A história se passa nos dias de hoje e retrata a vida de uma jovem universitária fã de Harry Potter. Com o passar do tempo ela percebe que a obra não é tão fictícia assim. O começo é meio devagar, mas conto com a paciência de vcs pra fazer o enredo esquentar aos poucos, tenho grandes planos e espero poder postar regularmente.***
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1. O Sonho
Ela terminou de ler o livro entre lágrimas. Estava com 21 anos, no quarto ano da faculdade de Medicina, e não pôde deixar de se emocionar com a história do garoto bruxo. Harry Potter parecia ser um livro para crianças e de repente virou febre mundial. Ela, que não tinha preconceitos contra livros infantis, mas não simpatizava com best-sellers, acabou sucumbindo ao sucesso literário. A primeira vez que ouviu falar do menino londrino foi levando o irmão mais novo ao cinema pra ver o primeiro filme da franquia. Levou depois a prima pra ver o segundo e novamente o irmão pra ver “Cálice de Fogo”. Já estava na faculdade nessa época, e foi a amiga de turma que a acompanhou e explicou o que acontecia no terceiro, mas não o filme, o livro. Foi ouvindo a amiga contar dos livros que ela se interessou. Parecia ser uma leitura interessante, e ela andava mesmo precisando se distrair.
Foi assim que Raquel começou a ler “Harry Potter e a Pedra Filosofal”. Deve ter gastado pouco menos de uma semana, devorou cada linha, cada palavra vorazmente. Releu quando terminou. E depois leu a versão original em inglês. E foi com a desculpa que precisava melhorar no idioma que ela começou a ler o segundo livro da série também em inglês. Mas a verdade foi que ela não dominava tão bem o idioma da autora, não o bastante pra ler com a velocidade que queria, o interesse aumentando cada vez mais. Leu o terceiro, o quarto e o quinto livro de uma só vez. A vida acadêmica indo pro espaço, as notas piorando.
Parou um pouco e se dedicou mais à faculdade, mas, nas primeiras férias que teve, leu o sexto livro de uma tacada só. Então, como não tinha mais o que explorar, releu todos eles, assistiu todos os filmes novamente e passou a contar os dias pra estréia do quinto filme. Entrou em fóruns na internet, passou a acompanhar os sites sobre Harry Potter diariamente, apertando F5 compulsivamente para saber se havia alguma novidade.
Foi à estréia de “Harry Potter e a Ordem da Fênix” em sua cidade. Comprou o ingresso com bastante antecedência, chegou cedo ao cinema, foi uma das primeiras na fila. Adorou o filme, embora os livros sempre tivessem sua preferência.
Continuou esperando, dessas vez pelo último livro. Boatos pipocando, e ela só aguardava. Levando bem a vida, a faculdade, o namoro... Mas toda noite, antes de dormir, dava uma nova espiada na página preferida sobre Harry Potter na internet.
E agora o livro tinha terminado, com a sensação de que faltava alguma coisa, de que muito ainda precisava ser contado pela autora. Ela fechou o livro e ficou imaginando o que poderia preencher as lacunas deixadas na história. Por meses leu declarações da autora que chegavam pra saciar um pouco dessa curiosidade. Restava ainda o lançamento do sexto filme e a produção do sétimo. Mas “Enigma do Príncipe” foi adiado, um balde de água fria na empolgação.
Ela já estava no quinto ano da faculdade. Internato começando, faltava tempo pra gastar com bate-papo sobre Harry Potter com outros fãs. A rotina tinha virado hospital-casa-hospital, a vida de adulto esmagando os outros interesses, os impulsos infantis de perder uma tarde inteira com assuntos não relacionados ao meio médico-acadêmico.
