Só piorou ainda mais a situação de Myra. O cara usou um objeto bruxo dela.

- Há quanto tempo foi isto? Nunca ouvi falar.

- Duvido que tenha dado atenção, mesmo que tivesse ouvido. Isto foi há uns dez anos. Você era uma criança lidando com Você-Sabe-Quem, e a Segunda Guerra tinha acabado de estourar. A moça também era muito jovem, não muito mais velha que você na época.

Pararam em frente à sala do Ministro, onde um auror estava de guarda. Ele ficou alguns segundos dividindo-se entre o respeito que tinha por aqueles dois homens à sua frente e a obediência ao Ministro.

- Ordens para não deixar ninguém entrar, MacWolf? – Harry adivinhou, erguendo uma sobrancelha.

- S-sim, senhor Potter... Mas acho que isto não vale para o senhor e o Chefe dos Aurores...

- Neste caso, nós agradeceríamos muito se anunciasse a nossa presença, MacWolf. – Quim propôs, educada mas firmemente.

O jovem auror engoliu em seco, certamente, pensou Harry, imaginando se a ordem se estendia a não perturbar também. Permitiu-se sentir pena do rapaz, pois ele devia temer perder seu emprego se irritasse o Ministro.

- Não se preocupe. – Disse olhando francamente para o jovem.

Shackelebolt e ele trocaram olhares irônicos quando escutaram a voz alterada do Ministro ressoando lá de dentro. Não havia nada mais divertido do que perturbar um homem poderoso que abusava deste poder.

- Potter. Shackelebolt. Não foram convidados para esta reunião. – Sério, o Ministro olhava os dois com a frieza que um oponente dos antigos duelos o faria.

- Reunião? – Admirou-se Harry. – Está mais parecendo um julgamento. Olá, Tonks. – Ele cumprimentou a auror, que já estava sentada ao lado de Myra, sua amiga.

Pelo tom avermelhado do cabelo de Tonks, as coisas não estavam indo bem.

- E se fosse, Potter, vocês ainda não teriam nada que fazer aqui. São aurores, não membros do Tribunal.

Harry encarou dignamente o Ministro. Não eram inimigos, de forma alguma. Apenas, divergentes em muitos assuntos. E, definitivamente, muito melhor se comparado a Cornélio Fudge ou Scrimgeour. Digamos que Gwidion Norwood jogava o jogo político, mas no geral, jogava limpo. Na medida do possível, para um Ministro da Magia.

Ainda assim, Norwood era páreo duro.

- Achamos que gostaria de saber que o trouxa que estava com a senhorita Wagtail já foi resgatado da Delegacia de Polícia por Ronald e Ana Weasley. – Declarou Quim.

- Eu não pedi que esta operação fosse realizada. – O Ministro endireitou-se na cadeira, em uma fria e calma desaprovação.

- É claro que não. – Harry ponderou, irônico. – Você preferia que Fernando Anhangüera fosse até a delegacia, denunciasse o desaparecimento da namorada e a forma como aconteceu. Seria muito ruim para a senhorita Wagtail se a história se espalhasse, não é mesmo?

Myra engoliu em seco. O Ministro se levantou, irado:

- Está insinuando, Potter, que eu queria que a Lei de Sigilo fosse quebrada?

- Não. Mas não seria mau para os seus interesses que a história tomasse proporções maiores do que o necessário. Assim seria menos curioso que o próprio Ministro conduzisse o caso.

Norwood voltou a sentar-se. Era estranho, mas parecia que estava admirando a capacidade de Harry.

- Entenda de uma vez por todas, Potter. Eu sou o Ministro da Magia, não você. Então, pare de ignorar minhas ordens e agir como bem entender fazendo uma confusão com o seu pessoal!

- Não foi o nosso pessoal que fez uma abordagem apressada e descuidada em um estabelecimento trouxa! Desculpe, Ernesto. – Desculpou-se com o antigo colega de escola.

Ernesto Macmillan fez uma expressão de quem não tinha certeza se sentia mais ofendido por ter sido acusado de descuidado ou de ser do “pessoal do Ministro”.

- Então de agora em diante não teremos mais o meu ou o seu pessoal. Sigam minhas ordens como deve ser.

Harry iria retrucar, mas Quim o impediu com um gesto. Ele estava certo. O Ministro o estava testando.

- Sabiam – continuou o Ministro, abarcando com o olhar Harry, Quim e Tonks – que a protegida de vocês já foi acusada de revelar o Mundo Bruxo antes?

- Eu fui enganada! – Myra explodiu.

- Sei. – O Ministro a olhou por cima do nariz. – E, anos depois, foi pega acompanhada de um trouxa vendo logo livros que revelam nosso mundo.

- Eu não sabia nada sobre estes... Merlin! – A voz de Myra sumiu.

- É verdade! – interveio Tonks, cujo cabelo havia mudado de cor diversas vezes durante a conversa e agora exibia um vermelho sangue. – Se Myra tivesse levado o rapaz trouxa de propósito para lá, isto significaria que ela sabia antes dos livros. E como poderia ter sabido sem que o feitiço que cerca cada exemplar daquele não tivesse avisado o Ministério?

- Ouvi dizer que bruxos habilidosos conseguem anular os feitiços inibitórios do Ministério... Como aquele protegido de sua cunhada, Potter, o ex-comensal Severo Snape. O que me leva a pensar no porquê de justamente ela ter sido escolhida para buscar o trouxa.

- É o primo dela, Norwood. – Harry respondeu, surpreso porque achou que o Ministro sabia disto. Mas pensando bem, deveria saber que Tonks era uma amiga muito próxima de Myra, sendo esta a ligação que tinha com Harry.

- Ah, sim? – O Ministro ergueu uma sobrancelha. – E o Weasley é parente dele também?

- Ronald Weasley aceitou a tarefa de acompanhá-la porque sabia que iria ser penoso para a cunhada ter que expor para mais um familiar a nossa... “condição bruxa”. – Shacklebolt interveio, bem a tempo de impedir Harry de dar uma resposta malcriada.

Se não fosse por Quim, Harry não sabia até onde teria mantido a civilidade. Nunca tinha se irritado tanto assim com Norwood. Mas também o Ministro nunca tinha agido assim antes.

Então, veio a “inspiração”.

- Dizer que a senhorita Wagtail estava tentando quebrar o Decreto de Sigilo, como Tonks já mencionou, seria admitir publicamente que os feitiços inibitórios do Ministério não funcionam, Ministro. E mais: quantos pontos a menos em sua aprovação isto significaria?

- Já chega, Potter! – Pela primeira vez desde que conhecia Norwood, Harry o viu perder a calma, surpreendendo-o. O próprio Norwood parecia surpreso. – Está bem, você venceu. – E para Myra: - Tem amigos muito habilidosos, senhorita.

- Quer dizer... Que estou liberada? – Myra perguntou, visivelmente hesitante depois da explosão do Ministro.

- Não. – Norwood respondeu. – Significa que será liberada sob as condições de costume. Entende o que significa?

- Sim... – O temor passou como uma sombra pelos olhos da moça. Sombras do passado.

Harry não sabia do que se tratava, mas, por experiência própria, podia reconhecer quando alguém enfrentava lembranças dolorosas.

- Acredito que sabe, senhorita Wagtail – o Ministro a encarou gravemente – a responsabilidade que está chamando para si.

- Sim, conheço muito bem, Excelência – Myra respondeu amargamente.


******

[Alguns dias mais tarde...]

“Lua-de-Mel”, pensou Zacharias com ironia. Se ele e Luíza estavam tendo uma, era a mais estranha que já havia visto.

Em nome das aparências, tinha deixado seus negócios e ido para o litoral com a “esposa” para aproveitarem suas recentes bodas. Só que quem ficava o dia todo sem fazer nada era ele. Luíza não desgrudava os olhos das anotações que tinha sobre o medalhão de Ravenclaw.

E à noite... Zacharias não queria pensar sobre as noites. Quando finalmente Luíza largava o árduo trabalho sobre a mesa da sala, exausta, e se dirigia para o próprio quarto. E, se por acaso dava com Zacarias no caminho, assustava-se de tal forma que era como se tivesse visto um Dementador. Esquiva como ela estava, não tivera a oportunidade de chegar até ela e dizer... Dizer... Dizer o quê?

Que lamentava que ele tivesse sido tão brusco antes? Na realidade, não lamentava, pois ultimamente provocá-la era a única maneira de fazê-la olhar para ele sem se encolher como um coelho assustado. E ela ficava tão bonita com raiva, aqueles olhos negros brilhando...

“Ela fica bonita com raiva”? Merlin, desde quando ficava por aí pensando coisas tão “clichês”? Certo, sentia-se atraído por ela, ridículo continuar negando. Mas daí a ficar bufando como um touro impaciente só porque Luíza não lhe dedicava um olhar, irritá-la apenas para poder ouvir sua voz... Era demais!

E tudo ficava pior à noite. Pensava nela, nos delicados traços do rosto, na forma como se movia com a graciosidade de uma bailarina. E a pele... A textura mais acetinada que ele já tinha visto. E tudo acompanhado por um cálido sorriso que tinha certeza que era capaz de afugentar a solidão e curar qualquer dor. Depois de tormentosas noites assim, não era de se admirar que ficasse rabugento durante o dia.

Não havia o que o distraísse de sua obsessão por Luíza. Nem mesmo outra mulher. Lembrou-se da morena estrangeira de belos olhos azuis que flertou com ele no dia anterior, quando foi explorar o comércio da cidadezinha litorânea para ver preenchia sua mente com outra coisa que não fosse sua meiga e ocupada esposa. A italiana era uma mulher belíssima, mas... Não conseguiu ver qualquer atrativo nela, como se toda a beleza fosse incompleta sem...

Suspirou, impaciente. Luíza deveria ser uma bruxa, afinal. Devia estar enfeitiçado. Era a única explicação.

- Você se lembra do nome daquela mocinha que me emprestou transferidor, o compasso e os esquadros? – Luiza surgiu de repente, segurando aqueles objetos, referindo-se à vizinha ao lado. – É que eu quero devolvê-los, mas não sem me lembrar antes.

Zacarias estava tão surpreso por ela ter pedido ajuda dele que ficou calado por alguns instantes antes de responder.

- Tessie. – Sorriu. – Você ficou conversando com ela por três horas hoje de manhã. E ainda estamos no começo da tarde. Como pode ter esquecido?

- Tessie. – Luíza torceu a boca em gesto irritado. Pegou uma caneta e um papel e anotou o nome. – Memória visual, lembra?

- Você é um desastre. Como conseguiu aprender inglês se não consegue se fixar nas palavras pronunciadas?

- Eu... Decorei o dicionário. – Ela respondeu envergonhada, como se aquilo fosse prova de alguma fraqueza. – Tinha... Uns símbolos do lado de cada palavra que indicavam o som delas. Depois foi só decorar a gramática, expressões idiomáticas...

Zacharias riu alto.

- Eu devia ter imaginado que esta sua bizarra memória ainda guardava muitos fatos engraçados!

- Não é tão divertido quando você se lembra com detalhes do desprezo no rosto de seu pai, mesmo depois de mais de vinte anos. – Luíza sussurrou, a voz falhando pela confissão.

Não tinha planejado dizê-lo em voz alta. Zacharias percebeu pelo choque em seu rosto. Luíza se colocou na defensiva, achando que ele estava zombando dela. Bem... Estava, mas não da maneira cruel que ela pensara.

- Luíza... – Ele chamou, sério. – Eu não...

- Meu pai achava que eu tinha algum problema. – Ela o interrompeu, erguendo o rosto em forma de desafio. – Não falei até bem tarde e todos diziam que eu devia ser deficiente mental. Lembro de como ele me comparava com as outras crianças da minha idade. Sei disto porque tenho viva na memória a forma como ele as olhava e em seguida olhava para mim... Com desgosto, com desprezo, com raiva. – Uma lágrima silenciosa rolou por seu rosto, mas ela não se incomodou em apagar o sinal de sua fraqueza. – Nos abandonou, a mim e a minha mãe, quando eu tinha quatro anos.

- Eu... Eu não imaginava... – Foi tudo o que conseguiu balbuciar. Tinha tanta dor nos olhos dela. Teria desabafado com alguém antes? Um parente, uma amiga? Queria tanto ir até ela e a abraçar...

- Não, é claro que não imaginava. – Havia certa nota de amargura na voz dela. – Você nunca se aproxima o suficiente das pessoas para chegar ao ponto de se perguntar sobre a vida delas.

Apesar de tudo, aquela acusação conseguiu indigná-lo. Especialmente porque tinha se aproximado dela. A contragosto, é verdade, mas ainda assim era por causa daquela aproximação que tinha se metido naquilo tudo.

- Não me venha com esta agora! Como posso saber qualquer coisa a seu respeito se nunca me diz nada? Toma qualquer pergunta pessoal como uma ofensa!

- E não é? Me diga se alguma vez me fez uma pergunta, ou menos do que isto: se alguma vez se dirigiu a mim sem ser com ironia ou rancor!

“Como defesa...”, ele pensou, mas não podia dizer isto em voz alta.

- É a única forma de te tirar deste mundinho perfeitamente seguro e bonitinho que você criou para si mesma! – Ele deu vários passos à frente, aproximando-se dela sem perceber. – Alguma vez já pensou em deixar seus preciosos números, dados e fatos e ter uma vida própria?

- Tem razão, Zacharias, eu não tenho vida própria! Mas não acho que saiba tudo! Você é que sempre está julgando e sentenciando as pessoas: isto é bom, aquilo é mau; faça isto e não faça aquilo... O único ser perfeito em sua opinião é você mesmo! O grande Zacharias Smith, o infalível!

- Eu não digo para as pessoas o que devem fazer – ele disse por entre os dentes, seu rosto tão próximo do dela que lhe preenchia toda a visão – mas escolho muito bem aqueles que ficam do meu lado.

Por algum motivo que Zacarias não conseguiu entender, ela começou a chorar. Não percebeu de imediato porque ela mesma deixou que a posição defensiva se desmanchasse lentamente, até que não pôde mais mantê-la. E, quando ele se deu conta, encontrava-se com ela nos braços, surpreso, atordoado e com o rosto mais confuso que alguém poderia ter. “O que aconteceu?” , se perguntava. “Eu só disse que... Oh, Merlin! O pai dela... Sou um asno!” O pai dela tinha achado que ela não era boa o suficiente para estar com ele.

- Me desculpe, me desculpe, me desculpe... – A cada pedido, depositava um beijo no em diferentes lugares do rosto dela, que agora segurava com as mãos. - Você o viu novamente? – Zacharias perguntou suavemente. – Seu pai?

