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Grimmauld Place • Exibir tópico - Pink and Black

Pink and Black

Publiquem suas fics aqui para os outros opinarem.
Não se esqueçam de também postarem no Floreioseborroes.net.

Moderadores: O Ministério, Equipe - Godric's Hollow

Pink and Black

Mensagempor Regina McGonagall » 29/10/15, 18:54

Cá estou de novo postando fanfic...

Embora o movimento por aqui esteja pequeno, resolvi publicar uma fic que mantive quieta por um bom tempo.
E põe tempo nisso!

É uma fanfic Sirius/PO inspirada por uma teoria de nossa querida Gina Black (o Tópico ainda está aí pra quem quiser conferir) em que supostamente Sirius não teria morrido no véu e seu paradeiro seria conhecimento de apenas alguns membros da "elite" da Ordem da Fênix.

Para isso, para se manter incógnito, ele utilizaria um velho recurso muito conhecido de nosso trio de heróis: poção polissuco.

Esta fanfic foi editada e reeditada tantas vezes, que cheguei a pensar que estava perdida, não tinha mais jeito... mas acabei por concluir que seria melhor publicá-la, embora algumas explicações sejam devidas:

1. Seus acontecimentos correm paralelos ao Livro 6, de onde "emprestei" vários trechos.

2. Eu a considerei como um "falso slash", embora os trechos mais sugestivos tenham sido os mais reeditados porque eu sempre achava que estava muito tosco, mas a ideia resistiu bravamente.

3. A primeira PO é uma homenagem minha a uma grande amiga, Maria Duarte aka Mary Lupin.

4. Me perdoem por usar novamente o nome "Sarah", amo esse nome por vários motivos, e era pra ser a 3ª de uma trilogia, né? então, mantive o nome.

5. Outra personagem vocês irão reconhecer das fafics "O Paciente Inglês" e também "Close to You". quando escrevia esta última, lembrei-me da personagem e resolvi aproveitá-la. Acabei tendo que editar a primeira para que ela não ficasse "solta", embora tenha feito sutis alterações em sua personalidade. Vocês a reconhecerão e entenderão onde a sementinha pra Close to You brotou.

6. Aqueles que conhecem Londres terão que me desculpar, pois me baseei apenas em filmes para "transitar" pela cidade. falha que um dia espero corrigir com um tour com tudo a que tenho direito.

7. Ah, claro, não posso me esquecer: foi escrita ANTES do livro 7, obviamente.

bem, vamos lá: Com vocês, PINK AND BLACK
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Re: Pink and Black

Mensagempor Regina McGonagall » 29/10/15, 19:00

Cap. I – Estranho Encontro

- Você vai conhecer um estrangeiro... um homem misterioso...
- E como é este homem, posso saber? – a garota de cabelos negros sorria, encarando a outra, loira, à sua frente.
- Ora... Cabelos negros, um homem mais velho e experiente... Veja você mesma!
A loira lhe estendera a carta do tarô, “o senhor do bastão”, e a morena sorrira, retrucando:
- Pois então, me explique como eu, uma inglesa, neta de uma escocesa e de uma francesa, que vivi no Brasil quase toda a minha infância, estudei na Inglaterra, nos Estados Unidos, trabalhei na França, na Espanha, aqui em Portugal... E agora estou voltando a Londres para um novo emprego, posso ter a chance de “conhecer um estrangeiro”?
A outra parecera desconcertada, ao murmurar:
- As cartas não mentem jamais...
Ela não resistira e caíra na risada. Sua querida amiga Mary, ou melhor, Maria, era uma sonhadora incurável mesmo... Só ela para acreditar em previsões de tarô!
A garota pareceu tão amuada, que ela teve pena, e abraçou-a, assegurando que prestaria bem atenção para não deixar este homem misterioso de cabelos negros passar despercebido ao seu lado.
E haviam rido juntas, enquanto ela imaginava porque não podia ser como Maria, a sempre doce e romântica Maria, que conseguia até se apaixonar pelo personagem de seu livro favorito. Como era mesmo o nome?

Agora, suas férias em Portugal, onde aproveitara para rever a velha amiga de quando trabalhara na embaixada naquele país, antes de voltar a Londres e assumir seu novo posto, pareciam tão distantes, que não conseguia nem se lembrar do livro do qual Maria falara por vários dias, tão entusiasmada que quase a convencera de que aquela história era real e seus personagens poderiam estar ali ao dobrar de uma esquina. Quase....
Porque aqueles momentos de descontração e alegria quase adolescentes poderiam ter ocorrido há um milênio atrás, tamanha era a diferença com sua vida de agora, e as lembranças se desvaneceram rapidamente ante o torvelinho de preocupações que trazia naquele momento.
Sarah soltou um grande suspiro, correndo os olhos pelo jornal. Estava muito preocupada. Não fora à toa que sua avó lhe prevenira de que aquele trabalho seria mais difícil do que imaginava. Aquela foto daria o que falar e o alvoroço seria tremendo.
Ainda mais com tudo que andava acontecendo. Os dois assassinatos misteriosos, a ponte que simplesmente “desaparecera”... O governo estava em crise, não era o melhor momento para um “escândalo sexual”...
Sarah riu, ao reler a manchete sensacionalista. Ainda bem que o rosto da mulher em companhia do primeiro-ministro estava na sombra, devido à gola alta de seu casaco. Aquela neblina fora de tempo também ajudara, a foto não ficara muito boa.
O toque de seu “pagger” a fez saltar e ficar em pé, instantaneamente. Leu a mensagem rapidamente e saiu. Estava na hora de começar seu turno de trabalho. A Sarah despreocupada ficava para trás, cedendo lugar à disciplinada e eficiente Agente Rickman.

Ainda bem que tinha uma vaga permanente naquele estacionamento, foi o que pensou com um suspiro de alívio, pois o trânsito desta manhã estava terrível. E ainda tinha que caminhar duas quadras para chegar ao trabalho!
Quem a visse em passos rápidos pela calçada, imaginaria se tratar de uma executiva desses grandes escritórios, ou gerente de uma loja fina. O conjunto de calça reta e tailler preto, uma camisa branca de colarinho de ponta, os cabelos presos em um coque firme, a maquiagem leve, todo um conjunto discreto e elegante, completado pelos sapatos de salto quadrado, não muito altos, mas no estilo boneca – seu modelo favorito desde que fizera aulas de dança na adolescência, por serem femininos, mas clássicos e, principalmente, seguros. Só dispensara as tachinhas barulhentas, claro, mas ainda os comprava na mesma sapataria especializada, a única a vender aquele modelo, que continha uma trava de segurança prendendo o salto ao solado – ideal para evitar quebras e suas conseqüentes quedas. Em seu trabalho, aquilo era essencial, mesmo que filmes americanos mostrassem aquelas super heroínas do combate ao crime sempre com saltos finos e altíssimos – uma bela arma para se bater na cabeça de alguém, mas um perigo na vida real, cheia de calçadas e ruas esburacadas, grades e fendas...
Seu único enfeite era um cordão fino com um relicário, onde trazia a foto de sua mãe, bem escondido sob o decote da camisa, e um brinco minúsculo de rubi – único sinal, além do esmalte de suas unhas, de qual era sua cor favorita.
Poucos minutos depois, entrava na central dos agentes e se preparava para o trabalho. A única coisa que odiava era ter que carregar uma arma de fogo, e ainda mais trazê-la disfarçadamente junto ao corpo. Ossos do ofício que escolhera, num impulso juvenil do qual às vezes se arrependia, como nesse instante, em que tinha certeza de que levaria uma daquelas broncas do chefe.
Toda a equipe de trabalho estava reunida neste instante, inclusive o assessor direto do Primeiro Ministro, sua secretária e o assessor de imprensa.
De todos na sala, o único que parecia tranqüilo e despreocupado era o assessor, e a jovem Agente Rickman o observou furtivamente.
Era um homem estranho, o Kingsley. Um negro forte, um verdadeiro “armário de 4 portas”, que usava um charmoso brinco de ouro numa das orelhas. Desde junho trabalhavam juntos, mas ela ainda não sabia muito sobre ele, era muito esquivo e econômico em detalhes sobre sua vida pessoal...
- ... e vocês precisam evitar a todo custo que os repórteres se aproximem do Primeiro Ministro. Sua privacidade tem que ser preservada, nesse momento, a qualquer custo... Rickman, está ouvindo?
- Hein? – ela piscou para o chefe, saindo a custo de seu devaneio sobre o colega – ah, claro! Sim, senhor.
- Acho bom mesmo, porque foi no seu turno que aconteceu. Como, diabos, você o deixou sair sozinho?
- Ele não estava sozinho... – ela começou, tentando manter a voz neutra, notando com o canto do olho o levantar de sobrancelhas de Kingsley.
- Claro que não, estava com sua amante! – ele esbravejou – um comportamento completamente fora de todas as normas de segurança! E nos tempos de hoje! – o homem bateu na mesa – só não “desligo” você porque... porque...
O homem se acalmou repentinamente, parecendo até esquecer do que falava. Sarah o fitou em silêncio, mas ele se assentou novamente, examinando os papéis à sua frente.
- Bem, ao trabalho, todos vocês! E nada de... – ele pareceu confuso por um momento – deixarem o ministro dar qualquer escapadela de novo.