Mas então uma coisa estranha aconteceu. Numa noite qualquer, depois de ter ficado até tarde acordada lendo alguma coisa sobre cirurgia, ela pegou no sono em cima dos livros e teve um sonho estranho. Sonhou com uma praia, ou melhor, uma pousada na beira da praia. Estavam todos em um congresso médico, hospedados nessa pousada, aproveitando uns breves momentos de folga, quando ela recebeu a notícia de que algo de ruim aconteceria. Alguém pretendia invadir a praia onde todos estavam, dominar o local, e isso seria decisivo para toda a cidade. E como se fosse a coisa mais natural do mundo, ela correu para sua maleta e, entre estetoscópio, lanterna, termômetro e outros aparatos médicos, ela sacou sua varinha. Olhou pra ela com confiança e fez um movimento. Um raio saiu da ponta da varinha funcionava perfeitamente, assim como Raquel sabia perfeitamente o que fazer, como manuseá-la. Ainda no sonho, ela sorriu e saiu correndo para praia, onde encontrou mais gente empunhando varinhas, todos prontos para lutar contra o que quer que fosse.
De repente, Raquel acordou. Olhou para os livros, para a mão direita fechada em punho ao redor da caneta, e sorriu. Seria de se esperar que ela tivesse sonhos como esse antes, quando estava completamente imersa no mundo potteriano, mas não nesses dias em que estava absorta por outros assuntos... Ainda assim tudo parecia tão real, a maneira como empunhou a varinha, lembrava claramente do aspecto que ela tinha: madeira clara, detalhes delicados talhados no cabo, como flores em espiral, tamanho médio, uns vinte e poucos centímetros. E os movimentos que fez! Nossa, parecia que poderia reproduzi-los ainda agora que estava acordada. Não... Achou melhor afastar os pensamentos da cabeça, que coisa mais infantil! Sonhar com varinhas mágicas e ameaça bruxa! Era como sonhar com algum super-herói, como quando seu irmão sonhava ser o Batman. Quanta besteira! Deitou-se em sua cama e adormeceu novamente. No outro dia não se lembrou do que sonhara após adormecer pela segunda vez.
Acontece que se ela tivesse lembrado teria ficado um pouco mais intrigada, pois no seu sonho retornou à praia e à expectativa do embate bruxo, retornou à realidade onde carregar uma varinha na maleta médica era corriqueiro.
Mas Raquel não se lembrava de nada disso. Continuou levando a rotina maluca de interna da cirurgia, plantões desumanos, cirurgias intermináveis. Apesar do cansaço, Raquel ficava cada vez mais satisfeita com o rumo que sua vida estava tomando. Só que às vezes parecia que alguma coisa não estava totalmente clara, algo permanecia suspenso, como se o extraordinário fosse cruzar seu caminho a qualquer momento. Se bem que ela tinha amostras de eventos com um quê de grandiosidade no próprio dia-a-dia: era aquela cirurgia potencialmente complicada que se resolvia inexplicavelmente bem, aquele paciente visivelmente grave que melhorava sem que se pudesse dizer o que causou a melhora, aquele velhinho ranzinza que aceitava bem o que ela falasse com ele. Parecia que Raquel tinha algum talento a mais que a simples dedicação à profissão não explicava, uma facilidade pra conseguir a coisas e uma tranqüilidade para lidar com situações adversas. Ela não se queixava, a empolgação com que cumpria as tarefas parecia ser suficiente pra justificar esse sucesso.
2. O Ônibus
A manhã de terça-feira foi a primeira de sol após dias de chuva. Raquel saiu correndo de casa e acabou deixando o guarda-chuva pra trás. Estava atrasada e não queria perder o começo da cirurgia, seria a segunda por vídeo da qual participaria. Avistou o ônibus quando ainda estava no começo da rua que terminava no ponto de ônibus. “Me espera!”, pensou. O ônibus cegou ao ponto e por lá ficou até que ela o alcançasse correndo.
- Obrigada! – agradeceu ao motorista entre a respiração apressada de cansaço por ter corrido tanto.
- De nada! Mas eu nem tinha te visto, foi esse ônibus que resolveu ficar parado por mais que eu acelerasse e só andou quando você chegou, foi ele que te esperou.
Ela riu. Um bom começo pra um dia que seria cheio. Chegou correndo ao hospital que, para seu azar, ficava no alto de um morro.
- Não corra dentro do centro cirúrgico! – Ralhou com ela uma enfermeira.
- Desculpa! Você viu se o Dr. João já começou a cirurgia?
- Ainda não, parece que o paciente se atrasou.