Luíza estava surpresa demais pelo inesperado – e inabitual – pedido de desculpas de Zacarias. Seus olhos arregalados cravaram no rosto dele, certamente imaginando se teria enlouquecido. Ainda assim, conseguiu voz para responder:

- Não... Eu poderia procurá-lo, depois que entrei para a Agência, mas não quis... – Pensou melhor e admitiu: - Não pude.

Zacharias continuou acariciando o rosto dela, consolador. Quando seus olhos se encontraram, o clima entre eles mudou. Ele pôde sentir. Com a respiração alterada, aproximou-se lentamente dos lábios dela e percebeu que Luíza movia-se para ele... Até que sentiu que algo pontiagudo lhe espetava dolorosamente o braço!

- Ó, me desculpe! – Luíza deu um passo atrás com o grito de dor dele. – A ponta do compasso... E eu esqueci... Deus, você está sangrando!

- Tudo bem, tudo bem! – Disse, zangado. Zacharias sabia que estava deixando seu gênio ruim aflorar novamente, mas a frustração tomava conta dele naquele momento. – Por que diabos precisava desta coisa?

No mesmo momento, quis retirar a pergunta porque Luíza ruborizou violentamente e se afastou alguns passos dele, em direção à mesa onde suas anotações jaziam. Compreendeu que ela fora buscar a resposta para o que ele perguntara quando ela selecionou um papel. “Não, eu não quero saber, por favor volte para mim!”, reclamava em pensamento.

- Havia muitos números nas informações que o medalhão me passou, junto com palavras e nomes. No começo, parecia tudo sem sentido, mas, de repente, uma idéia me passou pela cabeça: coordenadas. Peguei o mapa que o Professor Lupin tinha da região de Somerset e os nomes estavam lá. A maioria deles é muito antigo para ser lembrado. E, depois, usei os números em equações simples. – Ela estendeu o mapa onde havia feito várias interseções. – Todas elas apontaram para um único lugar.

Bem no alto, um nome estava circulado com a caneta vermelha que Luíza usara.

- Tem um lugar em Somerset chamado “Badger Hill”? (1) – Subitamente, toda a atenção de Zacharias estava focada no mapa.

- Sim, fica há cerca de dezesseis milhas de Glastonbury. Não é tão mais longe do que os outros símbolos do Zodíaco ao redor da Abadia.

- Temos que mandar uma coruja ao Potter. – Declarou Zacharias, determinado.

- Mas... Eu não tenho informação nenhuma a mais... Nem mesmo consegui confirmar se este lugar ainda existe! – Contestou.

- Não se preocupe. – Zacharias pegou uma pena e um rolo de pergaminho, pondo-se a escrever. - Eu tenho mais informações.


--- NOTAS ---

(1) Badger Hill: “Colina do texugo”, em inglês. Realmente existe tal lugar, e fica a trinta minutos de carro de Glastonbury, ambos em Somerset (informações do Google Maps, hehehe).


----

(N/A): Eu nunca desisti desta história. Mas escrever não é só um ato de vontade, mas também de inspiração. Infelizmente, o dia-a-dia não me proporcionou nem tempo nem inspiração.

Mas aqui está a primeira parte de “Face to Face”, como prometi.

O capítulo ficou grande demais, de forma que eu achei melhor dividi-lo em dois, para facilitar o entendimento sem cansar o leitor. A próxima parte deverá sair logo, ainda na semana que vem.

Agradeço infinitamente para quem ainda não desistiu desta história. A aqueles que continuam ao meu lado neste projeto suicida (hehehe) dos Segredos dos Fundadores... Vocês moram no meu coração!
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Belzinha
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Re: Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 22/10/09)

Mensagempor Belzinha » 28/01/10, 12:26

- Capítulo 23 -
“Face to Face”
Segunda Parte.

[Dezembro de 2007]

Estava um dia glorioso, apesar do frio e da fina neve que caíra na noite anterior. O ar estava limpo e as máquinas trouxas haviam passado pela manhã cedo para limpar a estrada principal que cortava a pequena comunidade de ricos chalés campestres nos arredores de Londres.

Um destes chalés pertencia a alguém famoso no mundo bruxo. Mas os vizinhos, alheios à existência de magia sobre a face da Terra, sequer desconfiavam da verdadeira natureza daquele homem estranho que quase nunca aparecia em sua propriedade, e que, apesar de nunca contratar os serviços das pessoas do povoado próximo, mantinha imaculadamente limpos e conservados os jardins. A casa sempre era arejada de quando em quando, apesar de jamais se ter visto quem lhe abrisse as janelas. E, em épocas como esta, os caminhos e calçadas apareciam miraculosamente livres de neve.

Mas, aquilo era a Inglaterra e um cidadão britânico jamais comete a indiscrição de parecer curioso. Ainda que a curiosidade seja, como neste caso, perfeitamente justificada. Claro que, de tempos em tempos, nascem “anomalias” dentre os súditos de sua Majestade - senão, como explicar a imprensa marrom inglesa? Petúnia Dursley e seu enorme pescoço para vigiar os vizinhos? Mas esta é outra história e felizmente a Sra. Dursley não é uma das vizinhas do nosso bruxo.

A gente que comprava aqueles chalés em Asheshire não queria proximidade com outras pessoas. O fato de alguém querer morar em um imóvel nos arredores de Londres e, ainda assim, afastado e com privacidade suficientes, devia dizer por si mesmo que não era uma boa idéia fazer perguntas ou aparecer para “dar as boas vindas” a novos vizinhos, ou se apresentar aos antigos.

Aquele não era o tipo de lugar que geralmente Myron Wagtail escolheria para si. E ele tinha muitos lugares, outras propriedades suas, para onde ir quando as turnês terminavam. Mas, quando queria compor, era a solidão e o sossego de Asheshire que procurava. Ou então, quando era necessário se esconder da imprensa em meio a um dos vários escândalos dos quais não raramente era protagonista. O último havia sido o seu divórcio e a quantidade exorbitante de galeões que sua ex-esposa tinha conseguido levar dele.

- E isto que eu a peguei na cama com outro. Imagine se não tivesse... – Disse o vocalista da banda mais famosa entre os bruxos, “As Esquisitonas”, com a voz de quem não sentia o mínimo a perda da esposa e até achava engraçada a situação.

- Myron! – Sua irmã mais nova e empresária do grupo o repreendeu, os olhos castanhos amendoados arregalados de alarme. Em seguida ela lançou um olhar para as três crianças que o escutavam com o interesse ávido de fãs.

O cantor não entendia muito de crianças. Aliás, não entendia nada. Hector, Mel e Felipe perceberam isto no primeiro momento. No entanto, apesar dos “foras”, ele os tratava de forma gentil e bem-humorada. Não que alguma vez Myron tenha sido descortês com algum fã, mas pareceu a Mel que ele estava nervoso porque era importante para Myra que aquelas pessoas o aprovassem.

“Myra está sempre cuidando de mim”, em certo momento o cantor deixou escapar o comentário para Mel. “Vivo me dizendo que deveria começar a cuidar dela também”.

- Crianças, vocês não sabem do melhor. – A metamorfomaga disse mudando rapidamente de assunto. – Myron tem um fantasma no porão! Um antigo carrasco do Ministério da Magia que veio junto com o baú onde ele guardava o machado. Não querem ir lá conhecê-lo?

Os meninos – ou seja, Hector e Felipe – animaram-se imediatamente, excitados com a possibilidade. Mel afundou no sofá, nada impressionada com algo tão bizarro quanto o fantasma de um carrasco. No entanto, ficou calada porque intuíra que, na realidade, a namorada do tio queria mantê-los longe da boca “classificação- para-maiores-de-18-anos” de Myron.

Infelizmente, a reação de Fernando à palavra “fantasma” não foi das melhores.

- Eu não vou deixar.

- Não seja bobo, tio. – Mel revirou os olhos. – Nós nos encontramos com fantasmas o tempo todo em Hogwarts.

- Eles são controlados pelo Ministério, Fernando. – Myra mordeu o lábio inferior enquanto torcia as mãos nervosamente. – Não podem fazer mal a ninguém.

Aqueles dois estavam estranhos, pensou Mel. Tudo bem, tio Nando descobrira que a namorada era uma bruxa. Isto é um choque e tanto, sem dúvida. Mas parecia que tinha mais do que isto, algo que ela não podia identificar. “Adultos são estranhos”, concluiu.

Hector havia praticamente se convidado quando soube que iriam para uma das casas de Myron Wagtail. Tonks repreendera o filho pela falta de educação, mas, como ela mesma era fã de As Esquisitonas, não pôde culpar a impulsividade do filho. “É por um ou dois dias mesmo...”, ela murmurou, certamente pensando com os seus botões que Hector não poderia se meter em confusão em tão pouco tempo... Ou poderia?

Bem, se a idéia era fazer seu tio se sentir melhor sobre a existência de magia, ela não tinha certeza se estava dando certo. Felipe não parava de contar sobre o que acontecia em suas aulas. Mel ficou particularmente alarmada com uma ocasião em que ele provocou tanto o Snape, que o professor de Poções tirou pelo menos uns mil pontos da Grifinória e o mandou para detenção. E Hector, tão logo soube que seu tio não conhecia nada sobre Harry Potter – o grande herói do menino – não parou de narrar as aventuras do Eleito, o que não poderia ser bom aos olhos de alguém que nunca sequer imaginou o que é se encontrar cara-a-cara com uma aranha gigante.

“Bem, vamos ao fantasma do porão!”, pensou Mel. No entanto, no meio do caminho encontrou uma porta que levava para o jardim dos fundos e não resistiu. Pensou em avisar os outros que tinha mudado de idéia (era a última da fila puxada por Myra), mas resolveu que não era necessário, já que não iria longe, sequer se afastaria da casa e não demoraria muito.

Havia caminhos interligando as propriedades, mas, pelo que a garota havia percebido, bem poucas pessoas os utilizavam, especialmente no inverno. Um vento gelado soprava, mas a neve que caíra na noite anterior não voltou.

Manteve-se no estreito caminho de tijolos, que por sorte (ou magia) não estava congelado, apreciando a paisagem. Aquilo era bem melhor do que um fantasma, pensou. Foi quando avistou duas árvores cujos troncos se entrelaçavam. O inverno havia feito suas folhas caírem, mas ainda assim eram uma visão bonita. Não sabia o que havia com as árvores que “se abraçavam”, mas achava-as fascinantes. Deu dois passos para trás, apreciando toda a extensão daquele quadro.

Foi quando se chocou contra algo. Ou melhor, contra alguém.

- Ah, desculpe! – Envergonhada, Mel apressou-se a ajudar a mulher a juntar os livros e papéis que havia derrubado. – Eu sinto muito...

- Não toque nisto, pirralha! – Sibilou a morena com sotaque italiano. – Deve sentir muito mesmo...

Além do choque pela reação rude, Mel pode perceber um desenho – algo que ela já vira antes – e o ver nas mãos daquela mulher a emudeceu.

A outra se afastou com a pilha de papéis desordenados nos braços, ainda resmungando e esbravejando. Seguiu pelo caminho até um outro chalé vizinho ao de Myron. Ela encontrou uma outra mulher à porta do chalé, esta loira e jovem, e ambas se encararam brevemente antes de acenarem uma para a outra e entrarem.

- Mel! – Era a voz de Hector atrás de si. Se ela estivesse prestando atenção, veria que o menino soava aliviado e contrariado ao mesmo tempo. – Onde você estava?

- A mulher... Ravenclaw... No retrato... O medalhão... – Gaguejou sem saber por onde começar.

- O quê? – Ele piscou, confuso.

Mesmo que não fizesse sentido, ela sentiu impaciência por Hector não ter compreendido o que queria dizer.

- Não, Hector! – Pôs as mãos na cintura e franziu os lábios; - Eu vi uma mulher que trazia cópias do retrato de Ravenclaw e do símbolo que havia tanto nele como no medalhão dela!

- Ah, bom... O QUÊ? Onde? – Ao contrário do que ela esperava, Hector parecia empolgado com a notícia. Ora, mas no que ela estava pensando? É claro que ela devia ter esperado que Hector ficasse encantado!

- Ela entrou naquele chalé ali... Não faço idéia porque uma trouxa teria... Espere aí, será que ela é bruxa? Bem, mesmo assim...

- Vamos lá para descobrirmos! – Hector se adiantou.

- Hector! Não podemos bater na porta e simplesmente perguntarmos...

- E quem disse que vamos perguntar? – Ele sorriu, matreiro.

- Hector...

- Nós só vamos rondar a casa para vermos se descobrimos mais, só isto.

- “Só” isto? Você ficou doido? Não... Corrigindo, você é claro que é. O que eu quis dizer é se você perdeu a noção do perigo. Se tivesse visto o jeito daquela mulher... Ela é perigosa, Hector, eu senti.

- Sentiu? Virou sensitiva agora? – O sarcasmo flutuava na voz dele. – Pensei que esta era a área da Danna...

- Danna! É isto! Vamos esperar ela e os meninos chegarem...

Estava se referindo ao fato dos outros três “Novos Marotos” serem esperados naquela tarde. Hector não apenas se convidou. Ele fez o “serviço completo”. Perguntou logo se todos os amigos poderiam também vir. Só não tinham chegado ainda porque o pai de Danna não tinha condições financeiras de mandar a filha para uma pequena viagem até Asheshire (é, mágica não resolve todos os problemas) e Andy se ofereceu para buscá-la. E o irmão de Josh, agora jogador de quadribol profissional, teria um jogo importante naquele dia ao qual o lufa-lufa não queria faltar e ele combinou com Andy que se juntaria a eles, à tarde.

- Nem pensar! – Hector se insurgiu contra a idéia de esperar. - Até lá pode ser tarde demais...

- Já é. – Mel o interrompeu, fazendo um gesto com a cabeça em direção ao chalé.

As duas mulheres saíram da propriedade, acompanhadas de mais dois homens. Mesmo à distância puderam perceber a elegância do grupo, que os distinguiria mesmo em meio a uma multidão.

- Droga! – Hector praguejou.

- Engraçado... – Mel murmurou. – Parece que conheço aquela loira de algum lugar. – Agora que conseguiu vê-la de perfil, a garota tinha esta estranha sensação.

- Mesmo? De onde? – Os olhos de Hector brilharam de esperança.

- Não sei...

- Ah, pois trate de se lembrar! Será que o seu irmão...

- Não ouse colocar meu irmão nisto, Hector Lupin!

- Por que não? O tampinha é irado, tenho certeza que daria um ótimo maroto...