Sem esperar por mais nenhuma palavra, os agentes deixaram a sala, os demais permaneceram reunidos com o chefe da segurança, para encontrarem uma forma de contornar todo aquele rebuliço da imprensa. Em silêncio, se encaminharam para o escritório do primeiro ministro, embora a cabeça de Sarah estivesse fervilhando.
Ela pensara ter ouvido Kingsley murmurar alguma coisa, a mão enfiada no bolso de seu casaco, que mais parecia uma capa, lembrando aqueles filmes sobre bandidos apontando armas supostamente guardadas em seus bolsos, mas balançou a cabeça. Nunca o vira portando arma de fogo, pra falar a verdade... Ainda mais que era um funcionário administrativo, não agente de segurança. Será que eles agora estavam andando armados? Isso não era comum.
O que mais a incomodava, entretanto, era o fato de, nos últimos dias, ele às vezes entrar sozinho no escritório do ministro, com maior freqüência do que o de costume, ocasiões em que o Primeiro Ministro sempre parecia mais nervoso depois...
O que eles estavam escondendo?
- Ora! – pensou, sorrindo pra si mesma – se ele tem seus segredinhos com Sua Excelência, eu também os tenho!
- O que é tão engraçado? – sua voz forte a assustou. Não o vira se aproximar.
- Ah, nada, Kingsley, só estava pensando...
- Que o chefe nem imagina que era você que estava naquele restaurante?
Ela o fitou, surpresa e zangada. O tom irônico, sugerindo que ela fosse a “tal amante” não lhe agradara.
Kingsley deu uma risada alta, como ela nunca o vira dar. Mas ficou sério e disse, simplesmente:
- O Primeiro Ministro nunca está sozinho, nem quando pensa que está. E, tenha certeza, eu sempre estou por perto, portanto, sei que você e ele... são mais do que aparentam ser.
- Você está insinuando que... – ela estava vermelha.
- Não, claro que não. Eu “sei”. E...não se preocupe, minha tarefa é proteger a ambos, mas digamos que... minhas ordens venham “mais de cima”.
Sem conseguir responder a isso, ela apenas o fitou com curiosidade. Não conseguiu nem retorquir que segurança era o SEU trabalho, não o dele, pois ele acabara de entrar no escritório do Primeiro Ministro. A Agente Rickman entrou em seguida, disposta a esclarecer aquela gracinha dele na primeira oportunidade. A secretária estava lá, meio chorosa, o Primeiro Ministro parecia constrangido.
Ao vê-los entrar, a moça se retirou apressada, contendo algumas lágrimas com um pequenino lenço junto ao rosto.
O Primeiro Ministro soltou um grande suspiro, indo desanimado até a janela. A névoa incômoda ainda estava lá, e ele se arrepiou involuntariamente.
- Quando isso vai acabar, Shackelbolt? Essa névoa? O que está sendo feito a respeito?
Sem entender o porque da pergunta, Sarah fitou o outro, que respondia serenamente:
- Todo o possível, senhor. Todos os... homens estão se esforçando para isso.
Sarah teve a impressão de que o homem com cara de sapo no quadro em frente havia piscado. Fitou-o com atenção, mas nada aconteceu. Tentou então, agir como se a conversa dos dois homens estivesse completamente dentro do normal.
- O que aconteceu com a Srta Pulman... Senhor? – ela indagou, depois de uns instantes de vacilação.
- Bem... – o Primeiro Ministro a fitou, algo constrangido – parece que ela foi abordada pela imprensa logo ao chegar, pela manhã. Um desses tablóides idiotas acredita que ela... seja minha amante secreta!
- Pobre moça! – Kingsley comentou, parecendo condoído, mas Sarah notou que se divertia com a situação.
Mas ela se exasperava, isso sim. Sem saber até que ponto o assessor sabia, não se arriscou a fazer qualquer comentário. Após as checagens de rotina na segurança, foi se colocar em seu lugar, fora da sala, enquanto Kingsley permanecia lá dentro um pouco mais, depois de fechada a porta, como sempre.
Desta vez, porém, ela estava prevenida. A situação não era normal, tinha certeza. Por isso, deixara uma pequena escuta na sala, sem que os dois homens soubessem. Fizera isso na tarde anterior, mas só agora se utilizaria desse recurso pela primeira vez.
Assim, calmamente, colocou pequeno aparelho no ouvido, pronta a descobrir o que ocorria.
- ... infelizmente, havia um elemento mais perigoso que aquele fotógrafo por perto, por isso não o neutralizei. A prioridade era o outro. Sinto muito que esteja lhe trazendo transtorno por isso. Mas era importante estar atento aos... suspeitos mais perigosos.
- Eu sei, meu caro. O “outro ministro” me deixou claro quais seriam suas prioridades aqui, e não posso reclamar...
- Lamento interrompê-los, mas alguém está ouvindo!
A voz desconhecida dentro da sala alarmou Sarah que, esquecendo qualquer imperativo de se manter incógnita, ergueu-se em direção a porta, mas não conseguiu abri-la, senão depois de alguns minutos.
Entretanto, viu apenas o Primeiro Ministro em sua mesa, enquanto Kingsley segurava a maçaneta por dentro, uma das mãos enfiada nos bolsos, como sempre.
- Quem estava aqui com vocês? – ela olhou em torno, investigando. De novo, teve aquela impressão esquisita sobre o “Sr. Sapo”, e fitou o quadro por longos instantes.
- É você a responsável, Srta Sarah Mary Rickman? – ser tratada por seu nome completo significava que a coisa era grave.
Kingsley fechara a porta novamente, ninguém estranharia uma reunião a portas fechadas do homem mais importante da Inglaterra com seu assessor de confiança e uma das agentes da segurança.
Sarah tentou fingir que não sabia do que falavam, mas o olhar do ministro a fez perceber que não adiantaria nada e ela deu de ombros.
- Você está tornando as coisas mais difíceis, agindo assim...
- Por que? Por que tentei descobrir se acontece alguma coisa em sua sala que eu desconheça? É meu dever cuidar de sua segurança, por todos os meios possíveis. Aliás, como encontraram...
- Isso? – Kingsley lhe estendeu o minúsculo microfone que embutira num dos enfeites da mesa.
- “Tá”, tudo bem, muito básico, tinha que estar na mesa... mas justamente por isso o coloquei, porque seria muito óbvio procurar ali.
- Estou acostumado a ver o que os outros não vêem. – foi o único comentário de Kingsley, antes de depositar o pequeno objeto de metal em sua mão.
De repente, ele começou a rir, sem que os dois entendessem. Depois de um minuto, tentando se controlar, ele se desculpou:
- É que... me lembrei dos filhos de um amigo... sempre inventando algum artifício para ouvir as conversas dos adultos na cozinha... inventaram até “orelhas extensíveis”...
Então, um arranhar de garganta o fez ficar sério, como se percebesse que tinha dito bobagem.
Sarah não conseguiu identificar de onde ou de quem viera. Novamente, seus olhos haviam sido atraídos pela horrível tela do homem de peruca prateada, que permanecia em sua pose habitual, claro, era um quadro!
O Primeiro Ministro também parecia ter tomado uma decisão, e disse, muito sério:
- Espero que fatos como esse não se repitam, Srta Rickman, ou serei obrigado a solicitar sua retirada de minha equipe de segurança pessoal.
- O Senhor não... – ela começou a retrucar, mas percebeu seu olhar e disse, simplesmente – Está bem, senhor, me desculpe. Não se repetirá. Com licença.
Ela lhes acenou levemente com a cabeça e saiu da sala, fechando a porta às suas costas. Mas não precisou de microfones para ouvir o comentário do assessor.
- O senhor foi muito duro com ela.
- Foi preciso. Não quero que ela se envolva nisso.
- Mas talvez não haja como evitar... Talvez ela necessite saber. Conversarei com meus superiores a respeito.
E mais uma vez, ela se viu pensando em quem seria realmente aquele “assessor”... E se convenceu de que vigiá-lo mais de perto era de suma importância.

Com o passar dos dias, tudo entrou na mesma rotina, mas julho continuava nevoento. Certa tarde, Sarah saía do prédio, quando viu Kingsley do outro lado da rua, junto a uma banca de frutas que nunca vira ali antes. Isso não era muito comum nesta parte da cidade.
Ela o observou com atenção, sem deixar que a visse, ainda dentro do prédio. Ele se fingia interessado na mercadoria do vendedor ambulante, enquanto conversavam em voz baixa, ambos olhando para os lados disfarçadamente.
Depois de alguns minutos, Kingsley foi embora, sem olhar para trás, e Sarah refreou o impulso de segui-lo, permanecendo um pouco mais escondida pela sombra do hall do prédio. O homem que ficara era mais importante. Não era a primeira vez que o via rondando por ali e já estava na hora de descobrir quem era. Tinha certeza de que não era um agente, conhecia todos que trabalhavam sob disfarce pelas ruas. E se o assessor do Primeiro Ministro estava mantendo contato com uma figura tão estranha, era seu dever averiguar porque.
Alto, um pouco emagrecido, cabelos caídos até os ombros, uma barba displicente, ele tinha o ar quase inconfundível de um ex-condenado. Ela aprendera a reconhecer os sinais.
Seria um informante pessoal de Kingsley? Antes que ela tirasse qualquer conclusão, o homem juntou suas coisas de forma incrivelmente rápida e começou a se afastar. Decidindo-se rapidamente, ela o seguiu, o mais discretamente possível.
Entretanto, a noite caía mais brusca, enquanto Sarah se esgueirava por ruas estreitas e sujas numa parte da cidade que não tinha costume de ir. Estava cada vez mais difícil distinguir o vulto escuro entre tantas sombras, lixo amontoado e pessoas com faces deprimidas a passar por ela, e uma chuva fina e chata a forçara a erguer a gola de seu casaco para tentar se proteger do vento frio, incomum em pleno verão.
De repente, ao dobrar uma esquina, não o viu mais. Atônita por um segundo, tentou raciocinar rapidamente, enquanto checava as possibilidades de fuga do homem, pois o beco era praticamente sem saída. Mas um grande cão negro avançou em sua direção, saindo de um canto escuro. Ela sufocou um grito, tentando se manter calma, lembrando-se afinal, de que era uma profissional.
O animal a fitava ameaçadoramente, mas alguma coisa lhe dizia que ele não a atacaria, a menos que fizesse uma bobagem. Com extrema cautela, tentou caminhar lentamente para longe, voltando sobre seus passos, sem tirar os olhos do cão.
Aquela ruela estava deserta, só ela e o cão, mas de repente começou a sentir um frio intenso, a névoa se tornando mais forte, o coração batendo descompassado.
Por um momento, pensou que nunca seria capaz de ser feliz, reviu momentos terríveis de sua vida, e pensou que fosse morrer. Fechou os olhos, sentindo-se desfalecer, o peito oprimido como se alguém lhe apertasse o coração, enquanto ouvia alguém dizendo:
- Pense. Lembre. Lembre-se de momentos felizes, vamos!
Sem entender bem o porque, ela obedeceu... momentos felizes... os tivera há tanto tempo!

Viu-se menina ainda, deitada em um gramado, fitando um profundo céu azul por entre buquês de flores cor de rosa... de uma árvore sem folhas, apenas aqueles redondos buquês de flores cor de rosa. Ouvia alguém tentando repreendê-la, mas um velho retrucava:
- Deixe disso, amigo. Não está vendo? Isso não é uma criança, é uma fada. Não viu suas roupas, exatamente da cor das flores? O pompom em sua toca não é bem um desses cachos de flores?
Ela lembrava que sorrira, entendendo a comparação do velho amigo de seus pais, dizendo para si mesma que era uma fada saída daquela árvore de nome estranho, que nunca vira no seu país natal. Que coisa estranha era o inverno ali. Sem neve, sem frio intenso, as árvores cobertas de flores cor de rosa...mas se estivesse em casa ainda seria verão, e poderia ir visitar sua avó na sua casa cheia de coisas engraçadas que mexiam sozinhas...


Algo aconteceu, ouviu palavras que não conseguiu entender, mas logo começou a se sentir melhor. A sensação de frio intenso não a abandonara de todo, ela se sentia menos infeliz, embora a pressão sobre o peito ainda permanecesse.
- Coma isso – a voz falou novamente, enquanto um pedaço de chocolate era colocado em suas mãos - Vamos! Não podemos ficar aqui –a voz agora lhe ordenava com firmeza, e braços fortes a fizeram se erguer do chão.
Tentou ver quem estava ao seu lado, mas a rua estava ainda quase tão escura quanto momentos atrás.
- Você está bem? – o homem perguntou, após alguns minutos – Ou vai precisar de um “trago”? – o tom divertido por trás da preocupação a fez fitá-lo novamente, esforçando-se para distinguir os traços na pouca luz.
Não poderia dizer que ficou surpresa, sem estar realmente mentindo. Reconheceu, mais por instinto que por percepção, o homem que estivera seguindo, mas não viu sinal do cachorro. E ele lhe sorriu, um sorriso charmoso e cativante, apesar de sua aparência desleixada e imunda.
- Estou bem, obrigada. O que aconteceu? – ela piscou, tentando parecer mais desorientada do que realmente estava, enquanto acabava de comer o chocolate mais saboroso que já comera. Ele, entretanto, pareceu querer fazer o mesmo jogo.
- Não sei, essa névoa toda, deve ter lhe feito mal. Você tonteou e pareceu desmaiar, e eu era a única pessoa por perto, me desculpe pelo atrevimento. Deve ter sido um mal estar passageiro, mas o chocolate realmente parece ter resolvido...
- De modo algum, eu é que tenho que me desculpar... e agradecer. Vim andando distraída, nem reparei pra onde ia...
- Isso pode ser perigoso, nos dias de hoje... – ele permaneceu sério, misterioso – e se eu...
- Tentasse alguma coisa agora? – ela sorriu, já completamente refeita do estranho mal estar – Sinto informá-lo que se arrependeria amargamente. Não sou exatamente uma donzela indefesa...
Sua risada ecoou pelo beco inteiro, mesmo sendo meio rouca, e ele se conteve, parecendo pensar que ainda estavam em perigo, pois a puxou com força, fazendo-a entrar por uma porta semi-aberta, talvez do local onde estivera se escondendo dela.
Então, ele tirou algo do bolso, que ela não conseguiu distinguir na escuridão do lugar em que haviam entrado e murmurou outras palavras estranhas.
No momento seguinte, o lugar se iluminava fracamente, por algumas velas que pareceram se acender de repente. Estavam em uma loja abandonada, estantes vazias e balcões empoeirados, caixas e lixo pelo chão.
- Devo estar sonhando... – ela riu – ou melhor, tendo um pesadelo...
- Pareço tão horrível assim?
O homem sorria, parecendo realmente divertido. Seus olhos cinzentos pareciam mais escuros e brilhavam intensamente, refletindo a luz bruxuleante das velas. Tinha na mão uma vareta ou algo parecido com a baqueta de um baterista.
- Desculpe, não é nada pessoal... – ela se afastou um pouco, precisava agir como deveria, tinha que manter uma distância segura, para estar preparada para qualquer coisa que seu estranho companheiro fizesse.
- Acho que deveria chamar o Kim... – ele pareceu se arrepender em seguida.
- Então, eu estava certa! Vocês se conhecem! – seu rosto se iluminou.
- Epa, falei demais – seu sorriso desmentia suas palavras, e Sarah concluiu que ele lhe jogara uma isca, e que ela caíra como um patinho.
- Olha, imagino que você seja alguma espécie de informante do Kim, realmente não me interessa. Eu só o segui porque... bem...
- O Kim imaginou que você faria isso... ele me preveniu de que você é muito esperta para uma trouxa – ele se colocou à sua frente, impedindo-a de chegar à porta.
- Trouxa? Não sou trouxa!
- Calma, isso não é uma ofensa. Eu quis dizer... não é “uma de nós”. – ele avançava até ela, fazendo-a instintivamente recuar até um dos balcões.
- E o que isso realmente quer dizer?
Ele deu de ombros. Depois a fitou intensamente, antes de continuar falando, enquanto se aproximava devagar, ficando tão próximo que Sarah sentia sobre o rosto sua respiração, seu hálito levemente ácido. Ela sentia as costas contra a beirada dura do balcão, não tinha nem como alcançar a arma sem um movimento brusco, e ainda por cima sentia uma avalanche de sensações contraditórias. Momentaneamente, filmes antigos de espionagem passaram por sua memória. Mas ela não podia baixar a guarda, aquilo não era um filme de ficção, onde espiões e agentes são figuras cheias de charme que nunca morrem. Era a vida real, seu trabalho real!
Enquanto tudo disso passava por sua cabeça, o homem não dava sinais de perceber sua confusão momentânea. Observava-a com atenção e sem pressa, e foi calmamente que respondeu, ainda sorrindo:
- Você não gostaria de saber realmente. Acredito que entenderia muita coisa do que está acontecendo, mas preciso fazer você esquecer o nosso... pequeno encontro. Mesmo tendo escapado por tão pouco de um dementador.
- Dementador? – ela conseguiu perguntar – O que é isso?
- O que a atacou lá fora, ainda há pouco... acredito que será difícil explicar... – ele já praticamente encostava o rosto no seu, as mãos apoiados no balcão, quase tocando sua cintura.
Ela tentou se afastar, saindo por baixo deles, mas ele foi mais rápido e a imobilizou com tal facilidade que ela corou, ao pensar que se fosse um treinamento, teria perdido todos os pontos. Mas não estava reagindo normalmente e não entendia porque. Ele sorriu ainda mais ao ver sua raiva e confusão mal contidas, e disse:
- Já que... você vai esquecer tudo mesmo... acho que mereço um bônus... para não me esquecer de você.
Então, sem aviso, ele a beijou apaixonadamente, seus braços a segurando firme, porém gentilmente.
Quando ele interrompeu o beijo, seus olhos cinzentos faiscavam.
- É uma pena... – ele agora balançava a cabeça e sorria tristemente.
- o que? – ela conseguiu balbuciar, com voz sumida.
- Que eu tenha que fazer isso!
Sem que ela conseguisse prever, ele ergueu a tal baqueta, que mantivera nas mãos todo o tempo, e disse estranhas palavras em algo que lhe pareceu latim...
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Re: Pink and Black