Raquel não podia acreditar que não tinha perdido nada! Vestiu-se rapidamente e se preparou para a cirurgia. Tudo correu bem, o procedimento durou menos que o previsto e antes do meio-dia ela já voltava pra casa. Mas se a sorte da manhã tinha sido a seu favor, parecia que à tarde as coisas não seriam tão fáceis. Pra começar, chovia quando ela deixou o hospital a caminho do ponto de ônibus. Meia-hora de espera e o coletivo passou, ela entrou e sentou-se à janela no fundo do veículo. No meio do caminho, o ônibus foi diminuindo a velocidade e parou de repente. O motorista foi verificar.
- Parece que não tem jeito, vou ter que pedir que a empresa mande um mecânico e um outro ônibus para levá-los aos seus destinos. Só vai demorar um pouco.
“Ótimo!” – Raquel pensou – “Só porque as coisas estavam indo bem...”
Ela resolveu esperar, já tinha ganhado tempo pela manhã mesmo. O motorista permanecia verificando o motor, o cobrador ao lado dele dando palpites sobre o problema.
“Aaaai! Eu sei que não devia reclamar, mas esse ônibus podia andar logo!” Raquel nunca teve muita paciência para esperar. E foi nesse momento que o inusitado aconteceu: o ônibus simplesmente começou a funcionar, como se alguém tivesse dado a partida. Todos exclamaram de susto, alguns saíram pela porta de trás, que permanecera aberta. O motorista e o cobrador fecharam o capô e entraram correndo.
- Acho que alguma coisa voltou pro lugar sozinha. – Foi o que o motorista conseguiu falar.
- Vamos, então! – esbravejou o cobrador, que parecia não se decidir entre o susto e o aborrecimento com o contra-tempo.
3. O Corte no Braço
Raquel chegou em casa ainda um pouco encharcada pela chuva que pegou no ponto de ônibus, tomou um banho e almoçou. Depois foi pegando o mesmo livro da noite anterior e abriu na página marcada. Começou a ler deitada na cama, debruçada sobre o livro, com um lápis para marcar os trechos importantes. Como estava muito cansada, adormeceu novamente lá pela quinta ou sexta página. Novamente o sonho da praia, novamente magias e encantamentos, a expectativa da batalha, lembranças de lições de feitiços e poções. Acordou quando um feitiço mal-executado no sonho feriu seu próprio braço e, para sua surpresa, lá estava o ferimento próximo á mão. Foi até o espelho e se encarou por um tempo. Olhou longamente para o corte imaginando como ele teria surgido. Lavou o local com bastante água e enrolou em uma atadura para estancar o sangramento, então ligou para a amiga:
- Carol, você não vai acreditar. – E contou a estória toda pra ela.
Quando terminou, houve uma gargalhada do outro lado da linha:
- Rach... Você anda lendo Harry Potter demais!
- Não! Tem séculos que eu não leio, não dá tempo, esqueceu?
- Haha! Isso é muito engraçado! Feitiços, ônibus maluco, e um machucado no seu braço! Você é meio estabanada, deve ter se ferido sem perceber!
- Tsc... Tá bem. Deve ter sido isso mesmo... Acho que to precisando dormir direito à noite, isso sim. To tão cansada antigamente!
- Eu também to, mas acho que o que a gente precisa é de sair! Tem quanto tempo que a gente não aproveita uma sexta à noite? Não vai a uma boate?
- Nem me fale! Já sei! Eu não tenho plantão sexta-feira, você tem?
- Não... Vamos sair!
- Isso! Ah, Carol, que bom! Vamos sair sim! Vou ligar pra mais gente, sei lá, os meninos! Que tal?
- Liga sim! E por falar em meninos, e o namoro?
- Ah, menina, nem sei... – Raquel preferia não pensar naquilo, não via o namorado há quatro dias, eles estavam cada vez mais afastados – Ele viajou no fim de semana, a gente não se vê desde sexta passada, e não se fala desde domingo quando ele ligou pra avisar que tinha voltado...
- Ok, deixa isso pra lá. Vocês vão se entender quando for a hora certa, por enquanto se concentra nos planos pra sexta. Você pode até convidá-lo, mas se ele não for, não pode ser motivo pra você deixar de ir, viu?