- Não! – Gritou Mel, assustada. Hector teve que tampar a boca dela com a mão, pois os “vizinhos” ainda estavam perto o suficiente para ouvir. – Desculpe. – Ela disse depois que ele a soltou. – Por favor, não vamos colocar o Lipe nisto. Ele é impulsivo, não pensa antes de fazer as coisas e...

“Na realidade, é muito parecido com você”, Mel pensou, um tanto contrariada.

- E?

- E é meu irmão. – Ela achou melhor não provocar o grifinório com as costumeiras recriminações que ele já sabia de cor. – Se você tivesse um irmão não iria querer vê-lo em confusão também.

- Sim... Acho que entendo.

Mel sorriu, aliviada.

- Mas, quando Josh chegar, nós vamos entrar naquele chalé. – Completou, deixando-a em pânico. – Sei que ele ainda tem um pouco de Pó Negro Peruano que o tio Fred nos deu no último Natal.

Conhecendo Hector, ela nem se atreveu a perguntar onde ele tinha gasto o dele.


***

[Dezembro de 2007, poucos dias após o Natal]:

O Ministério em Londres fizera mais uma daquelas confraternizações que, se não fosse por algumas coisas que tinham acontecido daquela vez, seria a mesma festa aborrecida de sempre. Mas, com Sirius Black e Serenna praticamente se acertando (ela até deu a ele de presente de Natal, uma coleira que dizia: “Cuidado, ele já tem dona”!) e Snape torcendo o nariz adunco para toda a situação... As coisas ficaram bem interessantes.

Isto sem falar que a banda contratada para tocar no evento, “Dois Amassos e Um Gato”, que era composta por dois bruxos e um trouxa (por isto o nome), tinha um membro que era amigo de longa data de Serenna – ainda no tempo que ela era “Sarah Laurent”. E, agora, quem não havia gostado muito da idéia fora Sirius, porque o tal de Murilo era mais do que um amigo: ele tinha sido o ex-namorado de Serenna!

Luíza acreditava que o Sr. Black não tinha motivos para se sentir ameaçado por Murilo; e, ao final, parecia que o ex-grifinório também havia se convencido disto. Murilo agora estava casado com uma bruxa inglesa, e ele e Serenna se tratavam com intimidade, mas com a camaradagem de irmãos e não de amantes.

Ah, e aquela desagradável da Felícia Althorpe estava lá! Ana tinha contado sobre ela. Felizmente, Serenna não tinha sangue de barata e a colocou no seu lugar.

A única coisa que Luíza não entendia era como havia participado daquele final apoteótico no fim da noite, junto com Ana e Serenna. Apesar das duas mulheres terem dito que “a estavam levando para o mau caminho”, a verdade é que a razão de ter se levantado quando ambas a convidaram foi a expressão desafiadora de Zacharias. Lia-se perfeitamente no rosto de seu marido (era estranho pensar nele assim!) que ele não acreditava que seria capaz.

Mas foi. E, como! Diante de um salão já praticamente vazio, com poucas pessoas além de seus conhecidos, elas cantaram “Dancing Days”, das Frenéticas. Com direito a coreografia e tudo. (1)

Luíza decidiu que nunca mais faria isto, pois Zacharias a olhava agora com estranheza espantada, como se não reconhecesse a pessoa que estava caminhando ao seu lado pelas ruas de Londres.

Os passos de ambos faziam barulho nas ruas desertas, especialmente os saltos de Luíza (Ana insistira tanto que os usasse!). Fora isto, o silêncio era total. Som algum vinha deles ou daquela região da cidade, que durante o dia abrigava prédios e mais prédios de escritórios comerciais.

O Ministério da Magia havia achado melhor todos usarem a entrada de visitantes, por motivos de segurança. Nem aparatação, nem lareiras ou chave de portais. Por isto, o casal estava se distanciando do raio de abrangência do Feitiço Antiaparatação lançado pelo Ministério, para que Zacharias pudesse desaparatar, levando-os para casa. “Casa”... Outra coisa que Luíza achava difícil de acostumar-se: pensar no apartamento dele no Beco Diagonal como sua casa.

O jeito como ele a encarava - intenso e sem desviar o olhar, sorrindo de vez em quando como se estivesse se congratulando por ter descoberto um segredo – a intimidava demais.

- Escute, eu não... – Começou a dizer a ele, mas uma sombra alta se deslocou do canto escuro e esquecido de um prédio e atravessou a frente de ambos. Via-se claramente os contornos de um revólver por sobre o bolso esquerdo do sobretudo dele.

- Senhor e senhora Smith? – O estranho questionou, mas pelo tom de sua voz ele já sabia a resposta. – Creio que vocês têm algo que eu quero...

Zacharias havia ficado tenso desde que aquela montanha humana tinha se interposto no caminho deles. A face do homem estava encoberta pelas sombras noturnas e também pelo chapéu de abas que usava. Seu inglês era muito bom e livre de sotaques, o que indicava que não estavam lidando com um bandido comum.

Instintivamente, Zacharias pôs a mão por cima do casaco, procurando pela varinha, enquanto se colocava na frente de Luíza. O estranho percebeu o movimento:

- Este pedaço de madeira não vai ajudá-lo, sr. Smith. – Ele disse rindo, demonstrando que sabia da varinha.

- Isto é o que vamos ver! – Zacharias sacou a varinha.

Ele a movimentou para lançar um poderoso feitiço de desarmamento. Mas nada aconteceu. Tentou mais uma vez, diante dos olhos zombeteiros de seu interpelante, sem resultado algum. Luíza deixou sair um grito abafado de medo.

Sem alternativa, eles se viraram para correr pelo caminho pelo qual tinham vindo, mas outro homem saiu da escuridão de um beco e já se posicionava de modo a impedir-lhes a fuga.

- Sem magia, sem saída, sr. Smith. – O primeiro homem falou, agora com uma ponta de impaciência na voz. – Vamos, será melhor que cooperem... Pense em sua esposa. – Acrescentou com a última frase com a ameaça velada e cruel.

Luíza sentia que sua visão estava escurecendo. Sem que Zacharias pudesse usar meios mágicos para escaparem, o que fariam? Aqueles dois armários em forma de gente não os deixariam partir.

Mas seu marido a surpreendeu. Fez a última coisa que diria que ele faria no mundo: virou-se bruscamente e deu um murro no nariz do homem que lhes bloqueava a saída, tão bem dado que ele caiu zonzo pela força do golpe.

Então, antes que Luíza pudesse pensar qualquer coisa, viu o seu braço sendo puxado com ímpeto por Zacharias e ambos correram como se não houvesse amanhã pelas ruas escuras.

Bem, talvez não houvesse mesmo - não para eles - porque os bandidos começaram a atirar.

Embora não tenha escutado o estampido de nenhum disparo, reconheceu imediatamente que o que abrira um pequeno buraco na parede do prédio, que estava a menos de um metro da cabeça deles, tinha sido uma bala de revólver. Certamente, vinda do primeiro homem que os abordara. Luíza pensou em dizer “eles estão atirando!” - mas, frente ao óbvio, isto seria inútil. Então, outro pensamento gelou sua alma: silenciadores. Seus perseguidores vieram preparados para matar sem fazer alarde.

Mas os disparos pararam tão subitamente quanto começaram. Atreveu-se a olhar para trás em tempo de ver o outro homem ainda afastando com fúria a mão daquele que impunha o revólver. O gesto era inconfundível: não queria que atirasse. Então parou de olhar, voltando toda a sua atenção em fugir.

Acharam que tinham desistido. No entanto, segundos depois um furgão preto atravessou a frente deles. A porta foi aberta na clara intenção de permitir que um dos seus ocupantes os puxasse para dentro, mas os reflexos de Zacharias foram mais rápidos, girando a ambos para a direção oposta.

Quando achou que estavam a uma distância segura, ele parou em uma esquina. O motorista do furgão já havia manobrado o veículo e o posto em movimento, mas tinham alguns segundos antes deles alcançá-los.

- Saímos do perímetro Antiaparatação. – Zacharias disse ofegando.

Luíza assentiu, entendendo o que ele queria dizer. Mas Zacharias, inexplicavelmente, não conseguiu desaparatar, como também não havia conseguido lançar o feitiço de desarmamento momentos antes. Ambos trocaram um olhar desesperado e estupefato: seria possível que o motivo fosse aqueles estranhos que os estavam perseguindo?

Não tiveram muito tempo para trocar palavras, muito menos conjecturas, pois como se não bastasse o furgão se aproximando, a toda velocidade, os dois homens que os abordaram dobraram correndo a esquina mais próxima a eles.

Com aqueles saltos altos, Luíza não podia correr muito rápido, especialmente com a neve fina que caíra durante a noite. Mesmo sabendo que congelaria seus pés, tirou os sapatos antes de voltarem a correr, na tentativa pouco provável de escaparem do furgão ou dos dois perseguidores que estavam a pé.

O furgão fez uma manobra brusca enquanto diminuía a velocidade, a fim de possibilitar aos dois outros homens embarcarem pela porta lateral. Segundos depois, uma explosão foi ouvida. Os dois caíram no chão pelo susto e pelo impacto do ar comprimido produzido pela explosão de uma Cafeteria, agora em chamas pelo o que quer que fosse que a atingiu. Felizmente, o estabelecimento estava fechado há horas e não devia ter ninguém dentro dele. Levantaram-se de forma desajeitada, cambaleando e ajudando um ao outro na pressa de fugir.

Corriam pelas ruas desertas de Londres, escorregando nas calçadas congeladas pela neve. Via-se em seus rostos a interrogação “Por que estão nos perseguindo?”, mas não havia tempo nem maneira de obterem resposta, pois seus perseguidores se aproximavam cada vez mais, os sons das explosões os precedendo.

Mais à frente, um pub. O único lugar ainda aberto e funcionando naquele centro de negócios. As pessoas dentro dele já começavam a sair para a rua, atraídas pelos estrondos. Ao que tudo indicava, seus perseguidores haviam desistido da discrição.

Os fregueses olhavam para eles estupefatos, mas antes de chegarem perto da aglomeração na entrada, Zacharias a puxou para perto de uma caminhonete branca desbotada e velha. A porta estava escancarada e seu motorista, agachado há cinco metros do veículo, ao lado de uma caixa de correio. Ele devia estar indo embora quando se assustou com as explosões e saiu do veículo.

- Vamos roubar a caminhonete? – Confusa, Luíza viu-se sendo jogada no banco do motorista do veículo.

- O que acha? – Zacharias bateu a porta e deu a volta no carro, sentando-se no banco do passageiro. – E você vai dirigir.

- Você não sabe dirigir?

- Você sabe voar em uma vassoura?

Luíza não discutiu, especialmente porque o dono do veículo já havia percebido suas intenções e se dirigia furioso até eles. Ela pôs a caminhonete em movimento, arrancando a toda velocidade, fazendo as garrafas de cerveja vazias que se acumulavam no chão do veículo tilintar quando rolaram uma sobre as outras. Segundos depois o furgão surgiu, seguido de outra explosão, desta vez dentro do pub.

Horrorizada, ela viu pelo retrovisor que as pessoas que estavam próximas à porta do bar foram arremessadas para longe, algumas em chamas, como se fossem bonecos de papel soprados por um ventilador. E, dentro do pub, devia haver mais gente. Mortas, com certeza, sem saber o que as atingiu, sem ter chance de se defender.

Luíza pisou mais forte no acelerador, cega pelas lágrimas. O furgão continuou a persegui-los, implacável e insensível à chacina que havia provocado – seja lá como, uma vez que não conseguiu ver qual arma usavam para produzir tal destruição.

O espelho retrovisor direito foi estilhaçado por uma bala silenciosa, o que provocou um grito assustado em Luíza. Zacharias envolveu seus ombros como se pudesse assim protegê-las das balas, enquanto olhava para trás com a expressão frenética de quem não está gostando nada de se sentir impotente.

Um calor profundo começou a se fazer sentir no bolso direito de Luíza. No início ela nem se deu conta, apavorada e distraída demais para perceber nada além no frio em seu estômago e o grito de horror que parecia preso em sua garganta. Mas então, o calor se fez mais e mais concentrado, até o ponto dela não poder mais ignorá-lo.

- Zacharias, o medalhão no bolso direito do meu casaco! Tire-o!

Ele piscou, confuso, e logo depois pareceu entender o que ela estava falando e se apressou a procurar o objeto e retirá-lo do bolso dela. Estava quente, muito quente, e brilhava. Chegou a queimar a mão de Zacharias, que o soltou sobre o painel.

O furgão invadiu o acostamento – agora estavam chegando a uma rodovia mais movimentada – e, emparelhando com a caminhonete, começou a arremeter com a lateral esquerda contra a direita do veículo deles, objetivando fazê-los perder o controle da direção.

- Esta coisa não pode ir mais rápido? – Gritou Zacharias quando um dos bandidos apontou o revolver e começou a atirar.

- Não e duvido que agüente ir mais rápido! – Ela negou, mesmo que ainda assim apertasse mais o acelerador, inutilmente. - Com certeza desmancharia!

A porta lateral do furgão abriu e um dos bandidos se equilibrou, em pé, de forma que ficasse de frente para eles. Por alguns segundos, Luíza acreditou que ele ia atirar. Mas gritou de susto quando o homem pulou para a caminhonete, agarrando-se à lateral do carro.

Ele e Zacharias iniciaram uma luta. O homem tentava a todo custo entrar pela janela do lado de Zacharias, ou então empurrá-lo para que pudesse abrir a porta. Quando o bandido viu o medalhão em cima do painel, seus olhos se arregalaram. Imediatamente seu objetivo mudou: agora ele tentava alcançar e arrebatar o objeto com a ganância de um homem que vê um pote cheio de ouro.

Rápido, Zacharias alcançou e jogou o medalhão de Ravenclaw para a parte traseira da caminhonete, longe das mãos do atacante. Com os olhos brilhando de raiva, o homem não teve dúvidas e puxou um revólver de trás da calça. Ele ia atirar em Zacharias.

Foram átimos de segundo antes de Luíza tomar a decisão. Deu uma guinada brusca para a direita, prensando o bandido entre a caminhonete e o outro veículo. Pôde ouvir ossos se quebrando, juntas se estraçalhando e viu sangue espirrar manchando tanto a caminhonete quanto o furgão. O veículo dos perseguidores foi arremessado contra a parede de terra do lado do acostamento. Rodopiou e saiu da estrada, enquanto o corpo do homem que pulara na caminhonete rolava até parar no meio da pista.

Mas o furgão retornou à estrada e reiniciou a perseguição, indiferente à perda do companheiro. Ambos os carros estavam avariados com as colisões. Os outros veículos paravam no acostamento. Se tivessem oportunidade para tanto; os outros, desesperados, tentavam manter distância deles.