Mensagempor Regina McGonagall » 29/10/15, 19:03

Cap II – Descoberta Assombrosa

Sarah acordou, na manhã seguinte, sentindo-se estranha. A última coisa de que se lembrava era de ter saído do trabalho no dia anterior...
Depois disso, como chegara em casa? Tinha a impressão de ter sonhado com uma perseguição por ruas e vielas escuras, de ter se encontrado com alguém... Havia também um enorme e ameaçador cão a rosnar, pronto a atacá-la. O mais estranho, porém, era parte do sonho parecia composto de acontecimentos de sua infância, nos primeiros dias que passara no país que fora seu lar por tantos anos...
Ainda faltava muito para o dia clarear, e aquela névoa ainda insistia em cobrir a cidade. Mesmo assim, ela se levantou, resoluta, tomou um banho bem quente pelo tempo mais longo que conseguiu, e se preparou para mais um dia de trabalho.
Algum tempo depois, atravessando a cidade a bordo do metrô onde via cada vez mais figuras estranhas ou bizarras, com roupas de cores e feitios incomuns – por algum motivo desconhecido deixara o carro para trás - ela chegava ao trabalho sem que conseguisse estar inteiramente tranqüila. Sensações súbitas lhe invadiam a cada instante, e ela se sentia como uma adolescente, sem entender porque. Às vezes, tinha a nítida impressão de estar sendo seguida, fato que em sua profissão aprendera nunca ser irrelevante, mas não conseguira ver ou perceber nada claro, acabando por se achar mais paranóica do que o normal e rir de si mesma.
O dia correu normalmente como sempre, e ela foi escalada para a guarda noturna do Primeiro Ministro.
Sentia-se indisposta para tanto, mas ficou calada. Era a primeira oportunidade que tinha em semanas de estar tão perto dele.
O Primeiro Ministro não pedira sua transferência, mas estranhamente ela estava sempre sendo deslocada para cobrir faltas de outros agentes. Essa era a primeira vez, desde o incidente com o pequeno microfone, que ela iria trabalhar em seu escritório num horário diverso do habitual. E Kim não estaria lá, ele pedira folga para “atender assuntos pessoais inadiáveis”...
Foi assim que acompanhou o Primeiro Ministro de perto durante todo o dia, atenta a cada detalhe, numa tentativa de concentrar-se exclusivamente no trabalho. Julgava estar com um princípio de estafa, mas não era momento para pedir um afastamento.

O Primeiro Ministro estava cada vez mais ansioso e preocupado. Os acontecimentos dos últimos meses o estavam deixando com os nervos à flor da pele, e era comum vê-lo murmurando imprecações. Sua secretária tirara férias, sendo substituída por uma funcionária de meia idade e expressão severa, provavelmente para calar os boatos sobre ele ter um caso no escritório... mas essa medida se mostrou desastrosa, pois só reforçou os comentários maldosos dos horríveis tablóides.
Sarah pensava nisso, com um leve sorriso nos lábios, enquanto aparentemente repousava no pequeno divã em frente à lareira da sala do Primeiro Ministro. Quando a sós com o Primeiro Ministro, podia relaxar um pouco a postura, embora atenta e vigilante sempre. Mas, nesse momento, divagava um pouco, olhando a lareira vazia.
Pensava nos anos que passara “longe de casa” durante o segundo casamento de sua mãe. Pensava no homem que aprendera a chamar de pai, de quem usava o sobrenome e guardava lembranças preciosas. Pensava no quanto sentira sua morte e de sua mãe, o que a fizera retornar para a Inglaterra e procurar por seu pai verdadeiro, já praticamente adulta. Um pai sobre quem sabia muito pouco, ainda hoje, mesmo convivendo todos os dias. Principalmente porque, nas atuais circunstâncias, ela nem podia se apresentar como sua filha, usava o nome do padrasto ainda e era apenas conhecida apenas como um membro da segurança do Primeiro Ministro, nada mais que isso...
Este trabalhava em sua mesa, aparentemente esquecido de sua presença, até que um som inusitado chamou sua atenção, um raspar de garganta e uma voz estranha:
- O Ministro da Magia solicita uma audiência!
Sarah deu um pulo. O quadro na parede falara, tinha certeza.
O homem com cara de sapo a fitou. Aparentemente, não “notara sua presença”, ou não teria se enunciado.
- Creio... – o Primeiro Ministro pareceu constrangido e confuso – Não ser o momento ideal, já que... não estou sozinho. Esqueci-me desta nossa reunião... – o Primeiro Ministro parecia completamente desconcertado.
- Bem... o gato já está solto em meio aos diabretes, então...
- O que está acontecendo? – Sarah olhou o quadro, nitidamente vivo, depois o homem à sua frente – Pai... o que está acontecendo?
- É ela a sua filha? De quem falou com o Ministro no último encontro, a Srta Rickman? – o homem do quadro perguntou, com expressão curiosa e marota.
- Sim. – ambos responderam em uníssono, embora Sarah ainda não pudesse acreditar que estava respondendo a uma pintura na parede.
- Então, está tudo resolvido. Já podemos receber o emissário do Ministro?
- Sim, acredito que sim...
No momento seguinte, chamas verdes explodiram na lareira, fazendo Sarah pular para a frente do Ministro, protegendo-o com o próprio corpo, instintivamente, e já empunhando sua arma, pronta a chamar reforços pelo fone de ouvido.
- Calma, filha, está tudo sob controle. É uma visita estranha, mas praticamente normal nesses dias...
Dali a instantes, das chamas verdes emergiu um homem, com um chapéu coco nas mãos e estranhas roupas verde limão, sob a capa negra e longa.
Seu sorriso formal sumiu no instante em que viu Sarah, mas o Primeiro Ministro, rapidamente, explicou.
- Boa noite, Fudge, e não se preocupe. Além de fazer parte de minha equipe, Sarah é minha filha.
- Sarah... – o outro a examinou por alguns minutos – Ah, sim...Sarah Rickman, não é? Já discutimos a respeito, creio não haver nenhum problema quanto à sua presença. Seu registro como nossa “colaboradora” já foi providenciado.
Sua fala causou ainda mais estranheza a Sarah, mas o Primeiro Ministro lhe fez um sinal de que depois lhe explicaria. Então, ela foi se sentar novamente no divã, aparentando não se interessar pelo assunto da conversa de ambos.
Os dois homens se acomodaram à mesa, e depois de comentários banais, o visitante finalmente se dispôs a falar de coisas sérias.
- Venho apenas informá-lo de que o ataque de dementadores da noite passada já foi devidamente abafado, e que estamos aumentando nossas defesas contra eles. Felizmente, não tivemos nenhuma vítima fatal.
A palavra provocou um estalo na mente de Sarah, e ela ousou interromper:
- Sr.... Fudge, é isso? Perdão, mas o que são exatamente os dementadores?
- Seres terríveis, acredite! Acabam com a alegria das pessoas, deixam apenas tristeza e dor...
- E há defesa contra eles?
- Sim... – ele parecia mais relutante ainda – Podemos conjurar um patrono, a partir de nossas lembranças mais felizes.
- Lembranças felizes... – ela disse simplesmente, deixando a partir daí de prestar atenção à conversa, pelo menos aparentemente, como estava acostumada em sua função.
Alguma coisa teimava em emergir do fundo de sua mente, parecia uma voz lhe dizendo: pense em algo feliz!
Os dois homens conversaram por longo tempo, depois Fudge se despediu e partiu de novo pela lareira.

O Primeiro Ministro sentou-se ao lado de Sarah e disse, então:
- Pronto, pode começar. Vou... tentar responder a todas as suas perguntas.
Sarah o fitou, notando preocupada, o quanto ele parecia ter envelhecido nos últimos tempos, devido à preocupação.
- Quem era esse homem? E por que aquele... quadro... fala? Tem um elevador escondido na sua lareira?
O homem suspirou, antes de responder:
- Aquele homem, eu o conheci no dia em que tomei posse... era o Ministro da Magia, na ocasião. Agora, é apenas um assessor do outro Ministro...
- Ministro da Magia... o que quer dizer?
- Bem... eles são bruxos. – ele disse, de uma vez
- Bruxos? Mas... eles quem? – Sarah começou a ter uma leve suspeita.
- Esse homem, o Fudge e... todos os outros... – ele coçou a barba em seu queixo – Ele me contou sobre o tal Lord não sei das quantas, e Sério, ou Sírio, ou seja lá o que for, Black, que era inocente, mas foi condenado, mas agora está morto, e também um tal de Dumbledore que parece ser um grande líder deles e... claro, Schackebolt.
- Sei... – ela o fitou – acho que já esperava por algo assim, depois de tudo, mas... bruxos?
- Sim, imagino – ele sorriu, meio sem graça – A princípio, não gostei da idéia de ter um bruxo perto de mim por tanto tempo, mas me acostumei. Ainda mais que ele já tinha provado ser um excelente profissional.
- Claro! – ela sorriu – Agora entendo muita coisa. Vou pedir um chá para nós, que tal? Acho que estamos precisando. – ela tinha realmente muita coisa em que pensar, eram informações surpreendentes. E precisava de mais respostas, sem dúvida alguma!
- Faça isso, querida...
- Olha! – ela sorriu – Não se esqueça, se alguém o escutar me chamando assim, teremos novamente problemas com a imprensa...
- Tem razão... Srta Rickman.... – ele estava desalentado – mas assim que essa situação catastrófica se normalizar, irei anunciar pra quem quiser saber que tenho uma filha linda...
- E aí então é que não vamos mesmo poder nos sentar em um restaurante para jantar juntos por um longo tempo, até os tablóides acharem outro prato cheio...
Rindo do trocadilho, Sarah se levantou e foi até lá fora pedir o tal chá.
Entretanto, voltou rapidamente para a sala, mandando o pai se esconder, fechando a porta atrás de si e já de arma na mão.. Estranhos homens encapuzados vinham pelo corredor. Mas a porta pareceu se explodir num clarão, e ela jogou-se sobre o pai, protegendo-o com o próprio corpo, atrás de sua mesa, presumindo tratar-se de uma explosão. Antes, porém que os homens chegassem à sala, um estalo forte se ouviu e Kim apareceu com mais 3 homens, diante deles.
Vendo que não poderia ajudar, Sarah se concentrou em manter seu pai fora do alcance dos raios que cruzavam a sala, vindos das varinhas – ou seja lá o que fosse aquilo - empunhadas pelos combatentes de ambos os lados.
Logo, mais alguns homens chegaram pela lareira em novas labaredas verdes, se juntando a Schackebolt para expulsar os invasores, capturando os que haviam caído durante o ataque.
Em alguns minutos, tudo parecia normal.
- Vocês dois estão bem? – Kim perguntou, quando tudo já estava sob controle.
- Sim... – Sarah respondeu.
- O que foi isso? Pensei que estávamos seguros! – o Ministro estava assustado e irritado.
- Um de seus homens foi atacado e substituído por um dos comensais... Seu corpo foi encontrado por... um de nós, que me avisou em seguida. Mas não se preocupe. De agora em diante, estaremos vinte e quatro horas ao seu lado. Eu ou outro auror, estaremos sempre aqui. Sarah... você agiu rápido, isso foi muito bom, e nos deu tempo pra agir.
- Ora, eu não fiz nada afinal. Acho que tiros não iam adiantar muito, iam?
- Tem razão. A prioridade era proteger o Primeiro Ministro. Acho que você já sabe, não?
- Que vocês são... bruxos? Sim.
- Então, talvez não precisemos usar o “Obliviate” – ele sorriu.
- O que é isso?
- Ah, um feitiço para alterar memória...
- Como naquele filme, MIB?
- Hein? – ele a olhou com estranheza.
- Ah, esquece...
Uma mulher se aproximou de Kim. Tinha os cabelos castanhos, bem curtos, espetados, e rosto em forma de coração. Por um instante, seu olhar cruzou com o de Sarah, e alguma coisa em sua expressão a incomodou.
- Tudo limpo, Kim.
- Certo, Tonks. Obrigado pela ajuda – Kim apertou sua mão, fitando-a por um segundo com uma certa curiosidade, como se sentisse algo errado com a amiga.
- Não foi nada. Estamos indo, tenho que voltar ao meu posto, os outros também.
Com mais um estranho olhar em direção a Sarah, ela desapareceu num estalo.
- Como vocês fazem isso? – Sarah perguntou, após os outros também partirem.
- O que? Aparatar? Ah, é só se concentrar em “onde quer ir” e se imaginar lá.
- Eu gostaria de poder fazer isso. Nada de metrôs, trens, ônibus...
- Ainda prefiro uma boa vassoura – Kim comentou sorrindo – Mas, parece que você ia fazer alguma coisa...
- Sim, ia pedir um chá.
- Não se preocupe. Acho que, depois dessa rodada de feitiços, conjurar um chá na frente de vocês não será bem uma quebra de sigilo.
Assim dizendo, ele fez aparecer uma bela bandeja de chá com biscoitos.
- Podem comer tranqüilos, veio de fonte confiável e são muito saborosos.