- Pode deixar. A gente vai sair sexta.
- Então ta! Agora deixa eu ir porque tenho que fazer compras. Beijo!
- Vai lá! Beijo!
Ela desligou, desenrolou a atadura e olhou pro ferimento no braço. Havia se esquecido dele com a conversa, mas não podia ignorá-lo. Não era um corte muito grande, mas relativamente profundo, sem alguns pontos deixaria uma cicatriz muito feia. “Eu mesma poderia fazer isso”, pensou. O corte era no braço esquerdo, então usaria sem problemas a mão direita, mas haveria dificuldades na anti-sepsia por exemplo. Achou melhor procurar o posto de saúde perto de casa.
Estava saindo de casa quando o carro do namorado estacionou em frente ao seu prédio.
- Felipe!
- Amor! O que aconteceu com seu braço? – Como num passe de mágica a insegurança e a mágoa pela distância entre os dois foram embora. Ela olhou para o namorado e sorriu, abraçou-o com força.
- Não foi nada, me cortei com a faca e to indo ao posto de saúde pra dar uns pontos.
- Como não foi nada se vai precisar de pontos? Espera que eu te levo.
- Não! Vamos andando, é aqui pertinho!
Os dois foram de mãos dadas. Quando voltaram pra casa dela, Raquel não pôde deixar de criticar o trabalho do médico que a atendeu.
- Olha só cada ponto esquisito! Poxa, não custava caprichar um pouquinho?
- Rach, amor... O cara não é cirurgião. Ele trabalha no posto, atende todo tipo de problemas mais simples. Não está entre as prioridades dele fazer um trabalho com preocupações estéticas. Além disso, nem ta tão ruim, você é que é perfeccionista!
Ele a beijou, como se esse seu defeito, um perfeccionismo quase insuportável, fosse, na verdade um charme, uma graça a mais na personalidade dela.
Já era tarde quando Felipe deixou sua casa. Ela estava mais feliz, mais tranqüila. Aquelas horas ao lado dele eram como um oásis na correria em que ela vivia, uma pena que eles pudessem se ver tão poucas vezes.
4. O Bar
A semana seguiu sem grandes sustos ou mudanças. A sexta-feira cegou relativamente rápido, e à noite ela já estava linda e pronta pra se divertir. Seu namorado passou um pouco mais cedo que o combinado.
- Você já está pronta? – ele a cumprimentou com um selinho, se divertindo com a animação dela.
- Claro! Há quanto tempo a gente não sai? Mas você chegou cedo!
- Pra poder te aproveitar um pouco só pra mim. – ele a agarrou pela cintura e a beijou novamente. Aprofundou o beijo e a abraçou forte. Era maravilhosa a sensação de segurança que ela experimentava em momentos como esse, como se estivesse protegida de tudo e de todos, sem cansaço ou desânimo que a abalasse.
Assim eles permaneceram por um tempo, grudados. Despertaram pelo telefone tocando. Era Carol.
- Os meninos vão passar aqui em casa daqui a pouco – ela dizia – falaram que tem um bar novo aqui pertinho, do jeito que você e o Felipe gostam: um balcão gigante pra importunar o barman e música alternativa.
- Legal! Qual o nome?
- Hogshead!
- Haha! Você ta de brincadeira comigo, não é?
- Não! É sério! Parece que o dono é fã de Harry Potter. Você vai adorar.
- Ok. Estamos indo.
- “Estamos”? Então que dizer que o príncipe encantado ta nessa com a gente?
- Claro que sim! A gente passa aí daqui a uns dez minutos.
O grupo era considerável: além de Raquel com o namorado, Carol convidou algumas pessoas da faculdade: Francisco, uma ex-paixão de Raquel que agora era um grande amigo (e de quem Felipe morria de ciúmes);e Pedro, um cara muito maluco, sempre atrás de garotas, sempre querendo escandalizar todo mundo, mas uma excelente companhia para todos os momentos, sempre disposto a ajudar quem precisasse. Tinha também a Ana Maria, outra maluquinha, da cidade natal de Carol, que sempre os acompanhava nessas horas; ela estudava engenharia ambiental numa faculdade particular à noite e trabalhava na Secretaria Municipal de Meio-Ambiente de dia; naquele dia estava matando aula.