Foi então que Luíza viu, pelo retrovisor, um cilindro de metal sendo sustentado por um dos perseguidores e apontado para eles. No começo, achou que era uma bazuca ou algo assim, e quase gritou de novo. Mas percebeu que o centro frontal do cilindro tinha luzes circulares a intervalos constantes das bordas, lembrando o disco de um telefone antigo.

Só poderia...

- Que cheiro é este? – Zacharias perguntou, voltando-se para a parte traseira onde tinha jogado o medalhão.

- Gasolina! – Ela exclamou, temendo que o tanque estivesse vazando. Só quando Zacharias ergueu um recipiente azul escuro de plástico é que ela notou que devia ser o combustível reserva que algumas pessoas levam quando viajam para longe, com medo de não encontrar um posto por perto.

Ela devia estar ficando maluca, mas só havia um jeito de escapar, e era com magia. Mas antes, se o que estava pensando fosse correto, teria que acabar com o que estava impedindo Zacharias de conjurar um feitiço que os tirasse dali.

- Zacharias, rasgue a sua camisa e faça tiras com ela. – Começou a falar muito rápido, quase sem respirar, nem acreditando que realmente estava pensando em fazer aquilo. - Depois as torça e encaixe uma em cada garrafa de cerveja, deixando um pedaço para fora. Então, encha-as com gasolina...

- Mas o quê...

- Faz o que eu digo! – Ela gritou.

Seja porque não tinha alternativa melhor, seja por causa do susto de ver alguém tão calma e pacata como Luiza gritar daquele jeito, Zacharias começou a executar as ordens dela. Tirou o casaco e depois a camisa, reduzindo-a a tiras longas. Depois de colocá-las em duas garrafas e enchê-las com gasolina, ele se voltou para Luíza:

- Posso saber o que estamos fazendo?

- Bombas caseiras. – A voz dela soou grave e seca.

Zacharias arregalou os olhos e mirou as garrafas como se elas fossem explodir em suas mãos. Luíza teria rido se a situação fosse outra.

- Elas só vão ser perigosas quando pusermos fogo no tecido. – Apontou para o isqueiro que estava abaixo do cinzeiro, no painel do carro. – Ainda bem que o dono da caminhonete fuma.

- Fumava. – Zacharias resmungou com humor negro.

Luíza fechou os olhos, lembrando-se das pessoas em chamas do lado de fora do pub. Nunca mais iria esquecer daquilo – isto na hipótese de saírem vivos dali.

- Está vendo aquele objeto cilíndrico que eles acabaram de encaixar em cima do furgão? – Zacharias fez um gesto de assentimento com a cabeça. Era o quê os tinha deixado ocupados nos últimos minutos. – Acho que é o que está te impedindo de fazer magia.

Ele riu, incrédula e nervosamente, demonstrando que a idéia lhe parecia absurda.

- Aparelhos trouxas não fazem varinhas pararem de funcionar. É a magia que faz as engenhocas dos trouxas pararem. – Declarou convencido.

- Tem uma explicação melhor?

Zacharias engoliu em seco. Sério, admitiu que não, não tinha.

- Com cuidado para não deixar a gasolina cair em você, acenda a ponta do tecido, o pavio, e tente acertar aquele cilindro.

- Você ficou maluca? – Zacharias exclamou.

- Possivelmente. – Luíza tinha firme convicção que sim, tinha ficado maluca. Aquelas ideias eram coisa de suas amigas Ana e Carolina, não dela.

Zacharias respirou fundo duas ou três vezes, tomando coragem – e se convencendo que devia fazer mesmo. Depois pegou o isqueiro e sob as orientações de Luíza o acendeu. Com cuidado, incendiou o tecido e se voltou para a janela. Colocou metade do corpo para fora, sabendo que poderia a qualquer momento ser atingido por uma bala, ou que uma delas atingisse a garrafa, fazendo-a explodir.

Apesar de não esperar que Zacharias acertasse o alvo na primeira vez – possivelmente nem na segunda, ele o fez. Ter pertencido ao time de quadribol da Lufa-Lufa deve ter contribuído para a sua mira. A garrafa se espatifou contra o cilindro, colocando-o em chamas. O furgão perdeu o controle e saiu da estrada novamente.

- Tente desaparatar agora! Não, espere! Pegue o medalhão primeiro!

Por longos vinte segundos, Zacharias tentou achar o objeto na escuridão do carro. A parte traseira onde ele o havia jogado estava cheia de tralhas, o que dificultava ainda mais. Incrédula, Luíza viu que os homens do furgão usavam um extintor para apagar o fogo do cilindro, e ainda assim seu motorista não parou o carro. O objeto chamuscado e destruído foi jogado do lado da estrada.

- Achei! – Zacharias exclamou. O medalhão ainda deveria estar queimando, pelo grito de dor que ele soltou antes de envolver o objeto no tecido que sobrou de sua camisa e guardar no bolso do casaco, que vestiu novamente, e pegou a varinha. – Segure no meu braço!

Luíza manteve a mão esquerda no volante e estendeu a direita para ele. Segundos depois, o mundo sumiu ao seu redor. Deixou de sentir o banco do motorista e o volante. O típico enjôo que acompanha a desaparatação apareceu.

A caminhonete saiu da estrada exatamente quando estavam passando por uma ponte, atravessando-a e caindo no Tâmisa, diante dos olhos esbugalhados de seus perseguidores.

Pouco antes de abrir os olhos novamente, Luíza sentiu o braço bater em algo que se estilhaçou e o impacto das costas sobre um chão amadeirado. Zacharias caiu sobre ela, o que lhe roubou o ar dos pulmões. Depois dos primeiros segundos de atordoamento, Zacharias recobrou a noção de onde estavam.

- Merlim, você machucou a mão! – Ele pegou o pulso esquerdo dela para um exame minucioso.

A mão exibia um corte profundo de onde um filete de sangue escorria.

- Não foi nada. – Ela disse. – Foi quando aparecemos no apartamento. Espero que o vaso não seja valioso. – Apontou para o objeto de cerâmica que jazia aos pedaços no chão, ao lado de sua cabeça.

Zacharias nem lançou um olhar para o vaso. Levantou-se em um pulo, puxando-a com ele. Analisou cada centímetro dela para se certificar que não havia machucado mais nada.

- Estou bem, de verdade...

- Espere, resolvo isto em um instante. – Ele pegou a mão dela na sua e com a outra girou a varinha de forma elegante e segura. O corte se fechou imediatamente. – Viu como é bom ter um marido bruxo? – Ele sorriu.

Este deveria ser o momento em que ambos se dedicariam a discutir a perseguição que haviam sofrido. Que correriam até a lareira e avisariam os membros da Ordem da Fênix que havia mais alguém atrás do medalhão... Mas, em vez disto, os dois se viram presos no olhar um do outro.

- Zacharias! Lu! – Era a voz de Ana vindo da lareira, parecendo desesperada. – Zach, você está aí?

Luíza deu um pulo de susto, enquanto Zacharias emitia algo entre um gemido e um suspiro de decepção.

- Sim, estamos aqui, Ana. – Ele se aproximou da lareira.

- Que alívio, uma confusão tremenda aconteceu em Londres... – Ana disparou.

- Fomos perseguidos em Londres, a Ordem precisa ser avisada. – Zacharias disse ao mesmo tempo.

- O QUÊ? – Na lareira, a cabeça flutuante de Ana arregalou os olhos.

Zacharias contou toda a história e a recontou para Harry minutos depois, pois Carlinhos, escutando tudo atrás de Ana, não perdera tempo em avisá-lo.

- Não saiam daí, Zacharias. – Harry disse. – Aurores já estão sendo enviados para fazer a vigilância em seu apartamento.

- Aurores?

- É. Desta vez não há como deixar o Ministério fora disto. Houve destruição demais. – Abaixou o tom de voz. - Mortes demais.

- Que droga, Potter! – Zach xingou baixinho. – Não quero aurores aqui. Para falar a verdade, nem sei se quero gente da Ordem!

- Como é que é? – Os olhos verdes de Harry dançaram de surpresa entre as chamas da lareira.

- Sejam lá quem quer que fossem as pessoas que estavam nos perseguindo... Elas queriam o medalhão. E só a Ordem sabia que ele estava com Luíza.

Harry viu seus piores temores se tornarem realidade.

- Temos um traidor. - Depois de quase trinta anos, havia outro espião na Ordem da Fênix.

Os dois homens estavam tão absortos na conversa que esqueceram de Luíza, a poucos passos deles. Sua mente trabalhava há mil por hora, fatos se conectando depois do ocorrido como não tinham feito antes. O medalhão estava na mesa de centro da sala, à frente dela, com o tecido com o que Zacharias o havia embrulhado ao seu redor.

- Vou falar com Quim para escalar só gente de confiança. – Harry decidiu. – Acho que Shacklebolt, Tonks, Rony e eu. Não tenho coragem de pedir pro Carlinhos “liberar” a Ana no meio da noite, deixando a filhinha deles. Está bem assim para você?

- Sim. – Zacharias concordou. – Acho que vocês quatro estão no meu círculo de confiança.

- Ora, vejam só... – Achou graça. – Quem diria que um dia estaria admitido no rigoroso círculo de confiança de Zacharias Smith! Mais uma coisa... – Ficou sério. - Mesmo com a possibilidade de haver um traidor, precisamos marcar uma reunião da Ordem. Amanhã, ou melhor, hoje – corrigiu-se olhando as horas no relógio que tinha pertencido a Fábio Prewett – à tarde, o mais tardar.

Zacharias fez uma careta, mas concordou, com a condição de que tomariam cuidado com as informações repassadas, e os dois homens se despediram.

- Vão fazer a segurança do lado de fora do apartamento, mas o Potter me garantiu que a sua resistência aos feitiços de memória ficará em segr... Luíza? – Chamou quando percebeu que ela mantinha o olhar vidrado no medalhão.

Ele mal teve tempo de ampará-la quando de repente ela cambaleou. Luíza cobriu os olhos com a mão e gemeu, parecendo estar sofrendo terrivelmente.

- Está acontecendo de novo. – Sussurrou para ele. – Foi demais, eu não...

Sequer conseguiu terminar a frase. Agora ela apertava os ouvidos enquanto mantinha os olhos fechados. Era como se qualquer estímulo provocasse dor.

Ana o havia alertado sobre as crises de Luíza. Na realidade, a prima estava muito preocupada que ela pudesse ter mais uma a qualquer momento, com tanta pressão que estava sofrendo. Diversas vezes pediu para Zacharias não a deixar pegar tão pesado com o trabalho com o medalhão, mas ele não tinha levado a sério. Luíza pareceu ótima nestes últimos meses!

No entanto, ao que tudo indicava, a perseguição tinha sido a gota d’água em um copo que já estava prestes a transbordar. No caso, o copo era a mente de Luíza.

Apesar de aquele tempo todo ter reclamado e repetido diversas vezes que não queria ser o herói de nenhuma mulher, nunca desejou tanto poder salvar uma como agora queria salvar Luíza. Mas estava impotente. Com o olhar perdido, carregou-a até o sofá e ficou ali segurando a cabeça dela em seu colo, conforme Ana o tinha ensinado, esperando com o olhar perdido.

As horas foram passando e, por mais que Zacharias tentasse se manter acordado, pouco antes dos primeiros raios da manhã surgirem, fechou os olhos por um segundo e foi o suficiente para cair no sono. Quando acordou novamente, o sol já ia alto no céu. Percebeu que ainda segurava a mão de Luíza, que também acordara e agora o olhava com a testa enrugada.

- Você... Está melhor? – Sussurrou.

- Sim. – Ela respondeu em tom normal, piscando algumas vezes. – Tudo vai ficar bem agora.

Zacharias quase riu. Não era ele quem devia estar dizendo aquilo?

De novo. Os olhos dos dois se prenderam um no outro, provocando aquela sensação esquisita no estômago de Zacharias. Ah, havia desejo, é claro, ele o reconheceu imediatamente. Mas era ainda melhor. Era, era...

- O que está fazendo? – Luíza sussurrou quando ele passou um dos braços ao redor da cintura dela e a puxou firmemente para si.

- Me certificando que, desta vez, você não vai fugir. – Respondeu com voz rouca antes de beijá-la profundamente.


***

Um burburinho correu a sala quando Zacharias terminou de fazer seu relato. A Ordem da Fênix estava reunida em peso ali, com apenas uns poucos ausentes.

E Harry não parava de pensar que era bem provável que um daqueles rostos aos quais fitava agora – rostos tão conhecidos, tão familiares e queridos a ele – os havia traído.

- Quem é esta gente? - Alguém levantou a voz um pouco mais alto que os demais, referindo-se aos perseguidores de Smith e de Luíza, mas Harry se sobressaltou, pois a pergunta poderia perfeitamente se encaixar no que estava pensando.

- Os Comensais... – Imediatamente outra voz se interpôs.

- .... da última vez, não há jeito...

- Um grupo de estrangeiros, quem sabe seguidores de Grindewald...

- Eu ouvi...

- Penso...

- Naquela vez...

Ele percebia os fragmentos de frases em meio à balbúrdia, cada uma delas representando as muitas possibilidades que passaram pela mente dele mesmo, infinitas vezes, torturando-o. E, apesar disto, sempre retornava a mesma questão: tinham um traidor.

Durante todos aqueles anos lutou para não cometer o mesmo erro de seu pai, cego à traição daquele a quem considerava um grande amigo. Ao mesmo tempo, sabia que desconfiar de todos ao seu redor só levaria a um coração amargurado e à solidão. Tinha o exemplo destes dois extremos: seu pai e Snape, e achava que havia achado o meio-termo.

E ali estava a evidência de que estivera errado.

Passou novamente o olhar pelos rostos dos presentes. Cada um deles era uma opção dolorosa demais para ser aceitável. Sua família. Seus amigos. Gente que estava há tanto tempo com ele, Que sofreu junto e tanto... Não poderiam, não teriam motivos!

Mas não foi isto que seu pai pensou?

A simples cogitação o deixou doente e tomado por uma profunda culpa, só de imaginar o que eles diriam, como se sentiriam, como o olhariam se soubessem que sequer considerou a hipótese.

Não, não podia descartar a idéia, mas tampouco comprá-la tão facilmente. Ainda faltava muita gente, colaboradores ocasionais da Ordem que recebiam relatórios – superficiais, é verdade, mas que, ainda assim, podiam ser a pessoa a quem procurava.

Na sala, as pessoas ainda discutiam, incrédulas e assombradas, quem seriam aqueles que haviam perseguido os Smiths na madrugada anterior. No entanto, não pareciam mais próximos de chegar a uma conclusão do que quando começaram.