Agora que Sarah sabia sobre eles, Kim não parecia mais tão misterioso, embora não conversassem muito sobre sua verdadeira condição.
Sarah apenas sabia que ele fazia parte da polícia do mundo bruxo, os aurores, e que as coisas estranhas que estavam acontecendo eram conseqüência de uma guerra entre bruxos. Sabia também que não podia revelar sua existência a ninguém, embora começasse a aprender como distinguí-los das pessoas normais, os chamados trouxas.
- Estranho... – Sarah comentou, enquanto almoçavam juntos, certo dia.
- O que? – Kim olhou à volta, atento – Percebeu algo fora do normal?
- Não, não. É que... tenho a impressão de que já tinha ouvido isso antes...
- O que?
- Trouxa. Alguém já me chamou assim antes... tenho quase certeza. Será que conheci algum bruxo, antes de vocês?
- Talvez... – Kim pareceu preocupado de repente. É que se lembrara do dia em que Sirius o procurara mais abertamente. Talvez Sarah o tivesse visto... seguido até. Percebera sua vigilância velada, sua desconfiança...
- Será que aquele louco do Sirius...
- Sirius? Sirius Black? Você o conheceu? Meu pai me contou que está morto. Foi condenado injustamente por alguma coisa...
- Sim... claro, desculpe. Estava pensando em outra coisa. Bem, preciso encontrar-me com um colega de trabalho... meu colega. Tenho permissão para levar você, se quiser...
- Ir junto? – ela perguntou com expressão maravilhada – Claro que sim!
Logo estavam em uma rua movimentada, cheia de lojas, e Sarah achou incrível que ali pudesse existir algum lugar bruxo sem que ninguém percebesse, enquanto estacionava o carro em frente a uma livraria. Comentou isso com Kim, que sorriu.
- Um amigo meu costuma dizer que os trouxas só enxergam o que querem enxergar. Veja! Olhe com mais atenção. – e ele apontou para um ponto entre a livraria e uma loja de discos.
Sarah a princípio não viu nada, apenas um muro estreito entre as duas lojas. Mas, certa de que Kim não fazia uma brincadeira de mau gosto, fechou e abriu os olhos, pensando consigo: eu quero ver!
Para seu espanto, viu a porta de um bar, sob a placa antiga e tosca em que se lia “O Caldeirão Furado”. Kim riu com gosto e, estendendo-lhe o braço como um perfeito cavalheiro, conduziu-a para dentro.
O lugar tinha uma aparência bizarra, se comparado a tudo que ela conhecia. As pessoas ali se vestiam com roupas de colorido forte, que ela não estranharia se estivesse no Brasil, onde vivera grande parte de sua vida. Mas, em Londres, mesmo no verão, eram bem... extravagantes. Mesmo o preto sendo quase que geral. Por isso, suas próprias roupas, seu costumeiro discreto tailler preto com uma camisa azul claro, não pareceram muito “fora de lugar”.
Sentada em uma mesa, uma mulher jovem lhes acenou. Olhava com curiosidade para Sarah, como se nunca a tivesse visto antes, mas Sarah tinha certeza de ser a mesma que estivera na equipe de socorro daquela outra noite. Apenas o cabelo estava diferente, maior e mais claro.
Tonks a cumprimentou com um sorriso sincero, comentou que seu pai era trouxa, então estava acostumada a conviver com eles, que não se preocupasse.
Sarah a fitou com espanto. Agia como se nunca tivessem se visto, será que se esquecera daquela noite? Talvez, no meio de tudo aquilo não tivesse notado. Não, tinha certeza de que a outra até a encarara de uma forma esquisita, que não entendera bem...
Vestia-se quase como uma adolescente, uma camiseta rosa berrante sobre calças jeans esgarçadas, e deviam ter praticamente a mesma idade, perto dos 25 anos.
Apesar disso, e diferente do primeiro encontro, Sarah sentiu-se à vontade, enquanto saboreava o que eles chamaram de cerveja amanteigada.
- Beba devagar! Para nós é como um refrigerante mas em trouxas o efeito às vezes é mais forte.
- Agora que você me avisa? – Sarah riu, e Tonks a encarou,sonhadora.
Depois, comentou meio que sem querer:
- É... ele tem razão.
- Quem?
- err... – ela desconversou – nada, desculpe, estava longe agora. Pode nos dar licença só um minutinho? – e virou-se para Kim – Podemos ir até ali um instante, Kim?
- Claro, com licença Sarah.
Eles se afastaram, e Sarah fez um esforço para não ficar imaginando porque haviam precisado conversar longe dela.
Quando voltaram, ainda ouviu Kim dizer que a idéia era absurda.
- Mas Artur já deu sua autorização. Ela precisa conhecer um pouco mais sobre nós, já que vai precisar trabalhar conosco. O Ministério já a reconheceu como uma “colaboradora”.
- Eu sei... bem, então, VOCÊ cuida disso. Entendeu? É SUA responsabilidade.
- Claro! – ela sorriu de modo estranho, meio desafiador, mas Kim pareceu desistir da falar mais alguma coisa.
Ele se despediu e as deixou sozinhas. Sarah já começava a se sentir perdida, quando a outra perguntou:
- Você... tem namorado?
- Não, atualmente não. Por que?
- Ah... só curiosidade. – Tonks tomou um gole de sua cerveja amanteigada.
- E você? Tem?
- Não... quer dizer... eu gosto de um cara, mas... ele anda fugindo de mim, ultimamente.
- Por que? – Sarah não conseguiu evitar perguntar
- Bem... ele diz que não serve pra mim, que é mais velho, tem problemas graves... essas bobagens.
- Mas você gosta dele de verdade?
- Claro que gosto! – Tonks pareceu ofendida.
- Então, invista nisso, vá fundo! Ele é... como você?
Tonks riu. Se ele era bruxo, sim, era sim. Conversaram um bom tempo, Tonks falando do homem maravilhoso que ele era, só que não enxergava isso...
Mas percebeu que já era tarde, e disse que precisavam ir. As duas saíram conversando, pulando de um assunto pra outro como se fossem velhas amigas, e quando deu pela coisa, Sarah já estava na porta de casa.
- Bem, eu trouxe você direitinho, como o Kim pediu. – Tonks fez uma mesura, enquanto Sarah acabava de guardar o carro e abria a porta que levava ao apartamento em que morava, sobre a antiga loja convertida em garagem.
- Obrigada. Mas não precisava... não sou uma garotinha.
As duas riram e se despediram. Sarah já fechava a porta, quando Tonks voltou:
- Ah, me esqueci de dizer. Sexta à tarde, vou te levar pra conhecer o Beco Diagonal. Você acha que é capaz de encontrar o Caldeirão Furado sozinha?
- Eu... acho que sim. Memorizei o caminho... – Sarah não conseguiu esconder a surpresa, e a outra riu.
- Então, às quatro horas, ok? Pode deixar que vou mandar uma capa ou algo assim, pra você se sentir menos “diferente”.
- Ah... eu... está bem.
- Então, beleza. Até lá!
Assobiando como um garoto, Tonks desapareceu rapidamente na esquina. Sarah imaginou que a outra preferira “aparatar” fora de suas vistas. Subiu as escadas até seu apartamento, procurando não pensar mais em tanta novidade que invadia sua vida assim tão de repente, mas foi impossível deixar de sentir ansiedade pelo passeio que faria na sexta.
Conhecer o “mundo dos bruxos”... Quem seria o tal Arthur? Por que será que achara apropriado ela conhecê-los mais de perto? E por que Kim estaria tão preocupado?
Sem atinar para nenhuma resposta satisfatória, concentrou-se em descansar. A tensão do trabalho estava cada vez maior, o Primeiro Ministro sofria pressão extra, era abordado pela imprensa e por descontentes a todo momento, as críticas de seus adversários o atingiam como bombas, e ela sentia o reflexo disso tudo. Sua posição se tornara ainda mais delicada, talvez por isso os bruxos haviam resolvido se revelar a ela... ela era uma peça importante na vida do governante, não podia ser ignorada inclusive como alvo de um possível ataque visando a chantagem ou algo do tipo...
Enquanto pensava nisso, chegou à janela. Morava em uma rua silenciosa e tranqüila, próxima ao Regent Park. A casa era de sua avó, que agora morava no campo, distante da balbúrdia que se tornara a corte, ela dizia.
Sarah sorria, lembrando com saudades de sua excêntrica avó, mas algo lhe chamou a atenção: por um instante, pensou ter visto um cão do outro lado da rua, e isso lhe despertou uma lembrança vaga, que lhe trouxe um arrepio na espinha.
Alerta, perscrutou a escuridão do outro lado – a lâmpada do poste fora quebrada, provavelmente algum vândalo, bêbado, ou os dois.
Nada...
Talvez uma sombra... se não soubesse dos bruxos, talvez se contentasse com essa explicação, mas agora...
Observou tudo com atenção, não viu mais nada. Procurando aparentar casualidade, agiu como agia todas as noites, trocou-se, apagou as luzes, fingiu ir se deitar... mas permaneceu atenta ainda por longo tempo, escutando, vigiando, esperando...
Mas, por fim, dormiu. Lá fora, o homem que observava a janela às escuras olhou para os lados, atento... e aparatou. Mas Sarah não ouviu o estalo que isso provocou.
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Re: Pink and Black

Mensagempor HelenaDyonisio » 30/10/15, 13:32

Fic da Regina <3
Que orgulho estar lendo coisas suas novamente!
"Claro que está acontecendo em sua cabeça, mas por que isso significaria que não é real?"
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Re: Pink and Black

Mensagempor Regina McGonagall » 30/10/15, 20:13

Que bem faz pra auto estima da gente ouvir isso :mrgreen: :lol:
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Re: Pink and Black

Mensagempor Regina McGonagall » 30/10/15, 20:18

Capítulo III – Estranha Impressão

A semana pareceu voar, e Sarah só se lembrou novamente do encontro marcado com Tonks, quando recebeu das mãos de Kim um pacote.
- Use isso ao chegar ao Caldeirão Furado, eles não estranharão tanto sua presença por lá.
- Você... não vai mesmo comigo até lá?
- Não. – ele respondeu, seco.
Sarah queria lhe perguntar mais alguma coisa, tinha medo de afinal de contas errar o lugar, ou não saber se portar, mas ele apenas lhe disse:
- Aja como sempre, quando está a trabalho. Fale menos e escute mais, fique atenta a tudo e não toque em nada sem que Tonks a oriente sobre como fazer, ok?
Ela simplesmente assentiu com a cabeça, sentindo-se afinal uma adolescente saindo em excursão e ouvindo um sermão do pai zeloso. Sorriu, mas ele não correspondeu.
- E – ele finalizou – Não acompanhe ninguém além de Tonks, a menos que ela lhe diga ser seguro... apesar de ser uma atrapalhada, é muito consciente de suas funções.

