- Narração / - Fala / - Nan *_* ~foge
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De um jeito ou de outro, deu para perceber - ela não fazia lá muito questão de esconder - que a mocinha machucada, se pudesse, pegaria Stella pelo pescoço e faria o mesmo que se faz com um peru na véspera de Natal. Percebendo que praticamente tinha uma arma apontada para o peito com jeito ferino, apesar de cansado, Stella ouviu relato virando os olhos para todos os lados, contendo um riso debochado. Não que fosse rir delas. Riria de si mesma e de seu jeito perdido, enquanto um homem pouco mais velho que ela - sendo ela pouca coisa mais velha que a moça machucada - escutava um relato obviamente talhado e entrecortado do que realmente deve ter acontecido.
E se permitiu acreditar quando a mocinha relatou que uma voz a tinha chamado para a Floresta Proibida. Oras, a própria Stella escutava uma voz que lhe dizia, lá no íntimo, para tocar no professor Renan, nem que fosse rapidinho e... Bom, era são da parte dela ignorar aquilo, em nome do bom-senso, do auto-controle, do amor próprio e do orgulho. Tinha medo que apenas um toque a fizesse perder sua mísera vitória, seu primeiro passinho em nome da independência que tanto sonhara depois de tudo e...
Era ruim, afinal, parecer uma desmiolada completa, olhando pros cantos ao invés de focar o que acontecia. Havia duas escolhas: Olhar para a mocinha com olhos de fuzil ou mirar o diretor. Certamente observar o diretor era muito mais interessante, especialmente na forma com que ele mexia nos cabelos... Stella admoestou-se que poderia estar beirando a indiscrição. Mas era só uma olhadinha para o único ser - apesar de sério - amigável naquela bendita budega!
- Então, senhorita Vance, relata que adentrou a Floresta Proibida na companhia de mais dois colegas; enfrentaram, os três, um bando de centauros; tomaram uma passagem supostamente secreta para a Casa dos Gritos; e voaram para a Torre de Astronomia nesse estado... Impressionante.
Oh, não! Ele não estaria usando de ironia num momento como aquele... Não mesmo... Um riso indiscreto da bibliotecária virou uma tossidela inconveniente, bem como o brilho nos olhos castanhos da mesma. "Culpa do cansaço!", ela mentalizou diversas vezes para não entrar em parafuso e brigar com a própria consciência sobre seus modos recentes, que se revelavam nada cortezes.
Mas qualquer vestígio de qualquer sentimento positivo ou feliz sumiu, dando lugar a preocupação quando viu o resultado da execução do feitiço do diretor. Era Magia Negra! - Ah, qual é? Stella não é tão burra assim para não reconhecer. Aliás, qualquer um perceberia... - Sem sequer se atentar ao fato, já estava tocando o ombro tenso do professor em sinal de um apoio singelo e solidário e, dessa vez, olhou para as meninas com sinal de preocupação.
- Eu não sei em que pé anda a biblioteca, mas eu me boto a disposição para procurar o que for preciso e auxiliá-las de alguma forma. - Ela falou de pronto, a voz profunda, séria e segura, pela primeira vez naquele novo local.
Stella só esperava que o Professor Renan, de alguma forma, entendesse que o aperto involuntário que ela deu no ombro tenso dele servia para dizer que aquele oferecimento também se estendia a ele. E foi quando Stella entendeu que a voz dentro de si havia sido escutada. E o pior: Ela nem estava em si para curtir o toque. Para piorar, percebeu que sua mente tinha, novamente, desviado do assunto principal. Mas tudo bem, o foco naquele momento já era outro, completamente diferente.
O diretor setenciou a detenção e Stella rezou para que a professora Yuna tivesse quase nada de pertences. Faxina com magia já era complicado, o que dirá sem... Mas o toque final das palavras a deixou sem outra reação que não fosse a tussida - que nada mais era do que riso impróprio mal contido. Aquele homem era, definitivamente, sinal de problemas! Mas, oras, quem com 16/17 anos pensa em prudência? Ela mesma não pensara e...
Bem, ele se retirou com um aceno de cabeça e um daqueles sorrisinhos discretos que ela já aprendera - em tempo recorde, repare - a apreciar. Sem evitar, ela respondeu com um sorrisão aberto e verdadeiramente alegre, apesar da situação. Mas assutador mesmo foi perceber que, da mesma forma que os sorrisos surgiram, dissolveram-se quase ao mesmo tempo e ambos ostentavam um jeito sóbrio e sério novamente, numa sincronia marcada pela mera coincidência - ou não, quem sabe?
Por fim, virou-se para as meninas, enquanto o diretor se retirava ela não sabia para onde.
- Aaaaah... -Ela começou, com um bocejo inesperado. - Desculpe, é o cansaço. Mas reitero aqui minha oferta. A biblioteca sempre esteve aberta para vocês, desde antes mesmo de eu ser contratada, mas EU - Ela apontou para si mesma, como se enfatizasse o que havia dito. - estou a disposição para o que precisarem, afinal vai ser minha função conhecer minúcias daquele acervo e... Bem, eu no lugar de vocês, certamente não ficaria passiva, digamos assim. Agora, se me dão licença, eu preciso achar uma sala vazia para dormir. - Ela deu um sorriso cansado e as pálpebras relaxavam sem o consentimento da dona.
Virou-se com toda a classe e elegância - os resquícios dos resquícios - para a porta da ala e viu mais uma mocinha de brasão vermelho e dourado. Esta fervilhava de ódio ao olhar e fazer certos gestos para uma mocinha de brasão azul e bronze e Stella se permitiu intrometer:
- Olá, mocinha. Eu sei que a gente nem se conhece, mas eu tenho algo que pode servir de calmante para os seus nervos: O diretor é aquele cara ali. - Ela o caçou e o apontou quase que instantaneamente, mordendo os lábios para não deixar escapar um sorrisinho indiscreto. - Ele tá doido para recrutar mão de obra gratuita com detenções. - A voz se tornou um sussuro quase conspiratório. - Você realmente vai querer perder o controle na frente dele assim de mão beijada,
signorina? - Ela concluiu com um sorriso malandro.
Off: Que bíblia! =O


