Também pudera! Ninguém tinha a menor pista de quem – ou o quê – teria a capacidade de fazer as coisas que Zacharias disse que aconteceram naquela noite. Buscou as expressões das pessoas a quem considerava mais aptas a descobrir algo: Gina, que atualmente era professora de Defesa Contra as Artes das Trevas; Hermione (claro!), mas esta exibia uma ruga de interrogação na testa; e Lupin, que primeiro lhe revelou segredos mais profundos da magia, mas também não encontrou sinal de alguma luz no rosto de seu ex-professor. Até mesmo Snape, a quem por orgulho raramente recorria, parecia perdido.

Harry dava voltas na sala, esperando que o burburinho se acalmasse. Não era um bom começo para as festas de fim de ano.

- Seja lá quem sejam eles – ele disse em voz alta, chamando a atenção de todos -, não eram bruxos, mas... Podiam nos deixar sem poderes. E eles queriam o medalhão.

A gravidade da idéia de que alguém poderia simplesmente anular a magia que os bruxos controlavam deixou a sala mergulhada em um silêncio sepulcral. Claro, todos haviam escutado muito bem o que Zacharias havia dito, mas simplesmente se recusavam a “digerir” o assunto. No entanto, quando Harry o repetiu com o semblante soturno – logo ele, o Eleito, um dos mais poderosos bruxos que conheciam – os membros da Ordem da Fênix sentiram a ameaça como sendo mais real.

- Não existe tal coisa. – Snape pronunciou a afirmação lenta e pausadamente, ainda que Harry captasse uma nota de hesitação. – Smith deve ter ficado apavorado demais para executar um feitiço adequadamente.

- Pareço alguém que entra em pânico à toa, Snape? – Zacharias rebateu entre os dentes cerrados de irritação. O ex-lufano já havia confidenciado a Harry que Severo Snape estava no topo da sua lista de suspeitos como traidor.

Snape apenas olhou para Zacharias pelo canto do olho com um sorrisinho irônico.

- Eu não disse que foi à toa.

- Zacharias... – Lupin, que estava de pé, encostado à parede, deu um passo a frente. – Tem certeza que não poderia ser um feitiço antiaparatação?

- Tentei vários outros feitiços, não só aparatar. – E então, elevou a voz, impaciente: - Eu estou dizendo, não era nada que qualquer um de nós conhecesse! E, além disto, que bruxos usariam armas trouxas ao nos abordar?

- Se realmente havia algo de natureza desconhecida que estava impedindo feitiços... – Gina olhou firmemente para Zacharias, e Harry reconheceu o olhar “se acalma aí, senão te chuto”. – Veja bem, eu disse “SE”... Então, talvez este feitiço também os impedisse.

- Ah, qual é! Vocês escutaram o loirinho. – Sirius se manifestou com o seu costumeiro jeito indolente. – O cara que o atacou disse que aquele “pedaço de madeira” não iria ajudar em nada. Que bruxo se refere a uma varinha como “um pedaço de madeira”? Algum de vocês sequer já pensou em falar assim sobre sua própria varinha ou a de alguém? Não, os caras não eram bruxos.

Gina franziu o cenho e torceu os lábios, mas não o contradisse.

- Ainda assim – Hermione falou, enquanto fitava pensativamente a chama que tremulava na ampla lareira de Grimmauld Place – concordo com Snape de que não há nada, mágica ou não, que conhecemos que pudesse fazer o que Zacharias descreveu. Estamos lidando com pessoas que têm um profundo conhecimento da natureza da magia... Mais do que nós mesmos. E é neste ponto que concordo também com Zacharias de que não devemos subestimá-los.

Até mesmo Snape assentiu à conclusão de Hermione, o que fez Harry ter certeza de que haviam chegado ao consenso de que deviam ser cautelosos. O que o lembrava...

- As novidades não acabam por aqui. – Harry declarou. – Há alguns dias, Zacharias entrou em contato comigo para falar sobre uma descoberta recente de Luíza.

Ele fez sinal para que Zacharias prosseguisse, mesmo que o outro lhe lançasse a típica expressão de quem discorda. Ambos haviam divergido sobre contar aquela parte na reunião, em virtude do traidor que poderia estar ouvindo. Ainda assim, Harry o convenceu com o seu argumento.

Contariam a verdade sim. Mas ela seria uma isca para o espião.

- Minha esposa descobriu... – Zacharias começou.

- “Sua esposa”? – Rony o interrompeu com a sua costumeira “sensibilidade” e “senso de decoro”, boquiaberto com o termo utilizado pelo outro ao se referir à Luíza.

Zacharias enrubesceu imediatamente. E Zacharias nunca enrubescia. O que só contribuiu para confirmar o significado daquilo.

Viu, pelo canto dos olhos, que Ana abriu um grande sorriso e fez menção de se levantar e abraçar Zacharias. Mas recuperou o juízo a tempo e ficou sentada no sofá, trocando um olhar cúmplice com o marido.

Fred resmungou baixo alguma coisa que soou irritada e Jorge estendeu a palma da mão na frente dele, com um sorriso vitorioso. Fred depositou alguns galeões nela, à contragosto. Todos que sabiam da aposta que os gêmeos haviam feito entenderam o que o gesto significava também.

Zacharias - que, por sorte, não viu os gêmeos – pigarreou e prosseguiu:

- Ela descobriu números ocultos que apontavam para uma região em específico no mapa de Somerset, chamada “Badger Hill”.

Então, Zacharias buscou um cilindro de couro e de dentro dele tirou um rolo de pergaminho com aparência extremamente antiga:

- Foi quando lembrei de uma coisa que já havia visto antes. Isto, senhores, é provavelmente um dos tesouros mais valiosos da família Smith. – Ele desenrolou o pergaminho revelando o esboço de uma paisagem, feita à carvão e com a característica falta de perspectiva dos desenhos medievais.

- Está escrito Badger Hill em cima! – Rony apontou para as letras em vermelho quase apagado.

- Perspicaz como sempre, Ronald. – Zacharias disse com ironia, aproveitando a oportunidade para ir à desforra da indiscrição do ruivo momentos antes.

- Vá logo em frente, Smith. – Ronald estreitou os olhos perigosamente.

- Você disse que é um dos bens mais valiosos dos Smiths. – Lupin voltou a se manifestar, já acostumado com as implicâncias dos “meninos”. – Certamente é muito antigo. O que é?

- Este pergaminho é de autoria desconhecida, mas veio passando de geração em geração. O guardamos no cofre do Gringotes como medida de segurança.

- No Gringottes? – Gui, que até então se mantivera só ouvindo, ficou com queixo caído. – Deve ser realmente valioso para se valer da proteção dos duendes.

- Smith... – Snape tinha um brilho febril no olhar. – O “quão” antigo, exatamente, este pergaminho é?

- Uns mil anos, mais ou menos. – Zacharias sorriu, satisfeito, porque a pergunta do Professor de Poções havia indicado que ele tinha entendido aonde tudo aquilo ia levar.

- Então quer dizer que...

- Ninguém da minha família ou os historiadores bruxos podem dizer com certeza. Mas é provável que tenha pertencido a Helga Hufflepuff.

- Ah, não, de novo não... – Ana gemeu.

- De novo? – Neville estranhou.

- Não é a primeira vez que tem dedo de Helga Hufflepuff nos segredos dos fundadores de Hogwarts. – Rony disse, com o canto dos lábios tortos com o riso.

- Da última vez não foi nada engraçado para mim, Ronald. – Ana rosnou para o cunhado.

- Foi na época que éramos adolescentes, Neville. – Harry esclareceu. – Antes do fim da guerra. Depois eu te explico. (2)

- Helga Hufflepuff e mais um segredo de um fundador. – Zacharias sorriu, empolgado, e se voltou para Ana: - Sabe o que isto significa?

- Que nossa ancestral gostava de se meter na vida dos amigos? – Ela arriscou dizer com uma careta.

Como era de se esperar, a hipótese de Ana causou risadinhas pela sala. Ela piscou algumas vezes, confusa, porque a piada não foi intencional, simplesmente... Saíra.

- Um traço de família, suponho. – Fred se apressou a acrescentar, lançando um olhar significativo para Ana.

Desta vez, as risadas não foram dissimuladas, mas irromperam de todos os cantos. Ana não precisou de explicações para entender que agora a indireta era com ela: todos sabiam que segredos e Ana não combinavam.

Só Zacharias permaneceu sério:

- Não, quer dizer que os outros fundadores viam em Helga alguém em quem podiam confiar. E acredito que deva ser nós dois a irmos averiguar Badger Hill.

- Por quê? – Jorge se insurgiu, sendo acompanhado pelo irmão.

- Pode haver algo ligado à hereditariedade naquele lugar. – Zacharias respondeu sem titubear. – E somos os únicos membros da Ordem que são descendentes de Helga.

- Você só é membro por causa desta confusão envolvendo o seu casamento com Luíza. – Rebateu Fred.

- Não – Harry resolveu intervir - Zacharias é membro honorário da Ordem da Fênix desde a Batalha dos Dragões.

Ele percebeu que sua declaração, como previra, causara espanto na maioria das pessoas daquela sala. Todos sabiam que Zacharias lutou com eles naquele dia, é claro, mas o fato ficou esquecido, sobrepujado à lembrança de que ele tinha fugido da Batalha Final, em Hogwarts. E pelo fato de que Zacharias nunca mais fez uso de seu posto na Ordem.

Exceto pelos membros mais antigos, como McGonagall e Lupin, poucos ainda se lembravam que Smith fora admitido e que ainda recebia relatórios das atividades da Ordem durante todos aqueles anos. Claro, Zacharias não se fazia muito presente e não dava importância ao seu cargo. Até saber sobre a verdade daquele dia da retirada abrupta dele da Batalha Final, Harry nem mesmo entendia porque ele tinha entrado, para início de conversa.

- Também acho que ele e a Ana são quem devem ir. – Harry prosseguiu. – Até onde eu sei isto é... uma questão de família.

- Vocês estão se esquecendo que Agatha também é da Ordem e é uma Smith. – Sirius, impaciente por uma aventura, também não estava satisfeito por perder aquela oportunidade.

- Vai querer mandar aquela velhinha? – Ronald contrapôs em tom de falso horror, claramente provocando Sirius. Até que se lembrou de uma pessoa que estava presente e que era da mesma geração que Agatha Smith: - Desculpe, professora McGonagall. – Suas orelhas ficaram vermelhas. – Não estou dizendo que não podem... Ou que a senhora... Ham... Bem – concluiu de uma vez: - o Harry tem razão. Por que estão insistindo tanto? Não é como se tivesse um prêmio em galeões esperando por vocês por lá.

- Mas pode haver um bracelete de ouro e ônix como da última vez. – Sugeriu Jorge, só de brincadeira.

- Que vocês entregariam para seus legítimos donos, é claro. – McGonagall os lembrou, implacável. Molly Weasley faria o mesmo se não tivesse ficado na Toca com o marido, tomando conta dos netos.

- Claro... – O sorriso de Jorge se apagou imediatamente.

Não importa quantos anos tenham se passado desde que você saiu de Hogwarts: McGonagall ainda tem o poder de fazer você se sentir um aluno sendo repreendido.

- Desde que eu não acabe com mais uma jóia presa no meu corpo... – Ana pensou em voz alta.

- Não. – Carlinhos o surpreendeu com a oposição tardia, quando todos os outros já pareciam ter concordado. – Não vou deixá-la ir para um local que pode ter mais daquelas flechas que você recebeu, Harry.

Harry não entendeu o comportamento do cunhado até que se deu conta que a referência ao bracelete de Hufflepuff deve ter trazido à tona lembranças ruins de Carlinhos a respeito daquela época. Ele sabia que o tratador de dragões ainda tinha um medo irracional de perdê-la novamente.

- Confie em mim, Carlinhos. – Ele tentou passar uma mensagem silenciosa ao olhar para o cunhado. Teria que se lembrar de mais tarde contar o plano a ele e a Ana mas, por hora, tinha que fazê-lo entender sem saber dos detalhes. – Não iria colocar a vida de ninguém em risco, muito menos a de Ana.

- Amor, lembra sobre o quê conversamos sobre me superproteger? – Ana o enlaçou pela cintura.

Gui colocou a mão sobre um dos ombros do irmão, passando ao mesmo tempo força e uma repreensão de irmão mais velho. Carlinhos então finalmente aquiesceu.

- Só me diz uma coisa, Zach. – Ana se voltou para o primo. – O cara que te perseguiu realmente os chamou de “Senhor e Senhora Smith”? – E ela caiu na gargalhada.

Ninguém entendeu o quê ela achara tão engraçado, nem ele. Quando Ana percebeu que estava rindo sozinha, parou e disse, amuada:

- Piada de trouxa. A Serenna entenderia se estivesse aqui. – Disse a última frase como uma queixa, sentindo falta da amiga que compartilhava as estranhezas do confronto entre o mundo bruxo e trouxa. – Aliás, por que ela não está?

A pergunta foi feita para Snape.

- Alguém tinha que ficar com as crianças. – Foi a resposta evasiva.

As crianças eram o filho adotivo de Snape, Alan, os filhos de Serenna e as outras crianças do Lar de Elizabeth.

- Pensei que estivessem ainda na casa de Lady Marjorie. (3) – Sirius estranhou. – Ela não poderia cuidar deles?

Sirius Black visivelmente queria que Serenna estivesse ali. E Snape, por outro lado, visivelmente engoliu uma resposta atravessada para ele.

- Eu queria que ela passasse estas festas de fim de ano da forma mais normal possível. Achei melhor que ela ficasse tranqüila na casa de Marjorie. Não a perturbei com os eventos desta noite.

- Ela vai é fazer picadinho de você quando souber que não contou para ela... – Ana murmurou. Ela era a única, além de Serenna, a quem Snape permitia estas “intimidades”.

- Sinto muito, professor, mas precisamos de Serenna ainda hoje. – Hermione interpôs educadamente. – Preciso que ela pesquise no computador do Lar de Elizabeth informações atuais sobre Badger Hill, antes de Ana e Zacharias ir para lá.

- Permita-me buscar minha mulher, Snape. – Sirius disse, feliz demais para o gosto de Snape, o que Sirius tinha perfeito conhecimento.

Serenna finalmente havia descoberto o que todos pareciam saber e ela não, desde que tirara Sirius do Véu da Morte: eles estavam casados. Magicamente casados. O ritual que encenaram para salvar Sirius se revelou um feitiço de união que era inquebrantável. Por outro lado, se ela não fosse alma gêmea de Sirius, jamais teria podido tirá-lo de lá, então, o casamento entre eles tinha tudo para dar certo.