Meia hora depois, vestindo a longa capa negra sobre seu jeans e camiseta roxa, um blusão de moleton e um tênis americano colorido, na esperança de não parecer tanto a “trouxa” que era, entrou o mais discretamente possível no lugar conhecido como Caldeirão Furado. As mesas estavam como se lembrava, com seus ocupantes de aparência bizarra, mas ninguém pareceu lhe notar a presença. Sentou-se a um canto, pediu uma cerveja amanteigada ao garçon corcunda e se sentou em um ponto estratégico. Bebericava o copo de vez em quando, ainda temendo os efeitos da bebida bruxa, tentando vencer a inquietação. Sentia-se como que em missão, à espera de um parceiro desconhecido. A tensão em sua nuca só crescia, e nada de Tonks...
Finalmente, a outra apareceu, mas vinda do fundo do bar. Os cabelos novamente mais curtos, o andar meio engraçado, como se algo a incomodasse, ela se aproximou em silêncio.
- E aí? Beleza? Desculpe o atraso... – ela tentou sorrir, mas seus olhos estavam sérios.
- Tudo bem, cheguei agora, praticamente – Sarah mentiu.
- Vamos? – Tonks parecia impaciente. Jogou sobre a mesa umas moedas estranhas, e só nesse momento ocorreu a Sarah que seu dinheiro talvez não fosse aceito ali...
Mas seguiu a bruxa até o fundo de onde ela viera. Lá, no que parecia ser a área de serviço do bar, observou-a sacar a varinha e tocar nos tijolos, logo acima de uma lata de lixo... e a parede se moveu, abrindo-se num imenso arco e deixando à mostra um mundo completamente novo e diferente. Sarah sentiu-se como personagem de uma história maluca, de um desses filmes sobre dimensões paralelas.
Tonks atravessou o arco e a chamou, ainda demonstrando certa impaciência. Mas, parecendo se dar conta de que Sarah poderia estar lhe achando rude, falou com certa suavidade:
- Desculpe, a semana não foi fácil. Mas, apesar das coisas por aqui não estarem tão normais como deveria, vou tentar lhe mostrar tudo, e também fazer isso de forma divertida.
- Ora, não se preocupe, é uma missão de reconhecimento, penso eu, não um passeio.
- Certo... – Tonks a fitou, e por um momento, Sarah se sentiu incomodada, como se sentira na noite do ataque ao escritório do Primeiro Ministro.
A bruxa parecia um camaleão, tanto na aparência quanto no humor... e aqueles olhares eram muito esquisitos.
Elas caminharam pelo Beco Diagonal, Tonks lhe falando de cada estabelecimento, das pessoas que passavam, e riu dizendo que provavelmente a maior parte se assustaria com ela, se soubesse que era uma trouxa completa. Infelizmente, comentou, muitas lojas interessantes, como a de Olivaras, estavam fechadas. Mas fez questão de levá-la a uma loja em especial: Gemialidades Weasley.
- São filhos de amigos nossos, que agora se estabelecem como comerciantes.
- Mas parecem tão novos! – ela disse ao observar Fred e George que se aproximavam.
- Entre os bruxos, a maioridade é aos 17 – Tonks explicou, enquanto os jovens ruivos sorriam ao cumprimentá-la.
- Tonks, como vai?
- Pensamos que estaria em Hogsmeade!
- Só na semana que vem. Para preparar o retorno dos garotos. E aí, tudo beleza?
- Tudo. E quem é...
- Sua amiga? – o jeito intercalado de falarem divertiu Sarah.
- Ah, esta é Sarah Rickman, a colega de Shacklebolt. Seu pai deve ter lhes dito... não?
Os gêmeos balançaram a cabeça de modo engraçado, dando a entender que sabiam exatamente quem era a visitante, mas por seus próprios meios.
Sarah se divertiu com eles. Pelo menos naquela loja, o clima estava leve, descontraído, pois por todo lado ela vira apreensão, medo e desconfiança. Sabia bem o que uma guerra causava as pessoas. Se com gente comum era difícil, com bruxos também deveria ser.
Os gêmeos queriam lhe vender uma porção de artigos estranhos, mas ela se desculpava dizendo não ter dinheiro bruxo. Tonks acabou por lhe comprar o que achou ser mais inofensivo, mas também útil: um par de orelhas extensíveis. E ela se lembrou de Schacklebolt ter comentado algo a respeito.
Ela foi levada ao Gringotes, o banco dos bruxos, uma construção verdadeiramente imponente de mármore branco, onde Tonks se encontrou com outro Weasley, Gui, enquanto Sarah se perguntava se ruivo era uma cor assim tão normal entre os bruxos. Ao expressar sua curiosidade em voz alta, foi brindada com uma risada forte de Tonks, e por um momento pareceu hipnotizada pelo brilho em seu rosto. Ela lhe pareceu... outra pessoa.
Só se deu conta de que a fitava mais tempo do que o normal, quando a bruxa também a encarou, séria e calada.
Parecendo perceber a tensão repentina entre as duas, Gui apressou-se em dizer que, além dos gêmeos que ela já conhecera, ele tinha mais três irmãos e uma irmã, todos igualmente ruivos, como seus pais.
- Nossa! – ela exclamou, tentando quebrar o clima estranho – Uma família inteira de cabeleiras flamejantes!
Os três riram juntos, e logo se despediam. Sarah tentou ignorar a estranha impressão que Tonks lhe causava, essa coisa meio “camaleão”. E quanto mais ela parecera relaxar mais e ser mais natural, mais parecia diferente do que Sarah observara no encontro do início da semana, em companhia de Kim.
E, pior, Sarah se sentia ao mesmo tempo à vontade e insegura, e seu instinto dizia que algo não estava certo. Num certo momento, Tonks se afastara, tossindo, repentinamente rouca. Disse que precisava tomar um remédio para aquilo. Voltou logo depois, refeita completamente, mas a partir daí se preocupou em voltar.
Quando atravessaram de volta para o Caldeirão Furado, e a outra lhe convidou para mais uma cerveja amanteigada, ela assentiu, novamente alerta. Tonks pareceu se incomodar com alguns homens a um canto do bar, que não paravam de observá-las.
Pensou ver em seus olhos um lampejo de puro ódio, mas que logo passou.
Tentando estabelecer uma conversa mais “normal” entre duas “amigas”, perguntou:
- E o tal bruxo?
- Como? – Tonks a fitou, surpreendida, novamente um olhar profundo, penetrante, que fez Sarah se retrair instintivamente.
- O... cara que você... estava afim... E aí? Vocês já se acertaram?
- Ah, o Aluado... quer dizer, o Remus... Não.
- Aluado?
- Desculpe, era um apelido que ele tinha nos tempos de escola... Não lhe contei?
- Não. Acho que não. – Sarah tentou sorrir timidamente, como que pedindo desculpas por ter dito alguma bobagem.
A outra pareceu se dar conta de seu esforço para uma conversa normal e respondeu.
- Desculpe, é que estava pensando em outra coisa... Estava longe... Acho melhor irmos, aqui está muito movimentado hoje.
Deixando novamente de forma displicente o pagamento na mesa, Tonks a tomou pelo braço, ignorando seu olhar atônito, e ambas deixaram o lugar a passos decididos.

Somente depois de duas esquinas dobradas a esmo, como se a bruxa quisesse ter certeza de que não estariam sendo seguidas, é que diminuíram o passo. Tonks ainda segurava seu braço com firmeza, por isso Sarah murmurou, tentando parecer zangada:
- Você pode me soltar agora, “tia” Tonks! E preciso voltar pra buscar o meu carro, se não se importa.
A outra parou, e a fitou, parecendo não ter se dado conta de a que ela se referia. Então, fez um gesto de desculpas e sorriu.
- Me perdoe, eu achei que tínhamos chamado muita atenção. Acho que todos estamos um pouco... paranóicos.
Sarah fez o caminho de volta até a última esquina, pensativa e Tonks a acompanhou em silêncio Sarah pensou que a outra fosse se despedir ali, na porta do carro, mas ela retrucou com um sorriso zombeteiro:
- Minhas ordens são deixá-la em casa, em perfeita segurança. Serviço completo, ou não terei outra chance...
- Outra chance? – Sarah estranhou o comentário – Chance de que?
Mas a bruxa murmurou qualquer coisa e entrou no carro, sem responder claramente.
Sarah tentou ignorar a sensação estranha que mais uma vez ameaçava lhe tirar a clareza de raciocínio. O que estava errado com Tonks? Balançou a cabeça pra afastar os pensamentos confusos e se preocupou apenas em dirigir, atenta ao tráfego de fim de tarde.

Desta vez, para seu maior espanto, Tonks perguntou se podia conhecer seu apartamento, dizendo que há muito não entrava numa casa totalmente trouxa, e Sarah abriu-lhe a porta com uma onda súbita de timidez. Há vários anos morava sozinha, não tinha muitos amigos, ou o hábito de levá-los em sua casa. Sentia-se exposta como nunca, neste momento.
Mas Tonks entrou sem dizer nada, demonstrando apenas curiosidade ao percorrer o pequeno apartamento com calma.
Sala, quarto, cozinha, banheiro... o tamanho exato pra alguém que mora só e tem um trabalho como o de Sarah, mas ela pela primeira vez se incomodou pelo fato do lugar ter tão pouco de si mesma ali. Comentou isso, meio que se desculpando:
- Eu nunca sei pra onde meu trabalho vai me mandar, aqui é praticamente um alojamento... a maioria das minhas coisas está na casa de minha avó, no campo. E quase tudo aqui era dela, ela é um pouco extravagante...
Tonks sorria admirando tudo, como se ali fosse exatamente o tipo de lugar que gostaria, com móveis coloridos e almofadas por todo lado, cortinas e adornos de cores vivas.
- Às vezes, me sinto vivendo em um bordel de Paris, sinceramente... minha avó tem esse gosto por coisas vistosas, eu não me admiraria nada se descobrisse que ela foi uma famosa bailarina do Moulin Rouge... embora ela seja minha avó escocesa, não a francesa.
- Mas aqui é agradável, acredite! Tem calor, aconchego... precisava ver onde tive que viver no último ano... – Tonks pareceu achar que dissera alguma besteira, porque se calou com expressão carregada.
- Bem... eu não pensei em ter visitas, então não tenho nada muito bom na geladeira...
- Ah, não se preocupe com isso. – Tonks mexia nos seus discos, conferia seus livros, tentando parecer relaxada, mas Sarah percebia uma tensão ainda mais forte entre elas. O ar parecia carregado, como se uma tempestade estivesse por vir – Engraçado, você tem livros bruxos, aqui.
Sarah se aproximou para ver do que ela falava. Tonks tinha nas mãos um livro muito velho, que tinha certeza de não ter lido.
- Como sabe que é bruxo? – Sarah perguntou num sussurro.
- Ah, é um velho romance, eu o li nos tempos de escola, sobre um bruxo das trevas aprisionado na forma de um gato... Não leu?
- Não, não li. – Sarah sentiu um estranho arrepio. Tomou o livro da mão de Tonks e voltou-o para a estante. Havia se lembrado de um pesadelo recente, e não gostou disso.
Tonks, por sua vez, não ajudou muito. Aquela expressão de ansiedade por sua resposta, o olhar intenso e a boca tensa, a fizeram ficar ainda mais nervosa, sem entender o motivo.
Tentando desanuviar o ambiente, foi à janela, abrindo-a para que a brisa entrasse, mas desistiu ao ver aquela névoa insistente e a fechou novamente, não sem antes dar uma espiada costumeira no canto escuro do outro lado da rua.
Ao se virar, Tonks já estava ao seu lado, mas não olhava para fora. Pelo contrário, parecia examinar cada detalhe de sua aparência.
Por um momento, uma lembrança vaga veio à sua mente, e Sarah se apressou em direção ao armário.
- Vou me trocar e dou um jeito de preparar pelo menos um lanche rápido pra nós. Acho que tenho o suficiente para dois sanduíches... e uma caixa de suco.
- Errr... desculpe. Eu preciso ir. Fica pra outra vez. Mas... – ela pareceu estar lutando pra se decidir sobre algo importante e por fim disse – Eu estarei fora a trabalho um bom tempo. Estou escalada para Hogsmeade em setembro... Algum problema se um amigo meu passar por aqui pra te visitar e... ver como estão as coisas?
- Acho ... que não – Sarah balbuciou, confusa por um momento.
Tonks tinha os olhos tomados por uma névoa escura, e Sarah não conseguiu evitar esse olhar. Por um segundo, pareceu que ia dizer... ou fazer alguma coisa, mas se virou e saiu em seguida, fechando a porta antes que Sarah pudesse ao menos pensar em algo para dizer.
Dali a pouco, deitada em sua cama, Sarah fitava o teto, preocupada. tentando entender o que acontecera nesse dia confuso.
Abriu a ducha no máximo e entrou debaixo dela, deixando-se ficar por um longo tempo. Não sabia naquele momento que, do outro lado da rua, seus movimentos eram vigiados por um olhar intenso e sofrido. Se soubesse, não teria ficado em sua relativa paz.

Os dias correram céleres depois disso, e o trabalho a absorveu completamente. Depois da tentativa de ataque ao Primeiro Ministro, mais aurores participavam de sua guarda, e Sarah foi apresentada a todos. Um deles, inclusive, lhe parecia personagem de histórias infantis: rosto marcado, nariz faltando pedaço, perna de pau, olho mágico... Isso era o mais incrível, um olho mágico! Ele sempre o disfarçava sob um chapéu ou coisa assim, mas Sarah se interessara bastante pelo seu “mecanismo de funcionamento”.
Ele aparentemente gostara de conversar com Sarah, talvez por ela não demonstrar estranheza por sua aparência pra lá de bizarra. Contava-lhe histórias, a seu ver engraçadas, algumas terríveis para a jovem, mas muito informativas e esclarecedoras sobre seu modo de vida.
Mas esta noite, nem as histórias mirabolantes de Moody a fariam rir ou relaxar. Um novo ataque de seus adversários políticos deixara o Primeiro Ministro bastante irritado. E ele quase perdera a compostura com um bando de repórteres que o cercara na saída do Parlamento.
Fora tarefa difícil para Sarah se colocar entre ele e os assessores e repórteres aflitos, para segredar-lhe palavras de calma aos ouvidos e convencê-lo a ficar atento. Deixara-o em casa com a promessa de se controlar mais e não se deixar levar pelas jogadas da imprensa. E fora para sua própria casa, exausta e chateada.