- Matando aula, Ana? Achei que isso era privilégio de gente no ensino médio, ou de quem não paga pra estudar. – Pedro adorava implicar com a moça. Os dois logo emendaram uma discussão sobre faculdades privadas ou públicas, matar ou não matar aula.
O bar aonde eles foram era realmente interessante. Parecia uma estalagem ou um grande galpão, com pé-direito bem alto, sem forro, com lâmpadas amarelas pendendo das vigas do teto. Algumas mesas de madeira espalhadas, um balcão realmente grande, música boa, num volume adequado pra jogar conversa fora sem se incomodar em ter que berrar pra ser escutado. Nas paredes, fotos de roqueiros antigos em preto-e-branco ou em sépia, cartazes com ar de envelhecidos com marcas de cerveja internacionais. Raquel adorou o lugar, ela e Felipe logo se sentaram em cadeiras altas à beira do balcão, pediram seus drinques e começaram a conversar. Os outros se sentaram à uma mesa próxima, riam e falavam alto, completamente descontraídos.
A noite transcorreu numa boa, a certa hora o casal se reuniu ao restante do grupo.
- Finalmente! Achei que o casal vinte fosse passar a noite isolado! – brincou Francisco.
- Nós poderíamos, não é?! Não seria de todo mal. – Raquel percebeu a agressividade na voz do namorado. Ela dirigiu a ele um olhar cheio de significados que foi suficiente pra que ele baixasse a guarda.
- Então, Rach, a Carol falou que você tem sonhado que é uma bruxa! – Pedro segurava com dificuldade o riso, era claro que ele queria ouvir a versão da história direto da fonte.
- Ah, me deixa em paz! – ela olhou pra Carol, que não escondia o divertimento naquela situação.
- Não! – provocou Ana Maria – Conta aí como foi! A gente ta no lugar certo pra isso!
- Não foi nada!
Ela se levantou e foi até o banheiro. Não sabia por que aquelas brincadeira estavam incomodando tanto, mas era como se zombassem de uma coisa que pra ela era séria, quase real.
- Rach... – era a voz de Francisco – sai daí, vai! Não seja boba, eles não vão parar se você der importância.
Ela saiu e o encontrou grudado à porta do banheiro feminino.
- Vamos, deixa de besteira! Você não pode se importar com essas brincadeiras.
- Ah, me sinto meio boba mesmo... principalmente por tudo parecer tão real.
- Olha, isso é normal! Eu já sonhei varias vezes que a minha banda preferida estava La em casa me visitando...
- Eu também, mas isso foi diferente.
Ele a encarou com um misto de pena e curiosidade, então concluiu:
- Ok! Acredito em você, mas agora esquece isso.
Ela sabia que ele só falou aquilo pra tirá-la de lá, mas achou melhor ceder e voltar à mesa.
Quando voltou, Felipe estava mais sério que o de costume.
- O que foi, amor? – ela perguntou da maneira mais doce que pode.
- Nada. – ele permanecia fechado e emburrado.
- Fala pra mim.
- Deixa pra lá, você já deve ter desabafado com seu amigo.
- Ah não! Isso de novo não! Eu já falei...
Mas ele a interrompeu:
- Ta bom, ta bom! Besteira minha! Pronto, já voltei ao normal – e a beijou – vou pegar outra bebida, você quer?
- Aham! Quero sim!
Ele se levantou e foi em direção ao balcão. Ela o acompanhou com os olhos, e foi então que viu algo diferente: no canto extremo esquerdo do espelho atrás do balcão havia uma porta aberta, e pela porta dava pra uma vassoura varrendo sozinha o cômodo. E não era só isso: copos se ensaboavam e enxaguavam sozinhos na pia sem que ninguém os manuseasse. Ela piscou forte e olhou de novo, a porta estava fechada. Raquel olhou por mais alguns minutos, mas ninguém abriu a porta e nada mais aconteceu. Quando Felipe retornou à mesa, ela cochichou pra ele:
- Tem alguma coisa errada atrás daquela porta – e indicou a misteriosa porta atrás do balcão.