No entanto, Sirius estava indo devagar, dando tempo para que Serenna se acostumasse à idéia... e a ele.

- Não precisa, Black. – Snape interpôs. - A casa de Lady Marjorie está equipada com um cômodo onde magia não atrapalha os aparelhos trouxas. Ela tem um computador lá. Minha irmã pode perfeitamente usá-lo. Só vou falar com ela pela lareira...

- Eu insisto em ir mesmo assim. – Sirius informou com um sorriso cordial que sabia que irritaria Snape. – Estou com saudade de minha mulher.

Ele não parava de falar “minha mulher” sabendo que estava provocando o antigo rival dos tempos de escola.

- Você falou com ela hoje de manhã.

- Ah, mas é assim mesmo entre marido e mulher. Não conseguimos nos manter longe um do outro.

- Snape. Sirius. – Harry chamou a atenção deles. – Não podemos perder tempo.

Á contragosto, Snape cedeu. Sirius se enfiou dentro da lareira todo serelepe e com um sorriso satisfeito nos lábios, carregando um pedaço de pergaminho que Hermione lhe entregara com as instruções para Serenna do que ela precisava que procurasse.

Meia hora depois, Serenna voltava com Sirius para entrada da lareira, o rosto afogueado (Harry bem sabia que o padrinho deveria ser o responsável por isto) e folhas e mais folhas de papel que os trouxas usavam para imprimir os dados que queriam de um computador.

- Descobriu alguma coisa? – Tonks perguntou, vendo como ela se apressava até eles.

- Sim. – Serenna parou um segundo e lançou um olhar repreensivo a Snape, os lábios franzidos.

- Para quê conversaríamos em casa depois? – Snape disse para a irmã, indiferente. – Você já decidiu que está brava comigo.

- Mais da “luz roxa” deles. – Ana explicou aos demais como Snape sabia o que a irmã estava pensando (ou tentou, porque Harry duvidava que eles entendessem a referência ao filme “Fuga da Montanha Enfeitiçada”).

- Bem. – Serenna lançou um último olhar desgostoso para o irmão e, depois, um outro a Sirius, quando percebeu que ele estava provocando Snape com um sorrisinho irritante. – Há muito pouco sobre Badger Hill, mas o que achei foi realmente interessante. A única referência é sobre o campo de futebol localizado ali e... – Serenna prendeu a respiração, como se estivesse prestes a dizer algo fantástico. – O time dali não vence nenhuma partida naquele campo há dois anos.

Silêncio.

- O que tem de sobrenatural um time de futebol ruim pra dedéu? – Rony questionou.

Serenna riu:

- Acho que a causa da desgraça dos jogadores vai um pouco além de imperícia com uma bola. A notícia que eu encontrei na internet fala que a direção do clube contratou uma pretensa bruxa para ajudar. Parece que as pessoas acreditam que o campo está “amaldiçoado”. (4)

- A mulher é uma bruxa de verdade? – Hermione perguntou boquiaberta.

- Isto eu não sei dizer. Mas o que chamou atenção foi a data em que a “má sorte” começou. Ela coincide com o início de uma escavação arqueológica em um novo sítio da Abadia de Glastonbury.

Silêncio, desta vez de assombro.


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LEGENDA
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(1) “Close To You: sonho de um maroto”, da Regina McGonagall..
(2) Harry Potter e o Segredo de Sonserina.
(3) Lady Marjorie: personagem original de Regina McGonagall, na fic “Close to You”. Ela é parente dos Snapes.
(4) Isto é interessante: http://news.bbc.co.uk/2/hi/uk_news/engl ... 394643.stm.


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NB.: Belzinha, que sufoco, amiga! O que foi aquela cena de perseguição???? Fiquei sem fôlego. Não consegui ser a beta e a fã. Então, para não dar mancada, eu li como fã e depois como beta, ok? Deu pra sentir a tristeza da Luiza com os atingidos pela galera do mal. E o Sirius??? Ai, ai. Adoro ele provocando o Ranhoso. E o Zacharias. Que fofo, viu? Amei. Tudo. E confesso que já estou sonhando com o próximo, que vem quando mesmo??? Hehehe. Parabéns, querida e conte comigo sempre, pois, como já te disse quem mais aproveita isso sou eu. Ehehehe


N/A: Eita capítulo mais longo, hem, gente? Matei vocês de cansaço? Não? Mas quase, né? Hehehehehe. Minhas mais sinceras desculpas pela demora em postar a segunda parte. E também a minha mais profunda gratidão pelos comentários e votos a esta fic. O que mais me motiva a escrever é saber que vocês estão se divertindo com ela.

E, se isto servir de compensação pela “lentidão” com que posto, revelo – a quem interessar, é claro – que logo-logo um mistério que não foi resolvido ainda no Segredo de Sonserina vai ser revelado nos próximos capítulos.

À minha betha, sempre disposta a encarar qualquer texto que eu escrevo. Obrigada, Lica! Sua generosidade e energia são cativantes e, com certeza, estão entre a longa lista de qualidades que todos nós que te conhecemos amamos tanto em você. Um beijão especial para você e para a Cacá.

Abraços a todos e muito, muito obrigada!
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Re: Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 28/01/10)

Mensagempor Regina McGonagall » 19/02/10, 22:55

Nossa, essa minha correria de ultimamente me impdiu de vir aqui conferir oficialmenne o que já tinha lido "informalmente".
- Só me diz uma coisa, Zach. – Ana se voltou para o primo. – O cara que te perseguiu realmente os chamou de “Senhor e Senhora Smith”? – E ela caiu na gargalhada.

Ninguém entendeu o quê ela achara tão engraçado, nem ele. Quando Ana percebeu que estava rindo sozinha, parou e disse, amuada:

- Piada de trouxa. A Serenna entenderia se estivesse aqui. – Disse a última frase como uma queixa, sentindo falta da amiga que compartilhava as estranhezas do confronto entre o mundo bruxo e trouxa. – Aliás, por que ela não está?


pois é, não assim mesmo que a gente se sente, quando quer comentar algo sobre "Harry Potter"... e não é nossa melhor amiga potteriana que tá do lado... e quem tá olha como se a gente fosse doida? :cry:
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Re: Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 23/03/11)

Mensagempor Belzinha » 26/03/11, 15:40

- Capítulo 24 -
-- Frome --


Frome, cidade a nordeste de Somerset, foi construída nos terrenos altos ao redor do rio que leva o mesmo nome. Sua população gira em tono de 24.500 habitantes e metade dos economicamente ativos trabalha fora da cidade, em Bath, Bristol, Warminister, Westbury ou mais longe.

Apesar do ar despretensioso do lugarzinho, a verdade é que as ruas de pedra conduzem o visitante ao cenário de alguns dos eventos mais importantes da História da Inglaterra. E não se trata daquelas moedas romanas do século III d.C (que, aliás, é o maior tesouro de moedas romanas jamais encontrada) ou então o monastério de São Aldhelm construído em 685. Também não é o fato do rei William, o Conquistador, ter tomado a maior e mais rica propriedade de Somerset, que estava em Frome (que golpe deve ter sido para os barões saxões ver um normando tomando posse de tamanha riqueza!). Nem mesmo o passado de grande pólo da indústria têxtil, que mereceu inclusive uma citação de Daniel Defoe, autor de “Robison Crusoe”.

Não. O que era interessante em Frome para os dois bruxos que transitavam pela secular cidade, é que esta abrigou um witenagemot no ano de 934. Tratava-se de instituição que, do século VII ao XI, tinha a função de assessorar o rei, sendo composta pelos mais importantes nobres do reino (tanto do clero quanto seculares). No inglês antigo, a palavra significa “reunião de homens sábios”. Witan era o nome dado ao membro do witenagemot.

- ... é motivo suficiente para que Helga ou qualquer ou dos fundadores terem viajado até aqui. Afinal: “há mil anos atrás, aproximadamente... ninguém sabe ao certo... Hogwarts foi fundada”. – Citou Zacarias Smith. – Coincide com este witenagemot.

- Desculpe, mas... – Ana o interrompeu, enquanto saltava por uma poça d’água na rua de pedra centenária. – Por que um fundador estaria em uma reunião de figurões medievais trouxas?

- Não havia só trouxas no witenagemot. – Zacarias revirou os olhos e continuou a subir a rua, com Ana atrás dele.

- Não?

- Ele era formado pelos mais importantes nobres da época. Você acha mesmo que um fundador de Hogwarts, um grande bruxo e, além de tudo, um nobre (porque todos os quatro eram) não se encaixa nesta categoria?

- Aaaaah... Claro. Bruxos e trouxas ainda não estavam separados, pois o Estatuto Internacional de Sigilo em Magia só seria aprovado pela Confederação Internacional de Bruxos em 1689. – Concluiu Ana. – Sim, faz sentido. Os fundadores não ignorariam a importância deste conselho. Mesmo Salazar Slytherin, que desprezava os trouxas, não resistiria ao poder que um witenagemot representava.

- É, mas só Gryffindor ou Slytherin podem ter sido witans. – Zacarias teve que rir da expressão confusa da prima. – Ora, Ana, os trouxas não têm o mesmo histórico de igualdade entre homens e mulheres que os bruxos. Uma mulher, conselheira do rei?

- Verdade. – Ela teve que concordar. – Mas então, se Helga ou Rowena vieram para a reunião dos witans, seria para... sei lá... “trabalhar suas influências nos bastidores”, que era a alternativa para mulheres poderosas e, no entanto, sem direito a voz. Hum... O que será que sendo discutido no ano de 934?

- Pode ter sido qualquer coisa. Não importa, podemos fazer uma pesquisa depois. Ou melhor, quem sabe a Hermione faça. Parece que ela fica feliz com isso, então... Ana? – Zacarias se calou ao perceber que estivera falando sozinho.

Há dez ou quinze passos atrás, Ana desviara do caminho e agora estava entrando em um grande edifício de concreto com a inscrição “Museu” acima da entrada. Contrariado, Zacarias a seguiu, resmungando que não tinham tempo para isto.

Ainda estava resmungando no ouvido de Ana quando esta se irritou: “Como assim não é importante o motivo que poderia ter trazido um fundador... e o mistério de Corvinal junto com ele? Você andou cheirando Pó-de-Flu, Zacarias?”. Por sorte, um dos guias do museu se aproximou e perguntou se poderia ajudá-los. Quando Ana perguntou sobre o witenagemot (Zacarias bufou) e o que ele havia discutido naquele ano, o homem eficientemente respondeu:

- Ah, bom... Não sobrou muito dos registros, mas, o mais provável, tendo-se em conta os acontecimentos históricos é que tenha sido os preparativos para um ataque militar. Neste ano, o rei inglês Æthelstan organizou uma ofensiva contra o norte, mais especificamente contra o rei escocês Constantino II. Parece que ele não teve grandes vitórias frente aos escoceses, mas garantiu a submissão de Constantino seqüestrando-lhe o filho. – O sorriso cortês do funcionário se apagou e ele ficou preocupado diante das expressões chocadas dos dois. - O que foi? Disse alguma coisa errada?

Não é difícil imaginar o que ia pelas mentes dos bruxos: o rei provavelmente pôs em discussão uma operação militar contra o norte, contra a Escócia. Hogwarts ficava na Escócia!

- É claro que os fundadores teriam interesse neste witenagemot. – Disse Ana para Zacarias.

- Perdão? – O funcionário olhava de um para o outro, confuso.

- Obrigada pela ajuda, senhor. – Ana lhe sorriu e puxou o primo para fora do museu.

Estavam tão desesperados para discutir o assunto em um lugar sossegado, que não notaram que a expressão inocentemente confusa do homem se desfez em um esgar malicioso, enquanto tirava um celular do bolso.

- Sou eu. – Ele disse para a pessoa do outro lado da linha. – Sim, eles estão a caminho. E acho que sei como apressar as coisas.

***

Uma frente fria estava atravessando o norte da Escócia naquela virada de ano. Apesar de o dia ter amanhecido ensolarado, no dia anterior choveu por toda a manhã e nevou ao entardecer.

Dentro, os feitiços de Hogwarts mantinham aquecidos os poucos alunos que haviam preferido ficar na escola no período das festas. Os Novos Marotos seriam alguns destes alunos... Se tivessem ficado no castelo, como disseram a suas famílias.

- “Só vamos olhar, Mel, só olhar”. – A corvinal repetiu as palavras de Hector em tom de falsete, fazendo uma careta depois.

- Não começa, Mel. – Hector disse entre os dentes, mas incapaz de fazer outra coisa que não fosse rosnar em direção da menina, infeliz. – Você concordou, como todos nós.

Aliás, nenhum deles podia fazer nada além de falar, já que todos estavam amarrados em um porão escuro por cordas resistentes. Os gritos não adiantariam: estavam longe demais para que qualquer pessoa os ouvisse.

- Hum-hmmmmm! – Grunhiu Joshua de seu canto, demonstrando apoio. A qual dos dois, ninguém sabia.

O lufa-lufa havia mordido um dos bandidos na tentativa de fugir e, como castigo, o amordaçaram. Agora estavam os cinco sentados no chão de costas uns para os outros, com os pulsos e os tornozelos atados. E a pior parte é que nem tiveram tempo de reagir como cabia a bruxos, ou seja, usando suas varinhas. Varinhas estas, inclusive, que tinham sido confiscadas.

- Parem, vocês dois. – Andrew interveio. – Não adianta chorar agora que os diabretes estão soltos. Temos que nos concentrar em uma maneira de sair daqui ou de buscar ajuda.

- Quem sabe sintam nossa falta... – Foi a proposição tímida de Danna.

- Difícil - Bufou Mel - já que dissemos em casa que ficaríamos em Hogwarts e em Hogwarts, que iríamos para casa. Não vão perceber nada até a volta às aulas!

- Ora, a ideia foi sua! – Exclamou Hector, indignado.

- Eu sei, eu sei! – Exaltada, a corvinal elevou a voz na escuridão, dirigindo-se para o lugar onde achava que Hector estava, pois ficava difícil se localizar quando você está atado de costas a mais quatro pessoas. - Acha que eu não me daria um soco agora, se minhas mãos não estivessem amarradas?

Três segundos de silêncio se passaram até que Danna acrescentou, ainda tímida:

- O que eu quis dizer é que pode ser que Hagrid sinta falta dos testrálios...

Os garotos haviam roubado os animais (ou pego emprestado, como eles se disseram), assim que desembarcaram das carruagens de Hogwarts na estação de Hogsmeade. Aproveitaram-se do fato de que a maioria dos alunos não conseguiria, de qualquer forma, ver o “produto do roubo”. Saíram de fininho até as proximidades da vila, ainda deserta, e alçaram vôo rumo à casa misteriosa próxima ao chalé de Myron Wagtail.

