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Nome do autor: Chronos W.
Título: Artifícios do Tempo
Sinopse: Alvo Dumbledore sabe muito bem que é possível prever o futuro se você olhar direito para o passado. Mas nem Dumbledore sabia que o próprio passado teria um peso esmagador.
Classificação: G
Gênero: Drama
Status: Completa
Formato: Ficlet/One Shot
Artifícios do Tempo
Alvo Dumbledore era um rapaz interessante. De seu extenso nome até a cor acaju de seus cabelos, ele era digno de atenção. Tanto era que grandes nomes da magia o notaram enquanto ele ainda era um modesto estudante de Hogwarts. Do alquimista Nicolau Flamel ao famoso teórico da magia Adalberto Waffling, todos queriam um pouco de Dumbledore. Infelizmente, poucos queriam saber o que Dumbledore queria.O passar dos anos havia sido cruel com o bruxo. A família Dumbledore havia sido completamente destruída pelo destino, e o agora professor Dumbledore já não era o mesmo de anos atrás. Agora, ele era dono de um peculiar e chamativo nariz torto, bem como uma cicatriz em seu joelho esquerdo, que era, segundo ele, do formato exato do metrô de Londres. Possuía também uma ampla lista de grandes feitos, todos estes oferecidos a Alvo de boa vontade, e todos aceitos com relutância pelo grande mago.
E ninguém sabia o que Alvo Dumbledore queria.
Ele queria, na verdade, ser conhecedor do tempo. Sabia que, se tivesse conhecimento do que viria pela frente quando era muito mais jovem, não teria cometido o terrível erro de tentar se tornar o Senhor da Morte, nem causaria a ruína de sua família, nem o vazio destroçado de seu coração partido. Alvo aprendera com seus erros.
E ele sabia que isso sim seria uma grande ajuda para, não só o mundo bruxo, mas todo o mundo. De que servira o desiluminador, se um simples feitiço podia apagar luzes ao redor? De que servira a descoberta dos “Doze Usos do Sangue de Dragão”, se apenas terceiros lucraram com sua descoberta? Preparadores de poções e donos de marcas famosas de produtos de limpeza mágica - cujo principal ingrediente era o sangue de dragão – lhe eram gratos, mas isso não mudara o mundo. Ele queria mais.
O tempo não era algo que devesse ser tratado de forma leviana. Era de uma profundidade sem igual, apenas a morte e o amor eram tão complexos quanto ele. Por isso, Alvo sabia que tinha de haver uma maneira de olhar o passado, sem alterá-lo. Ele compreendia que, olhando o passado, descobria-se o futuro. E os vira-tempos já haviam se provado demasiado perigosos para usos desse tipo, pois vira-tempos fatalmente alteravam a realidade.
E então, o que deveria fazer? O modo mais simples de se olhar o passado, sem marcá-lo, era por lembranças. Mas lembranças, pensou Alvo, eram enganosas e desfragmentadas. Um futuro trilhado por meras lembranças seria tão enganoso e desfragmentado quanto às próprias. Era inadequado demais.
E Alvo passara semanas pensando em uma maneira de visitar o passado sem alterá-lo. Certamente que milhares de coisas lhe ocorreram, mas nenhuma delas era apropriada a uso. As lembranças ainda pareciam a melhor forma, e, algumas vezes, nem mesmo o melhor é o suficiente.
Ele nunca havia se sentido tão frustrado em toda a sua curiosa vida. Era como se parte de seu avançado intelecto houvesse entendido algo nas lembranças que ainda não o havia ocorrido. E isso o fazia se sentir mal, sua cabeça não aguentava a enxurrada de pensamentos que se juntavam e se misturavam na velocidade da luz. Ele teve vontade de encostar a ponta de sua varinha em sua têmpora e arrancar parte dos pensamentos, atirando-os em algum rio, tal como a personagem Amata fizera no conto da “Fonte da Sorte”, dos contos de Beedle, o Bardo.
E, finalmente, Alvo Dumbledore entendeu.
Toda a sua frustração fora substituída por euforia. Havia anos não se sentia assim. Pôs-se a pegar as melhores obras sobre manipulação de lembranças de que dispunha e leu-as com vigor. Poucos dias foram o suficiente para se tornar um verdadeiro especialista na área “memorial” da magia. Agora, ele sabia exatamente o que fazer.
Meses se passaram, e Alvo, enfim, terminara sua criação, criação esta que ele considerava a mais importante de todo o seu acervo. Esta, ele sentia, seria capaz de mudar o mundo.