Inquieta demais para dormir ou simplesmente relaxar, levantou-se e foi à janela. Observava a rua apenas por hábito, quando viu um cão negro quase ser atropelado por um carro surgido não se sabe de onde e que também desapareceu em seguida, cantando pneus na curva adiante, deixando o cão caído na rua.
Instintivamente, desceu até a rua para socorrê-lo, esquecendo-se até que estava apenas com um pijama curto de algodão e já era praticamente outono. Adorava animais, não admitia vê-los maltratados.
Ao se debruçar sobre o cão, notou que uma das patas estava ferida e o animal gania baixinho. Não reagira agressivamente à sua aproximação, mas ela não viu motivo para estranhar o fato. Percebeu que era grande, não conseguiria carregá-lo sozinha, mas não podia deixá-lo ali. Naquele momento, desejou ser uma bruxa, ter uma varinha para fazê-lo levitar até seu apartamento... e nem percebeu que murmurara esse pensamento.
- Você vai precisar ser forte, meu amiguinho. Não posso tratar de você aqui. – ela olhou em volta, a rua completamente vazia. Talvez... conseguisse que ele fosse até lá em cima sozinho. No dia seguinte, o levaria a um veterinário.
O cão, parecendo entender o que ela queria, se ergueu com dificuldade. Parecia maltratado e com fome, além da possível quebra da pata dianteira.
Sarah o examinou com delicadeza, temendo até mesmo uma reação agressiva, caso o animal sentisse dor. Depois, tentou convencê-lo a segui-la.
- Vamos, cachorrinho, venha comigo... – ela foi caminhando lentamente, de costas, de volta pra casa.
O cão titubeou um pouco, como se examinasse suas opções, mas por fim a seguiu vagarosamente, a pata ferida mal encostando no chão.
Já no apartamento, depois de uma lenta subida de escada, ela cobriu o sofá púrpura de ricas franjas com uma manta mais velha, e fez com que o animal se aninhasse ali.
Depois de um exame rápido, optou por enfaixar sua pata, fazendo-o com todo cuidado. O animal a fitava, agradecido, mas algo em sua expressão lhe despertava uma lembrança muito vaga de outro cão.
- Engraçado... você se parece com outro cachorro... mas não consigo me lembrar de onde o vi... – ela acariciou sua cabeça peluda, coçando atrás das suas orelhas distraída, enquanto se lembrava vagamente de seu pesadelo com um cão, mas resistiu à lembrança e se ergueu – você deve estar com fome... deixe-me ir ver o que arranjo... talvez você tenha que se contentar com comida de gato, pois acho que só me restou uma lata de atum.
Divertindo-se intimamente pela gracinha, ela foi para a cozinha, observada pelo cão. Logo voltou com o atum em uma vasilha. Trouxe-lhe também água e esperou que ele se desse por satisfeito.
- Sabe de uma coisa? Se não aparecer ninguém para reclamá-lo, talvez eu fique com você. Se você quiser, claro, pois algo me diz que não gosta de ser mantido preso... – ela sorriu, ao se dar conta de que falava com o cão como se ele lhe entendesse tranqüilamente – Vamos combinar assim: se você quiser ficar, pode ficar, desde que se comporte e me deixe usar um talco anti-pulgas em você. Não gosto nem um pouquinho desses bichinhos... e vou precisar lhe dar um nome...
Ela observou o cão com mais atenção. Embora visivelmente maltratado, tinha um pelo negro e bonito. Parecia esperto, mesmo machucado estava alerta. Que nome lhe daria?
- Black – ela disse, e o cão levantou as orelhas – Gostou? Combina com você... embora... – ela pareceu se lembrar de algo – É o nome de um bruxo, eu acho. Kim me falou dele. Você sabia? – ela sussurrou em tom brincalhão – Existem bruxos de verdade!
O cão latiu. Ela lhe fez sinal de silêncio.
- Moro sozinha aqui, mas é melhor você se acostumar desde agora a não latir dentro de casa, ok? Bem, vamos ver... você não pode ficar dormindo no meu sofá...
O cão a olhou de forma engraçada, então se levantou e, manquejando, foi até a cama, onde subiu com certa dificuldade, indo se aninhar na coberta aos pés da cama.
- Espertinho! Se fosse um homem, seria um grande sedutor, já vi tudo! Mas não estou numa fase boa, estou lhe avisando! Não estou para gracinhas.
O cão ergueu seus olhos pra ela, e por um momento sua expressão lhe lembrou alguém...
- Não me olhe assim, como um cão sem dono... – ela riu com vontade – O que estou dizendo? Você é um cão sem dono! Ora, vamos dormir. Já é tarde... Precisa fazer alguma... necessidade? Não? Não precisamos voltar até a rua? Então está certo. Mas... você dorme no sofá, e não me olhe assim!
Tentando agir como se “Black” sempre estivera lá, guardou as coisas que usara para cuidar dele, lavou as mãos, apagou as luzes e se deitou.
De sua cama, através da porta do quarto, viu o cão rodear sobre a manta, procurando a posição melhor, a pata enfaixada dificultando seus movimentos, até se aquietar. Pareceu-lhe que ele ganira um pouquinho, mas logo tudo era silêncio.
E, finalmente, Sarah adormeceu. Dormiu profundamente, sem saber que seu sono seria velado pelo cão durante toda a noite. Olhos abertos, corpo apenas supostamente relaxado, o cão vigiou até a madrugada. Até que, finalmente, pareceu decidido a descansar também, mas resolveu fazer isso mais perto da “nova dona”...
Regina McGonagall
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Re: Pink and Black

Mensagempor Regina McGonagall » 30/10/15, 20:20

Capítulo 4 – Mascote Inconstante

Sarah acordou sentindo com se tivessem colocado algo pesado em suas pernas. Tentou se virar e não conseguiu. Procurando não fazer nada brusco, abriu os olhos e moveu lentamente a cabeça de modo a ver todo o quarto. Até chegar aos próprios pés. Por um minuto, não entendeu o que era aquela mancha escura. Mas logo entendeu e, sorrindo, sentou-se para acariciar a cabeça do grande cão negro.
- Seu malandrinho! O que foi? Não quis dormir sozinho? – ela afagou-lhe as orelhas, divertida com a impressão de que o cão acordara mais confuso que ela própria e abraçou o seu pescoço, animada como uma garotinha – Sabe? Há muito tempo não tenho um cãozinho... embora você não seja exatamente... um cãozinho... com esse tamanho todo!
Ela se ergueu, foi até a sala e abriu a porta de saída.
- Olha, se você quiser ir lá fora, vou lhe abrir a porta da rua. Vamos?
O cão não se moveu.
- Ah, está bem. Então, vou tomar banho, preciso ir trabalhar. Aí, a gente vê o que faz... Talvez, possamos levá-lo para a casa do meu... do Primeiro Ministro...Será que você se daria bem como cão de guarda? É capaz de meter medo em alguém? OU só tem tamanho, como o velho Rinti?
Ela sentira como se estivesse de volta aos tempos de infância, quando o cão pastor alemão de seu padrasto a seguia por todos os lados, arrumou o quarto, tomou banho, se vestiu...
Por um momento, algo na atitude do animal, atento a cada um de seus movimentos, a incomodou. Mas depois, tentou não pensar mais nisso. Parecia que estava ficando paranóica, sempre se achando observada demais.
Com um longo suspiro, encostou a cabeça na porta do guarda-roupa. Fechou os olhos e tentou por ordem em seus pensamentos. Estava trabalhando demais, era isso, afastada de amigos ou parentes, e ainda por cima aquela gente estranha, os bruxos, por todo lado agora. Sim, porque agora, aprendera a percebê-los, tentando se misturar a gente comum nas ruas.
Só saiu de seu devaneio, quando sentiu algo frio e molhado em sua mão. “Black” se aproximara e lambia sua mão. Ela sorriu. Tinha que se acostumar de novo com um cão dentro de casa, depois de tantos anos.
- Deve ser mais fácil do que se acostumar com outra pessoa...
O cão a olhava com a cabeça pendida para um lado, e ela sorriu novamente.
- Cá estou eu tentando falar do que estou sentindo para um cão... veja bem, não se ofenda. Não estou acostumada a falar do que sinto para alguém além das paredes... Mas, vamos lá. Tenho ainda que comprar nosso café da manhã. O que vai ser? Você não tem cara de gostar de ração.
“Black” latiu com força, e ela entendeu como se concordasse.
- Então, vamos!
Após providenciar belas salsichas que o cão devorou com alegria, Sarah se encaminhou para o trabalho. Enquanto tirava o carro da garagem, o cão se afastou pela rua, mas ela não se preocupou. Mesmo com a pata ferida, ele era esperto, saberia se virar. Num impulso, falou em voz alta:
- Me aguarde na esquina de casa, se quiser voltar pra passar a noite.
As pessoas que passavam ao seu lado se espantaram ou olharam com ar de censura. Mas ela não ligou. Que pensassem o que quisessem.
O dia de trabalho foi como sempre, dentro do que parecia normal nos últimos tempos. No fim de semana cobriria a escala de folga de outro agente, precisaria trabalhar em campo, nas ruas. Achou até bom a mudança. Se ficasse trancada no gabinete do Primeiro Ministro, teria mais tempo para voltar a pensar em sua vida afetiva, ou em qualquer outra bobagem semelhante...
Ao voltar pra casa, percebeu entristecida que o cão não voltara. Mas tentou não se incomodar com isso. Era um cão de rua, que apenas buscara conforto por estar ferido. Como uma criança querendo colo de mãe...
Lembrou-se de sua mãe. E no quanto ela lhe fazia falta, e no quanto ela se afogava no trabalho para esconder a solidão. E uma idéia veio à sua mente: talvez fosse isso, sentia falta da mãe...
- Ah, não! Não vou bancar a psicóloga televisiva! – ela riu, lembrando-se dos programas de tv em que consultoras davam conselhos sentimentalóides a membros da platéia. E tentou esquecer o assunto.