O tumulto provado pela pequena discussão que estavam tendo atraiu um dos homens até o porão. Ele acendeu a luz (luz totalmente trouxa, uma lâmpada ligada a uma rede elétrica) e os garotos se cegaram com a claridade súbita. Quando se acostumaram com ela, vasculhavam o local com os olhos, afoitamente. Foi com certo alívio que notaram que o homem que descera era um senhor de certa idade, provavelmente de uns setenta anos, com barba e cabelos brancos à moda de Papai Noel.

- Crianças, eu imploro, fiquem quietas ou terei que amordaçar todos vocês como o seu amigo ali. – Ele apontou para Joshua, que lhe lançou um olhar nada amigável apesar do tom suave do velhinho. – Não precisam ter medo, não lhes faremos mal. Não somos assassinos de crianças.

- Não de crianças? Quer dizer que só de adultos? – Foi a pergunta arguta de Andrew, que encarava o ancião com indignação e com uma maturidade que o impressionou.

- Ah... – A interjeição soou como um gemido e o homem pareceu ter, de repente, cem anos. – Tem razão, meu filho. As coisas saíram do controle... Loucura, eu digo, mas ninguém me ouve... Não era assim no meu tempo, não, não era. Mas eles se tornaram minha vida, minha única família...

Os cinco encararam o velho, surpresos com a súbita torrente de lamentações. O homem suspirou mais uma vez, percorreu os rostos dos garotos com a mais pura expressão de remorso, parando em Danna.

- Meu Deus, olhe só você, olhando-me através dos cabelos caídos na face, como um animal assustado. É de cortar o coração – ele se inclinou para afastar uma mexa de cabelo de Danna (o que provocou um movimento brusco de Andy, como se fosse impedi-lo).

Então, algo estranho aconteceu. Danna continuou a olhá-lo e a expressão o velhinho tornou-se turva, distante, quase sem vontade.

- Acho que eles apertaram demais estas cordas, não foi? Estão machucando seu pulso. Vou afrouxá-las.

Só que, em vez de somente afrouxar as cordas, o ancião desatou o nó, libertando as mãos de Danna completamente.

- Pronto. Assim está melhor... Não é preciso apertar tanto... – Ele olhava para as mãos de Danna, como se ainda pudesse ver as cordas lá. – Agora, acho que vou dar uma caminhada lá fora... Sim, acho que é uma boa ideia...

Puderam ouvir os passos dele subindo as escadas, depois lá em cima, na casa e, finalmente, o som abafado de botas pisando na neve e se afastando. Só quando tiveram certeza de que o homem estava longe, Hector voltou-se para Danna:

- Rápido, solte a gente!

A própria Danna parecia não estar entendendo o que acontecera. Tremendo, ela conseguiu soltar as mãos de Andrew e de Hector, que estavam mais perto e depois tratou de libertar os próprios tornozelos, enquanto os dois soltavam Joshua e Mel. Tão logo Josh teve a mordaça tirada da boca, encarou Danna, muito assombrado:

- O que você fez com ele?

A garota negou vigorosamente com a cabeça, encolhendo-se.

- Danna não fez nada. – Andrew disse, firme. – O velho resolveu nos soltar porque quis.

- É verdade, talvez ele só quisesse fingir para si mesmo que não, porque foi demais para ele trair seus amigos. – Mel acrescentou. – Ele estava em choque, só isto.

Nenhum deles realmente tinha certeza daquilo, mas resolveram deixar a especulação sobre os poderes de Danna de lado, já que ela se mostrava tão apreensiva.

- Mesmo que tivesse sido a Danna... Eu teria gostado. – Hector encerrou a questão com uma piscadela bem-humorada e Joshua sorriu para Danna, enquanto acenava com a cabeça, concordando.

E, simples assim, mais uma vez, os Novos Marotos mostraram a Danna que a queriam como amiga exatamente como ela era. Com poderes de selkie e tudo mais. Embora nenhum deles tenha visto, os olhos de Danna se encheram de lágrimas de felicidade e ela quase não ouviu quando Hector os orientou a sair silenciosamente do porão, pois não sabiam quantos mais ficaram na casa para vigiá-los.

- Só aquele velhinho para tomar conta da gente? – Hector soou totalmente ofendido, quando constaram que estavam sozinhos. – O que eles acham que somos? Bebês?

Andrew, mais prático, logo saiu à procura das varinhas, encontrando-as na mesa de centro da sala.

- Mas nem as varinhas eles tiraram do nosso alcance? – Desta vez, Hector estava possesso. Sem dúvida, fora um golpe muito forte no orgulho dele. – Será que eles sabem que somos conhecidos como os Novos Marotos?

- Eles eram trouxas, Hector, como é que eles iriam saber? E se soubessem, como entenderiam o que isto significa? – Andy revirou os olhos.

Joshua e Mel lançaram olhares repreensivos para Hector. Não era a primeira vez que ele quase revelava a existência dos livros de J.K. Rowling para Danna e Andrew que, como sangues-puros sem qualquer ligação com “personagens” de Harry Potter, estavam alheios ao maior fenômeno literário e cinematográfico do mundo dos trouxas nas últimas décadas.

Hector foi salvo de dar uma resposta quando um grande borrão branco voou zunindo na frente deles, assim que abriram a porta que dava para fora do chalé. Um longo e agudo som ecoou na manhã fria logo antes do “borrão” pousar em um galho de árvore e encará-los com o que parecia ser um severo olhar de cesura.

- Albus! – Exclamou Mel, deliciada em ver sua harpia de estimação. – Você me seguiu! – A afirmação foi feita enquanto acariciava as penas branquíssimas e eriçadas do topo da cabeça da ave, que pareciam um cocar de índio.

Toda a resposta de Albus foi bicar levemente a orelha da menina e dar um puxãozinho, como se dissesse: “É, é, agora vamos embora daqui, sua travessa”.

Por entre as árvores, os testrálios começaram a surgir, como se tivessem sido chamados. E, quem sabe, não foi Albus quem os chamou?

Ainda no início daquele ano, os novos marotos tiveram a surpresa de que, de repente, podiam ver os animais que puxavam suas carruagens da estação de Hogsmeade até a escola. Sempre souberam que elas estavam lá, porque seus pais contaram (Mel, porque havia lido os livros). Mas constatar que as coisas horríveis pelas quais tinham passado, no final do ano anterior, marcara-os tanto a ponto de ver criaturas como os testrálios, manteve o grupo, até então barulhento e conversador, totalmente em silêncio naquele primeiro dia.

- Vamos voltar a Hogwarts e contar para a Diretora McGonagall o que ouvimos aqui, antes de sermos pegos. – Andrew propôs. – Ela faz parte da Ordem da Fênix, vai saber o que fazer.

- E precisamos sair daqui logo antes que... Alguém volte. – Estava claro que Danna temia que, seja lá o que dera no velhinho que os soltou, tivesse passado e ele se arrependesse.

- Não vai dar tempo. – Hector discordou. – Vocês ouviram o que aqueles caras planejam. Se voltarmos para Hogwarts vai ser tarde demais.

- Você quer que a gente vá direto até eles e os impeça? – Andy resumiu os pensamentos do melhor amigo.

Os cinco garotos se encararam gravemente, conversando daquela forma silenciosa que só os que passaram por muita coisa juntos são capazes de fazer – era como ler as mentes uns dos outros sem usar legilimência. Em poucos segundos a decisão do grupo havia sido tomada, sem que uma única palavra fosse pronunciada.

- A gente tem que parar de fazer estas coisas. – Foi a frase conformada dita por Mel.

No entanto, não deixariam passar a oportunidade de ter uma ave-correio tão forte e veloz como a harpia de Mel. Andrew rascunhou um bilhete no pedaço de papel e caneta que encontraram no chalé e o entregou à Mel para que ela o afixasse na perna da ave (Albus não deixava ninguém chegar perto, com exceção da menina, o irmão, Felipe, e é claro, Hagrid).

- Pelo menos, não são dragões que o Carlinhos Weasley cria em Gales. – Joshua disse, enquanto olhava os sinistros testrálios na neve.

- Ah, meu Deus! – Mel arfou. – Eu lembro de onde conheço aquela loira que vimos dias atrás! – E então, ela ficou furiosa. – Ela estava o tempo todo... Que fingida, que... Que...!

Por sorte, o palavrão em português não foi entendido por ninguém além de Albus (que, afinal, era uma ave brasileira). Ele ergueu as asas e grasnou como se estivesse chocado com os modos de sua dona.

***

O campo estava amaldiçoado, dissera o homem magro de meia-idade que cuidava do campo onde treinava o time de futebol da cidade, Badger Hill. Não havia outra explicação para que perdessem todas as partidas jogadas em casa e, no entanto, estarem invictos nas que se realizaram em campos adversários. O clube chegou a contratar uma bruxa local para dar um jeito, mas até agora os métodos não tinham logrado êxito.

- Sentiu isto? – Ana perguntou quando estavam bem no meio de sua caminhada pelo campo, depois que o zelador deixou o “casal” em férias (a história inventada pelos primos ainda causava embrulho no estômago dos dois) à vontade para que tirassem fotos do estádio. Havia uma leve ressonância mágica vinda de um ponto do gramado, ficando mais fraca quando se afastavam para qualquer lado.

- Deve ter algo enterrado. – Zach concluiu, e após uma troca de olhares, decidiram literalmente “ir a fundo” no assunto. Ana pôs-se de costas para Zach, vasculhando o local para ter certeza de que ninguém ia ver o que estava acontecendo, pronta a lançar um feitiço de confusão no zelador caso ele aparecesse.

Quando uma pequena explosão soou atrás dela, Ana quase deu um pulo de susto e encarou o primo entre surpresa e reprovadora: - Não podia ser mais discreto? – Olhou para o pequeno buraco escavado por magia.

- O que sugere que fizesse? Escavasse do jeito trouxa? – Zach resmungou enquanto estendia o braço dentro cavidade de aproximadamente meio metro de largura e um de profundidade. A terra escavada se empilhava à direita, um amontoado de areia e grama.

Os dois ofegavam quanto Zacarias alcançou um pedaço de metal e o trouxe para a superfície. Era uma chapa retangular, não muito menor que uma folha de papel moderna e com aproximadamente um centímetro de espessura. Mesmo cheio de terra, ambos reconheceram imediatamente uma característica do objeto quando ele brilhou ao sol.

- Feito por duendes. – Disseram em uníssono. O toque da metalurgia dos duendes era evidente pela qualidade lisa e perfeita do metal, sem falar da durabilidade, apesar da leveza da placa. E, claro, na magia contida nela.

Havia inscrições, aparentemente inglês antigo, ambos concordaram. Era difícil de ler, mas conseguiam, não sem muita dificuldade, entender o sentido geral das frases. Depois de gastarem um minuto tentando deixar tudo como estava antes – sem resultados muito bons, já que a grama agora parecia crescer em ondas no local – distraíram-se com a placa e na tentativa de entendê-la.

Uma pequena confusão eclodiu do canto esquerdo do campo. Um emaranhado de corpos rolava no que parecia ser uma briga. Em dois segundos ficou evidente que eram cinco corpos menores tentando submeter um maior. As vozes exaltadas claramente pertenciam a crianças e uma única, de uma mulher que xingava com voz fina e mimada.


***


- Espere aí... – Murmurou Ana. – Eu conheço aqueles cabelos castanho-dourados! – Correndo, ela e Zach chegaram até a turba. – Mel! – Ela ofegou quando reconheceu a sobrinha e, em seguida, todos os demais garotos. – Josh! Danna! Andy! Hector! O que estão fazendo aqui? Não deveriam estar em Hogwarts?

- Er... Longa história, tia Ana. – A corvinal respondeu quando seus amigos finalmente tinham imobilizado a mulher abaixo deles. A menina afastou uma mecha do descabelado cabelo, mudando rapidamente de assunto: - Tínhamos que deter esta daqui. Ela os estava seguindo. Chegamos bem quando ela estava prestes a azarar vocês dois.

A loira jazia de bruços no chão, gemendo, de rosto voltado para baixo. Hector, Andy e Josh estavam sentados em cima dela, seus pesos a imprensando. Quando a mulher fez mais uma tentativa de se levantar, ela virou o rosto um pouco, revelando o perfil que Ana reconheceu imediatamente:

- Felícia Althorpe! – Surpreendeu-se. – Era você que estava ajudando aqueles homens misteriosos? Mas como...

- O pai dela é membro honorário da Ordem. – Harry apareceu vindo do canto oposto do campo, acompanhado de Rony, Lupin, Tonks, Moody, Carlinhos e Gui. De outra entrada, chegaram Fred, Jorge, Arthur Weasley e Snape. – Devia estar roubando as informações do pai e repassando para eles.

- O que estão fazendo aqui? – O queixo de Hector caiu em surpresa.

- Acho que a pergunta é o que você está fazendo aqui, mocinho. – Os cabelos de Tonks ficaram flamejantes, enquanto o filho empalidecia. – Supostamente, deveria estar em Hogwarts!

- Esperem, esperem! – Moody pediu silêncio. – Quero entender isto aqui. – Aproximou-se mancando de Felícia, fazendo um gesto impaciente para que os garotos saíssem de cima dela (o que eles fizeram de um salto, os olhos saltando diante da ordem do ex-auror) e a imobilizou com um feitiço. – Por que estava ajudando aqueles homens? Quem são eles? – Rosnou as perguntas.

Felícia olhou assustada para todos os lados, positivamente quase chorando quando viu Carlinhos, e começou a bater as mãos no chão em um claro gesto mimado de frustração.

- Quem são eles? – Mood repetiu vagarosamente, as sílabas marcadas, sinal de que estava perdendo a paciência. Parecia que até as árvores próximas tremeram de medo com a ameaça contida na voz no ex-auror.

Felícia cantou como um passarinho, depois disto. Narrou como tinha sido abordada a um ano atrás, depois da festa de Natal do Ministério, por uma mulher italiana. Primeiro, achou que ela fosse bruxa, por causa da quantidade de informações que tinha sobre o mundo mágico, mas depois descobriu que a mulher tinha tanto magia quanto um bule de chá. No entanto, a esta altura, Felícia conhecia a extensão dos poderes não-mágicos da mulher e do grupo ao qual pertencia, e não ousou contrariá-la. Não sabia quem, exatamente, era aquela gente, tudo o que sabia é que era uma organização com séculos de existência.