- Porta? Que porta? – ele olhava na mesma direção mas não enxergava porta alguma.
- A porta! Ali olha! – ela apontava diretamente, mas ele continuava negando que visse alguma coisa.
- Pessoal! – ela começou a ficar preocupada com a própria saúde mental – Vocês vêem aquela porta à esquerda, atrás do balcão?
Todos olharam, mas ninguém via nada, somente ela.
Raquel achou melhor, então, ir direto ao ponto, levantou-se e foi direto ao balcão. Chamou o barman e perguntou pela porta. Ele sorriu e respondeu:
- Claro que seus amigos não a vêem, eles são trouxas. Só nós podemos vê-la.
- Trouxas? Que brincadeira é essa? – ela corria o risco de se exasperar com o rapaz – Eu assimilei o espírito do bar, mas como vocês fazem uma porta que só algumas pessoas podem ver? Que tipo de tecnologia é essa?
- Como assim tecnologia? – ele ergueu uma das sobrancelhas – Isso é um feitiço, oras... Só os bruxos vêem a porta, faz parte do serviço manter partes do bar restritas a bruxos, entende? Pra que eles possam praticar alguns feitiços e manter alguns costumes bruxos sem se preocupar em serem vistos pelos trouxas do lugar. Sabe o whisky de fogo? O verdadeiro só é servido na varanda bruxa. – e o barman apontou pra uma das varandas a que se tinha acesso por uma escada – é claro que algum trouxa teria acesso ao lugar, mas somente se levado por um bruxo.
Ela olhou bem para o lugar que ele havia apontado, um vidro transparente o separava da parte interna do bar. Uma mulher com um vestido de cetim azul e estrelas douradas bordadas conversava com um senhor de capa verde-esmeralda, ambos usavam chapéus que combinavam com suas roupas e nos copos dos dois as colheres se mexiam sozinhas, sobre a mesa, duas varinhas, iguais às que ela via nos filme potterianos. Em outra mesa, uma criatura que só podia ser um duende apontava com ar ameaçador pra um rapaz magro e alto, com uma barba longa e cabelos compridos presos num rabo de cavalo, ele usava calças roxas e uma bota de couro, um couro que Raquel nunca tinha visto.
“São figurantes”, pensou. E também concluiu que o barman estava representando, era tudo parte do clima do bar, uma atração a mais. Correu até mesa e pegou o namorado pelo braço.
- Vem comigo!
Ele riu:
- O que é tão urgente?
- É, Rach! O que é tão urgente? – perguntaram os amigos, todos com sorrisos maliciosos em seus rostos.
Ela os ignorou e arrastou Felipe com ela.
- Espera ae! – ele protestou – O que a gente vai fazer aí fora, não tem nada do outro lado, ta vendo? Só grama e esses banquinhos, e eles não parecem confortáveis.
- Como assim não tem nada? E toda essa gente? – ela não conseguia acreditar. Subiu quase correndo as escadas, Felipe atrás dela.
Os dois atravessaram a porta e entraram na varanda, então ele soltou um grito:
- Uau! O que é isso? Que gente é essa?
- Agora você vê?
- E o que é aquilo? Ela apontava para o duende.
Um homem que passava a encarou com desagrado e falou:
- Moça, quando você trouxer um trouxa a essas áreas bruxas, peça que ele seja discreto. Não temos preconceitos nem nada, mas esses são locais que garantem o sigilo do mundo bruxo, e o ideal é que só venham aqui trouxas que já sabem da nossa existência.
- Eerr... Ok, me desculpe. Vou conversar com ele. – foi o máximo que ela conseguiu responder. O senhor se afastou com cara de poucos amigos.
- Rach! Era isso que você estava enxergando? – Felipe parecia aterrorizado, estava boquiaberto.
- Aham... Era isso que eu via. Reparou, eu não sou louca nem nada. Mas, por via das dúvidas, vamos embora.
Ele concordou, mas só conseguiu balançar a cabeça. Os dois saíram do bar sem sequer avisar aos outros e não tocaram mais no assunto.