Assim, o último mês do verão passou sem que ela se desse conta.
No primeiro dia de setembro, ela estava na Estação de Kings Cross quando percebeu um estranho grupo desembarcar e ser recebido por inconfundíveis agentes de terno, mas que por algum motivo Sarah percebia não serem agentes normais ou simples guardas de segurança bem vestidos. O fato é que estavam bem vestidos demais e ostensivos demais para agentes treinados. Então, ao ver o grupo que eles protegiam, percebeu quem eram: bruxos.
- Tenho que falar ao Kim sobre isso. As tentativas de parecerem trouxas são terríveis... – ela pensou, enquanto observa o grupo de garotos, notando o casal de ruivos e a mulher também ruiva, provavelmente mãe de ambos.
Atenta a todos os movimentos do grupo, acompanhou-os discretamente, até vê-los sumir em meio a uma plataforma de tijolos. Logo depois, apenas os adultos retornavam, sem as crianças. Ela percebeu outros grupos pequenos no mesmo movimento e sorriu. Pessoas comuns nem notavam, mas seus olhos treinados captavam a movimentação sutil dos bruxos na plataforma. Ali deveria haver alguma passagem mágica para outro lugar.
A mulher ruiva, que parecia tensa e preocupada todo o tempo, a fez lembrar dos jovens que conhecera em sua visita ao Beco Diagonal. Lembrou-se de Gui dizendo ter mais três irmãos e uma irmã, e teve certeza de que acabara de ver pelo menos parte da família de cabelos flamejantes.
Mas tal lembrança incomodou um pouco, e ela voltou ao seu trabalho tentando não pensar em bruxos e esquisitices.
Várias semanas se passaram, até que ela pudesse conversar com Kim novamente. Em virtude da situação crítica, até os assessores do Primeiro Ministro agora só andavam com um segurança, e o bruxo aproveitara a deixa para tê-la em sua companhia, naquele dia. Era uma situação estranha, ela sabendo que ele também era uma espécie de agente. Mas se lembrou de comentar:
- O que tem em Kings Cross? Entre as plataformas nove e dez?
- Hein? – Kingsley a olhou com estranheza, depois entendeu e explicou – Ah, a plataforma 9 e ¾. É onde os estudantes pegam o expresso para Hogwarts, a escola de magia e bruxaria.
- Seus colegas bruxos precisam aprender direito a se passar por um de nós... Eles dão... muita bandeira!
- Como? – Kim se espantou.
- Eu os vi, lá em Kings Cross. Muito amadores. Isso é um problema pra segurança. Alerte-os a respeito.
- Ah... certo. Pode deixar. Sei exatamente o que quer dizer. A maioria de nós não consegue distinguir entre um traje trouxa de dormir ou de baile... Há dois anos, tivemos a Copa Mundial de Quadribol, era cada figura...
Kim lhe descreveu alguns de seus companheiros e eles riram com vontade, embora em tom baixíssimo. Mas, de repente, Kim ficou tenso.
- Essa não! – ele exclamou, sacando a varinha e colando à parede, em alerta.
Sarah o imitou. Bem, puxou sua arma e também se manteve junto à parede, buscando encontrar o que lhe chamara a atenção. Um grupo estranho se movia na ruela adiante. Estavam prestes a atacar alguém, e Kim agiu rápido, pedindo que Sarah aguardasse, lhe dando cobertura.
- Atire, se for preciso, não se importe se são bruxos ou não. Faça seu trabalho.
- Ok, sem problemas.
O que ela assistiu em seguida foi uma profusão de raios luminosos a partirem de todos os lados, e logo o grupo desaparecia em estalos fortes que pareciam até tiros. Ninguém correu para o seu lado, e Sarah considerou isso um alívio. Transeuntes haviam se afastado, assustados com o que pensaram ser um tiroteio entre gangues de bandidos, e logo uma sirene se fazia ouvir.
Entretanto, quando o carro da polícia chegou, já não havia sinal de nenhum tumulto, e Sarah se apressou a falar com os policiais que fora apenas um trote. Ela e Kim estavam próximos e haviam surpreendido adolescentes fazendo a ligação falsa para a polícia de um telefone público.
Um movimento imperceptível de Kim com a varinha, e eles pareceram se convencer facilmente. Partiram sem nenhuma dúvida a respeito.
Porém, alguém logo se aproximou deles, vindo do lado oposto. Sarah já estava pronta a atirar, mas Kim segurou seu braço, abaixando-o.
- Tudo bem, é um dos nossos. – e estendendo a mão para o recém-chegado, exclamou:
- Foi por pouco, Lupin. Mas conseguimos.
- Ainda bem, ou eu teria agora mais um ou dois companheiros de sofrimento. Eles estão ficando cada vez mais insaciáveis. Nem é lua cheia!
Sarah observou o homem que se aproximara. Tinha profundas olheiras e aparência debilitada, sinais de envelhecimento precoce e cicatrizes no rosto. Mas tinha um sorriso gentil e amigável, e olhos tranqüilos.
Ele a observou também com atenção.
Kim os apresentou rapidamente. Mas não conversaram muito. Ele logo partiu, não podia se demorar ou estragaria seu disfarce.
Mas antes combinou com Kim que se encontrariam no dia seguinte para trocar informações, no local de sempre.
- Este encontro... – Sarah perguntou, logo depois, quando já estavam longe dali – Eu poderei ir com você? Gostaria de entender melhor o que aconteceu.
- É melhor não, Sarah. Até porque... está protegido por um feitiço de segredo, não posso lhe mostrar ou dizer onde é. Nem me seguindo você conseguiria descobrir. Se confundiria em algum ponto do caminho.
- Interessante... e aquele seu amigo. Como é mesmo o nome dele?
- Lupin. Remus Lupin.
- Ah... – Sarah se lembrou de Tonks. Então, era aquele o homem por quem ela dissera estar apaixonada! Sua curiosidade aumentou.
- E do que ele falava? Essa história de “companheiros de sofrimento”, lua cheia...
- É que... Lupin... Bem, acho que isso eu posso lhe contar. Lupin é um lobisomem.
Sarah não acreditava que seria capaz de ouvir qualquer coisa que a surpreendesse, dali em diante. Agora, além de bruxos, sabia que lobisomens também eram seres reais, que caminhavam misturados às pessoas comuns pelas ruas, completamente despercebidos.

As coisas pareciam cada vez piores para o mundo bruxo e os trouxas, claro, recebiam os reflexos. Sarah estava cada vez percebendo mais a presença de bruxos entre as pessoas, mesmo “disfarçados”. Em um dos encontros de Kim com Lupin, ela pôde acompanhá-lo, e teve a primeira oportunidade de observar melhor um lobisomem, já consciente dessa sua condição. Identificar os sinais característicos, comparar com o que conhecia de literatura.
Lupin não pareceu surpreso por sua curiosidade, mas percebeu que ela não demonstrava receio ou qualquer outra coisa por sua presença. Ao contrário, ela tinha uma atitude curiosa e divertida que ele a princípio não entendeu, até que ela comentou:
- Tonks já havia me falado de você.
- Sim? – ele tinha um ar melancólico ao fitá-la. Kim os deixara só por alguns minutos, fora levar informações importantes a alguém que parecia ser o chefe de ambos.
- Sim. No dia em que me levou ao Beco... me disse que você a tem evitado... Eu... não quero ser indiscreta mas...
- Está curiosa como qualquer outra mulher estaria nessa situação.
Ela riu. E se desculpou.
- Não, não há problema. Só que... minha condição não favorece muito uma relação desse tipo. E Tonks merece ser feliz.
- Mas porque não seria feliz com você? Só por ser.... o que é?
- Há muito mais envolvido... e estamos em guerra.
- Por isso mesmo... vocês dois, ou um de vocês, pode não sobreviver a isso. E quem ficar não terá nem mesmo algo do que recordar.
- E sofrerá menos.
- Vocês homens... pensam de um jeito tão estranho! Por isso, se fosse escolher um companheiro hoje em dia, era capaz de ficar com o Black.
- Black? – Lupin exclamou assustado, puxando-a mais para perto para se falarem em voz mais baixa – Sirius Black?
Sarah piscou. Sirius Black? Ah, o tal bruxo morto. Estranho como todo mundo sempre dava um jeito de falar nesse sujeito. Sorriu ao responder.
- Claro que não, homem! Black é o nome do meu cachorro! Bem... acho que foi meu por um tempo... um dia... mas de vez em quando ainda ronda lá em casa que eu sei, já o vi na rua... Deixei a porta aberta, mas ele não voltou. Acho que é um cão de rua, afinal, ou é como você... sem compromisso...
Lupin a fitou estranhamente por um tempo, depois pediu:
- Me conte essa história direito... de que cão você está falando?
- Ah, um cão que socorri de um atropelamento. Feriu a pata, tratei dele. Era todo preto, por isso o chamei simplesmente de Black. Mas não voltou depois. Sei que anda por lá, porque o vejo às vezes da janela... como se vigiasse a rua, mas não voltou ao meu apartamento.
Ela sorriu, antes de continuar.
- É uma pena... eu acho que me cansei de estar sempre sozinha em casa.
- Não seria melhor um namorado?
- E quem se candidata? Você? Kim? – Sarah abanou a cabeça – Está bem, você me pegou. O roto falando do esfarrapado, como dizia minha mãe. Nossa vida é mesmo muito agitada, e não tenho tempo pra amigos ou namorados ultimamente... e estou cada vez mais distante de... “trouxas”! – uma idéia súbita a fez sorrir - Talvez acabe me casando com um bruxo, afinal. Estou cada dia vendo mais de vocês, isso está quase tão normal! Pelo menos, minha vida profissional não seria tão assustadora pra quem convive com tanta coisa estranha, mágica, essas coisas. Mas bruxos se casam com trouxas?
- Eu sou mestiço. Tonks também. O pai dela era nascido trouxa.
- Ah, é. Ela me disse quando a conheci.
Nesse instante, Kim voltou. Agradecendo a Lupin por ficar com ela, eles se despediram e partiram.
Mas Lupin não retornou imediatamente ao seu trabalho. Tinha que encontrar um certo animago que andava abusando da sorte...
Regina McGonagall
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Re: Pink and Black

Mensagempor Regina McGonagall » 16/11/15, 20:47

Capítulo 5 – Natal em estranhas companhias

Mais um período atribulado se passou. O Natal se aproximava, mas Sarah não conseguia se animar. Nessa época do ano, sentia-se pior, mais só. Gostaria de estar no campo, com a avó, mas, este ano, isso era impossível.
O pai, o Primeiro Ministro, ainda sobre forte pressão política, anunciara que passaria os feriados trabalhando e ela viu nisso pelo menos uma tentativa de estar com ela, já que estaria de plantão. Afinal, como era solteira e “sem família”, entrara naturalmente na escala de trabalho dos feriados, para que outros agentes pudessem estar com esposas e filhos.
Nunca se ressentira disso, mas desta vez, algo estava diferente. As campanhas publicitárias de Natal, os enfeites, tudo lhe fazia se sentir mais deprimida, mais só. E canções dizendo “o amor está em todo o lugar” não contribuíam em nada para melhorar seu estado de espírito.
Para sua surpresa, na última semana antes do Natal, o cão negro reapareceu. Encontrou-o encostado na soleira da sua porta, escondendo-se do frio.
“Black” a acompanhou de bom grado escada acima, obediente ao seu pedido de silêncio, o que fez Sarah sorrir.
Ele se acomodou no sofá como se a casa fosse sua, e ela não pôde deixar de achar engraçado. Foi até ele e comentou baixinho, enquanto acariciava atrás de suas orelhas:
- Até parece que você ouviu o que eu disse ao Lupin... – ela franziu o cenho ao perceber que ele reagiu ao nome – Calma, tudo bem, ele é um amigo... só o vi duas vezes, mas é um cara legal. – ela se encostou no sofá, pensativa - Espero que a Tonks e ele se resolvam. Acho que é por isso que ela estava tão esquisita, aquele dia... devem ter discutido, brigado, ou coisa assim...
Sacudindo a cabeça, Sarah deixou-se ficar ali, esquecida do tempo. Se encontrara apenas mais uma vez com Tonks, na semana anterior. Aproximara-se da bruxa bastante apreensiva, mas ela, como um camaleão, parecia outra pessoa. Embora meio acabrunhada, e segundo Kim mais séria que o normal, não lhe dava aqueles olhares estranhos... era de novo apenas uma bruxa, se é que isso podia ser considerado pouca coisa...
Um latido fraco a despertou de seus devaneios. Sem querer, apertara a orelha de Black.
- Desculpe, meu amigo... não vai me morder por isso, vai?
O cachorro latiu, ela sorriu, agradecida pelo que parecia compreensão. Reagindo à tristeza, tratou de procurar algo para lhe dar de comer, pensando em compras urgentes, caso ele não sumisse pela manhã, como da outra vez.

Mas agora, era diferente. A semana passou sem que o cão quisesse deixar a casa, dando a Sarah a impressão de que se escondia ali... Mas ela afastou essa idéia da mente, por que ele estaria se escondendo? Talvez... da “carrocinha”?
Ela praticamente o arrastava pela manhã para uma volta no parque, ele precisava se exercitar ou ficaria muito gordo, dissera-lhe com tom de zanga. O cão parecia relutar a princípio, mas depois, corria pelo gramado, perseguia pombos, mostrava-se dócil quando alguma criança se aproximava. Isso tudo, indo e vindo até Sarah que, de moletom e tênis, fazia uma saudável corrida, seu hábito constante, fazia parte de seu treinamento.
Quando voltava, preparava a comida para o cão, tomava um banho e saía para o trabalho, deixando-o enrodilhado em sua manta no sofá, como se pretendesse dormir o dia inteiro.

No dia 23, chegou em casa ainda mais deprimida, mas vê-lo no sofá, olhando a tv ligada como se entendesse o que assistia, afastou seus devaneios por um minuto. Ela tentou não pensar em como ele conseguira ligar o aparelho, até perceber que o controle remoto estava caído ao lado do sofá. Provavelmente, o cão pisara nele e ligara a tv sem nem saber o que fazia, claro! Ou era como aqueles fantásticos cães dos filmes da Disney...
- Ei, o que está vendo? Rintintin? Lassie? Os 101 Dálmatas? Ou A Dama e o Vagabundo?
O cão a fitou como uma criança pega em flagrante, e ela riu.
Sentou-se ao lado dele, mas constatou que a programação não era assim tão canina... o telejornal da noite já começara. Algumas notícias eram inquietantes para a época do Natal. Ela suspirou, antes de abraçá-lo pelo pescoço e deixá-lo deitar a cabeça em seu colo.
- É guerra aqui, é guerra ali... nem parece que é Natal... Deveriam estar dando notícias como: “o amor está em todo lugar!” Minha nossa, estou recitando aquela bendita canção!
Inesperadamente, começou a chorar. A carga de tensão do trabalho e da solidão despencou de uma vez, e ela chorou com vontade, abraçada ao cão, que permaneceu silencioso, às vezes ganindo como se fizesse coro com ela. Tentando consolá-la, Black lambia-lhe o rosto, limpando o caminho das lágrimas, e Sarah abraçou-o fortemente então, escondendo o rosto em seu pescoço quente, pela primeira vez pensando que precisava mesmo ter alguém, não apenas um cão de estimação que podia resolver ir embora a qualquer minuto.
O tempo passou, o choro cessou e, sem perceber, Sarah adormeceu. O cansaço a venceu como nunca, na noite fria de inverno.