Uma rasa bacia de pedra entalhada. Um espectador desavisado poderia pensar que esta invenção não passava de uma das muitas piadas de Alvo, pois este recipiente simplório, até mesmo rústico, não poderia ser tão importante quanto às outras incríveis obras do famoso Dumbledore. Mas um olhar mais atencioso lhe revelaria que os entalhes eram, na realidade, complexas e poderosas runas, que denunciavam o poder contido na bacia. Era, como dissera Dumbledore, sua maior invenção.
Alvo ansiava por experimentar o artefato à sua frente. Que lembrança deveria usar? Uma lhe coçava a memória. A lembrança mais antiga que ele tinha de sua mãe, Kendra Dumbledore. Era uma de suas mais fracas lembranças, mas se o objeto funcionasse, ele veria tudo nos mínimos detalhes.
A ponta da rígida varinha de Alvo tocou-lhe a fronte, enquanto ele concentrava-se em sua lembrança e recitava um feitiço não verbal. Afastou a varinha da cabeça, e junto dela, sua lembrança prateada e ofuscante. Deu uma pequena sacudidela na varinha, e a lembrança soltou-se com graça, caindo lentamente em direção à bacia. Ao entrar em contato com a pedra, se tornou um misto entre líquido e fumaça, que girava velozmente.
Com o coração aos saltos, Alvo se inclinou em direção à bacia, seus olhos se apertando por detrás de seus óculos conforme ele se aproximava da claridade da lembrança. Seu nariz torto tocou a substância.
No mesmo momento, Alvo sentiu-se caindo em um verdadeiro breu, sem controle, até que sentiu seus joelhos se dobrarem sobre seu próprio peso. Ligeiramente atordoado, Dumbledore olhou ao redor.
A amigável casa que pertencera a sua infância nunca havia parecido tão detalhada. Parecia impossível que aquilo não passasse de uma mera lembrança, do ponto de vista de Alvo. E mais impossível ainda que ele não prestasse atenção em praticamente nada do que via. Todo seu foco estava no rosto da única mulher presente na lembrança.
Os traumas que Alvo sofrera no passado haviam sido violentos. Tanto que certas coisas de seu passado quase que desapareceram de sua mente. E ele só percebera agora, pois, olhando para o rosto de sua mãe, compreendeu que se lembrava muito pouco dela.
Eles não eram parecidos. Kendra era dona de uma beleza incrível e exótica. Parecia uma mistura de europeia com os índios norte-americanos, na proporção exata. Alvo nunca havia visto rosto igual. Ela estava curvada sobre o berço de um bebê um tanto gorduchinho, que já possuía uma densa cabeleira acaju e olhava com olhos eletricamente azuis para a mãe, que cantarolava para ele.
Os olhos do Alvo envelhecido marejaram descontrolados. A saudade que se abatera sobre ele havia sido absurda. Como seria capaz de viver com esse peso? Alvo nunca descobriu quanto tempo ele permanecera na própria lembrança, porém, quando finalmente saiu, estava decidido a revisitá-la o mais breve possível.
Meses passaram-se, onde todos os dias Alvo provava um pouco de seu passado perdido, sem se importar de que, dessa forma, ele deixava o seu presente para segundo plano, e que nada podia descobrir do futuro. Completamente bêbado de saudade, ele tornava a entrar insistentemente na mesma lembrança, perpetuando o rosto de Kendra em sua memória.
Provavelmente, nada teria mudado, não fosse o fato de que um atrevido bicho-papão viria a se trancar no armário onde Alvo costumava guardar a sua “Penseira”. Pobre Alvo! O horror que ele sentira ao ver a criatura cair do cômodo sob a forma de sua falecida irmã Ariana havia sido trágico. Demorou dezenas de segundos até que ele se desse conta de que não passava de um bicho-papão.
Mas a criatura servira de certa forma. Havia, finalmente, arrancado Dumbledore de sua dose viciosa do passado, para fincá-lo de volta ao presente. E Alvo se sentiu desprezível ao perceber o terrível erro que cometera - mais um para entrar na sua lista - e pode entender o que as vítimas da mágica do Espelho de Ojesed sentiam ao serem trazidas de volta ao real.
E a frustração de Dumbledore voltara com força total. Da mesma forma que não merecia ser o Senhor da Morte, ele não devia conhecer os artifícios do tempo. E obrigou a si mesmo a trancar a Penseira de forma quase eterna: a usaria apenas para esvaziar a mente e investigar as lembranças frágeis. Fora esses dois requisitos, estava proibido.
Dumbledore havia se tornado um homem acostumado com a dor. Sempre que tentara fazer coisas “pelo bem maior”, ele falhava. Mas o confortava saber que, um dia, alguém, com toda a certeza do presente, faria bom uso da Penseira no futuro.