A italiana sabia que era filha de Felix Althorpe, diretor da Reserva de Dragões da Romênia; e, o que nem mesmo Felícia sabia, que ele era membro de uma organização secreta chamada “Ordem da Fênix”. Queriam que ela roubasse as informações mandadas para o pai dela e as entregasse para eles.

- Peloamordemerlim, e por que fez isto? – A boca de Rony caiu, meio chocado, meio raivoso.

Felícia olhou de soslaio Carlinhos, antes de responder. – Eles... Eles... ameaçaram a vida do meu pai. Apesar de não serem bruxos, são muito poderosos, acreditem em mim. Podem, inclusive, neutralizar temporariamente os poderes de um bruxo. Têm umas máquinas... Bem, não sei como. Mas fiz isto para proteger meu pai.

- Mentira! – Mel gritou, batendo um dos pés no chão, em indignação infantil. – Nós fomos até o chalé em Asheshire! Ouvimos, quando eles comentaram entre si, que você tinha acreditado na promessa de transformar a todas as pessoas do mundo em bruxos! Que você odiava os trouxas!

- Não! – Felícia guinchou, olhando rapidamente para Carlinhos. – Você tem que acreditar em mim, eu nunca quis machucar ninguém...

- Eles disseram para você que se o portal em Sommerset não fosse aberto até hoje, toda a força mágica do planeta iria explodir e se irradiar de forma que transformaria todos em bruxos. – A corvinal continuou. – Você – apontou para Felícia – também estava no chalé no início do mês, Hector e eu a vimos conversando muito satisfeita com as pessoas que frequentavam o lugar. Não se parecia nem um pouco com alguém que estava sendo ameaçada.

Os garotos explicaram como tinham achado o chalé onde o grupo misterioso se reunia. Neste ponto, os garotos tiveram que se interromper para ouvir sermões irados de Tonks e Ana sobre meter o nariz nos assuntos da Ordem (de novo!) e por não terem contado imediatamente para os adultos (Hector resmungou que, se tivessem contado, eles iriam saber que tinham andado bisbilhotando). Talvez Tonks tenha ouvido, porque lançou um olhar atravessado para ele e rosnou sobre terem que conversar sobre o castigo que ele iria receber por mentir sobre ficar em Hogwarts no Natal e para decidirem o seu castigo.

Felícia pareceu alheia a toda aquela conversa, a pele do rosto tão verde que dava a impressão que ela iria vomitar. Sua varinha tinha sido tirada dela e Fred e Jorge postavam-se cada um a lado, segurando seus braços. Quando ela ergueu os olhos, fitou-os direto em Carlinhos.

- Eu fiz isto por você! – Gritou, próxima ao desespero. – Todos aqueles anos na Romênia, eu estive apaixonada por você. Mas tudo que sabia fazer era falar de sua preciosa Ana e do quão corajosa ela era! Eu sabia sobre a sua família, heróis de guerra, todos eles... Você mesmo é conhecido por causa da Batalha dos Dragões. Seu cunhado é Harry Potter, pelo amor de Deus! – Apontou para Harry com a cabeça. - Achei que a única maneira de ser merecedora do seu amor fosse fazer algo tão impressionante quanto a mulher de quem você não parava de falar. Com todos os seres humanos sendo bruxos, não haveria mais Comensais da Morte. Não haveria razão para defender a supremacia bruxa quando todos são bruxos. Não haveria mais motivos para o Estatuto de Sigilo existir! Eu faria um bem para a humanidade. – Ela arrebatou-se, esperando que Carlinhos concordasse com ela.

- Já pensou talvez haja uma razão para que nem todas as pessoas sejam bruxas? – Lupin perguntou, recebendo apenas um breve e esquivo olhar de descrédito de Felícia. – Já pensou que talvez nem todos os trouxas queiram ser bruxos?

Carlinhos a fitava em um misto de incredulidade, asco e muita pena. – Eu já te disse um milhão de vezes, Felícia. Eu amo minha esposa. Ela é uma mulher valorosa, sim, mas não há nada no mundo que vá me fazer parar de amá-la. Não é algo que se escolha, nem que se ganhe por melhor mérito, simplesmente se ama uma pessoa. E eu amo a Ana. Temos uma filha linda. Nada que você faça vai mudar meus sentimentos por você... que até hoje considerei uma amiga.

Os olhos angustiados de Felícia se transformaram em orgulho ferido. – Então fique com a sua esposa e a família trouxa dela. Fique com a sua preciosa fedelha chorona...

Foi tudo muito rápido. Um segundo os gêmeos estavam lá, segurando Felícia e ouvindo a tudo boquiaberto, no outro, Ana se moveu para cima dela com a varinha em punho, o que só deu tempo para os dois soltarem Felícia e saírem do caminho da irada cunhada antes que sobrasse para eles. Outro segundo e Ana pensava melhor, trocando a varinha pelo punho. Um soco bem dado de direita no nariz da loira, e Felícia desabou no chão, um filete de sangue escorrendo do nariz, os olhos aturdidos de dor e de surpresa.

Quando Harry e Carlinhos finalmente tiveram tempo de se mover e segurar Ana, ela já tinha acabado. A auror apenas olhou para a mulher caída no chão, que segurava inconsolável o seu nariz uma-vez-perfeito, e rosnou: – Até agora eu senti pena de você, Felícia. Uma garota mimada que se esqueceu de crescer. Mas eu vou te avisar de uma coisa: mexa com a minha família de novo, eu faço picadinho de você. Use esta sua boca nojenta para falar da minha filha novamente, e eu mato você.

Ana deu dois passos para trás, tentando se acalmar. Harry respirou fundo, colocando os pensamentos em ordem. Precisavam interrogar Felícia, descobrir tudo o que ela sabia. Ainda tinha as crianças. E eles precisavam sair dali também, antes que o zelador ou qualquer outro trouxa os visse.

- Você está presa, Felícia Althorpe. – Ele declarou com autoridade de auror. E, para os demais. – Vamos sair daqui.

- Então, depois de tudo o que meu pai fez por vocês, pela Ordem... – e ela olhou para Ana – até mesmo por você, vão me mandar para Azkaban?

- O que quer dizer como que seu pai fez por mim? – Ana franziu o cenho.

Felícia ergueu uma sobrancelha. – Ora, ora... parece que Carlinhos não divide tudo com você, afinal. Ele nunca te contou quem o ajudou a trazer todos aqueles dragões da Romênia há dez anos? Quando você foi burra o bastante para cair na armadilha de Você-Sabe-Quem, e Carlinhos teve que salvá-la? Meu pai arriscou a carreira e a liberdade dele para deixar Carlinhos treinar e depois usar naquela batalha os dragões da Reserva da Romênia. Você deve sua vida ao meu pai! – Disse a última frase em triunfo.

- Althorpe pediu para manter isto em segredo. – Carlinhos correu até Ana e segurou-a pelos braços. – Primeiro por causa da lei de então, que proibia o treinamento de dragões. E, mesmo depois do perdão dos governos bruxos, diante do sucesso da batalha, ele pediu para não ser mencionado porque havia muitos bruxos das trevas na Romênia, então. Ele achava que seria mais útil se sua ligação conosco permanecesse sigilosa. Ainda hoje ele prefere assim. Na realidade, ele exigiu que fosse assim, com apenas poucos membros da Ordem sabendo. Diz que nunca se sabe quando um bruxo das trevas vai cometer um deslize na frente dele, simplesmente por não saber que é membro da Ordem. – Então, ele lançou um duro olhar para Felícia. – Seu pai é um bom homem. Ele seria o primeiro a concordar que você precisa pagar pelo que fez.

Felícia desviou os olhos, envergonhada, enquanto Ana digeria as novas informações. Finalmente, sorriu: - Eu entendo, não se preocupe.

- Vamos, gente. – Harry os apressou. – Temos que sair daqui. O Ministério precisa saber disto e os garotos – ele olhou para os cinco -, precisam voltar para Hogwarts.

Estava muito bravo por terem se arriscado assim, mas, por outro lado, ele não tinha moral para passar-lhes sermão quando ele próprio fazia o mesmo em sua época. Só rezava para que Lyan e Joanne não seguissem o mesmo caminho quando crescessem. O que era pouco provável, tendo em vista os genes Potter e Weasley que carregavam.

- Sair de Badger Hill? – Zacarias perguntou. – Concordo. Mas não podemos nos afastar de Sommerset. Ouviram o que a moça disse. Aquela gente que nos atacou ontem está tentando impedir o portal de se abrir hoje. Não podemos deixar.

Rony bufou. – O quê? Aquela coisa sobre transformar todos em bruxos? Nós já descobrimos que não dá (1). A própria Rowena Ravenclaw sabia. Não pode ser isto.

- E se for o contrário? – Snape falou calmamente, se manifestando pela primeira vez. – Sabemos que eles não são bruxos. Talvez estejam tentando fazer com que ninguém tenha poderes mágicos. Só disseram o que disseram para conseguir a cooperação da srta. Althorpe.

Felícia arfou em horror.

- Temos que abrir o portal, então. – Ana declarou calmamente.

- Mas não sabemos como. – Lupin falou.

- Agora sabemos. – Ana gesticulou para a placa de metal, ainda nas mãos de Zacharias. – Acho que eles sabiam que em algum lugar em Frome, mas não sabiam onde. Esperavam que Felícia o pegasse de nós, não é? – Disse a última frase para a loira, quase rosnando. – Tentando uma abordagem mais sutil do que a de ontem, com Zacharias e Luíza, imaginando que assim teriam mais sucesso.

- Espere aí. – Harry pediu. – Está dizendo que esta placa de metal...?

- Mostra exatamente quem deve ficar em cada Gigante de Sommerset, sim. O que eu estava procurando há meses. – Ana respondeu.

- Mas como pode ser? – Rony exclamou. – Esta coisa está enterrada aí há uns mil anos. Muitíssimo antes de nascermos. Ou nossos pais. Ou nossos avós. Ou...

– Acho que todos entenderam, Rony. – Hermione acabara de chegar, vinda de um canto do campo. – E antes que pergunte, eu deixei Sirius e Helena com os meus pais. E a Gina deixou os gêmeos com o senhor e a senhora Weasley.

Um “ploc!” alto e agudo surgiu do canto à direita, e Gina aparatou no campo. – Tive que lançar um feitiço de confusão no zelador. Quase que ele pega vocês. Por que ainda estão aqui?

- Eu é que pergunto! – Rony franziu o cenho. – Mione, você acabou de dar a luz à Helena, devia estar em casa...

- Isto foi há quase um mês Rony! Eu estou ó-ti-ma. E além disso... – Ela ficou mais séria. – Gina e eu tivemos mais daquelas sensações... Sentimos que tínhamos que estar aqui.

- SIM! – Ana exclamou alto, sorrindo. – Eu preciso mesmo de vocês. – Voltou-se para Snape. – E de Serenna.

- Mas, primeiro, vamos sair daqui antes que tudo o que precisemos é de um feitiço de memória contra o trouxa que cuida do local – Moody rosnou -, ou pior, de muita sorte para lutar contra um bando de trouxas esquisitões que nos odeiam e que ainda por cima conseguem anular a nossa magia.

Todos ficaram parados, olhando estupefatos para as longas considerações do ex-auror.

- APRESSEM-SE! – Ele rugiu para a massa inerte, que correu para obedecer-lhe.

-----

N/A: Nem sei como começar. Tanto tempo sem atualizar. Deve ter gente querendo me matar.

Com certeza, deve ter gente querendo me matar.

Ou pior, que já nem está mais ligando para mim... que me esqueceu (nada mais terrível para o contador de histórias do que ninguém querer saber de suas histórias).

Mil perdões pelo longo período sem notícias – se puderem perdoar a minha grosseria. Infelizmente, o Cronos, o senhor do Tempo, bem como as Musas da inspiração, não estiveram de mãos dadas comigo durante todo este tempo. Não sei se eles brigaram: quando um aparecia, o outro sempre estava ausente. Assim, quando tinha tempo, as ideias não vinham. Quando vinham, não tinha tempo e/ou ocasião de escrever.

Outros projetos tomaram meu tempo, também (quando a inspiração não ajuda de um lado, a gente não briga com ela: faz o que ela quer, e pronto).

Mas, parece que hoje, finalmente, consegui terminar este capítulo. Sem ter mandado para uma betha e com o meu Word “corrigindo” palavras que não devem ser corrigidas (ideia para idéia, por exemplo), deve estar com um monte de erros. Me perdoem por isto, mas não vou aguentar nem mais um segundo para postar. Tenho que fazer isto logo, agora, antes que mais alguma coisa atrase este capítulo! ***dramática!!!!!!!!!!!!!!***

Agradeço mil vezes ao pessoal que deixou comentários (li todos com carinho, podem ter certeza).

Vou me despedir com um abraço e postar logo, porque esta fic já esperou tempo demais, não acham?

ABRAÇÃO PRA TODO MUNDO!



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Re: Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 23/03/11)

Mensagempor Regina McGonagall » 31/03/11, 19:12

e a avoada/aluada aqui entrando no forum todo dia e nem vendo que tinha capítulo novo?

nem me lembrava de passar nas fics...

você me perdoa, né? por quase perder essa maravilha de capítulo?

até porque... quero mais! :lol:
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Re: Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 23/03/11)

Mensagempor Danna O'Brien » 06/09/11, 21:56

Surpresa!!!
Agora posso acompanhar o que vcs escrevem de mim :P
Editado pela última vez por Danna O'Brien em 08/09/11, 00:03, em um total de 3 vezes.
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Re: Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 23/03/11)

Mensagempor Grazi DSM » 07/09/11, 23:29

SIM, eu estou de volta!!!! :D
e ansiosaaaa!!!
posta Bel, esta lindo!!!!
bjos!
‎''– Uma Lufa-lufa salvacionista que se mete onde não é chamada e não sabe qual é a hora de sair.''
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Re: Harry Potter e o Segredo de Corvinal (Atualizado - 23/03/11)

Mensagempor Lizzie Lupin » 20/12/12, 19:28

Pessoal eu não sei se ainda da tempo de alguem responder, mas mesmo assim vou tentar :)
Eu li Harry Potter e o Segredo de Corvinal e e me apaixonei pela fic, mas onde eu li so tem ate o cap. 24 e pelo que eu li no ''final'', bem aquele não deve ser o final, pois ainda faltava mt coisa a ser esclarecida. Queria ajuda pra saber se a Belzinha atualizou a fic em outro lugar ou se infelizmente ela nem chegou a termina-la :cry:
Preciso saber como termina a historia do Zach e da Luiza e dos outros misterios da historia. Pleaaaaaaase!!!!!!!!! Ajudem-me!!!!!!!!!!
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