Acordou, sentindo-se aquecida e tranqüila. Percebeu que a lareira estava acesa, e que de algum modo fora para sua cama, pois estava ali bem agasalhada, mas não se lembrava de tê-lo feito. Estendido sobre a coberta, a cabeça pousada sobre suas pernas, Black ressonava. Aproveitando aquele momento de silêncio e paz, tentou se lembrar pelo menos do que sonhara...
Ah, sim, com certeza, aquela ruela escura de novo, mas, além do cão a ameaçá-la, agora vira um pouco além... o homem, aquele homem, estava lá de novo, levando-a para algum lugar mal iluminado e suspeito, e beijando-a... mas então, de repente acordara. Suspirou, desanimada. Tinha que por seus pensamentos em ordem, até em sonhos eram confusos...
O toque de seu pagger acordou o cão, que levantou as orelhas, alerta, depois de ver que ela já estava acordada.
- Você está se tornando um ótimo anjo da guarda...
Ela estendeu a mão para o criado mudo. Leu a mensagem: o primeiro ministro acatara seu pedido, poderia levar o cão para o trabalho naquele dia.
- Viva! – ela pulou da cama, assustando o cão, que latiu forte.
- Psiu! – Sarah o repreendeu, divertida, enquanto ia para o banheiro tomar um bom banho quente.
Cantarolando uma canção de Natal, voltou ao quarto vestindo seu robe curto cor-de-rosa, a toalha molhada nas mãos. Ao escutar um latidinho baixo, percebeu que o cão cobrira os olhos com as patas, deitado no tapete ao lado da cama.
- Que cachorro mais bobo! –ela jogou a toalha sobre ele, depois se ajoelhou à sua frente pra brincar com suas orelhas e lhe beijar o focinho gelado, rindo do que lhe parecia um ataque de improvável timidez do cão, que absurdo! Depois, foi procurar roupas mais quentes e também um pouco diferentes de seu habitual traje de trabalho. Pelo menos nesse dia, não se sentia disposta ao velho tailler preto e básico... Afinal, iam participar de uma ceia de Natal no fim da noite, com o Primeiro Ministro da Inglaterra!
Olhou-se no espelho, satisfeita. O conjunto de veludo cor de vinho, a camisa de seda de um rosa muito claro quase branco, o colar de pérolas que fora de sua mãe. Arrumou seus cabelos num coque frouxo, colocou os brincos que completavam o conjunto, vestiu o casaco. Então, calçou suas botas de salto alto e olhou para Black, que já saíra de baixo da toalha.
- Então? Como estou?
Ele latiu, um latido meio rouco, meio rosnado, e se aproximou e lambeu sua mão.
- Espero que isso seja um sinal de aprovação. Veja, você também vai protegido. – ela apanhou um pacote que trouxera no dia anterior. Comprara em um pet shop uma capa protetora para ele.
Assim, ambos saíram para a manhã fria de uma véspera de Natal que todos esperavam ser um dia tranqüilo. Black se aboletou bem à vontade no banco de trás, e durante o percurso, Sarah às vezes surpreendia o olhar do cão sobre si pelo retrovisor, um olhar que às vezes lhe parecia quase humano. Franzia a testa, mas decidiu não pensar no assunto. Ora, era apenas um cão!

No gabinete do Primeiro Ministro, o clima estivera ameno o dia todo. Kim olhara estranhamente para o cão quando Sarah chegara com ele, mas não comentara nada. Ao deixar o trabalho contudo, deu um jeito de ficar próximo. Sarah não ouviu, mas percebeu claramente que ele falara com o “Black”. Uma leve desconfiança surgiu em sua mente, mas ela a afastou... Black era um cão perdido, apenas isso, tinha certeza. Não tinha nada de mágico. Aliás, nem sabia se existiriam animais mágicos, diferentes dos comuns, mas um cão é um cão, oras!
Finalmente, ficaram no edifício somente os funcionários essenciais, em escala mínima. No Gabinete, restaram apenas o Primeiro Ministro, Sarah e o cão.
- Bem, Srta Rickman, acredito que todos já tenham lhe dito que está muito bonita hoje... Acho que só não lhe disseram como está parecida com sua mãe...
Ele tinha a voz embargada, e Sarah pela primeira vez sentiu pena de seu verdadeiro pai. Tinha que reconhecer que a situação não era nada fácil pra ele.
- Oh, pai! Por favor, não vamos buscar motivos pra falar de coisas tristes! É Natal, lembra-se?
O homem balançou a cabeça. Estava cansado. De tudo. Mas, principalmente, de não poder dizer a todos que estava passando o Natal com a filha... Não podia ao menos abraçá-la em frente a outros funcionários, com exceção do Shacklebolt.
- Isso não vai durar pra sempre, pai.
- É tão bom ouvi-la me tratar assim... A princípio, pensei que você nunca me perdoaria por ter desistido de vocês.
- Você teve seus motivos, mamãe também. Senti sua falta, mas gostava muito de meu padrasto, e tivemos uma vida boa. Crianças não entendem certas coisas, mas todos nós crescemos e tudo fica claro, embora as marcas permaneçam.
O Primeiro Ministro soltou um grande suspiro, indo se sentar na poltrona ao lado da lareira acesa. Seu olhar pousou sobre o velho quadro do homem de peruca prateada e se sentiu aliviado por não ter nenhuma visita de Fudge nesta noite.
Sua filha sentou-se ao seu lado, o cão veio pra perto do fogo, vigilante e atento. O Primeiro Ministro o observou, confuso. Não se sentia exatamente tranqüilo com aquele animal. Principalmente porque Sarah lhe dera o nome de um bruxo, que assombrara seus sonhos por longos meses. Mas Sarah estava contente por tê-lo consigo, então, tudo certo. Sentira uma sutil mudança em seu humor, desde que lhe contara ter encontrado o cão em sua porta, no início da semana. Então, o animal lhe fizera bem.
- Preferia ver você com um namorado, ao invés de um animal de estimação... você não pretende me dar netos?
- Pai! – ela fingiu estar zangada, mas não conseguiu se manter assim por muito tempo, estava ligeiramente triste quando falou de novo – Eu ainda não achei a pessoa certa, só isso. Apesar de... sonhar com alguém, ás vezes... ou será pesadelo?
- Por que diz isso, Sarah? – O ministro se preocupou, e com o canto do olho percebeu que o cão ergueu a cabeça...
- Ah, não é nada, desculpe. É que, às vezes, sonho com um homem estranho... não me lembro de conhecer ninguém assim, mas o sonho é tão real... Ele me salva de alguma coisa muito perigosa, mas depois desaparece. O mais engraçado – ela fitou o cachorro – é que tem um animal com este no sonho. Acho que o inclui no sonho, sem notar, ou gostei dele por ser igual ao do sonho... não sei bem o que veio primeiro.
O Primeiro Ministro se sobressaltou. O cão abaixou a cabeça, mantendo-a sobre as patas, fechando os olhos como se dormisse, mas o homem de alguma maneira sabia o que animal... fingia.
- Isso é perigoso, minha filha. E se ele não for o que parece?
- O que ele poderia ser? – Sarah piscou, levemente divertida com os receios do pai.
- Ora... quem pode saber? – ele olhava fixo para o bicho, observando suas reações à conversa – Quem sabe até... um lobisomem?
A risada de Sarah o surpreendeu. Ela riu com vontade por alguns minutos, mas depois disse, muito séria.
- Pai, conheço um lobisomem, um de verdade, acredite. Não o vi transformado para dizer como é sua aparência, graças a Deus... mas acredito que Black não seja um. Além do mais, se ele representasse algum perigo, mesmo pertencendo ao mundo bruxo, Kim não teria permitido que ele ficasse aqui. – ante o ar surpreso do ministro e o olhar do cão, explicou – Kim o examinou, pareceu até conversar com ele antes de partir, então, acho que não há perigo algum. Se fosse um “inimigo”, ele teria feito alguma coisa. Pode ser que seja um animal mágico, um cão com “capacidades” diferentes das que conhecemos, não mais que isso. Pode ser que tenha sido mandado pra me vigiar mais de perto, e mantiveram segredo disso, quem sabe?
- Mas... se Shacklebolt falou com ele, como você diz... será que bruxos não podem se transformar em animais?
Sarah olhou para o cão, que a fitou também. Ela sustentou o olhar, lembrando-se das palavras de Kim: “os trouxas só enxergam o que querem enxergar”. E se lembrou de um livro antigo, perdido na estante de sua avó...
O animal manteve-se também olhando pra ela, quieto e silencioso. Sarah então percebeu que aquele olhar era profundo demais para um simples cão. Por mais expressivos que esses animais fossem, não olhariam para alguém com tamanha intensidade. Mas respondeu ao pai de forma tranqüilizadora:
- O senhor acha que eu não perceberia? Eu tenho observado Kim e seus... amigos com bastante atenção. Já me deparei com outros bruxos em minhas missões em campo, além dos que trabalham aqui conosco. Já vi duendes e lobisomens de perto... Além de meu treinamento exigir isso de mim, tenho ficado muito curiosa com eles... – ela pareceu se lembrar de algo e fitou o cão novamente, atenta a suas reações – Além do mais, o senhor acha que eu continuaria com meus hábitos de “garota que mora sozinha” se soubesse ter um homem e não um simples cãozinho dentro de casa? Ou o senhor está pensando do velho conto infantil, “A bela e a fera”? Se for isso, talvez eu é que seja a fera, hein? Já pensou? Acho que afugento todos os candidatos a namorados com minha fama de brava!
O Primeiro Ministro a olhou boquiaberto. Nem chegara a pensar nisso! Sua filha podia estar até mesmo andando nua pela casa, na frente de um desconhecido, ainda por cima um bruxo! Aquela brincadeira dela não o desviaria de sua preocupação.
Sarah riu ao perceber a expressão do pai, imaginou o que ele pensava, mas não deixou de notar que Black ficou inquieto. Uma risadinha breve lhe chamou atenção. O quadro do Lord Cara de Sapo tinha expressão zombeteira, que não conseguiu disfarçar a tempo de Sarah não notar. E isso bastou para ela. Isso significava que precisaria ter uma conversa muito séria com “seu cão”...

A manhã de Natal amanheceu como se o mundo estivesse em plena paz. Lá fora, a luz pálida da manhã renovava qualquer estado de ânimo e a neve brilhava sob o sol.
Sarah observava a rua, pela janela do gabinete. Black ressonava no mesmo lugar perto do fogo, e o Primeiro Ministro se retirara para seu quarto. Sarah não dormira. Permanecera alerta a noite inteira, era seu trabalho.
Os agentes que ficariam em seu lugar nas próximas 24 horas, logo chegaram para substituí-la e a seus colegas do lado de fora da sala, entre eles um dos aurores. Isso se fazia necessário, para que não fossem novamente enganados por comensais disfarçados. Sarah lhe disse que esperaria apenas o Primeiro Ministro se levantar para ir embora. Mas chamou-o fora do gabinete um instante, pretextando uma verificação preventiva na janela do outro escritório.
Na outra sala, fora do alcance de qualquer outra pessoa, perguntou-lhe à queima roupa:
- Sabe, eu tenho uma certa curiosidade...Os bruxos podem se transformar em animais?
Ele a fitou por um segundo, então sorriu, respondendo simplesmente:
- Sim. Alguns podem, com treinamento específico para isso. É muito difícil, temos poucos registrados, o controle deles pelo Ministério é muito rigoroso, embora existam alguns ilegais, com certeza. Mas não posso lhe dizer mais nada além disso... Desculpe.
- Já foi suficiente, obrigada.
Ela sorriu calmamente, voltando à sala com a mesma naturalidade, como se apenas cumprisse sua rotina de trabalho. O Primeiro Ministro lá estava, com um olhar desconfiado para o cão, que já se erguera pronto para partir, pelo visto.
- Calma, garoto, já vamos pra casa. – ela lhe afagou as orelhas com naturalidade, despediu-se formalmente do pai, mas ele a chamou de volta.
- Srta Rickman, eu... não lhe entreguei seu presente de Natal.
- Ah, não precisa, senhor. – Sarah falou formal mas delicadamente. Também já deixara o presente para o pai sobre sua mesa, sem cartão ou identificação visível, mas ele saberia que era dela, um porta-retratos com uma foto sua quando criança, mas sozinha, sem a mãe e o padrasto.
Ele lhe entregou uma caixa comprida, que ela logo percebeu ser uma jóia, dizendo baixinho:
- Prefiro que abra em casa, é mais seguro.
- Está bem. – ela colocou a caixa no bolso interno do casaco e, depois de agasalhar o cão novamente, chamou-o decidida, enquanto piscava para o pai.
Os homens a observaram sair, acompanhada do cão negro, que estava maior ainda pela capa que fora colocada em suas costas.
O Lord Cara de Sapo sorriu levemente de dentro de sua moldura. Comeria sua peruca se aquele cão não era um animago ilegal... que estaria em apuros brevemente, pelo que já conhecia daquela bela trouxa...
Regina McGonagall
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Re: Pink and Black

Mensagempor ^^Renata Radcliffe^^ » 29/12/15, 10:56

Ministraaaa! Posta mais! Tá toppp! :mrgreen: :mrgreen:
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